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Evangelho do Reino dos Céus

1954-08-25

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Evangelho do Reino dos Céus O princípio da nossa terapia é algo que se cria, e não que o poder humano possa produzir um único milagre. Portanto, uma religião sem milagres não tem razão de existir como religião. Por mais religiosa que seja apenas na forma, pode-se dizer que perdeu o valor religioso. Nesse sentido, é natural que, quanto maior a religião, mais milagres se manifestem. O milagre, em outras palavras, é o surgimento de benefícios inesperados. Por meio dele, a fé brota do fundo do coração, a pessoa se converte e é salva da infelicidade. Se isso não é a verdadeira religião, o que seria? Não é necessário dizer agora que um fato vale mais do que cem teorias. O estado atual do mundo, embora seja resultado da derrota na guerra, apresenta não apenas um aumento violento dos males sociais, mas, especialmente, algo que não se pode encarar sem preocupação: a camada jovem, que deveria carregar o futuro do Japão, está sendo prejudicada por pensamentos insanos e se encontra em meio à confusão. Se investigarmos a causa, veremos que ela é o resultado de terem sido educados tendo o pensamento materialista como princípio de ouro; a menos que despertem para esse erro, este problema jamais poderá ser resolvido. Então, o que fazer para romper o pensamento materialista? Naturalmente, é preciso despertar para o sentimento religioso, mas, para isso, o fundamental é fazer reconhecer o Deus invisível, que é o que sempre defendemos. Sendo assim, o método é apenas o milagre. O milagre, naturalmente, torna possível o que era impossível pela obra humana; se diante dos olhos nos é mostrado um fato que a lógica absolutamente não pode explicar, é natural que qualquer dúvida se dissipe num instante, como fumaça e sonho. Portanto, como diz o título, pode-se afirmar que “religião é milagre, e milagre é religião”. Consequentemente, a não ser que se faça reconhecer a existência de Deus através dos milagres e se cultive o pensamento espiritualista, não se poderão alcançar os resultados esperados nem na construção de um Japão pacífico nem na expulsão dos males sociais. Na história da humanidade, nunca se viu nem se ouviu falar de uma religião com tantos milagres quanto a nossa. Nesse sentido, diante da grande virada do mundo, o objetivo da nossa religião é, pelo sopro dos milagres, sacudir as almas adormecidas de um mundo que perdeu a alma espiritualista. O Deus onipotente, sob o nome de Kanzeon-Bosatsu, ou manifestando-se como Komyo-Nyorai, transformando-se em Ooshin Miroku, faz uso de Sua energia vital, livre e sem impedimentos, por meio das mãos do Messias. Mostrando cada vez mais milagres e tendo a nossa religião como instrumento, Ele faz realizar a grande obra da salvação do mundo. Práticas Ascéticas Desde os tempos antigos, as pessoas em geral pensam que a fé e as práticas ascéticas estão intimamente ligadas. Na origem, porém, as práticas ascéticas remontam ao bramanismo da Índia antiga, e diz-se que, antes do surgimento de Buda Shakyamuni, a fé bramânica ocupava a maior parte dos indianos. A prática ascética de nove anos de Bodhidharma diante de uma parede também é isso, e a figura de um arhat é a forma de um praticante que realizou austeridades. Tais austeridades, como se vê em pinturas e esculturas de arhats, incluem segurar um objeto em uma das mãos, sentar-se na bifurcação de uma árvore e, em caso mais extremo, cravar vários pregos do lado de trás de uma tábua, virá-la e sentar-se em meditação sobre ela, de modo que as nádegas são perfuradas por esses pregos. Há quem suporte essa dor intensa por um, dois ou até vários anos, acreditando que, ao suportá-la, se alcança a iluminação, ou seja, pode-se tornar um desperto. É famosa a história de que Bodhidharma, certa noite, durante suas austeridades, contemplava a lua cheia quando, no instante em que sentiu a luz da lua iluminar clara e nitidamente seu interior, subitamente despertou para a verdade. De todo modo, como ele praticou meditação por nove anos, suas pernas atrofiaram a ponto de não conseguir levantar-se, o que provavelmente deu origem à lenda de que Bodhidharma não tinha pernas. Diz-se que ainda hoje, na Índia, existem muitos praticantes bramânicos que realizam milagres consideráveis. As meditações na floresta que o falecido Tagore costumava praticar e os jejuns que Gandhi repetia seriam também uma espécie de prática bramânica. Na época do surgimento de Buda Shakyamuni, as práticas ascéticas bramânicas, então em voga, eram tão excessivamente penosas que Shakyamuni, não podendo conter sua compaixão, ensinou que, mesmo sem praticar austeridades, era possível tornar-se um desperto apenas recitando as escrituras. Diz-se que o povo indiano da época, comovido com esse mérito, passou a venerar Shakyamuni. Nesse sentido, os budistas que praticam austeridades estariam, de certa forma, traindo a graça de Shakyamuni. No Japão, ainda existem muitos praticantes e religiosos que realizam austeridades ao estilo bramânico, mas não posso concordar inteiramente com isso. Isso porque os fiéis da nossa Igreja Messiânica, sem precisar realizar práticas ascéticas especiais, podem tornar-se despertos, trilhar o Caminho correto e exercer sua vocação e missão. Abstinência Desde os tempos antigos, pensava-se que, para ser um religioso exemplar, era preciso levar uma vida de abstinência; isso era considerado até o melhor método para despertar para a verdade e polir a alma. No entanto, sou contra. Vou escrever de forma fácil de entender. Em primeiro lugar, todas as coisas do universo existem para o ser humano. Vejam: as flores da primavera, as folhas de outono, o canto dos pássaros, o som dos insetos, as belas paisagens de montanhas e rios, o encanto das noites de lua, as fontes termais etc. É preciso pensar por que existem. Não é necessário dizer que foram criadas por Deus para alegrar o ser humano. E o belo canto humano, a dança, a literatura, as artes etc. também, naturalmente, alegram a própria pessoa e alegram os outros. Não só isso: na vida humana, todos os alimentos deliciosos, é claro, mas também a arquitetura, os jardins, as roupas etc. não existem apenas por necessidade; contêm elementos para serem mais apreciados. Ao desfrutar da comida e da bebida, obtém-se nutrição e a vida é mantida. Se a moradia, a alimentação e o vestuário tivessem apenas o propósito da necessidade, seriam coisas extremamente insípidas. Nem é preciso dizer que a procriação não tem apenas o propósito da necessidade. Como dito acima, tanto a grande natureza quanto todas as coisas artificiais — uma vez que Deus deu ao ser humano o instinto de apreciá-las — devem ser apreciadas. O abstencionismo, que rejeita isso e se contenta apenas com o necessário para a sobrevivência, é uma forma de pensar contrária à profunda graça de Deus. Olhando para outro aspecto, os privilegiados de até hoje careciam de senso altruísta; dedicavam-se apenas ao prazer próprio e de sua família, sem considerar a sociedade ou os outros, e houve muito pouca manifestação do pensamento de amor à humanidade, de alegrar-se junto com todos. Isso seria monopolizar a graça de Deus. Nesse sentido, também acho que abrir os grandes jardins dos ricos, tornar públicas as obras de arte e alegrar-se junto com todos é a maneira de corresponder à Vontade Divina. Refletindo, os santos antigos que levavam uma vida de extrema abstinência, com roupas e alimentos simples, e dedicavam sua preciosa vida a uma existência como a do “fundador, cinquenta anos com roupas de papel”, estariam traindo a graça de Deus. É lamentável que as pessoas, sem perceber isso, ao verem um religioso, tendam a pensar que ele não é digno a menos que seja abstinente. Por ser contra a abstinência, como disse antes, levo uma vida igual à das pessoas comuns e acredito que isso está de acordo com a Vontade Divina. Portanto, o Paraíso na Terra refere-se a um mundo em que a vida de toda a humanidade melhora e a arte e outros prazeres puros se desenvolvem grandemente. Além disso, quanto à Verdade, ao Bem e ao Belo: a Verdade é a ausência de falsidade, o Bem é a ação correta e o Belo é a beleza. Assim, na vida de abstinência, embora haja o Bem, faltam a Verdade e o Belo; pelo contrário, acho que ela pode até impedir o progresso da cultura. Deve-se considerar que a sociedade indiana, por se inclinar apenas para a vida espiritual, acarretou um destino nacional atrasado e estagnado culturalmente, como o de hoje. Libertação Fala-se frequentemente em “libertação” desde os tempos antigos, mas não se pode julgar facilmente essa palavra como boa ou ruim. Na interpretação comum do mundo, libertação significa afastar a ilusão e abrir a iluminação, ou desapegar-se, ou resignar-se bem etc. — noções que, naturalmente, vieram do budismo, mas têm uma ressonância de fuga e reclusão, sendo um pensamento peculiar aos orientais. No entanto, falando realisticamente, quando a iluminação se abre demais, a energia de ação geralmente diminui. Naturalmente, a vontade de competir desaparece, e mesmo um povo, como a Índia, acaba em decadência. Portanto, o ser humano ganha força para viver ao se iludir. Dito isso, iludir-se demais também é perigoso. E resignar-se também tende a diminuir a energia de ação. Mas, se não se resignar demais, as relações entre homens e mulheres podem gerar tragédias. Por isso, libertar-se demais também não é interessante. No fim, o mundo se torna tolo, a pessoa se torna solitária ou um cadáver vivo. Considerando tudo isso, o excesso em qualquer coisa não é bom. Em suma, é saber a medida. De fato, o mundo é difícil e interessante, doloroso e prazeroso; essa é a verdadeira forma. No final, a expressão “prazer e dor são um só” é exatamente a aparência do ser humano como ele é. No entanto, só com essa história não se chega a uma conclusão; portanto, vou tentar concluir. Diz-se: o ser humano deve resignar-se quando deve resignar-se, e não deve resignar-se quando é melhor não fazê-lo. A dúvida surge quando se tenta decidir à força; enquanto a decisão não vem, é porque o momento ainda não chegou; basta, então, esperar o momento. O importante é encontrar o melhor método de acordo com o tempo, lugar e posição, e conforme as circunstâncias. Mas, para isso, é necessária a Sabedoria Sagrada. Sabedoria Sagrada é a inteligência que produz a capacidade de julgamento correto, e ela se manifesta melhor quanto mais a alma estiver livre de nuvens espirituais. Portanto, eliminar as nuvens espirituais da alma é fundamental, e isso é a sinceridade. A sinceridade nasce da fé; se alguém conhece essa verdade e pode praticá-la, deve ser chamado de pessoa que alcançou a grande iluminação completa. Religião do Paraíso e Religião do Inferno Em primeiro lugar, escrevendo sobre a religião como ela é, pode-se dizer que todas as religiões até hoje são religiões do inferno, e não seria ofensa dizê-lo. Isso porque, quanto mais importante a religião, mais ela sofreu perseguições e tribulações na época de sua fundação, a ponto de se considerar que a perseguição é inerente à religião. Além disso, são inúmeros na história os casos em que até mesmo os fiéis dessas religiões seguiram o caminho da perseguição e do sofrimento, e há relatos tão horríveis que são difíceis de ler. O fundador do cristianismo, que hoje domina o mundo, Jesus Cristo, também foi assim; sua morte na cruz e a perseguição dos fariseus são histórias famosas. No Japão, também, pode-se dizer que não houve religioso que não tenha passado por um caminho espinhoso, em maior ou menor grau. Apenas Shakyamuni e o Príncipe Shotoku foram exceções, naturalmente porque eram príncipes. Seja qual fosse o fundador de uma religião, ele obviamente não era uma pessoa má; ao contrário, era alguém bom acima da média, com amor profundo e compaixão incomuns, e com a convicção de que não poderia deixar de salvar os infelizes, a ponto de sacrificar a própria vida para realizar a obra de salvação. São, portanto, santos que podem ser chamados de personificações do bem. Na verdade, o governo e o povo da época deveriam ter agradecido e recompensado seu esforço, dando-lhes a maior consideração; no entanto, ao contrário, odiavam-nos como se fossem grandes demônios, perseguiam-nos, oprimiam-nos e até tentavam tirar-lhes a vida. Não deve haver história tão irracional quanto essa. Assim, analisando friamente, não é lógico que os demônios sejam essas pessoas? E, como o ser humano é essencialmente bom ou mau, não existe meio-termo: ou se é aliado de Deus, ou se é aliado do demônio. Sendo assim, é natural que aqueles que odeiam Deus, pregam o ateísmo e se opõem à religião que pratica o bem sejam servos do demônio. Mesmo os fundadores das grandes religiões de hoje, no início, foram tratados como demônios e perseguidos ao máximo; no final, porém, o mal perdeu e o bem venceu, como mostra a história. O fato de Cristo, mesmo sofrendo, ter dito “Eu venci o mundo” tem também esse significado; é uma palavra sagrada que deve ser saboreada. Assim, as religiões estabelecidas foram, em sua maioria, reconhecidas somente muitos anos após a morte de seu fundador, sendo então os fundadores venerados como deuses ou adorados como budas. Naturalmente, isso se deve, provavelmente, ao fato de seus ensinamentos terem trazido alegria aos seres humanos e contribuído grandemente para o bem-estar social; mas pode-se dizer que nenhuma religião foi reconhecida dessa forma durante a vida de seu fundador. A perseguição era considerada natural, e até mesmo os fiéis tendiam a se alegrar com a vida de sofrimento. Especialmente no cristianismo, a história trágica daqueles que, tomando como exemplo o sofrimento expiatório de Cristo, partiam para terras distantes dispostos a sofrer e se sacrificar é de partir o coração ao ler. É por isso que não há religião com expansão tão forte e enraizada em todo o mundo como o cristianismo. Mesmo no Japão, ao ver a perseguição aos padres cristãos e a Rebelião de Amakusa, a reflexão é profunda. No entanto, o que escrevi acima são sofrimentos causados por forças externas inevitáveis; mas não são poucas as religiões que buscam o sofrimento voluntariamente. Ou seja, a observância estrita dos preceitos em uma seita do cristianismo, os abstinentes, aqueles que dedicam a vida a um mosteiro, e também o islamismo, o taoísmo chinês, o lamaísmo, o bramanismo indiano etc. são semelhantes: fazem da abstinência o ponto central de sua fé. Mesmo no Japão, muitas religiões antigas, com diferenças de grau, são basicamente as mesmas. Quanto ao sofrimento, o xintoísmo foi severamente oprimido pelo budismo, a ponto de, por um tempo, terem colocado uma imagem de Amida Nyorai no Grande Santuário de Ise; as práticas ascéticas dos praticantes xintoístas também eram assim, e o sofrimento dos budistas não era nada leve, como se sabe. Entre eles, o mais famoso é o Venerável Nichiren. Na célebre perseguição de Tatsunokuchi, quando estava prestes a ser executado e a espada foi erguida, um grande milagre ocorreu e ele escapou por pouco da morte. Além disso, em algumas seitas budistas, jamais cessa a fé que observa os preceitos de forma extrema, expõe o corpo a práticas ascéticas e se entrega à meditação. Em suma, todas as religiões, até hoje, foram infernais: consideravam o sofrimento como a essência da religião e como meio de polir a alma, e, no final, as pessoas se tornaram uma espécie de anormais que consideravam o sofrimento como prazer. Dito sem rodeios, isso ocorria porque o poder da religião era fraco, e era preciso acrescentar o esforço próprio. Foi nesse mundo de fé infernal que surgiu subitamente a nossa Igreja Messiânica. De todo modo, tudo em nossa religião não só é fundamentalmente diferente das religiões anteriores, como é até oposto: rejeitamos veementemente as práticas ascéticas infernais e consideramos a vida paradisíaca a verdadeira fé. Portanto, o que pregamos, tanto no coração quanto na ação, é uma diferença abismal em relação às religiões estabelecidas. Além disso, a grandeza do contorno da nossa religião está em incluir tudo: religião, filosofia, ciência, arte; especialmente a solução da saúde, fundamental para a salvação da humanidade, e a revolução agrícola são coisas dignas de admiração. Pode-se dizer que tudo isso são condições para transformar o inferno em paraíso. Esse é o verdadeiro amor de Deus e a compaixão de Buda. Nesse sentido, as práticas ascéticas são um caminho errado; a vida paradisíaca transbordante de alegria é que é a verdadeira salvação. Se isso se expandir para o mundo inteiro, o Paraíso na Terra surgirá concretamente. Como vimos acima, o primeiro passo para o mundo paradisíaco — lema da nossa religião — começa no lar; se esses lares aumentarem dia após dia, é evidente que o mundo inteiro se tornará um paraíso. Se as pessoas compreendessem a verdade acima, qualquer um deveria exaltar nossa religião, louvá-la e converter-se imediatamente; mas, de todo modo, estão perturbadas por certas concepções das religiões Shojo e pelo pensamento ateísta e, pelo contrário, geram dúvidas e mal-entendidos, adiando assim a própria felicidade. No entanto, é certo que chegará o dia em que a verdade da nossa religião será compreendida. Por isso, enquanto espero por esse dia, estou agora, conforme a ordem divina, esforçando-me dia e noite. Religião Maligna e Supersticiosa Hoje em dia, jornais, revistas, rádio etc. alertam veementemente para que ninguém se deixe enganar por religiões malignas e supersticiosas. De fato, religiões malignas e supersticiosas não só surgem constantemente desde os tempos antigos, como hoje parecem estar no auge. No entanto, não se pode dizer que todas o sejam, pois algumas permanecem até hoje como religiões respeitáveis. Na verdade, o cristianismo, exaltado como a maior religião do mundo, também foi assim. Basta ver que Jesus Cristo, seu fundador, foi tratado como se sua religião fosse maligna e supersticiosa durante sua vida e acabou sofrendo punição tão severa. Diante de sua figura dolorosa, levado ao local da execução com uma coroa de espinhos, e do fato de que nem uma única pessoa justa apareceu para impedi-lo, percebe-se que ele era, aos olhos de seus contemporâneos, uma religião maligna e supersticiosa. Em nosso país também, tudo é claro: desde os antigos exílios de Honen e Shinran, passando pela perseguição cruel que Nichiren sofreu ao propagar o Sutra de Lótus, até exemplos mais recentes, como a fundadora da Igreja Tenrikyo, Miki Nakayama, detida mais de vinte vezes e presa várias vezes. Apenas Shakyamuni não sofreu nenhuma perseguição, provavelmente porque era um príncipe. Eu mesmo, ao ver várias novas religiões que surgem hoje, não posso deixar de franzir a testa diante de sua baixeza. Acho que, se eu fosse autoridade, teria de tomar medidas rigorosas. Fés possessivas, que incomodam a sociedade e alarmam as pessoas; cenas de muitos fiéis dançando loucamente, de forma insuportável; profecias bizarras, que infundem medo; ou fés que perturbam os vizinhos com barulho — nada disso me parece verdadeiro. Há também empresas religiosas com o objetivo de ganhar dinheiro, mas todas essas, com o passar do tempo, um dia declinarão e desaparecerão. No mundo, existem fés terríveis. É um tipo de fé coercitiva. Por exemplo, dizem que em tal ano, mês e dia ocorrerá uma grande catástrofe, e quem quiser se salvar deve entrar em tal religião; senão, estará em perigo. E, quando alguém que já se converteu tenta se desligar, o mestre diz coisas terríveis. Dizem coisas como “Se você se afastar desta fé, com certeza morrerá” ou “Sua família inteira morrerá”, ameaçando para impedir a desistência. Nenhuma dessas é uma maneira correta. É um tipo de coação; continuar na fé por medo é um grande erro. Por natureza, como os deuses e budas são amor e compaixão, não pode haver coação. A verdadeira fé é querer se converter porque o deus ou buda é digno de gratidão. Também é preciso ter cuidado com o seguinte: insistir na conversão, voltar a recomendar mesmo depois de várias recusas, ou realizar vários eventos por longas horas, a ponto de afetar o trabalho da família. Acho que essas fés também não são verdadeiras. A Batalha entre o Correto e o Incorreto Todos sabem que, desde os tempos antigos, a religião, em qualquer época, começa com alguém dotado de algo que o distingue das pessoas comuns: ao ter um despertar de determinação (ichinen hokki), movido pelo desejo de salvar o mundo, funda uma escola ou seita, cria uma doutrina e, ajudando consideravelmente as pessoas, aos poucos passa a ser reconhecido pela sociedade. No entanto, quando chega o momento de finalmente avançar, surgem obstáculos — pode-se dizer que inevitavelmente. Um grande exemplo é conhecido por todos: Devadatta para Buda e Satanás para Cristo. E, quanto mais poder e potencial futuro aquela religião possui, mais severas são a perseguição e a repressão. Então, eles primeiro manipulam as autoridades da época e, para despertar ódio nas pessoas, inventam argumentos engenhosos e boatos, dedicando-se à propaganda. Dizem: “Aquela religião é uma superstição terrível que engana as pessoas e, no fim, arruína as famílias; portanto, nunca se envolva com ela”. Naturalmente, sem qualquer investigação, decidem de forma dogmática e valem-se livremente de pessoas de credibilidade social e daqueles que lidam com os principais órgãos de imprensa. Tudo isso ocorre porque divindades malignas se apossam deles e os fazem pensar assim; por isso, os próprios afetados não percebem nada, acreditando que seja sua própria consciência. Ao mesmo tempo, os cúmplices das divindades malignas também se apossam das pessoas comuns, e ambos os lados se correspondem mutuamente, tornando a situação insuportável. Essa é a artimanha das divindades malignas. Dessa forma, hoje em dia, quanto mais uma nova religião tem poder para superar as religiões estabelecidas e contribuir grandemente para a sociedade, mais ela é visada pelas divindades malignas e intensamente obstruída. Nossa Igreja, sendo o primeiro alvo, avança enquanto elimina esses obstáculos — tarefa nada fácil. A respeito disso, escreverei sobre a causa fundamental. Em primeiro lugar, no mundo espiritual, desde o princípio, existem o mundo do mal, chamado reino das divindades malignas, e o mundo do bem, chamado reino das divindades corretas, que a ele se opõem, lutando constantemente com afinco. O líder do reino das divindades malignas, possuindo imenso poder, reina supremo e manobra livremente centenas de milhões de subordinados. Sob um plano surpreendente — assumir o controle de todo o mundo, seu objetivo final —, ele vem colhendo resultados passo a passo. Por essa razão, os maiores obstáculos são os religiosos que pregam o bem e têm a justiça como objetivo. Assim, sempre que surge um grande líder religioso, eles usam todos os meios para oprimi-lo e destruí-lo. Muitas religiões, até hoje, embora tenham florescido por um tempo, acabam sendo desvirtuadas de uma hora para outra, porque foram derrotadas. A razão para isso é exatamente o que sempre digo: até hoje, era o Mundo da Noite, ou seja, sob o domínio do deus lunar, a luz era fraca. Portanto, embora não fosse fatal, elas apenas preservavam a forma. Isso também se manifesta nas religiões relativamente novas do nosso país. Primeiramente, as perseguições sofridas pelos fundadores das novas religiões do final do período Edo ao período Meiji têm como principais exemplos a religião Tenri, a religião Oomoto, a religião Tokko e a religião Hitonomichi. A fundadora do Tenri, Miki Nakayama, por exemplo, suportou a provação de ser presa mais de dez vezes. O fundador do Oomoto, Onisaburo Deguchi, passou sete anos na prisão e, mal teve a alegria de sair, tornou-se um hóspede que nunca mais voltou, devido ao cansaço da longa vida na prisão e aos interrogatórios severos, nem é preciso dizer. Quanto ao fundador do Tokko, um certo Sr. Kaneda, diz-se que era constantemente seguido pela polícia e quase não teve liberdade até o momento de sua morte. O fundador do Hitonomichi, Tokuharu Miki, também faleceu logo após sair de vários anos de prisão, segundo dizem, devido aos intensos sofrimentos que enfrentou. A partir da era Showa (1926-1989), o primeiro a sofrer perseguições fui eu, provavelmente. Escreverei um pouco sobre isso. Como já foi dito, o mundo espiritual era noite por um longo período; por isso, o exército das divindades malignas, à vontade, causava caos no mundo e exercia sua tirania, entregando-se ao sonho da longa noite. Foi então que, de repente, surgiu a nossa Igreja Messiânica. Afinal, a nossa Igreja Messiânica é uma religião do dia, algo que nunca havia aparecido antes, ou seja, sob o domínio do deus sol. Portanto, mesmo eles, por mais que fossem, ficaram estupefatos, perderam a cor e começaram a se agitar, naturalmente. Então, eles fizeram todos os esforços para destruir a nossa Igreja. A manifestação disso foram as inúmeras provações que sofremos: o incidente de sonegação fiscal de 1948; em seguida, a exagerada busca domiciliar feita por dez soldados americanos do C.I.D.; e, depois, o incidente de violação econômica em Shizuoka. Naquela época, devido a essa repressão em grande escala, chegou-se a pensar que seria impossível recuperar-se, mas conseguimos superar ilesos e chegamos ao que somos hoje, inteiramente porque o poder das divindades corretas prevaleceu. Durante esse período, também fomos consideravelmente atormentados pelos ataques persistentes do exército das divindades malignas, tais como a incompreensão incessante dos órgãos de imprensa e a recente transmissão de boatos por um jornalista de rádio. Assim, no mundo espiritual, com a nossa Igreja como centro, continua uma luta de mil transformações, em que o bem e o mal se misturam, cheia de estratagemas. Isso ocorre porque, acima de tudo, a nossa Igreja é para eles um inimigo sem precedentes. Portanto, se a nossa Igreja fosse derrotada, o mundo não teria outra escolha senão se tornar um mundo de demônios. Por isso, Deus preparou tudo com antecedência e de forma minuciosa. Uma dessas preparações é a democracia. Assim, mesmo as inúmeras provações sofridas pela nossa Igreja não afetam o panorama geral, e seguimos trilhando o caminho do desenvolvimento. Isso é verdadeiramente motivo de grande alegria e, ao mesmo tempo, deve-se inteiramente à luz intensa do deus sol. Portanto, à medida que o sol nasce, o exército das divindades malignas será gradualmente levado à derrota inevitável, e então se concretizará a realização do mundo do bem. Oriente e Ocidente Não há quem não saiba que, em todas as coisas entre o céu e a terra, existe o yin e o yang. Pois bem, vou dividir esse yin-yang em vertical e horizontal: o yang é o vertical, o yin é o horizontal. Vejamos essa classificação: Vertical — sol, fogo, Oriente, espírito, homem, budismo, vermelho, montanha, dia Horizontal — lua, água, Ocidente, corpo, mulher, cristianismo, branco, mar, noite O que está acima é apenas um esboço; vou explicá-lo. Como se vê, todas as coisas têm seu aspecto vertical e horizontal. Por exemplo, o Oriente, sendo vertical, cultua os ancestrais, preza a lealdade e a piedade filial, acumula bens para os descendentes e mantém um rígido sistema de classes; já o Ocidente, horizontal, tem por base o amor conjugal, que se torna amor ao próximo e por fim se expande ao amor à humanidade — uma expansão infinita própria do horizontal. Ademais, no Oriente reconhece-se a autoridade absoluta do homem, e a mulher deve segui-lo; já no Ocidente reconhecem-se os direitos da mulher, e a igualdade entre homem e mulher é tida como natural. Como visto acima, até hoje o Oriente se apegou firmemente à linha vertical, e o Ocidente se contentou com a linha horizontal. Mas, algum dia, essas linhas vertical e horizontal terão de se unir, formando uma cruz. Isso significa a união da civilização espiritual do Oriente com a civilização material do Ocidente. Por meio dessa união, a humanidade entrará, pela primeira vez, numa era de cultura ideal. A cruz do cristianismo é um indício disso, e o mesmo se pode dizer da suástica (manji) do budismo. Assim, o vertical é espírito e o horizontal é corpo; por isso, quando se unem, surge a força ("chikara"). O "chi" de "chikara" é o sangue, que é espírito — o sangue circula verticalmente pelo corpo humano —, e o "kara" é a casca, o invólucro, que é o corpo, o receptáculo do espírito. Quando o espírito, que é o sangue, se retira, o corpo se esvazia; por isso se diz "nakigara" (invólucro vazio) e se chama a carne de "karada" (corpo). Quanto à palavra "hito" (pessoa), na ciência do espírito da palavra, "hi" é espírito e "to" é permanência; assim, quando o espírito se detém, torna-se "hito", e por isso se diz pessoa. Enquanto o ser humano vive, permanece ereto — vertical — porque o sangue, materialização do espírito vertical, circula; com a morte, torna-se horizontal, porque o espírito se retira e resta apenas o corpo, que é horizontal. Além disso, quando o ser humano está de pé, sente calor, e quando se deita, sente frio, precisando vestir roupas para dormir — isso porque, no mundo espiritual, o elemento fogo circula na vertical e o elemento água flui na horizontal até o fim. Aqui, quero dizer algo sobre a forma de cruz. Até o fim da guerra, o Japão, por causa de seu sistema feudal, tornou-se excessivamente vertical, e o rigoroso sistema de classes que daí resultou foi causa tanto da guerra quanto do sofrimento do povo. Por isso, Deus agiu para salvar o povo japonês por meio da força horizontal chamada democracia; dito de forma simples, Deus fez com que o Japão — o pilar vertical — adotasse o modelo americano — o pilar horizontal. Ou seja, o vertical e o horizontal se uniram, e assim a cultura em forma de cruz deu seu primeiro grito. Se isso for compreendido, a recente derrota na guerra deve ser motivo de alegria, pois o Japão se tornou verdadeiramente um país abençoado; e por isso penso que o povo japonês, tendo isso em mente, deve aguardar com esperança o futuro e tornar-se um país admirável, respeitado pelo mundo inteiro. Daijo e Shojo Desde os tempos antigos existem os termos Daijo e Shojo. Naturalmente, são termos budistas, e o próprio budismo os explica com bastante detalhe; mas, por falta talvez de maior erudição de minha parte, ainda não ouvi uma explicação verdadeiramente convincente sobre eles. Vou escrever aqui minha própria opinião a respeito. Para dizer em poucas palavras: Shojo é vertical, e Daijo é horizontal. Além disso, Shojo é sentimento, e Daijo é razão. Por distinguir o bem do mal e ser ligado a preceitos, Shojo é facilmente visto pela maioria como o bem; já Daijo, por não distinguir bem e mal e ser de natureza liberal, dificilmente é visto como o bem. Para tornar isso mais claro, darei alguns exemplos. Suponhamos que exista um ladrão. Ao tentar fazê-lo corrigir-se, o modo Shojo é persuadi-lo repreendendo sua má ação; já no modo Daijo, a pessoa, ela mesma, entra por algum tempo no meio dos ladrões e, aproveitando a ocasião, diz algo como: "Fazer o mal não rende tanto lucro assim, e ainda se vive o ano todo tremendo de ansiedade — não é isso sem sentido?" — conduzindo-o, assim, a abandonar o mal e a seguir o caminho do bem. Também se considera que obedecer aos pais é a base da piedade filial; mas suponhamos que alguém estabeleça um objetivo e, para realizá-lo, precise deixar o lado dos pais, embora estes discordem. Se essa pessoa, sem outra opção, contraria os pais uma vez, sai de casa, se esforça em direção ao objetivo e, após alcançar o sucesso, retorna ao lado dos pais — os pais, naturalmente, se alegrarão com essa honra, e isso se torna um grande ato de piedade filial. Observando isso, o primeiro caso é piedade filial ao modo Shojo, e o segundo é piedade filial ao modo Daijo. Também o nacionalismo, o etnonacionalismo e coisas semelhantes são bens do tipo Shojo; o comunismo, por sua vez, também é um bem Shojo, baseado no amor de classe. Em geral, tudo o que se chama de "tal ou qual ismo" é, na maioria das vezes, um bem Shojo e, por isso, chegará inevitavelmente a um impasse algum dia. Sem seguir pelo caminho Daijo — universal, baseado no amor a toda a humanidade —, não se pode falar em verdade. O Japão sofreu a desventura da derrota por causa de sua política de invasão precisamente porque seu amor à pátria e sua lealdade ao soberano eram do tipo Shojo. O termo Kōdō — o "Caminho Imperial" —, outrora popular no Japão, era um patriotismo do tipo Shojo. Isso porque, mesmo que se tentasse propagar esse Kōdō a países fora do Japão, dificilmente haveria quem nele encontrasse ressonância. Portanto, a menos que seja algo em que toda a humanidade encontre ressonância e que celebre, não se pode dizer que tenha vida eterna — e este é o verdadeiro caminho Daijo. Visto que tudo o que se chama de "tal ou qual ismo" é, por natureza, limitado, acaba inevitavelmente entrando em atrito com outros "ismos", tornando-se causa de conflito e, por fim, desenvolvendo-se em guerra, trazendo calamidade à humanidade; assim, o bem de Shojo é o mal de Daijo, e o bem de Daijo é o mal de Shojo. Porém, cabe notar aqui que pregar o caminho Daijo desde o início ao grande público apresenta o risco de ser facilmente mal compreendido; por isso, deve-se primeiro pregar Shojo e, somente depois que a outra pessoa tiver alcançado certo grau de despertar, pregar Daijo. A seguir, vou explicar Daijo e Shojo no âmbito da religião. Originalmente, o budismo é Shojo, e o cristianismo é Daijo. O budismo é fogo, e o cristianismo é água. O fogo arde na vertical, e a água flui na horizontal. Por isso, o budismo é estreito, profundo e de caráter isolado, sem a expansão própria do horizontal. O cristianismo, ao contrário, por ser Daijo, expande sua linha missionária a todos os cantos do mundo, como a água que transborda e se espalha. É interessante notar que, mesmo dentro do budismo — que é Shojo —, há também uma distinção entre Daijo e Shojo. “Namu Amida Butsu” é Daijo e yin; “Namu Myōhō Renge-kyō” é Shojo e yang. Daijo é tariki, o poder de outro; Shojo é jiriki, o próprio poder. Ao ensinamento tariki-hongan dos fiéis de Amida, segundo o qual “basta entoar Namu Amida Butsu para ser salvo”, o Sutra de Lótus — que é Shojo — sustenta que não basta apenas entoar Myōhō Renge-kyō; é preciso empreender devidamente as práticas ascéticas. Assim, a religião manteve até hoje o vertical e o horizontal separados, mas, no fim, eles precisam unir-se — isto é, precisam formar a figura da cruz. Nesse sentido, a atividade que se transforma livremente conforme o tempo, o lugar e a posição, tornando-se ora vertical, ora horizontal, em inúmeras transformações, manifestando-se com liberdade, é a própria verdade; e essa atividade em forma de cruz é o verdadeiro significado da prática de Kannon. Desde os tempos antigos, diz-se que Kanzeon-Bosatsu não é nem homem nem mulher e, ao mesmo tempo, é homem e mulher; que o Kannon Sagrado (Shō Kannon) é a essência original, manifestando-se nos Seis Kannon — Senju (mil braços), Jūichimen (onze faces), Nyoirin, Juntei, Fukū-kenjaku e Batō (cabeça de cavalo) —, os quais, por sua vez, se dividem e se manifestam nas 33 manifestações; e que há ainda numerosos outros nomes — Kanjizai-Bosatsu, Mujin’i-Bosatsu, Semui-Bosatsu, Muge-kō-Nyorai, Komyo-Nyorai, Fukō-Sannō-Nyorai, Saishōmyō-Nyorai, entre outros —, manifestando-se, em particular, como Ooshin Miroku. Por tudo isso, pode-se perceber, ainda que aproximadamente, a verdadeira natureza dessa divindade. A propósito, Amida-Nyorai é Hosshin Miroku, Shaka-Nyorai é Hōjin Miroku, e, junto com o Ooshin Miroku de Kanzeon-Bosatsu, esses três corpos são reverentemente chamados de Sanzon no Mida, os Três Sagrados Amida. Pode-se dizer ainda que o Miroku do sol é Kannon, o Miroku da lua é Amida, e o Miroku da terra é Shaka. Cabe notar aqui que existe uma teoria segundo a qual a essência original de Kanzeon-Bosatsu seria uma manifestação de Amaterasu Ōmikami; isso, porém, é um engano — Amaterasu Ōmikami manifesta-se como Dainichi-Nyorai. A Manifestação da Verdade Antes de tudo, se perguntarmos qual é o verdadeiro propósito da religião, a resposta é clara: a manifestação da verdade. E, se perguntarmos o que é a verdade, trata-se, naturalmente, da própria natureza tal como ela é. O fato de o sol nascer no leste e se pôr no oeste; o fato de que todo ser humano que nasce necessariamente morre — o que o budismo chama de “tudo que vive necessariamente perece” (shōja hitsumetsu) e “todo aquele que se encontra está destinado a se separar” (eshamjōri) —; o fato de o ser humano viver respirando o ar e comendo alimentos: tudo isso é, naturalmente, verdade. A situação atual da humanidade chegou a tal ponto de desatino que é preciso dizer coisas tão óbvias como essas. Por essa razão, ao observarmos a confusão, os conflitos, a desordem, os crimes e outros fenômenos lamentáveis que hoje permeiam toda a sociedade, não se pode negar que há mais condições para a infelicidade da humanidade do que para sua felicidade. Diante disso, é preciso refletir sobre onde estaria a causa. A meu ver, tudo, em sua raiz, afastou-se demais da verdade — e isso é evidente demais. Ocorre que, embora afastadas da verdade, as pessoas nem percebem esse afastamento. Passo a examinar aqui o motivo disso: na realidade, o homem moderno já não compreende nem mesmo a própria verdade. Isso talvez se deva também ao fato de que a urgência dos problemas da vida cotidiana não deixa espaço para se pensar na verdade. Mais ainda: mesmo a religião — que deveria ser o essencial — não teve, até hoje, a verdade suficientemente clara e, muitas vezes, pregou a não-verdade pensando tratar-se da verdade. Se a verdade tivesse sido verdadeiramente ensinada, a sociedade humana deveria estar, hoje, bem melhor do que está; e é possível até que o paraíso terrestre já estivesse, em certa medida, realizado. Mas eis que chegou o tempo do Céu, e com ele a manifestação da vontade divina: por meu intermédio, a verdade passou a ser ensinada e, ao mesmo tempo, a sua manifestação começou a ser levada a cabo. Por isso, tudo o que ensino são discursos que revelam a própria verdade do modo mais compreensível a todos; quem os lê, se o fizer com a mente vazia de preconceitos e o coração aberto, refletindo sobre eles com atenção, verá a verdade emergir diante de si, ainda que de forma tênue. Partindo daí, começarei o ensino pelo que nos é mais próximo: o adoecimento do ser humano deve-se a algo que se desviou da verdade, e a medicina, que não consegue curá-lo, também se desviou dela. O fato de a política ser ruim, de o pensamento ser ruim, de o crime aumentar, de as pessoas sofrerem com aperto financeiro, inflação ou deflação — tudo isso se deve a algum desvio da verdade. Se não houvesse desvio da verdade, o que é correto deveria seguir conforme o desejo humano, pois Deus fez a sociedade humana dessa maneira. Por isso, tanto uma sociedade bela em pensamento e virtude quanto o ser humano vivendo em alegria e felicidade não são, de forma alguma, tarefas difíceis. E é justamente aí que reside a possibilidade da vinda do Paraíso na Terra que eu proclamo. Por essa razão, é provável que se pense haver muitos pontos discordantes em meus discursos; mas, na verdade, não há absolutamente nenhum. São coisas totalmente naturais. Se parecem discordantes, é porque se as vê com os olhos da não-verdade. E quanto mais minha doutrina parecer heterodoxa, mais isso se deve ao fato de a realidade da sociedade ser, ela mesma, heterodoxa. Deus concede ao ser humano liberdade infinita — isso é verdade. Aos animais e às plantas, que não são humanos, é concedida apenas uma liberdade limitada. Nisso reside a nobreza do ser humano. Sendo assim, o que é a liberdade humana? É o fato de o ser humano existir numa posição intermediária entre dois extremos: se progride, torna-se um deus; se decai, torna-se um animal. Levando esse princípio adiante, chega-se ao seguinte: conforme a conduta do ser humano, este mundo pode tornar-se um jardim de delícias extremamente aprazível ou, ao contrário, um inferno extremamente miserável. Isso é a verdade. Sendo assim, qual dos dois deveria o ser humano escolher? Sem sequer ser preciso pensar, é natural que, a menos que seja um demônio nato, deseje o primeiro. Se é assim, a realização desse primeiro mundo — o mundo do paraíso — é o objetivo último da humanidade, e o cumprimento desse objetivo não é senão a própria manifestação da verdade. E, sendo essa a missão original da religião, eu — sempre com a pena e com a palavra — ensino a verdade e, mais ainda, como aquele que a manifesta, trabalho e me esforço sem que o dia me baste. A Religião que Mostra Deus Frequentemente, quando se procura levar à fé alguém que não tem religião, essa pessoa diz: “Como pode haver deuses e budas neste mundo? Se realmente existem, quero muito que me mostrem” — e, adotando ares de pessoa culta e civilizada, recusa-se terminantemente a dar ouvidos, afirmando que não quer saber de superstição. Essa é, em geral, a atitude das pessoas comuns, e os mais extremados nisso são, justamente, os chamados intelectuais. Ainda assim, não se pode condená-los de forma alguma, pois, de fato, não estão de todo errados. Isso porque a maioria das religiões existentes no mundo é excessivamente anticientífica, e as que não cheiram a superstição são, na verdade, raríssimas. Por isso, a maioria delas não consegue mostrar com clareza a existência real dos deuses e budas — parecem existir, parecem não existir, e são extremamente pouco confiáveis. Sendo assim, penso que também não é sem razão que tantas pessoas sejam indiferentes à fé. Ora, no caso de nossa Igreja Messiânica, a existência real de Deus é mostrada com clareza aos olhos de qualquer pessoa. Quem entra em contato com esta doutrina, invariavelmente, surpreende-se ao conhecer a existência real de Deus. A melhor prova disso são os inúmeros relatos de graças recebidas por meio de nossa doutrina. O lamentável, porém, é que, mesmo lendo esses relatos ou ouvindo-os diretamente dos fiéis, são realmente poucos os que conseguem aceitá-los tal como são. Isso se deve inteiramente ao fato de se enxergar através das lentes coloridas formadas pelo tipo de fé de nível baixo mencionado acima — o que, por um lado, é compreensível, mas, para nossa doutrina, é extremamente lamentável. A esse respeito, como sempre digo, nossa doutrina não é uma religião: é uma superreligião, uma grande obra de salvação. Eis o que os novos fiéis costumam contar: ao verem pela primeira vez as publicações de nossa doutrina, tudo lhes parece tão distante dos ensinamentos religiosos e das teorias científicas conhecidas até então que só conseguem estranhar, sem conseguir convencer-se a crer. Mas, pensando em experimentar, ainda que com dúvidas, recebem o Johrei. Como ele consiste apenas em estender a mão, ficam atônitos: não há como algo tão simples e ingênuo curar o que a medicina moderna, tão avançada, não consegue curar. Decidem, então, parar. No dia seguinte, porém, sentem-se, de alguma forma, melhor, mais leves, o que os deixa perplexos. Ainda assim, pensando que talvez estejam sendo enganados, decidem ter um pouco mais de paciência. Ao fazê-lo, melhoram rapidamente, a ponto de ficarem mais confusos ainda do que alegres. É o que contam, unanimemente, os que já passaram por essa experiência. Como se vê, nossa doutrina apresenta benefícios tão notáveis e sem precedentes nesta vida que, ao ouvirem esses relatos, os intelectuais chegam a dizer — de forma absurda e invertida — que se trata de superstição justamente por isso. Isso também constitui um grande obstáculo; mas há, entre eles, pessoas de mente equilibrada que, reconhecendo que o fato é fato, ingressam na fé com sinceridade, e não são poucas as que se tornam pessoas felizes. Assim, como nossa doutrina manifesta milagres sem paralelo em qualquer outra parte e mostra a existência real de Deus de forma palpável, mesmo a pessoa mais teimosa, mesmo a mais fascinada pela cultura científica, acaba por render-se. Sobre o Ateísmo Normalmente, ao se escrever sobre o ateísmo, parece natural desenvolver o raciocínio de forma religiosa. No entanto, pretendo escrever sem tocar em religião alguma, colocando-me na posição de um ateu. Primeiramente, assim que o ser humano nasce com o choro “guá”, o leite — um líquido excelente e necessário ao crescimento — jorra imediatamente, em abundância, do corpo da mãe que o gerou. Assim, a criança cresce saudável e, quando os dentes começam a nascer, os pais lhe trazem alimentos para mastigar. Dessa forma, a criança cresce gradualmente e, por fim, torna-se um adulto independente — o que nem é preciso dizer agora. Mas, falando especialmente do alimento, que é o mais essencial, cada alimento contém seu próprio sabor, a língua possui nervos gustativos, e o ser humano, ao comer com prazer, consegue ingerir calorias suficientes. O rei dos prazeres humanos, porém, é sem dúvida a refeição. Assim, enquanto o corpo físico se desenvolve gradualmente, o cérebro também se desenvolve por meio da educação escolar, e a pessoa se torna capaz de funcionar como um adulto independente. Quando isso acontece, despertam vários desejos. Da sabedoria, do sentimento de superioridade, do desejo de competição, do progresso, etc., até os aspectos materiais, como o prazer e o amor, tudo ergue a cabeça. Dessa forma, a razão e a emoção se entrelaçam, a dor e o prazer se alternam, preenchendo as condições de um ser vivo de alto nível, que então navega pela sociedade. Esbocei acima rapidamente o caminho do nascimento à idade adulta. Passemos agora a observar a grande natureza. Escusado dizer que, entre o céu e a terra, tudo o que existe — dos fenômenos naturais tangíveis e intangíveis, como o sol, a lua, as estrelas, o frio e o calor do clima, a chuva e o vento, até os animais, as plantas, os minerais etc., que estão diretamente relacionados aos seres humanos — é gerado, formado e nutrido pelo poder da grande natureza. Essa é a forma do mundo como ele é. Se alguém, partindo de uma folha em branco, observar tudo isso com calma e objetividade, a menos que seja uma pessoa insensível, será tomado apenas por um sentimento de admiração, sem saber o que dizer. Na verdade, tudo se resume a uma única palavra: profundo e maravilhoso. Diante disso, quem teria criado este mundo tão esplêndido? Com que propósito e com que intenção? Qualquer pessoa seria obrigada a pensar nisso. E, ao erguer os olhos para o céu, ele é eterno e infinito, e não se sabe até onde se estende sua vastidão. Além disso, como será o centro da terra? Qual é a temperatura máxima do sol? Qual é o frio da lua? Quantas estrelas existem? Qual é o peso da terra? Qual é a quantidade de água do mar? Se enumerarmos, não há fim. Quanto mais se pensa, mais misterioso e maravilhoso, além das palavras. No entanto, são evidentes o movimento regular dos corpos celestes, a distinção entre dia e noite, as mudanças das quatro estações, o número de trezentos e sessenta e cinco dias do ano, a evolução de todas as coisas, o progresso e o desenvolvimento da civilização, que não conhecem parada, etc. Ademais, quando foi criado este mundo? Até quando continuará? É eterno e infinito ou não? O limite do aumento da população mundial, o futuro da terra — tudo é incompreensível, e não se pode fazer ideia. Como dito acima, tudo flui silenciosamente segundo um padrão fixo, sem um desvio de um milímetro, sem um instante de atraso. No entanto, deixando isso de lado, afinal, para que nasci eu mesmo? O que devo fazer? Até quando viverei? Ao morrer, tornar-me-ei nada? Ou existe um mundo espiritual desconhecido onde encontrarei morada? etc. Quanto mais penso nessas coisas, menos as compreendo, e não há uma única coisa que se possa entender. É o que os budistas chamam de “realidade é vacuidade, vacuidade é realidade”: uma existência de céu e terra vastos e ilimitados, infinita e eterna, para a qual não se encontra palavra que a descreva. Para tentar compreendê-la, os seres humanos, há milhares de anos, têm-se dedicado a todos os meios, sobretudo à criação e à pesquisa do conhecimento; mas, até hoje, só compreenderam uma pequena parte, permanecendo ela ainda um enigma. Se assim for, a sabedoria humana diante da grande natureza não equivaleria nem a um fio de cabelo de nove bois. É isso também o que os budistas chamam de “vazio e silêncio”. No entanto, o ser humano chamado “homem” é extremamente presunçoso: gaba-se de conquistar a natureza, mas não passa de um tolo que não conhece o próprio lugar. Portanto, o mais sábio é que o ser humano, antes de tudo, conheça a si mesmo, siga a grande natureza e desfrute de suas bênçãos. A propósito, em relação a este mundo cheio de incógnitas como as acima, há uma única coisa que está clara. O que é? É quem criou este mundo tão esplêndido e o maneja livremente como deseja. Ao imaginar quem seria esse alguém, assim como em uma família há o chefe, em uma nação há o imperador ou o presidente, neste grande mundo também deve haver um protagonista — e este protagonista não é outro senão aquele “quem” chamado pelo nome de Deus, o X. Não há outra conclusão senão esta. Nesse sentido, se Deus não existisse, todas as coisas também não existiriam — nem o próprio ateu existiria. Provavelmente não há argumento tão claro quanto este. Se alguém não entende isso, essa pessoa não passaria de um animal. Por quê? Porque os animais não têm vontade, pensamento nem inteligência. Não haveria palavra mais adequada do que chamá-los de animais com forma humana. Há uma prova clara disso. Ou seja, os criminosos que nascem do pensamento ateísta: observando-os, vê-se bem que a maioria de suas psicologias e ações é animal. Portanto, minha missão é remover essa animalidade do ser humano animal e fazê-lo evoluir para um verdadeiro ser humano; a condição básica para isso é a destruição do pensamento ateísta. Em suma, trata-se de uma obra de reforma do ser humano. Religião Viva Pode parecer estranho dizer que existe também, na religião, uma religião viva e uma religião morta, mas é o que vou escrever agora. Religião viva é aquela que está em consonância com a vida real; religião morta é o oposto disso. Ora, entre as inúmeras religiões existentes no mundo, as que se ajustam perfeitamente à vida real são, se não totalmente inexistentes, extremamente raras. É verdade que todos os ensinamentos, sem exceção, são muito bem elaborados; mas, no que diz respeito ao poder de transformar as pessoas, lamentavelmente não se pode esperar muito. Quando os fundadores as estabeleceram, há centenas ou milhares de anos, essas religiões certamente estavam em consonância com as condições sociais daquele tempo e tinham grande poder de transformação; mas, com o passar dos anos e o fluir do tempo, sua força foi gradualmente diminuindo, até chegar ao estado atual — como todos sabem. Isso também é um curso natural das coisas, e não há o que fazer a respeito; não é algo exclusivo da religião — acontece com todas as coisas —, apenas a religião ficou para trás e chegou por último a esse estado. Nesse ínterim, surgiram também, em todos os países, diversas religiões novas, adequadas à sua época; mas raramente aparece alguma com força suficiente para superar as anteriores, de modo que, mais cedo ou mais tarde, costumam desaparecer. Entre elas, as que surgiram na era moderna e ainda mantêm considerável influência são, talvez, apenas o Nichiren-shū e o Tenrikyō. O que ficou dito acima é, em linhas gerais, a transição das religiões. Mas o que quero dizer agora é como deve ser a religião no mundo contemporâneo. Como se sabe, o desenvolvimento da cultura científica a partir do século XVIII tornou-se uma grande ameaça para a religião, e é fato inegável que isso conduziu ao estado de declínio que vemos hoje. A ciência tomou conta, à vontade, do coração das pessoas, a ponto de, hoje, ninguém mais se satisfazer se a palavra “ciência” não estiver presente. Ainda seria bom se fosse só isso; mas isso também gerou o pensamento ateísta, e a decadência moral não conhece limites: a sociedade e a nação mergulharam na confusão, e o mundo se tornou, tal como vemos hoje, um verdadeiro inferno na terra. Além disso, as próprias religiões antigas, mantendo até hoje como princípio os ensinamentos de seus fundadores de centenas ou milhares de anos atrás, esforçam-se por converter as pessoas com doutrinas elaboradas ao longo de muito tempo; mas, justamente por estarem tão distantes de sua época, não têm força de transformação e, para dizer a verdade, tornaram-se meras relíquias que perderam todo o realismo. É certo que, em sua época, foram sem dúvida muito valorizadas como belas obras de arte; hoje, porém, seu valor se reduz ao de um bem cultural importante. Ora, entre as novas religiões, há as que exibem respeitosamente esses bens culturais importantes e os utilizam para atrair pessoas; mas isso também não passará de uma vida útil limitada a determinado período. De qualquer forma, a religião foi ultrapassada pelo esplendoroso progresso da cultura e deixada muito para trás. É como, na era de hoje, de aviões, automóveis e ciência sem fio, trazer à tona uma carroça de boi ou um palanquim — de nada serviria. Aqui, mais uma vez — ainda que pareça autoelogio —, devo dizer: nossa doutrina, como se sabe, respeita a história como história, mas não se prende a ela; avança segundo sua própria orientação, conforme o mandamento divino. Com o vigor de uma religião recém-nascida, corre em suas veias sangue jovem. No trabalho que hoje realiza — para além da revolução na medicina e na agricultura —, aponta as falhas de toda a cultura e tem como espírito orientador o ideal de uma nova cultura. Uma das concretizações disso é a construção de modelos do Paraíso na Terra e de museus, que são precisamente a linha de frente dessa obra; e o propósito disso é, sem dúvida, ser um lugar sagrado de repouso para almas maculadas e cansadas e, ao mesmo tempo, servir de antídoto contra o entretenimento extremamente vulgar dos dias de hoje, elevando o caráter humano. O Plano Divino de nossa doutrina, tal como descrito acima, contribui naturalmente, no plano individual, para a saúde, o alívio da pobreza e a sadia formação do pensamento; e, em escala mais ampla, visa construir uma sociedade luminosa e livre de ansiedade. É motivo de grande alegria que isso, ultimamente, tenha passado a ser reconhecido também entre os entendidos, tornando-se cada vez mais objeto de atenção. Ainda que hoje seja em pequena escala, quando um dia se expandir mundialmente, nascerá do Japão a concepção de um mundo ideal, pacífico e feliz — e afirmo com convicção que isso não é, de forma alguma, um sonho. Vendo tudo isso, o que seria nossa doutrina senão a verdadeira forma de uma religião realmente viva? Lamento apenas que os olhos da sociedade, ao observar as novas religiões hoje, sejam infelizmente extremamente frios e desdenhosos — especialmente entre os intelectuais —, a ponto de haver, mesmo entre os que se aproximam de nossa doutrina, uma tendência a agir com receio do que os outros possam pensar. Isso é, verdadeiramente, lamentável. Mas isso também não é sem razão. Afinal, mesmo as religiões antigas, embora tenham grande número de fiéis, são compostas majoritariamente por pessoas de pouca instrução — os chamados “homens e mulheres simples e ignorantes”. E, mesmo entre as novas religiões, há muitas com comportamentos e discursos extravagantes, a ponto de fazer desviar o olhar, e com forte componente supersticioso — havendo considerável número de casos que, mesmo a um olhar de bom senso, causam certo desconforto. Penso que isso também é passageiro, mas gostaria de pedir reflexão aos responsáveis por essas religiões. Por outro lado, há também estudiosos de religião que apenas requentam os ensinamentos de antigos santos, sábios e fundadores, vestindo-os com roupagem nova para se adequarem à época. À primeira vista, parecem progressistas e tendem a agradar aos intelectuais; mas é questionável até que ponto servem realmente à vida real. A esse respeito, lembro-me do famoso filósofo americano William James e de seu pragmatismo — traduzido como “filosofia da ação” —, que eu gostaria de substituir por uma “religião da ação”. Religião Daijo É amplamente sabido que, na religião — e especialmente no budismo —, existe a distinção entre Daijo e Shojo; mas parece que, até hoje, isso nunca foi levado às últimas consequências. Vou expor aqui minha opinião a respeito. Antes de tudo, Daijo significa a Grande Natureza — e esta é, naturalmente, a atividade de geração, transformação e nutrição de todos os seres do universo. Por isso, Daijo abrange tudo, sem deixar nada de fora. Nesse sentido, o Daijo que ora exponho não é o budismo Mahayana, mas deve ser chamado de Caminho Daijo. Nele se incluem a religião, a filosofia, a ciência, a política, a educação, a economia, a arte — absolutamente tudo. E não apenas isso: incluem-se também, naturalmente, a guerra e a paz, o bem e o mal. Como dito acima, ao observarmos a atividade de todos os seres do universo, encontramos ali o Caminho natural. Somente aquele que reconhece que está avançando corretamente ao seguir esse Caminho tem o valor de um verdadeiro ser humano. Por essa lógica, quando alguém se desvia do Caminho, isso inevitavelmente causa transtornos; é certo que haverá uma paralisação temporária ou uma destruição. Assim como, seguindo o Caminho, há criação, e, desviando-se dele, há destruição — a verdadeira face deste mundo é a repetição contínua de destruição e criação. É exatamente como um trem ou um bonde: enquanto não sai dos trilhos, avança; se sai, para. Por isso, tudo o que perece tem sua razão para perecer, e tudo o que nasce tem sua razão para nascer — nunca há acaso. Tudo, sem exceção, ocorre por necessidade. Nesse sentido, também no campo do pensamento, quando se pende demais para a esquerda, nasce a direita, e quando se pende demais para a direita, nasce a esquerda; avançar pelos trilhos sem pender nem para um lado nem para o outro — exatamente como dirigir um automóvel. Pelo mesmo princípio, o capitalismo, o socialismo, o comunismo, os conservadores e os progressistas, o ativismo e o passivismo e todos os demais "ismos" nascem porque há necessidade e, por necessidade, reduzem-se gradualmente e perecem. Naturalmente, o mesmo vale para a religião: ela surge porque há razão para surgir. Mas a maioria dos seres humanos observa o mundo a partir do próprio ponto de vista e tende a considerar herege tudo o que não é o seu. Isso ocorre porque enxergam através de uma abertura extremamente estreita — como diz o provérbio, "espiar o teto através de um canudo de junco". Mas, aos olhos de Deus, que rege este mundo com Seu Plano Divino, é provável que Ele sorria com ironia diante da pequenez dos seres humanos, que disputam entre si, sem descanso, como que sobre os chifres de um caramujo. Todo objeto material é naturalmente eliminado se for desnecessário ao ser humano; se for necessário, não há como o ser humano eliminá-lo, por mais que tente. Por exemplo: quando surge uma nova religião ou um novo pensamento, mesmo que, aos olhos humanos, pareça superstição ou caminho herético, se houver necessidade para a humanidade, ele se desenvolverá; se não houver necessidade, será naturalmente eliminado — e, até certo ponto, isso deve ser deixado à própria natureza. Se algo tem verdadeiramente vida e valor, quanto mais se tenta reprimi-lo pela força humana, mais, ao contrário, seu desenvolvimento se intensifica. O melhor exemplo disso é o cristianismo. Apesar de seu fundador, Cristo, ter sido condenado à morte, basta ver a prosperidade que essa religião tem hoje para que não seja preciso dizer mais nada. Penso que o homem moderno deveria refletir sobre o erro de enxergar tudo com uma visão tão estreita e de tão curto alcance. A Verdadeira Religião Daijo É de conhecimento geral que existem, na religião, o Daijo e o Shojo; mas as explicações dadas até hoje pelos religiosos e estudiosos de religião a esse respeito são extremamente vagas e descuidadas, e pode-se dizer que quase nenhuma delas toca a verdade última. Por isso, pretendo escrever aqui de forma definitiva sobre o tema. Antes, porém, é preciso conhecer algo: a forma como se apresentam todas as religiões do mundo. Desde os tempos antigos, cada religião tem como base o que seu fundador ensinou, possuindo seu próprio método de conversão e sua própria forma — trata-se, por assim dizer, de uma divisão em cores diferentes. Para falar diretamente: isso vale tanto para o budismo e o cristianismo, como religiões de alcance mundial, quanto para o Xintoísmo e o budismo no Japão; e, mais ainda, dentro de cada uma dessas seitas e escolas há também subdivisões, cada uma com sua própria coloração. Refletindo sobre isso, sinto que há aí uma irracionalidade fundamental — pois, sendo o amor mútuo entre os seres humanos e o espírito de paz e cooperação a própria essência vital da religião, o objetivo deveria ser um só. Por conseguinte, não seria natural que também os meios e métodos não se dividissem em cores diferentes? Se, no entanto, estão assim separados uns dos outros, o pensamento da humanidade naturalmente os acompanha nessa divisão, o que também se torna causa de confusão social. E, como a força das pessoas que estão do lado do bem — a religião — fica dispersa, torna-se impossível fazer frente ao poder das divindades malignas. Isso se confirma pelos próprios fatos: é sempre o lado oposto à religião, o lado do mal, que costuma vencer. É verdade que Deus é perfeito, e as divindades malignas alcançam apenas noventa e nove por cento dessa perfeição, de modo que, no final, é claro que Deus vence; mas, até lá, o sofrimento do lado do bem não é pequeno. A esse respeito, tive, por experiência própria, muitas ocasiões assim: as divindades malignas, com seu poder pujante, quase detêm o controle, mantendo os olhos sempre fixos em nós, prontas para atacar à menor brecha. Chego a pensar que as antigas tradições de Satanás contra Cristo e de Devadatta contra Shaka Buda ainda permanecem inalteradas até hoje. Vendo as coisas dessa forma, a religião precisa ter um poder superior ao das divindades malignas. Sem isso, não se pode chegar a um mundo feliz em que o bem prevaleça. E é somente quando isso acontecer que todas as religiões convergirão numa só, o mundo se unirá como um só bloco, e se realizará, então, um mundo feliz e livre de inquietação. Isso, porém, não é tarefa fácil — mas também não é impossível, pois o Paraíso na Terra, que é o objetivo do Deus Supremo, já está se aproximando. E sua base fundamental é, naturalmente, abandonar o Shojo e fazer do espírito Daijo a condição essencial. Ou seja, trata-se de um movimento supracultural que abrange absolutamente tudo sobre a face da Terra — religião, ciência, política, economia, arte — e, para seu papel de liderança, é necessário que surja um gigante dotado de um poder e de uma sabedoria sobre-humanos. Religião e Seitas Na religião existem diversas seitas. No cristianismo, por exemplo, há o catolicismo e o protestantismo como principais ramos, além de diversas outras vertentes, antigas e novas. No budismo, mesmo somente dentro do Japão, há como principais o Shinshū, o Jōdo, o Tendai, o Shingon, o Zen e o Nichiren, e cada um desses ramos se subdivide em outros, chegando hoje a cinquenta e oito seitas. No Xintoísmo, deixando de lado o dos santuários, também no sectário há, como principais, o Taisha, o Ontake, o Fusō, o Misogi, o Tenri e o Konkō, entre outros, somando treze seitas — o que também é evidente. Como se vê acima, a divisão em tantas seitas me parece contrária à razão, mas eu enxergo a questão da seguinte forma: não seria a causa disso as próprias escrituras sagradas? Isso porque tanto a Bíblia quanto os textos budistas apresentam muitos pontos extremamente contraditórios e de difícil compreensão; na hora de interpretá-los, as opiniões das pessoas naturalmente se dividem de formas diversas, o que inevitavelmente gera as várias seitas. É verdade que o Xintoísmo sectário não teve um grande fundador único, como o cristianismo e o budismo, tendo se formado a partir de clássicos como o Kojiki e o Nihon Shoki, ou de doutrinas de inspiração divina e ensinamentos de seus respectivos fundadores. Como visto acima, embora a raiz seja a mesma religião, a divisão em diversas seitas tende, não raro, a gerar conflitos, o que naturalmente prejudica a missão original da religião — a educação no amor à humanidade —, e isso é, verdadeiramente, lamentável. Não há dúvida de que a causa disso, como já dito, está na dificuldade de compreensão das escrituras sagradas. É verdade que se poderia argumentar que há um valor especial justamente nessa dificuldade; mas, considerando o propósito de salvar toda a humanidade, penso que o correto seria tornar os ensinamentos o mais compreensíveis possível para todos. Por isso, procuro evitar, tanto quanto possível, a dificuldade de compreensão e busco ensinar o Caminho sob uma nova forma, de modo que qualquer pessoa possa compreendê-lo. Pretendo também, gradualmente, apresentar novas interpretações, através da religião, nos campos da política, da economia, da educação, da arte, entre outros. Sobre os "Ismos" É de conhecimento geral que, como motivação para os mais diversos pensamentos e movimentos do mundo, tenta-se alcançar objetivos dando-lhes o nome de "tal ou qual ismo". No entanto, observa-se também que esses "ismos", mesmo obtendo certo sucesso, acabam invariavelmente fracassando e desaparecendo no final. Por que isso acontece? Penso que é preciso refletir profundamente sobre isso. Antes de mais nada, todo "ismo" é, por natureza, contrastante, opondo-se a um inimigo e a um aliado; por isso, tende facilmente a gerar conflito. O resultado é sempre vencer ou perder. E, mesmo que vença, logo nasce um novo "ismo" para se opor a ele, de modo que o conflito nunca cessa. De fato, mesmo na era moderna, surgem e desaparecem, um após o outro, diversos "ismos". Entre os principais, poderíamos citar o imperialismo, o despotismo, o totalitarismo, o capitalismo, o comunismo, o socialismo, o liberalismo, a democracia, o conservadorismo, o progressismo, o individualismo, o ativismo, o passivismo, entre tantos outros que seria impossível enumerar por completo. Por natureza, todo "ismo" é limitado, excludente e autocentrado, tendo como foco principal apenas o benefício de sua própria nação, classe ou grupo — e, por isso, inevitavelmente se torna origem de conflito. Nesse sentido, se desejamos a paz e a prosperidade eternas da sociedade humana, é preciso algo diferente de todos os "ismos" existentes até hoje — algo que seja, necessariamente, universal e baseado no amor à humanidade. Movimentos como o de um Estado mundial e o movimento MRA, que recentemente começaram a ser defendidos nos Estados Unidos, têm justamente esse sentido, e os vejo como movimentos que compartilham o mesmo objetivo que nós: a vinda do Paraíso na Terra. Paraíso na Terra Que bela ressonância tem a expressão "Paraíso na Terra". Não deve haver nada que traga tanta luz e esperança quanto esta palavra. No entanto, muitos pensarão que algo como o Paraíso na Terra é apenas um sonho sem possibilidade de realização; eu, porém, estou convencido de que ele certamente se realizará — mais do que isso, reconheço que estamos nos aproximando de sua realização. Devemos refletir profundamente sobre qual foi o propósito do grande rugido de leão de Cristo, o Santo de Nazaré, quando disse: "Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo". Penso que Cristo, o fundador principal de uma religião cujo ensinamento converteu a maior parte do mundo e alcançou tamanha grandeza como a de hoje, não poderia ter proferido palavras vazias sem certeza. Então, o que seria o Paraíso na Terra? Certamente todos gostariam de saber. Agora, vou imaginá-lo e escrever sobre ele. O Paraíso na Terra, dito de forma direta, é o “mundo dos felizes”: um mundo sem doença, pobreza nem conflito, e de mais elevada cultura. A grande questão que se nos impõe é precisamente como transformar em paraíso este mundo em que a humanidade hoje geme em meio à doença, à pobreza e ao conflito. E, como a causa principal dessas três grandes calamidades é a própria doença, antes de tudo é necessário descobrir um método para eliminá-la por completo. Em seguida vem a pobreza, cuja causa principal também é a doença; pensamentos equivocados, a pobreza política e a insuficiência da organização social seriam causas secundárias. Depois há a mentalidade que gosta de conflitos, cuja causa é a humanidade ainda não ter-se libertado completamente do estágio da barbárie. Assim, a questão fundamental é como eliminar essas três grandes calamidades, e foi na solução desse problema que adquiri confiança. Aqui explicarei o fato mais simples. À medida que as pessoas se convertem a esta ordem religiosa e recebem instrução, o corpo e a mente se purificam; elas se tornam verdadeiramente saudáveis, ao mesmo tempo em que, aos poucos, se libertam da pobreza e passam a detestar os conflitos. Isso é algo que surpreende a todos como um mistério. Inúmeros fatos comprovam que a maioria desses fiéis se aproxima cada vez mais da felicidade a cada ano. Não gosto de apontar os defeitos alheios, mas permitam-me citar brevemente alguns fatos. Há pessoas que, mesmo praticando a fé, gemem sob doenças incuráveis e sofrem com a pobreza, e ainda assim se sentem satisfeitas e alegres. É verdade que estão espiritualmente mais salvas que os descrentes, mas apenas o espírito está salvo; o corpo, não. Ou seja, estão salvas apenas pela metade. Para serem verdadeiramente salvas, tanto o espírito quanto o corpo precisam ser salvos. É preciso tornar-se saudável, libertar-se da pobreza e viver uma vida em que toda a família esteja imersa em alegria. No entanto, todas as formas de salvação até hoje tinham o poder de salvar o espírito, mas não o corpo. Por isso, inevitavelmente, deve ter-se estabelecido a ideia de que “a fé é algo que deve salvar apenas o espírito”. Como exemplo, há uma frase frequentemente dita por religiosos: “A fé que tem como objetivo as graças recebidas nessa vida é uma fé inferior”. É uma afirmação estranha. Não é possível que alguém não deseje as graças recebidas nessa vida. Também dizem àqueles que sofrem de doenças: “O ser humano deve transcender a vida e a morte”. Isso também é um tanto estranho. Porque, na prática, nenhum ser humano é capaz de transcender a vida e a morte. Se fosse possível, seria enganar a si mesmo. A esse respeito, gostaria de contar uma anedota sobre o Mestre Zen Takuan. Quando o mestre estava próximo da morte, os que o cercavam lhe ofereceram papel e pincel, dizendo: “Gostaríamos que o senhor escrevesse um poema de despedida”. O mestre pegou o pincel e escreveu imediatamente: “Não quero morrer”. Os que estavam ao redor disseram: “Um monge famoso como o Mestre Takuan não escreveria algo assim. Deve ser algum engano” — e novamente lhe ofereceram papel e pincel. Desta vez, ele escreveu: “De modo algum quero morrer”. Diz-se que foi assim. Penso que a atitude desse mestre é realmente admirável. Na maioria dos casos, alguém escreveria algo como “O que é a vida e a morte?”, mas o mestre, sem qualquer afetação, expressou francamente seu estado de espírito. Isso, para um monge famoso comum, seria absolutamente impossível, e fiquei impressionado. Em seguida, há pessoas que, mesmo não tendo se libertado completamente da doença, da pobreza e do conflito, fazem propaganda para salvar os outros. A intenção é louvável, mas essa não é a maneira correta. Isso porque é justamente por ter sido salva e se tornado feliz que a pessoa recomenda a fé, desejando tornar tão felizes quanto ela os que gemem numa vida infernal. Assim, ao ver o estado de felicidade dessa pessoa, o outro se comove, e o efeito da propaganda é de cem por cento. Eu não teria coragem de fazer propaganda sem antes ser, eu mesmo, uma pessoa feliz. Felizmente, pela graça dos deuses e budas, só senti vontade de pregar o ensinamento depois de me tornar capaz de ser feliz. Se o Paraíso na Terra é o mundo dos felizes, então o lugar onde pessoas felizes são formadas e se reúnem — o que mais poderia ser senão a verdadeira forma do Paraíso na Terra? Mundo Espiritual e Mundo Material Em primeiro lugar, quando se tem interesse pela religião, para compreendê-la a fundo é imprescindível conhecer a relação entre o mundo espiritual e o mundo material. O objeto da fé religiosa são os deuses e budas — e deuses e budas são espíritos. Como não podem ser vistos a olho nu, tentar apreender sua realidade apenas pela teoria é tão tolo quanto procurar peixes subindo em árvores. No entanto, como deuses e budas existem realmente, e de forma magnífica, neste mundo, é claro que também é impossível negá-los. Assim como é extremamente difícil fazer um selvagem reconhecer a existência do ar, é igualmente difícil fazer a maioria das pessoas modernas reconhecer a realidade do espírito. Primeiramente, como premissa, explicarei com a maior profundidade possível a constituição do mundo espiritual e a vida dos seres espirituais. Em primeiro lugar, o ser humano é composto de dois elementos: o corpo físico e o corpo espiritual. Quando a pessoa morre, o espírito se separa do corpo e entra imediatamente no mundo espiritual, iniciando a vida espiritual. No momento da separação, o espírito dos extremamente bons sai pela testa; o dos extremamente maus, pela ponta dos pés; e o das pessoas comuns, pela região do umbigo, no centro do abdômen. No budismo, morrer é chamado de “Ojo” (renascimento), porque, do ponto de vista do mundo espiritual, trata-se de um nascimento. Da mesma forma, o período antes da morte é chamado de “vida anterior”, e no xintoísmo de “Kiyu” (retorno ao oculto) ou “Tenki” (transferência) — todos com o mesmo princípio. Ao tornar-se um ser do mundo espiritual, como se diz desde os tempos antigos, atravessa-se primeiro o Rio dos Três Caminhos e vai-se ao tribunal do Enma. Isso é um fato, e ouvi de muitos espíritos, de forma unânime. O tribunal do Enma é igual a um tribunal no mundo material. Ao terminar de atravessar o Rio dos Três Caminhos, a cor da mortalha muda: é branca para aqueles com menos impurezas e pecados; em seguida vêm cores claras, amarelo, vermelho, azul, preto, conforme a gravidade dos pecados e impurezas. Apenas o roxo é reservado às vestes divinas. No tribunal do Enma, o deus Harai-do é o presidente, e cada oficial do submundo conduz o interrogatório, decidindo as recompensas e punições apropriadas. Nessa ocasião, os extremamente bons vão para o Paraíso ou para a Terra Pura; os extremamente maus caem no Inferno; e as pessoas comuns vão para um lugar chamado Mundo intermediário — no xintoísmo, Yachimata; no budismo, cruzamento dos Seis Caminhos. A maioria vai para esse Mundo intermediário e ali pratica a disciplina. A primeira etapa da disciplina é ouvir as palestras dos Ministros espirituais. Os que, por meio delas, se arrependem vão para o Paraíso; os que não se arrependem, para o Inferno. O período de cultivo é, em geral, de cerca de trinta anos, e então o destino é decidido. Os Ministros espirituais são designados entre os mestres de cada religião. Aqui escreverei sobre a constituição do mundo espiritual. O mundo espiritual se divide em três planos: superior, médio e inferior. Cada um deles se subdivide em três, totalizando nove sub-níveis. Ou seja, o plano superior é o Paraíso; o plano médio, o Mundo intermediário; e o plano inferior, o Inferno. O mundo material corresponde ao Mundo intermediário. Portanto, o termo budista “cruzamento dos Seis Caminhos” significa ir para os três caminhos da Terra Pura e os três caminhos do Inferno. No xintoísmo, o termo “Yachimata” (encruzilhada de oito direções) inclui ainda, no topo, o Paraíso Supremo, e, na base, o país das raízes. Explicando de forma direta as características do Paraíso e do Inferno: quanto mais se sobe ao Paraíso Supremo, mais intensos se tornam a luz e o calor, e a vida é quase como estar nu. Como se vê em pinturas e esculturas antigas, o Buda Supremo está nu. Em contraste, quanto mais se desce ao Inferno mais baixo, mais escassos se tornam a luz e o calor; no nível mais baixo, há escuridão total, ignorância e um estado de congelamento. Portanto, ao sofrer isso, mesmo o espírito mais perverso e cruel não pode deixar de se arrepender. O que foi dito acima é uma explicação muito geral. Pode parecer às pessoas modernas uma teoria absurda e inacreditável, mas é uma explicação que obtive ao longo de mais de vinte anos, investigando e pesquisando por meio de médiuns e de todos os outros métodos possíveis, a partir de muitos espíritos, e tomando os pontos de concordância entre eles. Portanto, espero que os leitores a leiam com considerável confiança. Acredito que nem a teoria do inferno e do paraíso do Buda Shakyamuni nem a “Divina Comédia” de Dante são criações artificiais. Como dito acima, é possível saber aproximadamente para qual dos três planos — superior, médio ou inferior — um espírito irá, observando o rosto do morto. Vão para o Paraíso aqueles que não apresentam nenhum sinal de agonia, têm tez fresca e parecem vivos; para o Mundo intermediário vão os que têm expressão sombria e solitária, de cor pálida, amarelo-azulada — ou seja, o estado geral dos mortos; e para o Inferno, naturalmente, os que têm expressão de agonia pronunciada, de cor preta ou preto-azulada. O que foi dito acima é para se obter um conhecimento básico sobre o mundo espiritual. Em seguida, escreverei sobre os fenômenos espirituais que obtive por meio de minha experiência, abordando cada aspecto. Camadas do Mundo Espiritual Como foi dito anteriormente, a constituição do mundo espiritual é de três planos — Paraíso, Mundo intermediário e Inferno —, cada um subdividido em três, totalizando nove sub-níveis. Cada sub-nível se divide ainda em vinte camadas, resultando em sessenta camadas para cada um dos três planos e cento e oitenta no total. A isso dei o nome de camadas do mundo espiritual. Acima delas reside o Deus Supremo, o governante do universo. Acho interessante que o caractere “shu” (senhor), de “Shushin” (Deus Supremo), é composto por três linhas horizontais atravessadas por uma linha vertical, com um ponto no topo. Agora, explicarei detalhadamente a relação entre o ser humano e o espírito. O ser humano possui um espírito com a mesma forma de seu corpo físico; no centro dele está o coração (mente), e no centro do coração está a alma. Há, portanto, três estágios — grande, médio e pequeno — ou melhor, três camadas. Essa alma é o que foi dado por Deus e é a própria consciência. A origem dessa alma, que se pode chamar de sua terra natal ou local de registro, pertence a uma dessas cento e oitenta camadas; a isso dei o nome de alma oculta. A alma oculta e a alma atual do ser humano estão ligadas por um elo espiritual. Os pensamentos e as ações do ser humano são constantemente transmitidos à alma oculta, que, por sua vez, se comunica com Deus. Da mesma forma, as ordens de Deus são transmitidas ao ser humano por meio da alma oculta e do elo espiritual. Como exemplo disso, quando alguém faz vários planos e projetos e se esforça para alcançar seus objetivos, mas as coisas não saem como esperado — tomando um rumo inesperado ou esbarrando em destinos imprevistos —, ao refletir profundamente, a maioria das pessoas já deve ter experimentado a sensação de que existe algum governante invisível que a controla. Esse governante é a vontade de Deus transmitida pela alma oculta. Portanto, quando se age contra a Vontade Divina, por mais que se esforce, quanto mais se esforça, mais contraproducente se torna. Por isso, o ser humano deve sempre refletir profundamente se seus próprios pensamentos estão ou não de acordo com a Vontade Divina. No entanto, se houver desejos egoístas e pensamentos malignos, eles interferirão na transmissão da Vontade Divina. Assim, mesmo que pareça bom por um tempo, no final certamente fracassará. Por esse princípio, ao fazer qualquer tipo de plano, deve-se examinar a si mesmo cuidadosamente e considerar profundamente se o objetivo é bom e se é algo que servirá à sociedade e à humanidade. Algo interessante é que, quando, devido a pensamentos malignos, a pessoa não se alinha à Vontade Divina e, por isso, cai no fracasso e na dificuldade, esse sofrimento serve para reduzir os pecados e impurezas que são a causa dos pensamentos malignos. Como resultado, a alma é polida, e a pessoa passa a se alinhar com a Vontade Divina, obtendo sucesso. É por isso que há muitos exemplos no mundo de pessoas que fracassam uma vez e depois obtêm sucesso, e especialmente de pessoas que se tornam grandes sucessos quanto mais vezes fracassam. Portanto, a única maneira de se tornar uma pessoa de sorte é ter sua alma registrada nas camadas superiores do mundo espiritual. Originalmente, a posição da alma não é fixa; ela sobe e desce constantemente. Por quê? Porque quanto mais leve, mais sobe, e quanto mais pesada, mais desce. A causa dessa leveza ou peso reside na bondade ou maldade das ações humanas. Praticando boas ações e acumulando virtudes, os pecados e impurezas diminuem, tornando a alma mais leve. Praticando más ações e acumulando pecados, os pecados e impurezas aumentam, tornando a alma mais pesada. É por isso que, desde os tempos antigos, se diz "o fardo dos pecados". Portanto, uma vez que os pensamentos, palavras e ações, bons ou maus, são comunicados diretamente a Deus pelo elo espiritual, compreendido este princípio, não se pode deixar de se tornar uma pessoa virtuosa. Como dito anteriormente, o ser humano tem seu destino, e até mesmo sua vida e morte, determinados por ordem de Deus. Por isso, o caractere "inochi" (vida) é o mesmo caractere "mei" de "meirei" (ordem). Portanto, a morte é a revogação da ordem de Deus. Isso ocorre porque a pessoa está causando danos ao mundo ou não tem mais valor para viver. Assim, para que a ordem não seja revogada, o ser humano deve ser amado por Deus e tornar-se uma pessoa útil à sociedade. Caso contrário, não poderá obter longevidade e felicidade. Quanto mais se sobe nas camadas do mundo espiritual, menos se sofre com doença, pobreza e conflito. Lá, recebe-se uma saúde vibrante, vestuário, alimentação e moradia abundantes, belos e bons, e se vive uma vida de alegria. Portanto, a felicidade da alma oculta que ali reside é transmitida diretamente ao ser humano no mundo material por meio do elo espiritual, tornando-o feliz. Por outro lado, a alma oculta que está nas camadas inferiores do mundo espiritual se reflete no ser humano por meio do elo espiritual, fazendo com que ele gema numa vida infernal e termine sua vida infeliz. Há pessoas que se preocupam com a orientação da casa ou com a geografia das direções. Aqueles que estão nas camadas superiores do mundo espiritual, ao se mudarem ou construírem, naturalmente se mudam para boas direções e boas posições de casa. Por outro lado, aqueles que estão nas camadas inferiores, por mais que se esforcem, acabam se mudando para más direções e más posições de casa. Da mesma forma, no casamento, tanto os bons encontros quanto os maus encontros seguem o mesmo princípio. Como isso se baseia no princípio da unidade do corpo espiritual, nenhum ser humano pode resistir a essa força absoluta. Aqui, direi uma palavra sobre o destino predeterminado e o destino mutável. O destino predeterminado é algo decidido ao nascer, limitado a um dos três planos — superior, médio ou inferior — das camadas do mundo espiritual, sendo impossível sair dele. No entanto, o destino mutável, dentro dos limites desse destino predeterminado, pode ir para o nível mais alto ou mais baixo, dependendo do esforço. Ao passo que o destino predeterminado é imutável, o destino mutável pode obter um certo grau de liberdade. Consequentemente, o ser humano deve sempre acumular virtudes, reduzir os pecados e impurezas, e colocar sua alma oculta nas camadas mais elevadas do mundo espiritual. Deve saber que não há outro caminho para se tornar uma pessoa feliz. Paraíso e Inferno O Paraíso, como foi dito anteriormente, é composto por três subníveis: o Primeiro Paraíso, o Segundo Paraíso e o Terceiro Paraíso. No Primeiro Paraíso residem os deuses supremos, que constantemente conduzem o Plano Divino para o mundo. No Segundo Paraíso, como auxiliares dos deuses do Primeiro Paraíso, cada um desempenha seu papel designado. No Terceiro Paraíso, muitos deuses continuam suas atividades para cumprir as tarefas que lhes foram atribuídas. Como essas atividades abrangem todos os aspectos do mundo, suas ações são infinitamente variadas. Os deuses do Terceiro Paraíso, tendo ascendido do Mundo intermediário e obtido qualificação divina, são os mais próximos dos seres humanos e também são chamados de anjos. Acima está um resumo da constituição do mundo divino. Durante cerca de três mil anos, até hoje, o mundo divino teve existência muito insignificante no período em que o budismo vigorou. Isso porque a maioria dos deuses se manifestou como budas, e aqueles que não o fizeram tornaram-se deuses dragão e esperaram o momento. Os deuses também se dedicaram à obra de salvação tendo o mundo budista como pano de fundo. Esse período foi a Era da Noite. Com a transição para a Era do Dia, o mundo divino revive. Em seguida, a Terra Pura do Paraíso — termo budista — está formada no interior do outro mundo. O nível mais elevado da Terra Pura corresponde ao Segundo Paraíso do mundo divino, isto é, o céu Tushita, segundo a doutrina budista. Lá existe o Palácio Shibi, com sete templos, uma pagoda de muitos tesouros se erguendo, flores de todas as cores desabrochando em profusão, uma fragrância rica pairando, pássaros Kalavinka dançando no céu. Há um grande lago, com folhas de lótus flutuando dia e noite, e tartarugas de pelo verde brincando. Diz-se que são tão grandes que duas pessoas podem montá-las e que, conforme a vontade do espírito que as monta, vão automaticamente a qualquer lugar, sendo uma alegria indescritível. Há também um grande templo, onde muitos seguidores do budismo, todos naturalmente tonsurados, se dedicam a passatempos como poesia, música, dança, pintura, escultura, caligrafia, go, shogi, etc., semelhantes aos do mundo material. De vez em quando, há sermões, e isso é tido como o maior prazer. Os pregadores são os fundadores de cada seita, como Honen, Shinran, Rennyo, Dengyo, Kukai, Dogen, Daruma, Nichiren, etc. Esses altos monges sobem ocasionalmente ao Palácio Shibi, encontram-se com o Buda Shakyamuni, recebem ensinamentos profundos e várias instruções. Diz-se que o lugar onde fica o Palácio Shibi é de um brilho ofuscante, e mesmo os espíritos salvos na Terra Pura do Paraíso não suportam olhar para ele. Abaixo do Paraíso, há a Terra Pura, presidida por Amida Nyorai. Ele está em constante e íntimo intercâmbio com Shaka Nyorai, discutindo o Plano Divino do mundo budista. Kannon Bosatsu, como Komyo-Nyorai, ocupa o assento principal no Palácio Shibi e, com a assistência de Shaka e Amida, está atualmente realizando atividades extraordinárias para a construção do Paraíso na Terra. No entanto, devido à necessidade de salvar o mundo, até recentemente, ele havia descido à condição de Bodhisattva e cedido o primeiro lugar a Amida Nyorai. E, num futuro próximo, em preparação para o novo mundo divino que se formará com a extinção do mundo budista, vários Nyorai, Bodhisattvas, devas, veneráveis, grandes mestres, santos, deuses dragão, raposas brancas, tengu, etc., estão gradualmente ascendendo à qualificação divina e continuando suas atividades. A situação atual é de extremo movimento e grande ocupação. Em seguida, o mundo do Inferno. Este é o oposto do Paraíso: não há luz nem calor, e quanto mais se desce, maior o grau de escuridão e ignorância. O Inferno, como se diz desde os tempos antigos, é um mundo de vários e variados sofrimentos. Apresentarei um resumo dele. Primeiramente, enumero os principais tipos: a Montanha de Agulhas, o Inferno do Lago de Sangue, o Reino dos Fantasmas Famintos, o Reino Animal, o Reino dos Asuras, o Reino dos Desejos Sensuais, o Inferno do Calor Abrasador, o Inferno das Serpentes, o Inferno das Formigas, o Inferno da Colmeia, etc. A Montanha de Agulhas é, como o nome indica, uma montanha onde inúmeras agulhas estão eretas, e atravessá-la causa dor imensa. Esse pecado é o de ter monopolizado grandes terras e florestas em vida, não permitindo que outros as utilizassem. O Inferno do Lago de Sangue é para espíritos que morreram devido a causas relacionadas ao parto, como aborto espontâneo ou parto difícil. Salvei muitos desses espíritos, e o processo é bastante simples: recitando três vezes a oração Shinto e fazendo um pedido a Kakuriyo no Ōkami-Sama, eles são imediatamente retirados do Lago de Sangue e salvos, regozijando-se muito. Perguntei a um espírito sobre o estado do Inferno do Lago de Sangue, e é assim: como o nome indica, eles ficam submersos até a base do pescoço em um vasto lago de sangue por muitos anos. Na superfície do sangue, e não da água, flutuam inúmeras larvas, que lhe sobem constantemente pelo rosto. Por mais que as afastem, elas continuam subindo, e o sofrimento é insuportável. A causa disso é ter sido descrente em vida, com mais maldade no coração e nas ações. O Reino dos Fantasmas Famintos é, como o nome indica, um estado de fome em que estão sempre ansiosos para satisfazer o apetite. Por isso, tentam comer o espírito dos alimentos expostos em barracas ou lojas, mas isso constitui furto, um tipo de pecado. Então, inevitavelmente, apossam-se de seres humanos ou de cães e gatos para satisfazer o apetite. Há pacientes que têm um apetite surpreendentemente voraz; isso se deve à possessão do espírito de um fantasma faminto, como descrito acima. Os espíritos que se apossam de cães e gatos gradualmente caem no Reino Animal. Nesse caso, o espírito humano vai se dissolvendo aos poucos. Assim como a moeda boa é expulsa pela moeda ruim, ele acaba se assimilando ao espírito do animal. Nesse sentido, desde os tempos antigos, realizam-se cerimônias como o "Kawasegaki" (oferenda aos fantasmas famintos no rio), que consiste em oferecer aos espíritos de afogados. Como os espíritos de afogados são muitas vezes sem laços, não há quem lhes ofereça, e eles caem no Reino dos Fantasmas Famintos. Dar comida aos espíritos famintos e fazê-los ouvir sutras valiosos constitui uma grande oferenda. A causa de cair no Reino dos Fantasmas Famintos é o pecado de ter vivido no luxo apenas para si mesmo, sem se importar com a fome dos outros, ou de ter desperdiçado comida. Portanto, o ser humano nunca deve desperdiçar nem mesmo um único grão de arroz. O caractere "kome" (arroz) é escrito como "88" (hachiju-hachi), o que significa que são necessários oitenta e oito passos de trabalho. Considerando isso, nunca se pode desperdiçar. Eu também me esforço para não deixar nem um grão no fundo da tigela quando bebo chá após as refeições. Os cristãos, ao fazerem uma refeição, juntam as mãos e fazem uma reverência silenciosa; este é realmente um bom hábito. É claro que é uma expressão de gratidão pela comida; o ser humano não deve esquecer a bênção dos alimentos. O Reino Animal é, naturalmente, onde os espíritos humanos se tornam animais. Como isso acontece? É porque, em vida, seus pensamentos e ações se distanciaram do humano e se tornaram semelhantes aos dos animais. Por exemplo, aqueles que enganam os outros como profissão, como as prostitutas, tornam-se raposas; aquelas que são preguiçosas como concubinas, entregando-se a belas roupas e boa comida, lisonjeando os homens e vivendo uma vida fácil, tornam-se gatos; aqueles que farejam os segredos dos outros para usá-los como material para más ações, como chantagistas, ou espiões em guerras, que farejam os segredos dos outros para seu próprio lucro, tornam-se cães. No entanto, profissões como detetives, que previnem o mal para o bem do mundo, são uma exceção. Há pessoas no mundo que são inteiramente dedicadas a acumular dinheiro com avareza; essas se tornam ratos. Aqueles que odeiam atividade e passam o tempo vagando sem preocupações financeiras tornam-se bois ou porcos. Desde os tempos antigos, os pais repreendem as crianças dizendo que, se deitarem logo após comer, virarão bois, e isso tem seu fundamento. Pessoas de temperamento violento e brutas, temidas por outros, como os yakuza e vagabundos, tornam-se tigres ou lobos. Aqueles que são apenas dóceis e inúteis tornam-se coelhos; os de forte apego tornam-se serpentes; os que trabalham apenas para si mesmos, suando, tornam-se cavalos; os jovens sem vitalidade, que não fazem atividades significativas como os velhos, tornam-se ovelhas; os astutos e cheios de sabedoria ardilosa tornam-se macacos; aqueles que gostam de casos amorosos e, se for mulher, tentam se envolver indiscriminadamente, tornam-se galos; os impulsivos e imprudentes, que não refletem, tornam-se javalis; e os preguiçosos, que agem com indolência e zombam dos outros, tornam-se texugos ou cães-guaxinim. No entanto, mesmo caindo no Reino Animal como descrito acima, eles reencarnam como resultado de sua prática espiritual. O fato de o ser humano cair no Reino Animal, renascer como humano e cair novamente no Reino Animal, repetindo esse ciclo, é chamado no budismo de ciclo da Transmigração da alma. Sobre isso, há algo que se deve compreender. Por exemplo, bois e cavalos trabalham sofrendo maus-tratos extremos aos olhos humanos, mas é através dessas provações que suas impurezas e pecados são eliminados, e eles obtêm a alegria do renascimento. Outra coisa interessante é que bois e cavalos sentem uma espécie de prazer em serem maltratados, especialmente desejando ser chicoteados. Como visto, olhar para os animais com os mesmos olhos que os humanos é, na verdade, muitas vezes equivocado. Além disso, cães de guarda que previnem ladrões, gatos que caçam ratos, bois, ovelhas, porcos e galos que fornecem carne, leite e ovos também desempenham papéis importantes para os humanos, e através disso, suas impurezas e pecados são eliminados. Outra coisa interessante é o amor entre homens e mulheres, que tem grande relação com os espíritos de pássaros e animais. Geralmente, o amor puro e sincero envolve muitos espíritos de pássaros, abrangendo todos os tipos, desde pequenos pássaros como o rouxinol e o olho-branco até corvos, garças, patos e pavões. No caso do amor, são esses espíritos de pássaros que se apaixonam entre si, de modo que os humanos são meramente utilizados como instrumentos para o amor entre os pássaros. Portanto, nesse caso, a posição do ser humano é um tanto inferior. Além disso, o amor entre espíritos de raposa também é muito comum, mas este é, em sua maioria, um amor ilícito. Há também o texugo, mas neste o principal é o desejo carnal, mais do que o amor; os chamados "demônios da luxúria" são desse tipo. Já a mulher-dragão, que é a reencarnação do deus-dragão, prefere o amor espiritual, sendo indiferente ou até avessa ao aspecto carnal; muitas das pessoas com frigidez são desse tipo. Consequentemente, elas odeiam o casamento, não dão ouvidos a conversas sobre casamento e, quando um acordo de casamento está prestes a se concretizar, uma das partes adoece ou até morre. Isso ocorre porque são reencarnações da mulher-dragão ou estão possuídas pelo deus-dragão. Muitas vezes, no mundo, mulheres que permanecem solteiras e alcançam fama social, do tipo "mulher de fibra", são, em sua maioria, mulheres-dragão; raramente, há também o espírito de tengu. Acima, descrevi de forma geral a constituição do mundo espiritual, a vida no mundo espiritual e os vários tipos de espíritos. Johrei e Felicidade O Johrei de nossa doutrina parece ter, como propósito, apenas curar doenças; mas, na verdade, não é só isso — tem um significado muito maior, e é sobre isso que vou escrever. Em poucas palavras: o Johrei é um método que gera felicidade. Isso porque, mesmo falando apenas de doença, trata-se, é claro, de purificação, cuja base é a ação de dissolver as nuvens do espírito — o que já nem precisa ser dito —, mas não é só isso: é também a ação que elimina todo o sofrimento humano. Portanto, tanto a pobreza quanto os conflitos são manifestações da purificação — tudo o que chamo de doença, pobreza e conflito é isso. Ora, entre todas as ações de purificação, a mais importante é a doença, pois ela está relacionada à própria vida; assim, se a questão da doença for resolvida, é natural que a pobreza e os conflitos também se resolvam por si mesmos. Naturalmente, isso é a base da felicidade, de modo que é evidente demais que a causa da infelicidade está inteiramente nas nuvens do espírito. Por isso, o método simples e seguro para dissolver essas nuvens do espírito é justamente o Johrei — e, como disse no início, o Johrei não se limita apenas à doença. Deixe-me escrever com mais detalhes a respeito. Como já escrevi antes, o corpo do ser humano respira no mundo material, e, uma vez que o espírito vive no mundo espiritual, o estado do mundo espiritual afeta diretamente o corpo espiritual, refletindo-se no corpo físico; por isso, a raiz do destino mutável humano está no mundo espiritual. E o mundo espiritual, assim como o mundo material, possui diversos níveis — superior, médio e inferior —, que se dividem, em linhas gerais, em três grandes planos. Um desses planos contém sessenta camadas, que se subdividem em três grupos de vinte camadas, totalizando cento e oitenta e uma camadas. E, como o Um é o Deus Supremo, todas as demais divindades, com exceção Dele, ocupam algum lugar entre essas cento e oitenta camadas. O que acabei de dizer refere-se ao vertical; agora, quanto ao horizontal: cada uma dessas camadas de expansão horizontal é diferente, do inferno ao paraíso; assim, supondo que se trate do próprio espírito de alguém, se essa pessoa estiver nas vinte camadas mais baixas dentro das sessenta inferiores, isso corresponde ao mais baixo dos infernos, um mundo repleto de sofrimento como nenhum outro, o que se reflete no corpo como o fundo do poço da adversidade. Subindo às vinte camadas seguintes, a situação melhora um pouco; e, subindo às vinte camadas seguintes a essas, melhora ainda mais — e assim, naturalmente, cada camada, uma a uma, difere em sua medida de sofrimento e prazer. Ao ultrapassar essas sessenta camadas inferiores, chega-se então ao plano médio — isto é, o Mundo Intermediário, Yachimata —, que corresponde ao mundo material; e, ao passar do meio para as sessenta camadas superiores, chega-se ao paraíso, alcançando a condição de ser celestial, um estado de alegria e felicidade plena. Como visto acima, o destino mutável de cada pessoa corresponde exatamente ao patamar em que seu espírito se encontra; por isso, deve-se procurar subir, ainda que um único patamar. Quanto mais alto se sobe, mais desaparecem as coisas dolorosas e sofridas, e mais a felicidade aumenta — pois deixa de haver necessidade de sofrimento purificador. Por isso, enquanto o corpo espiritual estiver nos patamares inferiores, de nada adianta o ser humano esforçar-se ou usar de toda a sua inteligência. Isso porque essa é uma lei celestial de Deus, e o princípio de que o espírito é primordial e a matéria é secundária não pode, de forma alguma, ser violado. Portanto, para ser feliz, é absolutamente necessário purificar o espírito, tornando-o mais leve, e procurar, ainda que pouco a pouco, subir a um patamar superior — não existe absolutamente nenhum outro método além desse. E é justamente aí que reside o grande significado do Johrei. O Sermão Desde os tempos antigos, tudo que se chama religião tem, sem exceção, os preceitos como núcleo central, e todos sabem que esses preceitos foram ensinados por meio do sermão. Já em nossa Igreja Messiânica, como os próprios fiéis sabem, os sermões são extremamente escassos, e é provável que alguns tenham certa dúvida quanto a isso; além disso, quando perguntados por não fiéis, será preciso explicar o motivo — e é isso que vou escrever aqui. Não é preciso dizer que o propósito da religião é a correção dos erros e a escolha do bem, e, para isso, é necessário dissolver as nuvens da alma. Isso porque, uma vez que a alma se torna pura, torna-se impossível praticar o mal, e a pessoa se transforma em um ser humano admirável, que pratica o bem para o mundo e para os outros. Nesse sentido, o meio de purificar a alma pelo ensinamento que entra pelos ouvidos é o sermão; e o que faz o mesmo pelos olhos e pelo espírito da palavra são a Bíblia, as escrituras sagradas, o Ofudesaki, e assim por diante. Em nossa doutrina, embora também exista, até certo ponto, purificação pelos ouvidos, pelos olhos e pelo espírito da palavra, esses são meios secundários; o principal é o Johrei. Isso porque purificar através dos cinco sentidos é um método indireto — um método físico dirigido a uma alma que não se pode ver —, e por isso, naturalmente, seu efeito é limitado. Já o Johrei de nossa doutrina age diretamente sobre a alma, derramando sobre ela a luz espiritual para purificá-la, e por isso seu efeito não é, de forma alguma, comparável ao dos métodos físicos. Isso fica claro justamente como no caso da cura de doenças: doenças que não se curam mesmo depois de tentados incontáveis outros tratamentos são curadas, sem dificuldade, em pouco tempo. Sendo assim, como sempre digo, nossa doutrina não é uma religião — pode-se até dizer que é uma superreligião. E religião, como o próprio termo sugere, significa o ensinamento do fundador de uma seita, tendo por princípio salvar os corações das pessoas por meio do ensinamento; mas, como já disse, em nossa doutrina o ensinamento vem em segundo ou terceiro lugar, pois é pelo Johrei que as pessoas são transformadas para o bem — e, assim, sem exigir grande esforço nem tempo, o efeito chega a cem por cento. Não seria de forma alguma exagero dizer que isso está, verdadeiramente, além da própria religião. Por essa razão, não havendo ainda um nome apropriado, demos a ela, provisoriamente, o nome de Igreja Messiânica. Isso também não é de se estranhar, pois nunca antes houve uma salvação tão maravilhosa quanto esta, e por isso não havia, tampouco, um nome para ela. Se fosse preciso encontrar uma palavra, talvez não houvesse outra melhor do que "luz da salvação". Pragmatismo Em minha juventude, gostava de filosofia. Entre as diversas teorias, a que mais me atraiu foi o pragmatismo do célebre filósofo americano William James — o que, em japonês, poderíamos chamar de "filosofia da ação". Para James, limitar-se a expor teorias filosóficas não passa de uma espécie de jogo; a filosofia só adquire valor ao manifestar-se, adequadamente, em ação. Parece-me extremamente pragmático, e interessante justamente por ser tão característico de um filósofo americano. Identifiquei-me profundamente com essa ideia e, na época, esforcei-me para incorporá-la até ao trabalho e à vida cotidiana. Por isso, não foram poucos os benefícios que colhi do pragmatismo. Mais tarde, quando passei a crer na religião, passei a pensar que essa "filosofia da ação" também deveria se estender à religião — ou seja, a uma "religião da ação". Ao imaginar o quanto seria benéfico incorporar a religião em tudo, chego às seguintes conclusões. Primeiro, um político que procede assim, antes de tudo, não comete injustiças; por fazer uma política verdadeiramente voltada para o povo, sem pensar em si mesmo, recebe a confiança do povo, e a administração política flui com suavidade. Um homem de negócios, por sua vez, conduz os empreendimentos com sinceridade, granjeia grande confiança e trata os subordinados com afeto; estes lhe correspondem com lealdade, e o desenvolvimento torna-se sólido. Um educador, agindo desse modo, conduz a educação com firme convicção, é respeitado pelos alunos e exerce grande influência formadora. Funcionários públicos e empregados de empresas, quando têm fé, alcançam resultados excelentes e ascendem de posição. Um artista manifesta, em sua obra, um perfume elevado e um poder inspirador, exercendo boa influência sobre as pessoas. Um artista de espetáculos, tendo a fé como centro, reveste-se de dignidade, e o público, ao vê-lo, cultiva sentimentos elevados e recebe boa influência. Não falo, porém, de algo rígido, como um livro didático. Quero dizer que isso deve, sobretudo, fazer rir muito, trazer muita alegria e ser extremamente interessante. Além disso, qualquer que seja a profissão ou a situação de uma pessoa, não é difícil imaginar o quanto a religião posta em ação pode melhorar seu destino e contribuir para a sociedade. Aqui, porém, quero chamar a atenção para um ponto. Ao praticar essa "religião da ação", assim como não convém que o missô cheire demais a missô, também não convém que o fiel religioso cheire demais a religião — isso é digno de reprovação. Isso vale especialmente para os fiéis mais fervorosos. Há, no mundo, pessoas que parecem carregar a fé pendurada bem diante do nariz, para que todos vejam. Quem observa de fora sente uma espécie de desconforto; por isso, o ideal seria que a pessoa não tivesse absolutamente nenhum "cheiro" de religiosidade, não diferindo em nada de uma pessoa comum — apenas que suas palavras e ações fossem verdadeiramente admiráveis, gentis e despertassem simpatia nos outros. Em poucas palavras, é preciso ter uma fé refinada, sem o "cheiro de terra" de uma fé grosseira. Há certos fiéis tão fervorosos a ponto de quase serem confundidos com doentes mentais; e são justamente esses os mais extremamente subjetivos, que escurecem o próprio lar e não se importam nem um pouco com o incômodo que causam aos vizinhos — o que acaba levando as pessoas a duvidar da própria religião. A responsabilidade por isso é dos líderes, e penso que se deve ter muita atenção a esse respeito. Amor Daijo Quando se fala simplesmente em amor, é preciso saber bem que existe a distinção entre o amor Shojo e o amor Daijo. O mais extremo dos amores Shojo é, sem dúvida, o amor a si mesmo; em seguida vêm, na ordem, o amor aos parentes de sangue, o amor aos amigos, o amor ao grupo, o amor à classe, o amor à nação e o amor ao próprio povo — todos esses, até aqui, são, sem exceção, amores Shojo e, por mais ardentes que sejam, acabam por ser, no fim das contas, um mal. Isso porque, quanto mais forte esse amor, mais conflito ele gera. E o que seria, então, o amor Daijo? É justamente o amor à humanidade, o amor ao mundo, o amor de Deus. Por essa razão, por mais elaborados que sejam os argumentos apresentados, o amor Shojo é um amor limitado e, por isso, perigoso. A causa mesma da guerra está justamente nisso; assim, se quisermos eliminar por completo a guerra da humanidade, é necessário que esse amor ao mundo se espalhe por toda a humanidade e se torne o pensamento comum de todos — não há outro caminho possível para a total extinção da guerra. Por essa mesma razão, deve-se compreender que todo e qualquer conflito tem, em sua raiz, o amor Shojo. O inexplicável, porém, é que até mesmo as religiões que pregam o amor quase sempre abrigam conflitos dentro da própria congregação. É verdade que hoje não há conflitos religiosos de grande escala como antigamente; mas é fato histórico bem conhecido que, na Europa antiga, houve as Cruzadas e outras guerras religiosas, e que, também no Japão, antigamente, havia os chamados monges-guerreiros, que pegavam em armas para lutar. Sendo assim, uma religião em que há conflito já perdeu por completo a qualificação de religiosa. Nesse sentido, se uma religião é verdadeiramente autêntica, deve necessariamente pregar o amor ao mundo, e esse amor deve ser também colocado em prática — essa é a verdadeira forma da religião Daijo. Nossa Igreja Messiânica salva a humanidade tendo exatamente esse amor Daijo como princípio fundamental, e é por isso que traz consigo o nome do mundo. O Segredo da Felicidade Ao falar em "segredo da felicidade", talvez se pense que se trata de algum tipo de magia especial; não é nada disso — é algo extremamente simples e óbvio. Acontece que as pessoas, em geral, não se dão conta dessa obviedade. Se observarmos hoje a sociedade em seu conjunto, quantas pessoas verdadeiramente felizes existem? Provavelmente, pode-se dizer que não há sequer uma. É, de fato, um mundo de tanto sofrimento assim. Na realidade, qualquer pessoa vive presa por grilhões no pescoço e nos pés — fracasso, desemprego, doença, pobreza, discórdia, dúvida, pessimismo — e geme como se estivesse numa prisão: essa é, sem dúvida, a verdadeira face das coisas. Antes de tudo, quando qualquer pessoa reflete com calma, surge certamente esta pergunta: "Deus, que é o Criador de todas as coisas, tendo criado o ser humano, por que o faz sofrer tanto assim? Por que não cria um mundo com mais felicidade do que infelicidade?" — não há como não pensar assim. E, ao refletir sobre isso, percebe-se que há algo que não se explica facilmente. Por isso, penso que todos gostariam de saber o motivo desse ponto inexplicável, e vou tentar explicá-lo. Desde a era primitiva do surgimento do ser humano até os dias de hoje, o que permanece inabalável é, antes de tudo, o bem e o mal. Isso é verdade. E essas duas naturezas opostas — bem e mal — vivem em constante atrito e disputa, sem que até agora se tenha decidido qual delas vence. Mas, pensando bem, também é verdade que foi justamente por meio desse atrito entre o bem e o mal que se alcançou o desenvolvimento cultural que vemos hoje. A esse respeito, perguntam-me com frequência: "Se Deus é amor e compaixão, então esse tal 'Juízo Final', em que Ele faz o ser humano cometer más ações e criar pecados, para depois puni-lo por isso, não faz sentido algum. Se Ele não tivesse criado, desde o início, os maus, não haveria necessidade de punição nem de juízo, não é mesmo?" Isso é, de fato, muitíssimo razoável e, para dizer a verdade, eu também penso assim. Porém, se eu tivesse criado o ser humano, a explicação seria fácil; mas, sendo eu mesmo um ser criado, não há como dar uma explicação definitiva sobre isso — o máximo que se pode fazer é imaginar que a vontade de Deus deve ser assim, e não há outra forma de explicá-lo. Sendo assim, deixemos esse tipo de investigação para quem tem tempo livre; quanto a nós, ocupemo-nos do que é real: basta que, enquanto tivermos vida, consigamos ser felizes. Por isso, o mais importante é descobrir essa raiz e colocá-la em prática. E qual seria o método? É sempre o que costumamos dizer: tornar os outros felizes — apenas isso, uma única coisa. E existe, para isso, um método excelente. Eu mesmo o pratico há muito tempo e tenho obtido resultados maravilhosos; é justamente para ensiná-lo que escrevo este texto. Para dizer de forma simples: trata-se de praticar o bem tanto quanto possível. Sempre que houver um momento livre, deve-se procurar fazer algo de bom. Por exemplo: procurar alegrar as pessoas; para o bem do mundo, a esposa deve fazer com que o marido trabalhe com boa disposição, e o marido deve tratar a esposa com gentileza, dando-lhe tranquilidade e alegria. É natural que os pais amem os filhos, mas devem usar de sabedoria, pensando no futuro deles, sem autoritarismo — de modo que os filhos se submetam de bom grado e com carinho aos pais e estudem com prazer. Do mesmo modo, em todas as situações do dia a dia, deve-se procurar dar esperança ao outro, tratando superiores e subordinados com amor e gentileza e sendo o mais sincero possível. O político deve deixar de lado os próprios interesses e pôr a felicidade do povo em primeiro lugar, dando o exemplo em tudo. E, é claro, também as pessoas comuns devem se esforçar ao máximo para praticar o bem, com sabedoria e empenho. Dessa forma, é garantido: quanto mais bem uma pessoa pratica, mais feliz se torna. Imaginem agora o que aconteceria com a nação e com a sociedade se todos, unidos, praticassem o bem dessa maneira. Antes de tudo, tornar-se-ia o país mais ideal do mundo, respeitado por todas as nações. Como resultado, todos os problemas detestáveis desapareceriam, surgiria o Paraíso na Terra que proclamamos — livre de doença, pobreza e conflito —, e a felicidade do povo seria incalculável. E isso, garanto, é tão certo quanto o martelo que bate sobre a terra: ainda que erre o alvo alguma vez, jamais erraria. Mas a realidade de hoje, como é? É, em quase tudo, o oposto disso: os que se empenham arduamente em praticar o mal formam uma torrente incontível, mentindo, enganando os outros, buscando apenas o próprio benefício, sem que o dia lhes baste. Não é exagero algum dizer que se trata, verdadeiramente, de uma sociedade de maus. Assim, a felicidade jamais retornará — partiu para muito, muito longe. E, para piorar, o mais lamentável é que consideram esse mundo infernal como um estado social natural, sem sequer sonhar em reformá-lo. Há até quem atrapalhe deliberadamente nosso trabalho de transformar esse mundo infernal em paraíso. Isso é como escolher, por vontade própria, tornar-se infeliz, caindo no mais baixo dos infernos. Ao observar essas pessoas, não podemos vê-las senão como as mais dignas de pena entre os tolos; e, ao mesmo tempo, rogamos sempre a Deus pela salvação delas. Como isso já vai longo demais, encerro aqui minha pena; mas, se refletirmos bem sobre o que foi dito acima, veremos que ser feliz não é, de forma alguma, uma tarefa difícil. Vencer o Mal Desde os tempos antigos, a religião se desenvolveu tendo como base fundamental o princípio da não resistência absoluta. Até mesmo Cristo, fundador daquela grande religião de alcance mundial, disse: "Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda." Além disso, quando o próprio Cristo foi crucificado na colina do Gólgota, havia um ladrão amarrado ao poste ao lado, que lhe disse: "Ei, Jesus. Há pouco você vem murmurando algo, com um rosto triste — deve ser porque odeia quem te fez passar por criminoso, e está amaldiçoando-o." Cristo respondeu: "Não, não é isso. Eu estava orando a Deus, o Pai, pedindo que fossem perdoados os pecados daquele que me caluniou." Diz-se que, ao ouvir isso, o ladrão ficou estupefato — esta é a história famosa. Vendo esses exemplos, percebe-se como Cristo foi uma encarnação de um amor imenso. Também no caso de Buda Shakyamuni, diante das persistentes e variadas obstruções de Devadatta, ele provavelmente as interpretou como parte do treinamento no Caminho do Buda, e parece que não adotou nenhuma atitude de resistência. Como vimos, mesmo os dois grandes santos agiam assim, então é verdadeiramente claro que muitos dos santos e fundadores que seguiram essa corrente também eram assim. Apenas Nichiren foi contrário; sua ardente vontade de luta era tamanha que chegava a ser considerada excessiva. Mesmo observando seu famoso slogan "Nembutsu leva ao inferno, Zen é um demônio, Shingon arruína o país, Ritsu é um inimigo da nação", vemos quão intensa era sua crença exclusivista, algo com o qual nós mesmos temos dificuldade em concordar. Observando pelos exemplos acima, certamente o amor de Deus e a compaixão de Buda tocam o coração das pessoas, e isso se torna a base da reverência, nem é preciso dizer. No entanto, ao criticar os resultados, não se pode decidir facilmente o que é certo ou errado. Isso porque, mais de dois mil anos após a morte de Buda Shakyamuni e Cristo, o mal ainda não diminuiu; pelo contrário, vê-se até uma tendência de aumento. Fatos como o homem bom ser atormentado pelo homem mau, e o honesto ser feito de tolo, não diminuíram do passado até o presente, e parece que o progresso da cultura não tem absolutamente nenhuma relação com isso. Apenas os meios do mal se tornaram mais engenhosos com o progresso da cultura; quanto à sua essência, não há a menor diferença. Atualmente, no caso das sanções da lei, apenas a violência deixou de acompanhá-las um pouco. No entanto, pode-se dizer que, dependendo do caso, a gravidade aumentou. Deixando isso de lado, é preciso pensar bem sobre por que o mal não é erradicado. Nem é preciso dizer que a raiz disso é que o bem perde para o mal. Por causa disso, os maus se dão bem e constantemente tentam atormentar os bons. Acima de tudo, esses maus subestimam enormemente os bons. Penso que, em seu íntimo, eles desprezam completamente os bons, pensando: "Pessoas boas são extremamente tolas e certamente são covardes." Por outro lado, os bons também desistem, pensando: "Não podemos vencer os maus de jeito nenhum. Se resistirmos imprudentemente, podemos sofrer problemas inesperados ou ser prejudicados. Portanto, o melhor é ficarmos quietos, suportarmos e deixarmos passar. Não se sabe o quanto isso é mais vantajoso." Por essas razões, os maus se tornam cada vez mais arrogantes, afiam suas presas venenosas e praticam o mal com ousadia, desde que não sejam pegos pela lei. Esta é a atual condição da sociedade. O que foi dito acima diz respeito aos indivíduos, mas o que é ainda mais temível é o mal das autoridades e dos jornalistas. Isso pode ser visto também pelo incidente que experimentei recentemente, que está detalhado no "Registro das Perseguições", então quem o leu deve saber. Trata-se de as autoridades usarem a arma chamada lei a seu bel-prazer para atormentar o povo que não tem armas. De qualquer forma, como é insuportável para o povo ser acusado sem culpa devido ao abuso da lei, eles apelam para as emoções das autoridades, esperando que a pena seja um pouco mais leve. Por essa razão, até mesmo os advogados nos aconselham a não ferir os sentimentos do promotor e a causar uma boa impressão. Mesmo ao redigir um relatório, é necessário incluir palavras de súplica e apelo no texto. Vendo isso, percebi como era equivocada a nossa constante imaginação de que os magistrados respeitam a lei e julgam com justiça. Pode ser um exagero, mas, observando os métodos dos investigadores, percebi que, além da lei, a própria reputação e as emoções deles atuam de forma relativamente sutil. Em seguida, quero falar sobre os senhores jornalistas. Eles escrevem de forma quase insolente, com base em seu julgamento presunçoso. Nesse caso, não se importam se é verdade ou não, e, centrados apenas no interesse sensacionalista, são completamente indiferentes se causam problemas ou danos às pessoas. Alguém disse: "O jornal é o tirano do século XX", e acho que não está totalmente errado. Embora sempre falem em democracia, o fato de serem, na realidade, violentos no discurso se deve, provavelmente, à ausência de sanções severas contra a palavra. Por essa razão, quando nossa Igreja foi atacada repetidamente por artigos falsos de jornais no passado, fomos frequentemente aconselhados: "Pessoas ditas cultas, não importa o que escrevam, resistir é perda, então é melhor suportar e chorar no travesseiro. Especialmente se contrariar um grande jornal, não se sabe que tipo de tratamento se receberá, então o melhor é ficar quieto." Acima, escrevi sobre três casos: o dos indivíduos, o das autoridades e o dos jornais. Todos eles são exemplos de o mal vencer o bem. Por essa razão, as vítimas sempre priorizam interesses como suportar, chorar no travesseiro, não querer ter prejuízo, e acabam não resistindo. Assim, esses malignos se tornam cada vez mais arrogantes e não mostram sinais de parar. Dessa forma, mesmo que haja leis, seu poder como lei é grandemente reduzido, e o povo é sempre a vítima. É uma sociedade problemática. Se assim for, quando chegará o mundo onde os bons possam viver em paz? É realmente angustiante. Diante disso, mesmo nós, religiosos, alertamos, como sempre pregamos: "O bem não deve perder para o mal. O bem que perde para o mal não é o verdadeiro bem; não passa de covardia." Especialmente, quando se trata dos religiosos, parece que os veem de forma diferente das pessoas comuns. Como os religiosos adotam o princípio da não resistência, eles nos menosprezam de antemão, pensando que, por mais que nos maltratem, não haverá grande problema. Aqui reside a fraqueza da religião. Ou melhor, somos considerados fracos. Portanto, é claro que devemos eliminar essa concepção satânica deles, e, nesse sentido, devemos lutar energicamente contra o mal. Acima de tudo, quando os grandes jornais atacavam nossa Igreja ferozmente no passado, nossa Igreja nunca temeu e lutou contra o mal deles até o fim através de nosso jornal oficial, como vocês devem saber. Por essa razão, mesmo que tentem nos esmagar com grande força, lutaremos resolutamente até que a outra parte reflita. O que mais seria a verdadeira vontade de Deus senão isso? Portanto, como o mal não pode, de forma alguma, prevalecer sobre o bem, fazê-los perceber que abandonar o mal e mudar para o bem é a melhor estratégia. Esta deve ser a forma de uma religião viva. Pensando nisso em grande escala, fica ainda mais claro. A lógica é a mesma dos Estados Unidos, que hoje, acreditando que a paz mundial não surgirá a menos que façam as nações que agridem pela força militar perceber que o mal não leva ao sucesso e desistir da agressão, estão dedicando seu poder nacional para ajudar vários países. Sustentei este princípio consistentemente até hoje e tenho a convicção de que nunca serei derrotado pela injustiça. Para dar um exemplo, há uma disputa judicial sobre terras que vem se arrastando desde antes, na qual sou réu. Não se surpreendam, mas este ano completa exatamente quatorze anos, e ainda não terminou. De qualquer forma, a altura dos documentos acumulados é de mais de trinta centímetros, e cada vez que o juiz muda, ele tem que ler tudo desde o início, então os juízes ficam exaustos e recomendam fortemente um acordo. No entanto, como luto fundamentalmente contra a injustiça, coloco os interesses em segundo plano. Se a outra parte reconhecer seu erro e apresentar condições justas, responderei imediatamente; caso contrário, nunca farei um acordo. Falei longamente, mas a conclusão é que o propósito original da religião é encorajar o bem e punir o mal, portanto, nunca se deve perder para o mal. Porque, na medida em que o bem vence, o mal diminui, e a sociedade melhora proporcionalmente. Dessa forma, o Paraíso na Terra nasce. Vença o Próprio Mal Interior Anteriormente, escrevi um artigo intitulado "Vença o Mal", que significava que não se deve perder para os maus. Desta vez, porém, não se trata dos outros, mas de vencer o mal que habita no próprio íntimo. Em qualquer ser humano, dentro de seu íntimo, o bem e o mal estão sempre em batalha. É a luta para suprimir aquilo que o budismo chama de desejos mundanos. De qualquer forma, os desejos humanos são insaciáveis, então os servos do mal, como "quero dinheiro, quero mulheres, quero poder, quero fama, quero fazer minha vontade", estão sempre tentando levantar a cabeça, e o servo do bem os reprime, dizendo: "Não se pode fazer isso, tome cuidado, se fizer, vou lhe dar uma lição severa." E o servo do bem também diz: "Faça as pessoas felizes, faça com que todos os outros sejam felizes." O bem e o mal lutam, lutam e lutam incessantemente; esta é a verdadeira condição do ser humano, o rei da criação. Por essa razão, se o mal vence, cometem-se pecados e gera-se infortúnio; se o bem vence, gera-se felicidade. Isso é perfeitamente claro, e parece simples, mas os humanos, mesmo sabendo disso, não conseguem colocá-lo em prática. Especialmente os que não têm fé. Por outro lado, os crentes conhecem bem isso, por isso perdem para o mal com muito menos frequência. No entanto, na verdade, não é uma tarefa fácil. É claro que quem faz com que se pratique o mal é o espírito protetor secundário, e quem faz com que se pratique o bem é o espírito protetor guardião. Acima deles, o comandante do bem absoluto é o espírito protetor primordial. Portanto, em última análise, trata-se de aumentar o poder do espírito protetor primordial, e este é o poder para conquistar o mal fundamental. Por isso, o ser humano deve sempre se esforçar para cultivar esse poder, e o único método para isso é adorar a Deus e aprofundar a fé. Não há outra maneira de se tornar uma pessoa feliz. Presença ou Ausência de Sinceridade Vou escrever sobre o método mais simples para saber se há ou não sinceridade. Uma pessoa sincera, acima de tudo, valoriza e cumpre bem as promessas. As pessoas comuns não dão muita importância ao simples fato de cumprir ou não uma promessa, mas, na verdade, não é bem assim. Isto é, não cumprir uma promessa equivale a enganar alguém, portanto, comete-se uma espécie de pecado. Entre as promessas, a que mais tende a ser menosprezada é a do tempo. É bom pensar bem sobre o fato de marcar um horário e não cumpri-lo. Isto é, a outra parte conta com isso e espera, e o tédio e a ansiedade disso são bastante dolorosos. Como se pode entender pelo provérbio "Antes ser a pessoa esperada do que a que espera", deve-se compreender o sentimento de quem espera. Se esse sentimento não surge, é porque não há sinceridade. Se assim for, por mais que outras coisas sejam boas, de nada adiantam. Portanto, aqueles que são crentes de Deus não devem negligenciar o cumprimento rigoroso das promessas e a observância pontual do tempo. Se não conseguirem fazer isso, são, antes de tudo, alunos reprovados na fé. Aqueles que são crentes devem gravar isso profundamente em seus corações e nunca esquecer. Não Se Irrite Há um ditado antigo e famoso: "Suportar o que se pode suportar, qualquer um suporta; suportar o que não se pode suportar, isso é verdadeira paciência." E também: "Carregue sempre o saco da paciência ao pescoço; se rasgar, costure; se rasgar, costure." É exatamente isso. Muitas vezes me perguntam: "Mestre, que tipo de treinamento o senhor fez para chegar onde está? Entrou nas montanhas e tomou banho de cachoeira? Fez jejum? Não fez várias práticas ascéticas?" No entanto, respondo: "Nunca fiz esse tipo de treinamento. Meu treinamento principal consistiu em duas coisas: suportar o sofrimento das dívidas e suportar a raiva." Quem ouve isso fica estupefato. Mas, como é a verdade, não há o que fazer. Acredito que Deus fez isso para me lapidar. Os motivos para a raiva, em especial, vinham um após o outro, como se dissessem: "Aguenta isso, aguenta aquilo." Por temperamento, não costumo me irritar, mas, curiosamente, era arrastado para a raiva. Certa vez, fui terrivelmente mal interpretado e submetido a uma humilhação tão grande que não podia olhar nos olhos da maioria das pessoas. Minha indignação não tinha para onde ir, e eu já não conseguia suportar. Foi então que, chamado de um lugar sem alternativa e por circunstâncias que não pude recusar, fui àquela casa. A cabeça confusa, não conseguia me concentrar. Não havendo o que fazer, para me distrair, pedi uma dose de saquê e bebi. Naquela época, eu não bebia uma gota de saquê, portanto foi uma situação excepcional. Assim, depois de dois ou três dias, recuperei gradualmente a calma. Mais tarde, porém, descobri que, por causa daquela raiva, pude evitar um grande desastre. Se não a tivesse sentido naquele momento, teria sofrido um golpe fatal. Fui salvo precisamente pela raiva, e não pude deixar de me emocionar com a profunda graça de Deus. Como vimos, Deus lapida a alma e o corpo de várias maneiras naqueles que têm uma missão importante; e creio que controlar a raiva é a maior dessas provações. Deve-se pensar, portanto, que quanto mais uma pessoa se ira, maior é a missão que lhe foi confiada. Nesse sentido, se alguém consegue não se perturbar diante de qualquer raiva e permanecer sereno, pode-se dizer que já superou uma etapa do treinamento. Há uma história interessante a esse respeito, da era Meiji (1868–1912). Havia um homem chamado Takei Nakano, então presidente da Câmara de Comércio. Dizia-se que o Sr. Nakano nunca se irritava, fosse qual fosse a situação. Alguém lhe perguntou a razão. O Sr. Nakano disse: "Eu era, por natureza, muito irritadiço. Um dia, quando visitei o famoso empresário Eiichi Shibusawa, também da época, ouvi da sala ao lado uma discussão entre o Sr. Shibusawa e sua esposa. Ao saber da minha visita, o Sr. Shibusawa abriu a porta de correr e sentou-se. Seu rosto estava tão calmo e gentil como de costume, que não parecia que acabara de discutir. Fiquei impressionado e senti algo: era o poder de controlar a raiva. Pensei: 'Foi por isso que o Sr. Shibusawa teve tanto sucesso a ponto de ser chamado de grande figura do mundo empresarial. Está bem, eu também preciso aprender a controlar minha raiva facilmente.' Depois que comecei a me esforçar nisso, tudo correu bem e alcancei a posição que tenho hoje." Antes de tudo, quando estiverem prestes a se irar, devem pensar que Deus os está lapidando. Essa é a postura de um crente. Esqueci de escrever sobre dívidas. Pela minha experiência, a causa das dívidas é a pressa. A pressa leva a fazer coisas forçadas — e fazer coisas forçadas é o pior de tudo. As coisas feitas à força, ainda que tenham sucesso temporário, mais cedo ou mais tarde a força cobra seu preço, e surgem obstáculos inesperados. Por isso, mesmo que pareçam andar rápido, no fim acabam retrocedendo e precisando ser refeitas. Se examinarmos bem as causas da derrota do Japão na guerra, tudo ali estava repleto de coisas forçadas. Em primeiro lugar, quando se está com pressa ou se faz algo forçado, não há espaço na mente, e boas ideias não surgem. Tentar, ainda assim, fazer algo à força é pior. Deve-se agir somente depois que uma boa ideia surge — ou seja, um plano de que se tem certeza de que não dará errado. É o chamado "reflexão cuidadosa e ação decisiva". Portanto, depois de exaustiva pesquisa, quando se tem a certeza absoluta de que não dará errado, contrair dívidas é inevitável. No entanto, uma vez contraída a dívida, deve-se pagá-la o mais rápido possível, nunca a prolongando. Por natureza, as dívidas são difíceis de pagar; se demoram, os juros se acumulam e o sofrimento mental é considerável. A mente perde a folga, boas ideias e sabedoria não surgem, e o trabalho não pode ir bem. As dívidas também podem ser ativas ou passivas. Fazer dívidas para desenvolver o negócio é ativo; fazê-las para tapar buracos de prejuízos é passivo. As ativas podem ser consideradas inevitáveis; as passivas, nunca devem ser feitas. Quando se sofre um prejuízo, deve-se parar de bancar o valente, reduzir o tamanho de imediato e esperar a oportunidade chegar. Há mais uma coisa que quero destacar: não ser ganancioso. Como diz o provérbio antigo "A grande ganância é a ausência de desejo", a causa dos prejuízos é, oito ou nove em cada dez, a ganância excessiva. Muitas vezes as pessoas trazem histórias boas demais para ser verdade, como "bater na bochecha com um bolinho de arroz doce", mas no mundo não existem coisas boas assim. Portanto, deve-se desconfiar de histórias boas demais; as histórias pouco atraentes é que têm potencial para o futuro. Vou contar minha experiência a esse respeito. Quando eu queria pagar as dívidas rapidamente, achava que precisava administrar ativamente os assuntos religiosos e desejava muito, muito dinheiro — mas o dinheiro simplesmente não entrava. No fim, desisti, entreguei tudo a Deus e, depois que comecei a esquecer as questões financeiras, o dinheiro começou a entrar de forma inesperada. Pensei que, de fato, as coisas do mundo não podem ser compreendidas pela lógica. O Sol e a Lua Vou explicar o sol e a Lua do ponto de vista religioso. É um assunto extremamente misterioso e profundo, e não posso negar que possa parecer forçado em alguns pontos. No entanto, como é a verdade, peço que leiam com o coração sereno para compreendê-lo. No Japão antigo, existem os Três Tesouros Sagrados: a joia, a espada e o espelho. A joia representa o sol; a espada, a lua; e a terra é simbolizada pelo espelho. A joia tem a forma do sol, a espada tem a forma do crescente lunar, e o espelho, chamado de Yata no Kagami, é dividido em oito partes convexas — isto é, representa as oito direções: leste, oeste, sul, norte, nordeste (ushitora), sudeste (tatsumi), sudoeste (hitsujisaru) e noroeste (inui). Desses três, a terra é óbvia e dispensa explicação; o sol e a lua, porém, têm significados profundos, e é sobre eles que vou escrever. Para facilitar a compreensão, vou tomar emprestada a explicação da Tenrikyo. Segundo ela, a lua (tsuki) significa "empurrar" (tsuku), e o sol (hi), "puxar" (hiku). Assim, sol e lua significam puxar e empurrar. Acho essa interpretação bastante interessante. No Mundo da Noite, gosta-se de empurrar em tudo. Em grande escala, as nações empurram umas às outras — a guerra é isso. A palavra "conflito" (shoutotsu) também significa empurrar-se mutuamente. É claro que, na antiguidade, as guerras eram travadas com espadas, empurrando umas contra as outras. Isso se transformou, e o ato de se relacionar socialmente também é chamado de "tsukiau" (relacionar-se). Embora os caracteres sejam diferentes, o espírito da palavra é o mesmo. A expressão "avançar empurrando" (tsukisusumu) significa vitória; é inteiramente a função da lua, representando o Mundo da Noite. Em contraste, "hiku" significa recuar. Atrair, retirar as tropas, ser derrotado, ser humilde — tudo isso é o oposto da lua. Por essa lógica, no Mundo do Dia, tudo é função do "puxar"; portanto, perder é considerado bom. Nos humanos, isso é a humildade. Dessa forma, não há como surgirem conflitos. Em nosso meio, consideramos bom "pegar um resfriado" (kaze o hiku). O objetivo de nossa Igreja é criar um mundo sem doença, pobreza e conflito. Que o "conflito" desapareça pode ser compreendido a partir do que foi dito acima. Como nossa Igreja tem como principal atividade a ação do sol, ou seja, do Elemento Fogo, devemos agir tendo em mente o "puxar", não o "empurrar"; assim, muitas pessoas serão atraídas. Além disso, o sol é uma joia; portanto, deve ser pleno, límpido, maleável e sem atritos. A Prática da Humildade ────────────────────────────────── A Prática da Humildade ────────────────────────────────── A expressão "prática da humildade" (geza no gyou) existe desde os tempos antigos, e essa prática é surpreendentemente importante na vida em sociedade — especialmente para os crentes. Frequentemente vejo que, em grupos religiosos, os mestres que pregam a doutrina parecem carecer dessa prática. Há provérbios antigos como "O falcão habilidoso esconde as garras" e "Quanto mais maduro o arroz, mais baixo inclina a cabeça a espiga", todos falando sobre a prática da humildade. Querer se gabar, querer parecer importante, querer bancar o sábio, querer se vangloriar — essas vontades, ao contrário, produzem o efeito inverso. Quando se começa a ser um pouco reconhecido pelos outros, bancar o importante é uma fraqueza humana. Aqueles que antes trabalhavam em ocupações comuns, viviam como as pessoas comuns ou estavam na base da sociedade, quando de repente passam a ser chamados de "mestre", pensam: "Será que pareço tão importante assim?" Inicialmente, sentem alegria e gratidão, mas, com o passar do tempo, na maioria das pessoas surge o desejo de parecer ainda mais importante. Até aí tudo bem; mas, a partir daí, as coisas começam a não ser agradáveis: passam a causar desconforto aos outros, embora a própria pessoa dificilmente perceba. Parece que Deus detesta profundamente a arrogância. A virtude da humildade e a sua prática são verdadeiramente valiosas, especialmente na vida cultural. Em locais com muitas pessoas, ou ao andar de trem ou bonde, agir empurrando os outros ou sentando-se arrogantemente em bons assentos é uma espécie de psicologia de exclusividade, e não é agradável. Criar uma sociedade harmoniosa e agradável é a verdadeira manifestação do pensamento democrático, e isso não mudou nem um pouco do passado ao presente. A Suavidade e o Refinamento De modo geral, quando observamos os seres humanos modernos, o que mais lhes falta é provavelmente a suavidade e o refinamento. Começo pela nossa Igreja. Para avaliar o quanto a fé de alguém progrediu e o quanto sua alma e seu corpo foram lapidados, existe um critério, e não é difícil aplicá-lo. Antes de tudo, a pessoa deixa de sentir prazer em competir com os outros; a suavidade aflora e o refinamento transparece. Quando adquire esse coração e essa atitude, pode-se considerá-la lapidada — e aí reside o maior valor da fé. Uma pessoa assim é amada e respeitada por todos e se torna uma propaganda silenciosa. No entanto, no mundo de hoje, essa suavidade e esse refinamento estão extremamente ausentes. Onde quer que se olhe, só se vê a procura de falhas nos outros, o ódio e a censura excessiva — coisas verdadeiramente feias que saltam aos olhos. Sobretudo, falta quase por completo ao homem moderno o refinamento. Em tudo se vê um apego obstinado ao próprio interesse, uma tendência a expor tudo, um espírito argumentativo e pouca preocupação em ser detestado — o que só se pode considerar um liberalismo degenerado em egoísmo. O mais lamentável é a tendência a expor os assuntos alheios, o espírito de exclusão e a extrema frieza de sentimentos. Com a multiplicação desse tipo de pessoa, a sociedade se torna sombria e fria, e os pessimistas em relação à vida aumentam cada vez mais; talvez resida aí também a causa do grande número de suicídios nos últimos tempos. A verdadeira sociedade culta, portanto, é aquela em que cresce o número de pessoas que seguem princípios como o cavalheirismo britânico ou o espírito filantrópico americano, e em que a boa prática da moral social faz nascer uma sociedade agradável e boa para se viver. Se essa sociedade assim constituída é o próprio paraíso neste mundo, então o paraíso está, de fato, bem ao nosso alcance. Sob outro ângulo, hoje se proclama que a indústria do turismo é uma questão da mais alta urgência como política nacional. As instalações materiais são, de fato, muito necessárias, mas causar boa impressão aos visitantes estrangeiros deve ser uma necessidade ainda maior. Ao lidar com os visitantes estrangeiros, reunir estas três qualidades — gentileza, refinamento e limpeza — será, sem dúvida, o meio mais eficaz de atraí-los, e não custa um único centavo. A condição fundamental para formar esse tipo de pessoa é, sem dúvida alguma, a fé; e é sob essa orientação que nossa Igreja avança com determinação. A Alma de Izunome Já falei e escrevi inúmeras vezes sobre a alma de Izunome, mas, ao que parece, é um tema tão difícil que muito poucas pessoas conseguem realmente colocá-lo em prática. No entanto, não é assim tão difícil. Uma vez compreendida a base e transformada em hábito, é possível praticá-la com surpreendente facilidade. A razão por que as pessoas não conseguem praticá-la é justamente essa ideia preconcebida de que se trata de algo muito difícil. Além disso, penso que há também quem não dê a ela a devida importância — por isso não posso deixar de voltar ao tema repetidas vezes. Em poucas palavras, Izunome é o princípio de não se inclinar para nenhum dos lados, seguindo o caminho do meio. Não é Shojo, não é Daijo — ou melhor, é Shojo e Daijo ao mesmo tempo. Ou seja, não correr para os extremos, não decidir as coisas de forma precipitada. Dito isso, é claro que aquilo que deve ser decidido precisa ser decidido; mas é justamente nesse discernimento que reside a dificuldade — é, por assim dizer, como cozinhar: não pode ser doce demais, nem salgado demais; é o ponto certo de tempero. O mesmo se pode dizer do clima: nem quente demais, nem frio demais — como o clima ameno da época do equinócio, sem dúvida a estação mais agradável. Do mesmo modo, se a disposição de espírito e as ações do ser humano se tornarem assim, é natural que a pessoa seja bem quista por todos e que tudo lhe corra bem. Mas como é o ser humano de hoje? Na verdade, tende fortemente a se inclinar para um lado ou para o outro — e isso se manifesta claramente, por exemplo, no campo da política. Hoje se fala em direita e esquerda, defendendo, desde o início, princípios já inclinados para um lado. Com isso, o modo de pensar se torna extremista e, como o ego é forte, os conflitos nunca cessam ao longo do ano — um grande prejuízo para a nação e para o povo. Nesse sentido, é natural que também a política precise seguir o modelo de Izunome, mas parece muito difícil encontrar políticos ou partidos que se deem conta disso. As pessoas capazes de se aproximar de nós, nesse sentido, são realmente muito poucas; e a própria causa da guerra também está aí — é, sem dúvida, o resultado do pensamento que tenta impor um desses dois princípios extremos. Examinando bem os conflitos também no campo da fé, vemos que eles derivam igualmente da diferença entre Shojo e Daijo — isto é, entre sentimento e razão. Nesse caso, basta encurtar pela metade o pilar vertical e encurtar também pela metade o pilar horizontal: eles se igualam, permitindo uma solução harmoniosa. Portanto, pensando bem, a reconciliação também não é assim tão difícil. A esse respeito, é comum acontecer o seguinte: Em qualquer campo, há sempre conservadores e progressistas, e o mesmo ocorre na religião. No conflito entre esses dois grupos, o primeiro é formado por fiéis antigos, rigidamente apegados à tradição e avessos a qualquer novidade — poderíamos até chamá-los de "fiéis de topete samurai" — já o segundo, embora progressista, inclina-se tanto para o novo que tende a rejeitar tudo o que é antigo. Daí nasce a divergência de opiniões e o conflito entre eles; mas, se ambos seguissem o modelo de Izunome, tudo se resolveria sem dificuldade alguma. Mesmo na religião, o essencial é conhecer profundamente o espírito da época. No entanto, os religiosos tendem a ser indiferentes ao seu tempo, e há até uma forte tendência a considerar isso positivo, tomando como regra sagrada tradições de centenas ou milhares de anos atrás. É verdade que a fé é algo espiritual, vertical, uma verdade eterna e imutável, e por isso não pode ser distorcida — isso está correto; mas o mesmo não vale para o Plano Divino, que pertence ao plano material e, portanto, deve mudar conforme a época. Ou seja, é o funcionamento pleno tanto do espiritual quanto do material — em suma, é preciso seguir sempre o modelo de Izunome. Nesse sentido, é claro que, hoje em dia, pensar que estamos na mesma época de Shaka Buda ou de Cristo e tentar aplicar seus ensinamentos e métodos tal como eram não conseguirá, de forma alguma, tocar a alma do ser humano contemporâneo. É preciso compreender que o declínio das religiões estabelecidas se deve justamente a esse ponto. Em suma, basta compreender que a atividade de Izunome é, ela mesma, a verdade fundamental de todas as coisas — e é por isso que sempre ensino o significado de Izunome e peço aos fiéis que o compreendam bem. Não Julgueis os Outros De vez em quando me perguntam se é certo ou errado repreender outra pessoa; vou escrever sobre isso aqui. Para dizer a verdade, o poder de julgar as pessoas pertence somente a Deus, e quando um ser humano repreende outro ser humano, está, na realidade, usurpando o lugar de Deus. Por outro ângulo, o resultado de repreender alguém raramente é bom — na maioria das vezes, produz o efeito contrário. Falando por mim mesmo: quando vejo alguém cometer um erro, finjo não ver e deixo passar. Mais cedo ou mais tarde, chega o momento em que esse erro bate de cabeça contra a realidade. É então que a pessoa desperta por si mesma e se arrepende de coração. Um exemplo: é como uma grande pedra rolando ladeira abaixo — tentar detê-la não adianta, ela jamais para; e, se alguém tentar detê-la à força, acaba se machucando. Por isso, o melhor é esperar que ela caia e, depois de caída, levantá-la com calma. Ainda assim, é bom avisar de antemão que agir daquela forma acabará em fracasso — pois, quando a pessoa finalmente bater a cabeça, logo perceberá: "Ah, era isso que me disseram antes." Como visto acima, quando um ser humano repreende outro, reprimindo-o à força pelo poder ou por qualquer outro meio, ameaçando-o ou amarrando-o com preceitos e regras, isso só tem efeito temporário; mais cedo ou mais tarde, haverá sempre uma reação contrária, e o resultado final não será bom. Só é verdadeiro quando a própria pessoa reconhece seu erro e se arrepende de coração. Isso também se aplica à medicina. A medicina moderna tenta deter as doenças com diversos instrumentos materialistas de repressão; é verdade que, por algum tempo, isso pode funcionar, mas sempre haverá uma reação, e a doença retornará — e, dessa vez, de forma pior do que a original. Por isso, em nossa terapia divina, não se utiliza absolutamente nenhum instrumento de repressão; deixa-se que o próprio doente se cure naturalmente, por meio de seu poder curativo inato. O método que aumenta esse poder curativo, esse sim, é a verdadeira terapia. Destino e Liberalismo Frequentemente me perguntam sobre o destino predeterminado e o destino mutável; vou explicar aqui. Antes de mais nada, o destino predeterminado é algo determinado, dado a cada pessoa, que não pode ser alterado nem um pouco. O destino mutável, por sua vez, é livre e desimpedido dentro de certos limites definidos; conforme o esforço da pessoa, é possível alcançar o ponto mais alto dentro desses limites ou, ao contrário, cair ao ponto mais baixo. O liberalismo, hoje assunto de tanto interesse geral, assemelha-se bastante a esse destino mutável. Isso porque o verdadeiro liberalismo é algo restrito dentro de certos limites definidos; a liberdade infinita jamais pode existir. A verdadeira liberdade é limitada, isto é, finita. Quando se ultrapassam esses limites, viola-se a liberdade alheia, e a pessoa se torna uma rebelde contra a cultura — pela mesma lógica pela qual, ao se ultrapassarem os limites do destino mutável, a pessoa se torna um fracassado. A Teoria da Harmonia Desde os tempos antigos, fala-se muito em harmonia, e, ao ouvir apenas essa palavra, pode-se pensar que se trata de algo bom, quase evidente por si mesmo; mas, na verdade, há um ponto que não se pode aceitar sem reflexão. Esse modo de pensar não está de todo errado, porém é superficial. Ao aprofundarmos a questão, chegamos ao seguinte: antes de tudo, tudo neste vasto universo está, sem exceção, em harmonia — não há a menor desarmonia sequer. Portanto, o que parece desarmônico aos olhos humanos é apenas aparência superficial. Com efeito, a desarmonia é algo criado pelo próprio ser humano, e sua causa está em ir contra a natureza. Ou seja, do ponto de vista da Grande Natureza, aquilo que surge como desarmonia por meio da oposição à natureza é, na verdade, a verdadeira harmonia — e essa é a verdade estrita e imparcial. Nesse sentido, basta que o ser humano obedeça às leis do céu e da terra para que tudo se harmonize e avance sem percalços. Como vimos, se a grande harmonia da natureza consiste em que a desarmonia nasce de criarmos a desarmonia e a harmonia nasce de criarmos a harmonia, então o ser humano, ao conhecer isso em profundidade, tornar-se-á, por meio desse conhecimento, um ser feliz. A melhor prova disso é que, mesmo havendo desarmonia agora, ela pode se tornar harmonia com o passar do tempo; e, mesmo quando nos sentimos seguros pensando que há harmonia, é comum que, sem que percebamos, ela se rompa e se torne desarmonia. Isso, que é a verdadeira face das coisas neste mundo, merece ser bem ponderado. Em outras palavras, deve-se compreender que a desarmonia é a visão própria de Shojo, e a harmonia é a visão própria de Daijo. Impasse Não são apenas as pessoas comuns; os próprios fiéis também costumam usar com frequência a palavra "impasse" (yukizumari). Mas isso se deve a não compreenderem a verdadeira face das coisas: tudo se desenvolve justamente porque há impasse — ou seja, na realidade, não se trata de um impasse. É exatamente como parar um instante para descansar porque não se aguenta correr sem parar para respirar — é, por assim dizer, um nó (fushi). Basta observar o bambu para entender: ele cresce e forma um nó, cresce e forma outro nó, e é justamente por isso que cresce forte; se crescesse apenas, sem formar nós, jamais se tornaria aquele bambu tão resistente. Por isso, quanto menos nós tem o bambu, mais fraco ele é; quanto mais nós tem, mais forte é. Assim, a natureza ensina tudo isso; por isso, observando atentamente a grande natureza em qualquer questão, geralmente se pode compreender as coisas. O que escrevi acima foi sobre o impasse natural; o problema, porém, é que não são poucas as pessoas que criam impasses de forma artificial, e isso se deve justamente à falta de sabedoria — porque não conseguem prever que, agindo assim, algo se tornará assim. São precisamente essas pessoas que esbarram numa parede e ficam completamente travadas, sem poder avançar nem recuar. Por isso, quem ler isto deve guardá-lo bem no fundo do coração e, ao se deparar com um impasse, olhar para trás e refletir com calma — assim, deverá compreender. Basta, com isso, perceber em que ponto algo saiu errado; o ser humano deve, continuamente, polir sua sabedoria e, para isso, deve ler as escrituras sagradas o quanto possível. Espere o Momento Certo Ao observarmos atentamente as diversas áreas da sociedade, vemos que são realmente numerosos os que fracassam. Se o resultado desse fracasso trouxesse sofrimento apenas à própria pessoa, bastaria resignar-se dizendo que o método foi ruim ou que faltou sorte; mas, na verdade, não é só isso. O que acontece é que o fracasso de uma única pessoa pode lançar sua família à rua e causar transtornos até a parentes e conhecidos, constituindo, assim, uma espécie de mal social. É claro que, no início, a intenção não era má; mas, vendo o resultado, não é um problema que se possa tratar com leviandade. Sendo assim, é preciso examinar a fundo a causa desses fracassos. E, ao fazê-lo, descobrimos que a causa está justamente onde a maioria das pessoas não costuma reparar. Isso porque, ao começar algo, a pessoa costuma planejar tudo cuidadosamente e se preparar sem deixar nada a desejar; mas, ao colocar em prática, não só as coisas não saem como esperado, como surgem obstáculos e imprevistos, deixando a própria pessoa confusa quanto ao julgamento, sem saber mais o rumo a seguir — esse é o caminho por que passa, invariavelmente, todo aquele que fracassa. Vou explicar onde está a causa disso. Em poucas palavras, isso acontece porque se ignora o momento certo. Entre todos os assuntos humanos, não há nada tão absoluto quanto o momento certo. Por exemplo, tanto as flores e frutos quanto as plantações agrícolas — tudo tem seu momento próprio. Se não estiver de acordo com o momento certo, por melhores que sejam as demais condições, não se pode obter um bom resultado. É porque se plantam os bulbos das flores de outono que elas desabrocham na primavera. É porque se semeiam sementes e se plantam bulbos na primavera que as belas flores desabrocham do verão ao outono. Também os frutos têm seu tempo determinado de amadurecimento. Colhidos antes de amadurecerem, não se pode comê-los. Só quando colhidos no ponto certo de maturação é que se tornam um alimento saboroso. Também nas plantações agrícolas, a semeadura, o transplante e tudo o mais têm seu momento adequado. E, claro, é preciso também que estejam de acordo com o clima e o solo da região. Como vimos acima, a grande natureza ensina ao ser humano a importância do momento certo, e a face da grande natureza, tal como ela é, é a própria verdade. Por isso, o ser humano, ao realizar qualquer coisa, deve tomar a grande natureza como modelo. Aprender com ela é a maior condição para o sucesso. Nesse sentido, tanto a terapia espiritual divina quanto o cultivo sem fertilizantes que eu proponho, assim como os demais métodos, têm por base seguir a grande natureza, e por isso quase não conhecem fracasso, obtendo os resultados esperados. Por isso, ao planejar algo, jamais me apresso. Observo com calma sob todos os ângulos possíveis, reflito profundamente uma e outra vez, confirmo que, sob qualquer aspecto, aquilo é correto, é benéfico para a sociedade e para a humanidade, e tem vida eterna — e só então preparo tudo com cuidado e espero o momento certo. Mas a maioria das pessoas não consegue ter a paciência de esperar esse momento. Como começam antes que o momento tenha amadurecido, surge um descompasso entre o plano e o momento, as coisas não saem como o esperado, a pessoa se apressa, o descompasso se agrava cada vez mais e, por fim, vem o fracasso — essa é a sequência costumeira. Por isso, o essencial é ter paciência durante o período que antecede a chegada do momento certo. Toda coisa tem, sem dúvida, seu momento exato. Desde os tempos antigos existem provérbios como "quem espera, encontra bom tempo no mar", "a boa sorte se espera deitado" e "mire e atire com precisão" — e são inteiramente verdadeiros. Houve, no passado, muitas pessoas que se impacientavam bastante com esse meu modo de proceder. Também havia quem me trouxesse diversas sugestões e pedidos; e, mesmo quando eu prometia adotá-los, como demorava a colocá-los em prática, alguns se impacientavam ou estranhavam. Da minha parte, eu simplesmente não agia porque o momento ainda não havia chegado. Desde os tempos antigos existem expressões como "aproveite a oportunidade", "monte na onda dos ventos e nuvens" ou "não deixe escapar a ocasião" — todas elas expressam muito bem esse princípio. E como se julga, então, esse momento propício? Antes de mais nada, quando todas as condições estão reunidas e, a julgar pelo clima geral, surge um ímpeto irrefreável de que o plano precisa, de qualquer forma, ser executado — é justamente nesse momento que a ocasião amadureceu por completo; e, ao se começar então, tudo flui sem o menor esforço, com facilidade. Por isso, não é preciso mais força alguma — tudo corre bem naturalmente. Em suma, tudo se resume a essas quatro palavras: refletir profundamente e agir com decisão. Por exemplo, ao deixar cair um objeto pesado ladeira abaixo, há algo que o prende. Tentar movê-lo à força exige esforço. Mas, se tivermos paciência e esperarmos, o obstáculo vai enfraquecendo pouco a pouco sob o peso da pedra, até que, no momento certo, basta empurrar com um único dedo para que ele role sem dificuldade. "Se não cantar, esperarei até que cante, ó cuco" — verso que satiriza o temperamento de [Tokugawa] Ieyasu — e o fato de ele ter mantido viva sua linhagem por trezentos anos deveu-se, justamente, a essa capacidade de esperar o momento certo. Por tudo isso, compreende-se o quão importante é o momento certo. Nas escrituras sagradas da fundadora da religião Oomoto está escrito: "Nem mesmo os deuses podem vencer o tempo certo" — expressão que, em poucas palavras, capta essa verdade com admirável precisão. Não Erres a Ordem Desde os tempos antigos existe a expressão "Deus é ordem", e isso é algo importantíssimo em tudo, que se deve ter sempre em mente. Basta observar o movimento de todos os fenômenos da natureza para compreender: tudo se processa segundo uma ordem correta. Mesmo as quatro estações — do inverno à primavera, ao verão, ao outono — e as flores — a ameixeira, depois a cerejeira, depois a glicínia, depois a íris —, ano após ano, a geração e a nutrição de todas as coisas ocorrem sem o menor desvio de ordem. Assim, a grande natureza ensina a ordem. Se o ser humano não conhece o que é a ordem e permanece indiferente a ela, o resultado é que as coisas não correm suavemente, os contratempos se tornam frequentes, e cai-se facilmente na confusão. Até hoje, porém, quase ninguém dá a devida importância à ordem — o que não é de se estranhar, já que ninguém a ensinou. Vou escrever aqui, em linhas gerais, sobre essa ordem, que todos deveriam conhecer. Antes de mais nada, é preciso saber que todos os fenômenos do mundo material são reflexos do mundo espiritual e que, da mesma forma, os fenômenos do mundo material também se refletem de volta no mundo espiritual. E a ordem é o Caminho, é a Lei; por isso, perturbar a ordem significa desviar-se do Caminho, transgredir a Lei e faltar com a devida etiqueta. Existe, em termos budistas, a expressão "Caminho, Lei e Etiqueta" — que deve se referir justamente a isso. Também na vida cotidiana do ser humano há uma ordem a ser observada, e há uma distinção natural quanto ao comportamento dos membros da família. Por exemplo, ao se sentar num cômodo, o lugar de honra é o tokonoma; e, num cômodo sem tokonoma, o lugar mais afastado da entrada é o lugar de honra. Conforme essa lei, sentam-se próximos ao lugar de honra o pai; em seguida, a mãe; depois, o filho mais velho, a filha mais velha, o segundo filho, a segunda filha, e assim por diante — e, dessa forma, a conversa também flui em harmonia. Por mais que se defenda a democracia, nada corre bem quando se transgride essa lei. Suponhamos, por exemplo, uma ponte que só permite a passagem de uma pessoa de cada vez. Se várias pessoas tentarem atravessá-la ao mesmo tempo, haverá confusão, e alguém cairá no rio. É absolutamente necessário atravessar um de cada vez, em ordem — e é daí que nasce a necessidade da ordem. Suponhamos também que chegue uma visita: conforme a relação entre o visitante e o anfitrião seja de primeiro encontro, de amizade e conhecimento antigo, ou de superior e subordinado, há naturalmente uma ordem quanto à cadeira e ao lugar em que cada um deve se sentar. Também as saudações devem ser adequadas à ocasião, havendo distinção conforme a pessoa; e, observando-se isso, tudo corre em harmonia, sem causar desagrado a ninguém. Da mesma forma, quanto às mulheres, aos idosos e às crianças, há distinções próprias na atitude e na forma de conversar. O essencial é ter sempre como princípio causar, tanto quanto possível, boa impressão ao outro. Em seguida, há famílias em que os filhos e os empregados dormem no segundo ou terceiro andar, enquanto o casal proprietário dorme no térreo — isso também é um erro; em tais famílias, filhos e empregados tendem a desobedecer. Do mesmo modo, quando a esposa dorme no lugar de honra e o marido no lugar inferior, ela deixa de ser submissa. Ademais, na consagração de deuses e budas, se estes forem colocados no andar de baixo enquanto as pessoas dormem no andar de cima, a posição das divindades fica abaixo da dos seres humanos. Nesse caso, os deuses e budas não apenas não podem exercer seu poder protetor, como isso se torna uma grande falta de respeito para com eles — a ponto de ser melhor nem consagrá-los. O mesmo vale para o altar budista doméstico (butsudan): é uma falta de respeito extrema que os descendentes fiquem em posição superior à dos ancestrais. Isso porque tais fenômenos do mundo material se refletem no mundo espiritual, rompendo a harmonia entre os dois mundos. Esse princípio se aplica também à nação e à sociedade, mas o mais grave de tudo é o conflito, no mundo industrial, entre capitalistas e trabalhadores. E, de tudo isso, o mais inadequado é justamente a chamada "gestão pela produção" [controle da produção pelos próprios trabalhadores] — dificilmente haveria ação que perturbasse tanto a ordem quanto essa. Suponhamos uma indústria: para administrá-la e desenvolvê-la, é necessário que a ordem seja corretamente observada em tudo. Ou seja, o presidente deve comandar o conjunto, os diretores devem participar dos pontos centrais da gestão, os técnicos devem se dedicar às suas especialidades e os trabalhadores devem se esforçar em seu próprio campo. Se o todo se unir dessa forma, em estrutura piramidal, o empreendimento certamente prosperará. Ora, a "gestão pela produção" inverte essa pirâmide de cabeça para baixo e, assim, está fadada a desabar. Sob essa lógica, quando capitalistas e trabalhadores entram em conflito, o resultado é que tanto os trabalhadores quanto os capitalistas caem juntos — o que é, verdadeiramente, uma tolice. Por isso, é absolutamente necessário que ambos cheguem a um acordo, sem perturbar a ordem, tendo a harmonia como princípio fundamental da administração; fora disso, não há como os dois lados alcançarem a felicidade. Penso que eliminar do mundo industrial essa palavra desagradável — "conflito" — é o primeiro passo para a prosperidade. No entanto, o excesso cometido no passado, quando os capitalistas exploravam a classe trabalhadora numa administração voltada apenas para o próprio interesse, foi a causa do surgimento do comunismo; e hoje, como reação a essa reação, é o comunismo que está indo longe demais, enfraquecendo a indústria e debilitando a produção. Por isso, desejo que todos se conscientizem disso o quanto antes e se esforcem, com espírito de ajuda mútua até o fim, para a construção de um novo Japão. É este o sentido do que quero dizer com "corrija a ordem". Durante a guerra, no gabinete de Tōjō, o primeiro-ministro defendia que o presidente deveria comandar diretamente da linha de frente, e ele mesmo se colocava à frente para atuar — e não há erro maior do que esse. Isso porque, desde os tempos antigos, dirigir um empreendimento é chamado de "conduzir o eixo" (keirin: literalmente, fazer girar a roda). Ou seja, o líder corresponde ao eixo da roda; e quanto melhor a roda gira, menos o eixo se move. Além disso, quanto mais próxima do eixo, menor é a volta que uma parte da roda percorre, e, quanto mais externa, maior a volta que percorre — e, naturalmente, quanto mais o eixo se agita, pior é o giro da roda. Refletindo sobre esse princípio, chegamos ao seguinte: quanto mais próximo do eixo, menor deve ser o número de pessoas encarregadas, e, à medida que se avança centrifugamente, esse número deve aumentar gradualmente. Quanto ao pneu, na extremidade mais externa, por estar em contato direto com a estrada, cabe a ele o trabalho mais árduo — e, vendo isso, compreende-se o que é, de fato, a ordem. Por isso, todo aquele que ocupa uma posição de liderança deve se recolher ao fundo, fazer trabalhar apenas sua mente e comandar de lá — e, assim, o empreendimento prosperará. O Ga e o Apego Observando as pessoas em geral, todas trazem em si, como características, o Ga (ego) e o apego, que são como irmãos. Ao examinar os problemas complicados, percebe-se que quase todos são causados por esse Ga e apego — e é isso que dificulta a resolução. Por exemplo, um político, por se apegar ao cargo, perde a melhor época para se retirar e acaba morrendo de forma miserável; isso também se deve ao Ga e ao apego. Além disso, empresários que se apegam ao dinheiro e aos lucros acabam malvistos pelos parceiros comerciais e perdem a fluidez nas transações — apego que, embora pareça lucrativo a princípio, muitas vezes se torna prejudicial a longo prazo. Também nas relações entre homens e mulheres, quem se apega tende a ser rejeitado, e é comum que os problemas surjam do apego excessivo. Há ainda casos em que, por causa do Ga, as pessoas fazem os outros sofrer, sofrem elas mesmas ou causam conflitos; qualquer um, ao refletir sobre o passado, deve concordar. Nesse sentido, o objetivo principal da fé é eliminar o Ga e o apego. Desde que compreendi isso, tenho me esforçado para abandoná-los tanto quanto possível. Como resultado, em primeiro lugar, o sofrimento do meu coração foi aliviado e tudo tem tido bons resultados. Em alguns ensinamentos há a frase: "Não se preocupe com antecedência nem com o que já passou" — e é uma boa palavra. Assim, o maior objetivo da prática no mundo espiritual é eliminar o apego; à medida que ele é eliminado, a posição se eleva. A respeito disso, há o seguinte. No mundo espiritual, é quase incomum que marido e mulher coabitem, pois a posição espiritual de um e de outro é diferente; a coabitação só é permitida àqueles que se tornaram habitantes do Paraíso ou do estado de bem-aventurança. No entanto, os que atingiram um certo grau de prática podem obter permissão, mas apenas por um tempo. Nesse caso, pedem permissão ao deus supervisor daquele plano; quando ela é concedida e eles se encontram, jamais lhes é permitido abraçar-se por excesso de saudade. Se surgir o menor pensamento impuro, o corpo fica rígido e perde a liberdade. Tão grave é o apego. Portanto, à medida que o apego é completamente removido pela prática no mundo espiritual, a posição se eleva; e, quanto mais elevada, mais fácil se torna o encontro entre marido e mulher. Pode-se imaginar como isso difere do mundo material. Como foi dito anteriormente, o apego, personificado, torna-se o temível espírito serpente. Quando um espírito humano se transforma em espírito serpente, ele gradualmente se transforma, dos pés para cima, ao longo de um período considerável de anos. Já tratei de um paciente cuja cabeça era humana e o corpo, de serpente; era um caso de meio espírito serpente. Portanto, ao recomendar a fé, insistir teimosamente em persuadir, embora pareça zelo, não traz bons resultados, pois se torna uma venda forçada da fé e constitui uma profanação das divindades e Budas. Se o interlocutor demonstrar interesse, pode-se dar continuidade à conversa; se não houver disposição, porém, deve-se evitar prosseguir e esperar a oportunidade adequada. Entregar-se Sempre ensino que é preciso entregar-se, ou seja, confiar plenamente em Deus e não se preocupar nem ficar angustiado, aconteça o que acontecer. Dito assim, parece muito simples, mas, na verdade, não é tão fácil assim. Mesmo eu, quando procuro alcançar esse estado, esforço-me bastante para me entregar; inevitavelmente, porém, a preocupação ergue a cabeça teimosamente. Assim, pode-se dizer que, em um mundo tão ruim como o de hoje, isso é quase impossível. No entanto, os que conhecem Deus são muito diferentes: quando surge uma preocupação, o fato de percebê-la rapidamente já traz grande alívio. Mas há um ponto importante que ninguém percebe, e é sobre ele que vou escrever. Explicando isso do ponto de vista espiritual, o próprio pensamento de se preocupar é um tipo de apego — mais precisamente, o apego à preocupação. Esse apego à preocupação é algo traiçoeiro, que exerce influência negativa sobre tudo. Mas, quando se fala apenas em apego, pensa-se em apegos esperançosos, como querer progredir na carreira, querer dinheiro, querer luxo, querer que tudo saia como se deseja; e, por outro lado, em apegos de má índole, como achar alguém inaceitável, arrogante, odioso, ou querer pôr alguém em situação difícil. Não se trata desses apegos óbvios, mas daqueles que quase ninguém percebe. Então, o que são eles? São os apegos às preocupações presentes, às antecipadas e às posteriores. No caso dos fiéis, ainda que Deus queira conceder Sua proteção divina, esses apegos interferem espiritualmente; quanto mais fortes, mais a proteção divina se enfraquece, e por isso as coisas não saem como desejado. Como exemplo, quando alguém deseja ardentemente uma coisa, ela nunca vem às suas mãos; mas, quando se desiste, pensando que não há mais jeito, de repente ela aparece — todos já devem ter passado por isso. Da mesma forma, quando se pensa "quero me tornar assim" ou "quero fazer aquilo", parece que vai se realizar, mas não se realiza; quando, porém, se esquece completamente, de repente as coisas acontecem como se deseja. O mesmo ocorre com o Johrei; quanto mais se pensa "quero curar este paciente a todo custo", pior é a cura. Mas, quando se faz o Johrei sem ter isso em mente, apenas de forma despretensiosa, ou quando se pensa "não sei se vai curar ou não, mas vamos tentar", o paciente, surpreendentemente, cura-se com facilidade. Além disso, em pacientes graves, embora a família e as pessoas próximas estejam todas unidas no desejo de curá-lo, muitas vezes ele parece que vai se curar, mas não se cura e acaba morrendo. Por outro lado, o contrário também acontece: pacientes que não se importam com a vida ou com a morte, e cujos parentes próximos também não se preocupam muito, com frequência se curam com facilidade e rapidez. Há também casos em que o próprio paciente deseja fortemente se salvar, e os parentes próximos também desejam salvá-lo, mas o estado de saúde piora cada vez mais; quando todos desistem, pensando que não há mais jeito, a partir daí ele melhora rapidamente e se salva. É interessante notar que pessoas que insistem, dizendo "como vou morrer de uma doença dessas? Vou me curar com minha força de vontade", geralmente morrem; isso também se deve, em grande parte, ao apego à vida. Como se pode ver pelos vários exemplos acima, percebe-se quão terrível é o apego. Portanto, para pacientes que parecem não ter mais salvação, deve-se primeiro sugerir que não há esperança, mas, em compensação, dizer que se pedirá para que ele seja salvo com certeza ao ir para o mundo espiritual, explicando-lhe bem para que entenda, e comunicar o mesmo aos familiares. Ao fazer o Johrei, a partir daí, o quadro melhora. Este é outro assunto, mas o mesmo ocorre com frequência nas relações entre homens e mulheres. Quando uma das partes se torna muito ardente, a outra se enfastia; é realmente ir Dessa forma, muitas coisas neste mundo se fazem de maneira realmente irônica; parecem muito complicadas, mas também são interessantes. Como se pode ver pelo exposto, é preciso saber que o apego é a causa da maior parte das coisas não saírem bem. O que digo frequentemente, "visar o efeito inverso", também tem esse significado; ou seja, é a ironia da ironia, e isso é, na verdade, a verdade. O Caminho do Casal Ultimamente, discute-se acaloradamente se é melhor o casamento arranjado ou o casamento por amor. Explicarei, no entanto, como isso se interpreta espiritualmente. Em nosso país, seja nas cidades ou nas regiões montanhosas mais remotas, há sempre um santuário Ubusuna ou um santuário Ujigami (Deus do Clã), onde reside o deus guardião, isto é, o Deus da Terra Natal. Isso é como uma espécie de prefeitura no mundo material; o Deus da Terra Natal responde não apenas por cerimônias como casamentos e funerais na sociedade humana, mas também por eventos como o nascimento. Desde os tempos antigos, existe o costume de, ao nascer uma criança, visitar o santuário para agradecer ao deus que a concedeu. Da mesma forma, no casamento, é o Deus da Terra Natal que une o homem e a mulher; tanto no amor quanto no casamento arranjado, tudo ocorre segundo a sua vontade. As pessoas que não sabem disso, porém, julgam que tudo se faz artificialmente. Por isso, é grande erro que, depois de muitas brigas conjugais como as que vemos por aí, um diga ao outro: "vá embora". Dizer algo assim, por conta própria, da esposa ou do marido que Deus uniu, não é grande falta de respeito para com Deus? Ainda que o marido ou a esposa não agrade, uma vez que há vínculo e Deus os determinou, considerá-los com desdém é imperdoável; deve-se ser grato e agradecer. Portanto, se a pessoa souber disso e, com gratidão, reconsiderar, garanto que passará a ver a esposa como boa esposa e o marido como bom marido. Outro ponto importante: a morte de crianças tem sua causa na conduta infiel do marido. O relacionamento com outra mulher que não a esposa, por exemplo, é pecado grave, quase digno de morte. Além disso, ouço dizer que há homens com duas ou três amantes, alguns até com mais de dez; isso é deveras terrível. No mundo espiritual, os espíritos ancestrais não apenas se irritam extremamente com esses pecados, como eles também se tornam obstáculo à prosperidade dos descendentes; conforme a gravidade, podem levar à infelicidade da extinção da família. Por isso, os espíritos ancestrais fazem todos os esforços para impedi-la, mas a pessoa dificilmente desperta. E, como o pecado só aumenta, é preciso expiá-lo rapidamente. O chefe da família deveria assumir a responsabilidade, mas isso afetaria negativamente a vida e o futuro da família. Então, os espíritos ancestrais oferecem a criança como sacrifício no lugar do chefe. Isso é tão comum no mundo que peço aos leitores que prestem atenção. Certamente devem se lembrar de algo. Assim, as principais causas das brigas conjugais são, em primeiro lugar, o ciúme da esposa e, em segundo lugar, as dificuldades financeiras. Se o marido reconhecer as circunstâncias espirituais acima descritas, a causa do ciúme desaparecerá. Se reconhecer que o casal foi unido pela vontade de Deus e que o relacionamento com outra mulher que não a esposa é pecado grave, tornar-se-á bom marido, e ela, boa esposa, e não poderão deixar de viver em harmonia. Afirmo que isso não é história inventada para promover a harmonia conjugal; é algo que, com base em muitos anos de experiência, Deus me ensinou. Portanto, não há uma única mentira. Dos ensinamentos da Bíblia relacionados a isso, transcrevo abaixo: - O que Deus uniu, o homem não separe. - O homem se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. - Contentai-vos com a vossa mulher. Apresento estas palavras a todos os senhores casados do mundo. Filosofia do Amor Em toda a vida humana, não deve haver problema mais complicado e difícil de resolver que o amor. Em suma, o amor é a flor da vida, mas também seu espinho. Há quem o defenda como princípio supremo, e há quem o considere causa de imoralidade. Do nosso ponto de vista, porém, a verdade é que ele pode ser tanto um princípio supremo quanto um caso de imoralidade. Agora, exporemos nossa visão sobre o amor. Em primeiro lugar, o amor é a maior bênção que Deus concedeu aos seres humanos; é algo verdadeiramente fascinante, que por mais que se aprecie, nunca se aprecia o bastante. Ao mesmo tempo, é tão perigoso que, no auge, a pessoa pode nem se importar de abandonar a própria vida. Por isso, pode-se dizer que, em romances e peças teatrais, a história não se sustenta se não incluir o amor. Se não houvesse amor no mundo, a vida seria como um campo seco no inverno frio. Contudo, quando observamos os fatos, vemos que o amor causa mais infelicidade que felicidade. Brigas feias, sofrimentos sem solução, ruína do destino e eventos repugnantes, como suicídios por amor, homicídios e ferimentos, quase todos têm o amor como causa. Pode-se dizer que ele é algo verdadeiramente temível. Escreverei, então, do ponto de vista da fé, como se deve realmente lidar com o amor. Não é problema tão difícil; é extremamente simples. Pode parecer estranho, mas, em suma, trata-se da Sabedoria Sagrada, da coragem e do amor verdadeiro. Primeiro, suponhamos que uma relação amorosa se estabeleça entre um homem e uma mulher. Jamais se deve ficar preso à visão subjetiva; é preciso olhar objetivamente até o fim. Para isso, antes de tudo, é preciso avaliar o resultado, ou seja, ambos devem considerar a felicidade ou infelicidade futura. Por exemplo, se o objetivo final é o casamento, então é bom e gera felicidade. Se não há intenção de casamento e há apenas a busca de prazer movida por impulso momentâneo, então é mau, pois ao menos a mulher se tornará infeliz. No entanto, os envolvidos dirão: "Não se pode pensar em bem ou mal, ou no que vai acontecer, quando se ama. Apenas se ama; há apenas o impulso incontrolável do amor." Eles decidirão assim, mas isso é o que se chama de amor cego; ou seja, eles foram engolidos pelo amor. No caso do homem, ele foi engolido por uma frágil mulher; em outras palavras, foi derrotado por uma mulher. Portanto, um covarde desses não tem qualificação como homem; é pessoa que dificilmente terá sucesso na vida. O que queremos dizer é este ponto: é absolutamente necessário engolir o amor. Quem assim fizer jamais cometerá erros. E, para a mulher, um homem assim é digno de respeito; ao contrário, o amor se aprofunda, e ela fica satisfeita. Nossa visão do amor, portanto, é que ele não é algo ruim; é inteiramente a flor da vida. Como dito anteriormente, o importante é não ser dominado pelo amor; se for possível dominá-lo, não haverá erro algum. A filosofia do amor é, em suma, a acima exposta. Soberba e Equívoco Nos Escritos Divinos da religião Oomoto, a soberba e o equívoco são os mais severamente advertidos, e com razão. Quando se observam os fiéis com essa palavra em mente, percebe-se que há muitos pontos que se encaixam. A respeito disso, ocorre com frequência o seguinte. No Johrei, no início, quando não se está acostumado, a pessoa pensa: "Será que tenho capacidade para curar a doença de alguém?" e, fazendo-o com receio, surpreendentemente a cura acontece. A pessoa fica admirada e, ao mesmo tempo, a pessoa curada fica muito feliz e agradece, dizendo que foi graças a ele. Todos devem ter experimentado isso. Com o tempo, a pessoa tende a esquecer que a cura foi graças a Deus, e alguns começam a pensar: "Talvez eu tenha algo de especial." Isso, no entanto, é clara soberba, e este é o período mais perigoso; portanto, é preciso estar muito atento. Por quê? Porque a forma de pensar se inverte. A razão é que, como sempre alerto, quanto mais se retira a força física, melhor; ou seja, a força é a força humana, logo, quanto mais se retira a força humana, melhor. Por esse princípio, quando há soberba, a força humana tende a se acrescentar. Acima de tudo, quando isso acontece, a eficácia do Johrei diminui. A respeito disso, costuma-se ouvir: "No início, quando eu estava com medo, as curas eram boas, mas hoje, com a prática, parece que a cura está piorando. Por que será?" Alguns podem ter essa dúvida. Mas, se entenderem a razão acima, concordarão. Em seguida, vem o equívoco, que tampouco se deve subestimar. É uma forma de pensar sobre a fé em que é fácil cometer erros. Por exemplo, querer conhecer o innen (afinidade espiritual) ou as relações das divindades em mitos e lendas, ou interessar-se por fenômenos de possessão espiritual e querer sabê-los indiscriminadamente. Quando se fica absorto em coisas assim, o caminho principal acaba negligenciado. É verdade que saber um pouco não é inútil, mas é preciso parar em certo ponto. Por ficar preso a isso, a pessoa, sem perceber, tende a se desviar do caminho principal da fé. A causa disso está inteiramente na falta de leitura dos Escritos Divinos e, mesmo quando se lê, na falta de prática. Escrevi sobre dois pontos importantes. Se a pessoa os compreender fundamentalmente e for capaz de praticá-los, estará seguindo a verdadeira linha da fé. Reconhecei a Vontade Divina Já escrevi sobre isso antes, mas, originalmente, o ser humano nasceu com a função de construir o mundo ideal, que é o propósito de Deus. Portanto, se agir de acordo com esse propósito, poderá sempre trabalhar com alegria, sem doenças e sem desastres. Esta é a verdade imortal. Contudo, devido às toxinas medicamentosas acumuladas desde os ancestrais, e também porque, após o nascimento, por não conhecer a verdade, a pessoa ingere toxinas medicamentosas, pode contrair doenças; mas isso é inevitável. Se uma pessoa útil não puder trabalhar por causa de doença, isso seria uma perda para Deus. Logo, é natural que Ele a cure rapidamente; não há motivo para preocupação. As pessoas que não sabem disso, no entanto, usam venenos chamados remédios para suprimir as doenças, o que está totalmente fora da verdade; não há como a cura ocorrer de forma tranquila. Isso não se aplica apenas às doenças. Todos os demais desastres são semelhantes; tudo é ação de purificação. Ainda que seja a mesma ação de purificação, porém, a forma da purificação naturalmente difere conforme a causa. Por exemplo, os pecados e impurezas relativos a dinheiro e bens materiais — como roubo, apropriação indébita, causar prejuízo a outros, fazer luxos incompatíveis com a posição social, etc. — são expiados também com dinheiro e bens materiais. No mundo, vemos com frequência filhos de ricos que são devassos e gastam como água a fortuna deixada pelos pais; isso também serve para que os pecados e impurezas dos pais e ancestrais sejam eliminados. Isso porque os espíritos ancestrais, para não deixar sua linhagem se extinguir e desejando cada vez mais a prosperidade da família, escolhem um dos descendentes para atuar na purificação. Nesse caso, por mais que se aconselhe, é como pregar no deserto. Por exemplo, suponhamos dois irmãos: o mais velho é um filho pródigo incontrolável, e o mais novo é honesto e correto. À primeira vista, parece que o irmão mais velho é mau e mancha o nome dos ancestrais, mas, do ponto de vista do Daijo, é o contrário. Por quê? Porque, do ponto de vista de eliminar os pecados e impurezas dos ancestrais, o irmão mais velho é superior. Dessa forma, o bem e o mal não podem ser determinados pelo pensamento humano. Além disso, ser queimado em um incêndio, ser roubado por um ladrão, ser vítima de um golpe, perder dinheiro tentando lucrar com ações, corridas de cavalos ou bicicletas, fracassar nos negócios, gastar dinheiro com doenças, etc. — todos os pecados materiais são purificados através da matéria. Portanto, mesmo que se possa escapar das leis humanas, as leis de Deus são absolutas, não havendo o que fazer. Consequentemente, os pecados que enganam os olhos humanos manifestam-se como doenças oculares; os pecados de palavras que soam dolorosas aos ouvidos manifestam-se como dores de ouvido ou doenças na língua; as ações que causam dor de cabeça aos outros manifestam-se como dor de cabeça; os pecados de usar os braços apenas para o próprio benefício manifestam-se como dores nos braços. Dessa forma, a purificação ocorre de acordo com o princípio correspondente. Há também o sofrimento que se experimenta após entrar na fé. E, quanto mais fervorosa a pessoa se torna, mais ela sofre. Por isso, as pessoas de fé superficial acabam se perdendo em dúvidas, mas este é o momento crucial. Qual é a razão disso? Deus, diante do fervor da pessoa, deseja conceder-lhe rapidamente os benefícios materiais, mas, como ainda há impurezas, é necessário purificá-las. Trata-se de uma purificação como a limpeza do recipiente. Nesse caso, se a pessoa perseverar sem se desviar nem um pouco, assim que isso terminar, poderá receber uma graça tão maravilhosa que nem imagina. Vou escrever sobre minha experiência a esse respeito. Durante vinte anos, sofri com dívidas. Por mais que me desesperasse para pagá-las, não adiantava, e acabei desistindo. Foi somente no décimo sexto ano da era Showa (1941) que finalmente consegui pagar tudo, e pensei: "Ufa, que alívio!". Então, no ano seguinte, o décimo sétimo ano (1942), comecei a receber uma quantia de dinheiro que nem imaginava, e fiquei surpreso com a profundidade da Vontade Divina. Também se diz no mundo que "incêndio traz prosperidade". Isso significa que, após a purificação, a sorte melhorou. O mesmo se aplica ao grande incêndio de Atami. Comparando-se a situação antes do incêndio com a de hoje, a diferença é abismal. Pelo exposto, as coisas boas são, obviamente, maravilhosas, mas as coisas ruins também concorrem para a purificação, e, uma vez concluída, é certo que as coisas melhorarão. Portanto, não importa para que lado a situação se incline, tudo é maravilhoso. Se considerarmos que a ausência de doenças é maravilhosa e que a doença também é maravilhosa, isso é o verdadeiro estado de paz e contentamento (anshin ryūmei). No entanto, isso se aplica apenas aos que têm fé. Para os que não têm fé, é o oposto: o sofrimento gera mais sofrimento, quanto mais se desespera, pior fica, e, por fim, a pessoa acaba afundando no abismo do inferno. Por esse princípio, o segredo da felicidade humana reside em compreender este Caminho Perfeito. Escravo do Túmulo? Aqueles que veem este título provavelmente pensarão que é um título bastante peculiar, mas, ao lerem com atenção, deverão entender: "De fato, faz sentido". Isso porque se refere às pessoas que, valorizando e venerando ideias antigas e culturas mofadas como se fossem tesouros preciosos, não conseguem se desvencilhar delas. Como é sabido, o ser humano tem grande dificuldade em se libertar das tradições e costumes que seus antepassados, geração após geração, preservaram. A essas pessoas quero chamar de escravas do túmulo. Na atualidade, que avança a passos largos, os fatos mostram claramente que os possuidores de tais ideias se tornam atrasados e perdedores. Um grande exemplo disso seria a atual situação dos Estados Unidos e da Inglaterra. Nem é preciso dizer que a prosperidade e a pujança da força nacional dos Estados Unidos, que hoje lideram o mundo, podem ser consideradas verdadeiramente uma visão grandiosa do século. E a causa disso é o espírito de progresso e iniciativa superior de seu povo, a disposição de adotar, sem hesitação, qualquer coisa que seja nova e superior ao que existia antes. Em contraste, a Inglaterra sofre com seu arraigado pensamento conservador, do qual até se orgulha. Olhando para Londres, a beleza clássica é, de fato, admirável, mas, por outro lado, a falta de beleza urbana da nova era mostra bem a realidade da Inglaterra moderna. Consequentemente, quando se pensa na glória e prosperidade da nação inglesa de apenas meio século atrás, tem-se a sensação de que se passaram eras. Dominar os sete mares do mundo, possuir inúmeras colônias e obter rendas imensas sem trabalhar era algo realmente grandioso. Certamente, não são apenas os ingleses que não conseguem conter a sensação de contraste entre o passado e o presente. Como se pode ver pelos dois exemplos acima, é extremamente clara a diferença entre um país dominado pelo túmulo e outro que não o é. Quanto a outros países, no Ocidente — Egito, Grécia, Pérsia, Espanha, Portugal — e, no Oriente — Índia, China, Coreia, entre outros —, todos seguiram o mesmo destino. A causa disso é que, sem despertar do sonho de sua era de glória, isso se tornou um obstáculo para a ideia de progresso, levando-os, por fim, ao enfraquecimento como se vê hoje. A história, como vimos acima, mostra-nos quão prejudicial é essa noção de escravidão ao túmulo. E a religião não é exceção. O exemplo mais notável é o budismo. A Índia, berço do budismo, tem hoje cerca de trezentos a quatrocentos mil fiéis, o que representa uma proporção de uma em cada mil pessoas, estando, na prática, quase extinto. Na China, diz-se que quase não há vestígios do budismo, e ele mal mantém sua existência, apenas no Japão. Em seguida, o cristianismo. Seu auge foi por volta da Idade Média, quando chegou a deter até o poder de julgamento, o que permite imaginar o resto. Sob a influência da cultura científica, hoje não passa de uma existência meramente formal, como é amplamente sabido. Pelos fatos acima, é escusado dizer que todas as culturas estão em constante transformação no fluxo do tempo. A teoria do fluxo universal de Bergson deve ser isso. Como visto, a lei da evolução fica clara ao observarmos o processo histórico da decadência do velho e do surgimento do novo. Nesse sentido, é quando nasce um pensamento valioso, capaz de guiar uma nova era, que a civilização avança. E, para isso, a religião é historicamente grandiosa. Sendo assim, afirmo que a nossa Igreja Messiânica é a que melhor se encaixa nisso. É claro que a comprovação factual é fundamental, mas, acima de tudo, estão as obras de salvação em múltiplas frentes que esta Igreja atualmente realiza. Deixarei de enumerá-las uma a uma, mas quem as vir com os próprios olhos entenderá imediatamente. Isso porque todas elas são coisas que ninguém jamais ousou fazer. Sobre isso, costumo dizer às pessoas: "O que outros já fizeram, que seja deixado aos especialistas. Eu pretendo abrir novos horizontes culturais que ninguém sequer sonhou, e acredito que essa seja minha missão celestial." É claro que, como fundamento, avanço sob o princípio de não ser dominado pelo túmulo, como indica o título. Sobre Conhecer as Coisas Não deve haver palavra tão profunda, sutil e cheia de significado quanto "conhecer as coisas" (mono o shiru). Provavelmente, esta palavra pode ser considerada uma expressão japonesa digna de orgulho mundial. No entanto, é uma palavra difícil de entender simplesmente; por isso, tentarei escrever sobre ela da forma mais compreensível possível. Analisando o significado da expressão "conhecer as coisas", chega-se ao seguinte: experimentar todas as coisas do mundo, penetrá-las, captar sua essência e expressá-la de alguma forma. Por exemplo, é descobrir o único ponto vital: se agirmos de determinada maneira, o resultado será tal. Em contraste, pessoas que se envolvem em discussões infantis e imaturas, agem de forma leviana ou fazem coisas que são criticadas e desprezadas pelos outros sem perceber são pessoas que não veem as coisas — que não as conhecem. São aquelas a quem se costuma chamar de "jovem demais", "inexperiente" ou "caipira". Há também a palavra "conhecedor" (shikisha), que é uma forma culta de se referir a quem conhece as coisas. Pelo exposto, entre os políticos de hoje há muitos que não conhecem as coisas. Eles pegam questões que não são tão importantes, as inflam artificialmente e fazem alarde, sem perceber que são criticados pelos conhecedores. Isso não passa de uma demonstração da própria baixeza. E essas pessoas são, invariavelmente, escravas da visão subjetiva do Shojo. As ações dessas pessoas mesquinhas sempre prejudicam a eficiência do parlamento e mancham sua credibilidade. Elas estão sempre empenhadas em se autopromover de forma egoísta. Portanto, quem não conhece as coisas pode ser chamado de "teimoso ignorante" (wakaran-ya). Hoje em dia, as discussões políticas, mesmo consumindo muito tempo, dificilmente chegam a uma conclusão. Isso provavelmente se deve ao excesso desses teimosos ignorantes. Se houvesse muitas pessoas que entendem das coisas, seria fácil encontrar um ponto de concordância. No entanto, o problema é que quem entende das coisas tende a não se impor, a evitar discussões com os teimosos ignorantes, acabando por se tornar dócil e retraído. Já os teimosos ignorantes, aproveitando-se disso, tornam-se cada vez mais arrogantes. E o mundo é interessante: quem se impõe fica famoso. Ficando famoso, aumenta a taxa de vitória nas eleições. Como resultado, os que entendem são sempre minoria, e os teimosos ignorantes formam a maioria. O fato de que, ultimamente, para se chegar a uma conclusão sobre um problema, é preciso discutir a noite toda reflete bem isso. No entanto, é fato que, no final, a opinião dos que entendem acaba sendo adotada. Afinal, os que se destacam no mundo político, sem se impor, conquistam a confiança pública e são valorizados. Pode-se dizer que o atual Primeiro-Ministro Yoshida e outros são os políticos que mais conhecem as coisas. Mas não apenas no mundo político. Em todas as áreas da sociedade, as pessoas consideradas capazes são, relativamente, as que conhecem as coisas. Isso é um resultado natural. Acima, escrevi sobre o aspecto espiritual. Agora, escreverei sobre outro aspecto, o material. Para escrever de forma compreensível, a área artística é a melhor. Isso porque os que conhecem as coisas são, em sua maioria, grandes homens, e também possuem senso estético superior. A primeira pessoa que quero destacar é o Príncipe Shōtoku. Não há dúvida de que ele era superior na cultura budista, especialmente na área artística. Isso fica claro ao vermos as obras que ainda permanecem no Hōryū-ji e em outros lugares, todas brilhando intensamente. Sua famosa Constituição de Dezessete Artigos pode ser considerada a base das leis no Japão. A próxima pessoa que quero mencionar é Ashikaga Yoshimasa. Embora seja criticado em outros aspectos, no campo artístico deixou realizações notáveis. Além de construções como o Ginkaku-ji, ele apreciava a arte chinesa, colecionou obras de arte superiores das dinastias Song e Yuan, incentivou a arte japonesa e mandou fazer objetos raros e famosos. Como os "Tesouros de Higashiyama", suas contribuições ainda hoje satisfazem nosso olhar apreciador e merecem ser altamente avaliadas. Aqui, a figura a quem queremos tributar os maiores louvores é Toyotomi Hideyoshi. Ele criou a esplendorosa cultura artística do estilo Momoyama e, ao mesmo tempo, dedicou-se à cerimônia do chá como arte do wabi. Ao apoiar Sen no Rikyū, gênio incomparável de sua época, legou a brilhante sistematização do caminho do chá, feito que também merece menção especial. Com isso, a cultura artística floresceu, e mestres e gênios surgiram um após outro. Kobori Enshū e o mestre da cerâmica Raku, Chōjirō, são exemplos. A exemplo de Yoshimasa, colecionou não apenas arte chinesa e japonesa, mas também obras-primas coreanas, dando nova vida à cerâmica japonesa. Outra realização sua foi o surgimento de Hon'ami Kōetsu. Kōetsu pintava, era calígrafo habilidoso, inovou no maki-e, produziu cerâmica Raku, sempre com originalidade, e sua versatilidade, que não deixava área intocada, era algo que outros não podiam imitar. E uma grande contribuição inesperada que ele deixou foi o surgimento, cem anos após sua morte, de Ogata Kōrin, o maior mestre que o Japão produziu. Kōrin, admirador do já falecido Kōetsu, tornou-se um grande mestre que superou o próprio mestre. Não se pode deixar de mencionar ainda os ceramistas Ninsei e Kenzan. E o herdeiro dessa linhagem foi Hōitsu, que tampouco era um artista comum. O que torna Hideyoshi excepcional é que, embora filho de um camponês, já na juventude compreendia o gosto pelas artes e, desde cedo, colecionou obras-primas. Isso é verdadeiramente admirável. Em geral, diz-se que, para conhecer as coisas, é necessário passar por consideráveis dificuldades e, além disso, desfrutar de condição social de classe média ou superior. Em contraste, ele, vindo de origem humilde e tendo passado a maior parte da vida perambulando pelos campos de batalha, tornou-se alguém que conhecia tão bem essas coisas. Não se sabe onde nem quando aprendeu, mas isso o torna, deveras, um grande homem raro no mundo. No campo da literatura, os poetas que vêm à mente são, sem dúvida, Saigyō, na poesia waka, e Bashō, no haikai. As obras desses dois santos da arte só foram possíveis porque ambos eram pessoas que conheciam as coisas. Como obras representativas que sempre me vêm à mente, cito de Saigyō: "Kokoro naki mi ni mo aware wa shirarekeri / Shigi tatsu sawa no aki no yūgure" (Mesmo num corpo sem coração, a compaixão é conhecida / No outono, no pôr do sol do pântano onde a narceja levanta voo) E de Bashō: "Shizukasa ya / Iwa ni shimiiru / Semi no koe" (Oh, quietude! / Penetrando na rocha / O canto das cigarras) Há ainda outra pessoa que conhecia as coisas e que não posso deixar de mencionar: o Senhor Matsudaira Unshū, conhecido pelo nome de Fumaikō. Ele colecionou inúmeros objetos raros e famosos, organizou-os, evitou sua dispersão e revitalizou o caminho do chá, que estava em declínio. Diante de seus feitos, pode-se dizer que também ele é pessoa digna de respeito. Nos tempos modernos, gostaria de citar o falecido ator Ichikawa Danjūrō como pessoa que conhecia as coisas. Isso está detalhado em "Jikan Zuidan", de modo que omitirei aqui. De modo geral, mencionei algumas pessoas representativas. As pessoas que conhecem as coisas são, de fato, as de cultura mais elevada, e nem é preciso dizer o quanto suas realizações serviram de alimento para a alma das gerações futuras, enriqueceram seus interesses e elevaram seus sentimentos. É verdade que invenções, descobertas e o progresso do conhecimento também contribuem para a cultura humana, como todos sabem. No entanto, como expus acima, cumpre reavaliar o quanto as realizações das pessoas que conhecem as coisas contribuíram de forma oculta para a cultura. O Ábaco e a Eficiência Observando os japoneses de hoje, sinto que eles ignoram o ábaco (soroban) e são demasiado indiferentes à eficiência. Quero alertá-los quanto a isso. É claro que esses dois pontos estão intimamente relacionados, por isso os trato juntos. Mas, quando digo "ábaco", não me refiro apenas a questões financeiras; a expressão se aplica amplamente a outras áreas. E isso é surpreendentemente importante. Se lhe dermos atenção, ganharemos muito na vida social. Nesse ponto, os japoneses são surpreendentemente descuidados: têm pouca noção de tempo, falta-lhes planejamento e a maioria age de forma improvisada, pode-se dizer. Como resultado, ignorar o ábaco gera muitos desperdícios, o que também afeta a eficiência e causa muitas perdas inesperadas. O trabalho torna-se desinteressante, a pessoa tende a se impacientar, e esse descontentamento, por sua vez, compromete a eficiência, acarretando, sem que se perceba, um grande prejuízo. Nesse aspecto, vejamos os Estados Unidos. Provavelmente não há povo que use tanto o ábaco quanto os americanos. Mesmo na guerra, por exemplo, utilizam ao máximo a força mecânica para evitar perdas de vidas humanas. Na recente Guerra da Coreia, a comparação das baixas humanas entre inimigo e aliados é impressionante: enquanto o inimigo sofreu mais de um milhão de baixas, o lado aliado teve menos de cem mil. Na Guerra do Pacífico, os japoneses, em contraste, lançavam aviões com seus corpos contra navios inimigos (ataques kamikaze) e treinavam com lanças de bambu, tratando a vida humana com grande desprezo. E os Estados Unidos, o que fizeram? Alguns poucos engenheiros pilotam um avião e, com uma única bomba atômica, destroem uma cidade inteira. Não há comparação. Isso se deve inteiramente à diferença entre usar ou não o ábaco, e devemos refletir seriamente sobre o assunto. Os japoneses parecem ainda carregar resquícios do antigo espírito samurai, e permanece neles uma forte tendência a desprezar o ábaco. Nem é preciso pensar em quão desvantajoso isso é para os tempos atuais e futuros. Além disso, entre os japoneses ainda existe a tendência de se prenderem excessivamente a conceitos vazios como "honra", "orgulho teimoso" e "aparência". O prejuízo que isso causa à nação e ao indivíduo deve ser considerável. Aqui, escreverei um pouco sobre mim. Diferentemente do que se espera de um religioso, tenho o princípio de não esquecer o ábaco. Quem observar minha maneira de fazer as coisas entenderá bem. Tanto para as taxas do curso de iniciação (kyoshu) quanto para os Ohikari e várias taxas de associação, procuro estabelecer valores fixos. Com isso, quem paga não tem o incômodo de adivinhar a vontade, algo comum em religiões, e fica mais à vontade. Apenas como exceção, aceito doações voluntárias, mas minha política é não coagir ninguém a dá-las. Essa maneira de proceder provavelmente não é vista com frequência nas religiões até hoje, e não preciso dizer o quanto se tornou um fator poderoso para o desenvolvimento desta Igreja. Mesmo assim, é claro que um ábaco muito detalhado é trabalhoso, por isso procuro não perder de vista os ganhos e as perdas em uma perspectiva ampla. Muitas vezes dizem que meu modo de trabalhar é "estilo americano", e também penso assim, pois dou a maior importância ao ábaco e à eficiência. Além disso, na minha vida diária, estabeleço um plano geral para o dia e, quando ocorre algo imprevisto, procuro compensá-lo com o trabalho seguinte, tomando cuidado para não me desviar muito do planejado. Dessa forma, mesmo um trabalho que uma pessoa comum levaria um dia inteiro para fazer, eu o resolvo em cerca de uma hora. Meu trabalho é tão rápido que meus subordinados, que me ajudam, ficam sempre atônitos e chegam a dar gritos de desespero. Desanimados, dizem: "Meishu-Sama é uma pessoa especial, não podemos imitá-lo de jeito nenhum." Mas essa maneira de pensar está muito errada. É claro que não se pode chegar ao meu nível, mas, dependendo do empenho, é possível obter resultados surpreendentes. Deve-se agir com a determinação de que "se agir com firmeza, até os deuses e demônios se afastam". Fisionomia e Direção da Casa Sobre a orientação da casa (kasō hōi), sou frequentemente questionado, então escreverei um resumo. Assim como os seres humanos têm fisionomia, é natural que as casas também tenham uma "fisionomia da casa". Da mesma forma que a fisionomia humana está intimamente ligada à sorte ou ao azar, a fisionomia da casa também influencia a sorte ou o azar, conforme seja boa ou ruim. A fisionomia da casa que defendo difere consideravelmente daquela que os adivinhos pregam. Deixo claro que não aprendi isso com ninguém; baseia-se em minha própria inspiração e experiência. Quanto à importância que os adivinhos em geral dão à direção do "portal do demônio" (kimon), concordo com eles; apenas minha interpretação é diferente. O que é, afinal, o "portal do demônio"? É a direção de ushitora, ou seja, entre o leste e o norte. Por que essa direção em particular é importante? Porque dela flui uma energia espiritual (reiki) extremamente pura. É por isso que, desde os tempos antigos, se diz que não se deve sujar o kimon. Por exemplo, se houver vaso sanitário, banheiro, cozinha ou entrada nessa direção, a energia espiritual impura emitida por eles poluirá a energia espiritual vinda do kimon. Como resultado, Divindades malignas e Espíritos do Mal, causa de doenças e infortúnios, passam a agir livremente. Portanto, a energia espiritual que flui de ushitora deve ser mantida o mais pura possível. Nesse sentido, se possível, o ideal seria criar um pequeno jardim na direção de ushitora e plantar nele um pinheiro macho e um pinheiro fêmea. Em seguida, há o "portal do demônio oculto" (ura kimon), que é, obviamente, o oposto de ushitora: a direção de hitsujisaru, ou seja, entre o sudoeste e o oeste. Esta é a energia espiritual da "porção de felicidade" (fukubun), pela qual fluem os bens materiais. Portanto, é importante para quem deseja maior riqueza e prosperidade. Para isso, é bom dispor de pedras e água — por exemplo, cavar um pequeno lago e arranjar pedras ao redor. Quanto à entrada, a direção de tatsumi — entre o leste e o sul — é a melhor. O ideal é que, da entrada até a porta principal, o terreno vá se elevando gradualmente. De modo geral, não é muito recomendável que a casa fique em uma encosta, no sopé de uma colina ou em nível mais baixo que a rua. Não é bom morar por muito tempo em uma casa assim. No entanto, quando digo "lugar alto", refiro-me a um local relativamente alto em relação aos arredores. Não há problema se houver montanhas ou lugares altos a uma distância considerável. Também não é bom que a porta principal esteja em posição que exija voltar após entrar pelo portão. O ideal é que esteja de frente para o portão ou em um dos lados, esquerdo ou direito. Também não é bom que, ao entrar pela porta principal, haja passagem direta para os fundos, pois isso significa que a sorte não se fixa e passa adiante. O melhor é que haja dois ou três degraus de elevação até o cômodo principal do dono da casa. Ao examinar a orientação da casa, o local onde se coloca a bússola deve estar correto. No entanto, muitos examinadores de configuração de casas tomam a casa como base e medem as direções a partir do centro dela, o que é um grande erro. Afinal, a casa existe para o ser humano, e não o ser humano para a casa. O ser humano é o principal; a casa, o secundário, pois construir ou demolir a casa depende inteiramente da vontade do proprietário. Portanto, o centro é o proprietário, e seu local de descanso — a cama — é o centro; assim, deve-se medir as direções tendo a cama como centro. Quanto à forma da casa, de modo geral, formas com reentrâncias não são boas; é bom que haja partes que se projetem em alguns lugares. Além disso, o que se chama de formação em asa de grou, em que a cumeeira se estende longamente para ambos os lados a partir da entrada, também é bom. Quanto ao número de tatames, dez são chamados de cômodo do fogo-água ou da união, sendo adequado para a sala de estar do proprietário. Oito são o cômodo do fogo; como o fogo é uma posição superior, também é bom para a sala de estar do proprietário. Seis e três são cômodos da água, portanto bons para a sala de estar da esposa. Todos os números pares de tatames são bons; são impróprios quatro tatames e meio, sete, nove, etc. Nesses casos, basta misturar áreas de assoalho para obter números pares. Além disso, o princípio é que o tokonoma fique à direita e a estante assimétrica à esquerda, mas, dependendo da posição da entrada, o contrário também não apresenta problema. Em cômodos sem tokonoma, quanto mais distante da entrada, melhor; a forma mais imprópria é aquela próxima à entrada ou que, ao retornar, fique de frente para o tokonoma. Quanto aos cômodos de estilo ocidental, não é recomendável construí-los no segundo andar; devem ser construídos no térreo. Isso porque os cômodos ocidentais são usados com sapatos, tendo o mesmo significado que uma estrada, e a posição superior e inferior se inverte. Em seguida, quanto às direções, diz-se que determinada direção é boa para determinada idade, mas isso não tem muito significado. Costuma-se dizer que mudar-se para a direção do Demônio é ruim, mas isso é o contrário. Como expliquei anteriormente, a direção do Demônio está voltada para uma energia espiritual pura, sendo extremamente boa; há, porém, um problema. É que, ao mudar-se para essa direção, as atividades e ações da pessoa devem ser corretas. Por quê? Porque a energia espiritual da direção do Demônio tem um forte poder de purificação; assim, se houver pensamentos malignos ou ações incorretas, o sofrimento da purificação chegará rapidamente. Como até hoje havia muitas pessoas com pensamentos malignos e ações incorretas, elas temiam isso e passaram a evitar a direção do Demônio. Protestantes e Católicos Desejo falar um pouco sobre o cristianismo. Trata-se da diferença de opinião entre o anticlericalismo dos protestantes e o clericalismo dos católicos. O anticlericalismo, como o próprio nome diz, afirma que "a igreja não é necessária; deve-se avançar apenas com a Bíblia". O clericalismo, em contrapartida, diz que "a igreja foi criada primeiro, após a ascensão de Cristo, e a Bíblia foi publicada depois; portanto, a igreja é importante". Gostaria de expor minha opinião sobre qual das duas está certa ou errada. Ambas têm suas razões, mas tentarei interpretar a questão do ponto de vista espiritual. No mundo espiritual, o princípio é a união do espírito e da matéria, conforme a lei da unidade do espírito e da matéria. Ou seja, quando o espírito busca realizar algum propósito, às vezes precisa utilizar a matéria. Por exemplo, para invocar os deuses e budas e receber suas Graças Divinas, deve-se construir uma igreja ou um templo xintoísta em um terreno o mais puro possível, instalar um altar, uma Imagem da Luz Divina ou imagens de budas, oferecer flores e incenso, oferendas de alimentos e saquê, e rezar com reverência. Assim, os nobres deuses e budas descerão ou ali se estabelecerão. Em casos de emergência, não importa onde se ore: em um instante, o espírito dos deuses e budas virá para perto e concederá sua proteção divina. No entanto, como fazem os protestantes, ao orar para o espaço sem a mediação da matéria, é certo que essa sinceridade alcançará os espíritos divinos e haverá alguma proteção; mas, de acordo com o princípio correspondente, essa proteção será, inevitavelmente, mais tênue. Sobre esse ponto, escreverei acerca da relação entre o espírito e a matéria. No mundo espiritual, tanto os espíritos dos deuses e budas quanto os espíritos humanos e animais se manifestam ou possuem algum tipo de matéria. Por exemplo, Cristo se manifesta na cruz; os vários deuses e budas se manifestam em caracteres escritos, espelhos, pinturas, esculturas, etc.; os espíritos humanos frequentemente se apossam de caracteres escritos; os espíritos animais se apossam do corpo humano ou de caracteres escritos; no caso de Inari, manifesta-se na forma de uma raposa ou de talismãs; os dragões divinos se apossam de caracteres escritos ou de objetos em forma de serpente, pedras, etc. No caso acima, os espíritos divinos e búdicos de alto nível estão relacionados à personalidade do autor; por isso, desde os tempos antigos, pinturas e esculturas de monges famosos, sábios e mestres eram consideradas valiosas. Há também este caso. Quando um espírito estrangeiro vem ao Japão, não pode atravessar o espaço apenas como espírito. Isso porque o alcance da circulação dos espíritos é limitado pelo seu nível; assim, ele se apossa de uma matéria por necessidade. Por exemplo, o espírito do comunismo frequentemente vem apossando-se dos escritos de Marx, e ouvi de uma pessoa que viu espiritualmente que esse espírito está alinhado nas paredes dos auditórios das universidades. Dizem também que os espíritos da China vêm apossando-se de vários tipos de objetos. Da mesma forma, os espíritos japoneses também viajam para o exterior apossando-se de objetos; quanto mais elevado é o espírito de uma divindade, maior é o alcance de sua circulação, e os deuses e budas mais elevados e nobres estendem seu alcance por toda a Terra. Pelo princípio acima, saber-se-á que a teoria da idolatria está errada. Bem e Mal No mundo, o bem e o mal se misturam, manifestando-se de várias formas. Ou seja, tragédia e comédia, infelicidade e felicidade, guerra e paz têm como motivo o bem ou o mal. Afinal, por que existem pessoas boas e pessoas más? Todos devem pensar que deve haver alguma causa fundamental para a origem do bem e do mal. O que desejo explicar aqui é a causa do bem e do mal, algo imprescindível de se saber. É claro que, para uma pessoa comum, é natural desejar ser boa e evitar ser má; o governo, a sociedade e a família, exceto uma parte das pessoas, naturalmente amam o bem, pois sabem que a paz e a felicidade não nascem do mal. Para facilitar a compreensão, dividirei a definição de bem e mal em duas partes. Ou seja, a pessoa boa é aquela que "acredita no invisível", e a pessoa má é aquela que "não acredita no invisível". Portanto, a pessoa que "acredita no invisível" é a que acredita na existência real dos deuses e budas — a chamada espiritualista; a pessoa que "não acredita no invisível" é a materialista, a ateia. Darei exemplos. Quando um ser humano pratica o bem, sua intenção vem do amor, da compaixão e da justiça social; visto de forma ampla, vem do amor à humanidade. Há também quem pratique o bem por acreditar na causa e efeito do bem e do mal; há quem ajude os outros movido por um sentimento de compaixão que não pode ser contido; há quem, pelo espírito de gratidão, retribuindo as quatro graças mencionadas no budismo, pratique a simplicidade e a economia, não desperdiçando as coisas e respeitando-as; tudo isso são manifestações do bem. Também o desejo de causar boa impressão nos outros, o desejo da conveniência e da felicidade alheia, a prática da bondade, a fidelidade à própria vocação, o agradecimento dos fiéis aos deuses e budas, os atos de gratidão, o esforço para estar de acordo com a vontade dos deuses e budas — tudo são manifestações do bem. Ainda deve haver vários outros exemplos, mas, em linhas gerais, são como acima. Em seguida, a psicologia de quem pratica o mal é a de não acreditar de forma alguma na existência dos deuses e budas. Pensam que, se conseguirem enganar os olhos dos outros por causa do lucro, não importa que tipo de crime cometam — é um pensamento niilista. Praticam o engano como se fosse algo comum, causam sofrimento aos outros, trazem desgraça à sociedade humana sem consideração alguma e chegam até a cometer assassinato. A guerra é um assassinato coletivo; os heróis de antigamente, movidos pelo próprio poder e por desejos ilimitados, provocavam grandes guerras, agindo conforme a máxima "o vencedor é o exército do governo". Como diz o provérbio: "Quando o homem está em ascensão, vence o céu; quando o céu se estabelece, vence o homem". Por um tempo, são gloriosos, mas, como a história mostra, no final, quase inevitavelmente, caem em um destino trágico; é claro que o motivo é o mal. Dessa forma, se for possível fazer qualquer coisa desde que se enganem os olhos dos outros, seria mais vantajoso cometer o máximo de maldades possível e viver na glória e na riqueza — isso seria inteligente. Além disso, o pensamento de que, após a morte, o ser humano se torna zero e não há vida no mundo espiritual gera o mal. No entanto, por mais que se tenha uma sorte maligna forte e se alcance um sucesso temporário, a longo prazo, inevitavelmente, em algum momento, ocorre a queda; isso é um fato sem exceção. Em primeiro lugar, quem comete o mal passa os anos em ansiedade e inquietação constantes, temendo ser preso a qualquer momento, atormentado pela consciência, e acaba por se arrepender. Vemos com frequência casos de pessoas que cometeram o mal e se entregam ou que, após serem presas, sentem-se aliviadas e até se alegram em receber a punição. Isso ocorre porque a alma, dada por Deus, é repreendida por Ele. Por quê? Porque a alma está ligada a Deus pelo elo espiritual. Portanto, mesmo que se consiga enganar completamente os olhos dos outros ao praticar o mal, não se pode enganar os próprios olhos; assim, uma vez que o ser humano está ligado a Deus pelo elo espiritual, qualquer ação humana é conhecida por Deus como se estivesse na palma da mão; tudo é registrado minuciosamente no livro do julgamento. Nesse sentido, não há coisa mais desvantajosa do que o mal (a relação entre Deus e a alma será detalhada posteriormente no item "Sobre o Elo Espiritual"). No entanto, há também pessoas assim no mundo. Há quem, mesmo querendo praticar o mal, não o faça por um senso de autopreservação, pensando que, se errar e for descoberto, será um grande problema, perderá a confiança e terá um grande prejuízo; há quem, sabendo que o mal é vantajoso, não tenha coragem de praticá-lo; há também pessoas boas utilitaristas que praticam o bem por acreditarem que isso trará confiança e vantagens. Há também quem, ao praticar a bondade, espere que, de alguma forma, um dia receba algo em troca; essa bondade é uma espécie de transação, vendendo bondade e comprando retribuição. Os bons descritos acima, por não causarem sofrimento aos outros nem envenenarem a sociedade, são muito melhores do que os maus, mas não se pode dizer que sejam verdadeiros homens bons. Talvez deva ser chamado de pessoa boa passiva. Portanto, esse tipo de pessoa boa não se torna um verdadeiro bem aos olhos dos deuses e budas. Isso porque os olhos dos deuses e budas veem até o fundo do fundo do ventre humano. Muitas vezes, as pessoas do mundo questionam: "Por que uma pessoa tão boa é tão infeliz?" Isso ocorre porque veem com olhos humanos; os olhos humanos enxergam apenas a superfície, não o fundo do ventre. Esse tipo de pessoa boa, no fundo, também tem a psicologia de "não acreditar no invisível"; se, tocada por algum motivo, pensar que pode cometer um pequeno mal sem ser descoberta, há o risco de fazê-lo, podendo ser considerada uma pessoa perigosa. Em contrapartida, quem acredita nos deuses e budas invisíveis, pela convicção de que, mesmo que possa enganar os olhos dos homens, não pode enganar os olhos dos deuses e budas, jamais se deixa levar por qualquer proposta, por mais vantajosa que seja. Portanto, mesmo que pareça uma pessoa boa e excelente na superfície, quem não acredita nos deuses e budas carrega o perigo de, a qualquer momento, transformar-se em uma pessoa má — pode-se dizer que ainda pertence ao mal. Pelo princípio acima, o verdadeiro bem é "aquele que tem fé", ou seja, a pessoa que acredita no invisível é que tem essa qualificação — deve-se dizer assim. Por isso, creio que, para salvar a atual decadência tão acentuada dos conceitos morais, não há outro caminho senão a fé. Até hoje, para prevenir crimes, criaram-se leis, estabeleceram-se polícia, tribunais, prisões etc., mas isso é exatamente como construir jaulas e cercas de ferro para prevenir os danos de feras. Se assim é, os criminosos não são tratados como seres humanos, e sim como animais. Nascer como um precioso ser humano e, ainda assim, terminar a vida rebaixado à condição de animal — que coisa lamentável! "Se o ser humano se corrompe, torna-se animal; se eleva, torna-se deus" é uma verdade imutável; o ser humano é exatamente "um ser vivo intermediário entre o deus e o animal". Nesse sentido, creio que o verdadeiro homem culto é aquele que se libertou da natureza animal, e o progresso da cultura é a elevação do homem de natureza animal para o homem de natureza divina. Portanto, o lugar onde se reúnem os homens de natureza divina — o que mais poderia ser senão o Paraíso na Terra? Sobre o Elo Espiritual A palavra "elo espiritual" parece não ter sido muito usada até hoje. Isso porque ainda não se conhecia a sua importância, pois se trata de algo mais rarefeito que o ar e invisível aos olhos. No entanto, em todos os assuntos humanos, a influência desse elo espiritual não pode ser menosprezada: para o ser humano, é causa de felicidade e de infelicidade e, em grande escala, chega a influenciar a própria história. Portanto, o ser humano precisa conhecer o significado desse elo espiritual. Ao explicar o que é o elo espiritual, quero antes deixar claro que isso é ciência, é religião e será uma ciência do futuro. Tanto o princípio da relatividade quanto os raios cósmicos — todos os problemas relacionados à sociedade e ao indivíduo — nada escapa à relação com o elo espiritual. Primeiramente, falarei sobre a relação entre o ser humano e o elo espiritual. Aqui está um ser humano — pode-se pensar que é o próprio leitor. Esse eu possui um número incalculável de elos espirituais que o ligam: alguns, centenas, dezenas de milhares. Esses elos podem ser grossos ou finos, longos ou curtos, corretos ou maus, e estão constantemente exercendo certa influência e mudança sobre o ser humano. Portanto, não é exagero dizer que o ser humano mantém sua existência por meio dos elos espirituais. Entre eles, o elo que liga marido e mulher é o mais grosso; o de pais e filhos vem em seguida; irmãos, tios, sobrinhos, primos, amigos, conhecidos etc. tornam-se progressivamente mais finos. Desde os tempos antigos, fala-se em "fio do destino" ou "laços que se formam"; isso deve se referir a este fato. O elo espiritual está sempre mudando, tornando-se mais grosso ou mais fino. Quando o casal está em harmonia, ele é grosso e brilhante; quando briga, afina-se e perde o brilho. O mesmo ocorre com pais e filhos, irmãos e outros; além disso, novos elos espirituais podem ser criados. Isso acontece no caso de novos conhecidos, amigos, especialmente no amor: quando o amor atinge o auge, o elo torna-se ilimitadamente grosso, e os elos de ambos os lados se entrelaçam intensamente. Isso proporciona uma espécie de prazer sutil e, ao mesmo tempo, reflete uma espécie de tristeza e solidão. Por fim, o elo espiritual se torna extremamente forte, a ponto de tornar a separação impossível, devido ao princípio acima. Nesses casos, por mais que um terceiro tente convencer, não só não há efeito como o ardor aumenta, como todos sabem. O amor mútuo é como o contato do yin e do yang da eletricidade gerando energia; nesse caso, o elo espiritual desempenha o papel do fio elétrico. Certa vez, salvei uma estudante que estava prestes a cometer um suicídio amoroso homossexual, faltando um passo. Foi eliminando espiritualmente a eletricidade yang de um dos lados. Em cerca de uma semana, obtive sucesso; a moça yang teve seu ardor amoroso esfriado e voltou ao normal, e a outra moça também se recuperou. No entanto, embora se possa cortar o elo espiritual de outras pessoas, não se pode cortar o dos parentes consanguíneos. Em seguida, há algo a ser observado no elo espiritual entre pais e filhos. Como os pais pensam constantemente nos filhos e os filhos nos pais, ambos se refletem mutuamente; assim, a natureza da criança acaba recebendo a natureza dos pais através do elo espiritual. Portanto, quando os pais desejam melhorar o filho, primeiro devem purificar o próprio coração. É por isso que, no mundo, mesmo que os pais, agindo de forma errada, aconselhem os filhos, o efeito é pequeno. Há também casos como este: admira-se como, tendo pais tão excelentes, o filho é tão delinquente. Isso ocorre porque esses pais são pessoas boas utilitaristas; parecem bons por fora, mas suas almas estão nubladas, e isso se reflete no filho. Em seguida, há casos em que, entre irmãos, um é bom e o outro é mau. Qual a razão disso? Há a relação com a vida anterior e a causa do pecado dos pais. Explicarei isso. Para essa explicação, é necessário partir do princípio da reencarnação humana. Explicando resumidamente: após a morte, o ser humano vai para o mundo espiritual, ou seja, nasce no mundo espiritual. No budismo, chama-se "Ojo", que se escreve "nascer e ir"; do ponto de vista do mundo espiritual, pode-se dizer isso. No mundo espiritual, porém, ocorre um processo de purificação dos vários pecados e impurezas cometidos pela pessoa no mundo material; a alma, após ser purificada até certo ponto, reencarna. Aqueles que foram maus na vida anterior, ao morrerem devido a punições ou outras circunstâncias, arrependem-se e pensam firmemente: "O ser humano nunca deve fazer o mal; na próxima vez que reencarnar, com certeza serei uma pessoa boa". Assim, ao reencarnar, praticam muito o bem. Por esse princípio, mesmo que alguém seja uma pessoa boa desde o nascimento nesta vida, pode ter sido um grande malfeitor na vida anterior. E, como muitas pessoas não acreditam na existência do mundo após a morte enquanto estão vivas, depois de morrer não conseguem se estabelecer no mundo espiritual; devido ao apego à vida, reencarnam com purificação insuficiente. Por isso, os pecados e as impurezas ainda permanecem, e o processo de purificação ocorre nesta vida em relação a esses pecados e impurezas remanescentes. Como a purificação é sofrimento, mesmo sendo uma pessoa boa desde o nascimento, a infelicidade se deve a esse princípio. Há também pessoas que nascem com deficiências — cegueira, surdez-mudez, deformidades etc. — porque, devido a uma morte violenta, os ferimentos desse momento são purificados pela metade e a pessoa reencarna. Sobre essa reencarnação, escreverei mais um fato notável. Quando um bebê nasce, muitas vezes seu rosto parece o de um velho. Isso ocorre porque um velho reencarnou; após dois ou três meses, ele adquire pela primeira vez aparência de bebê; quem tem experiência concordará com isso. Em seguida, há casos em que o coração injusto dos pais se reflete em um dos irmãos, tornando-o mau, e a consciência dos pais se reflete no outro, tornando-o bom. Há também exemplos como este: quando os pais acumulam riquezas injustas e se tornam ricos, o espírito ancestral, para que a prosperidade da família não seja incerta sem que essa riqueza injusta seja dissipada, faz com que um dos filhos se torne um perdulário, gastando dinheiro como água, até que não reste mais fortuna. Nesse caso, o filho escolhido para ser o perdulário está, na verdade, desempenhando um papel nobre para salvar a família; quem não sabe disso o considera um sujeito horrível que destruiu a fortuna dos pais, mas, na verdade, é digno de pena. O elo espiritual não se limita apenas aos parentes vivos próximos do ser humano. Ele também estabelece comunicação com os espíritos no mundo espiritual após a morte; há elos espirituais que ligam às divindades corretas e outros que ligam às divindades malignas. É claro que as divindades corretas incentivam o bem, e as malignas incentivam o mal; o ser humano está constantemente sendo manipulado por um dos lados. E aqueles que foram purificados até certo ponto no mundo espiritual são selecionados como espíritos guardiões e protegem os seres humanos através do elo espiritual. Ou seja, tentam salvar as pessoas do mundo material que estão prestes a enfrentar um perigo, transmitindo-lhes sinais de perigo. Um exemplo: quando alguém tenta embarcar em um trem, se não consegue embarcar por falta de tempo ou por algum problema, e pega o trem seguinte, e o trem que perdeu sofre um acidente com muitos mortos e feridos, isso se deve à atividade do espírito guardião. O espírito guardião conhece antecipadamente o destino das pessoas do mundo material e tenta avisá-las por vários meios. O número de elos espirituais varia de acordo com o nível da pessoa. Uma pessoa com muitos elos, como o chefe de uma família, tem ligações com familiares, empregados, parentes e conhecidos. O presidente de uma empresa, com todos os funcionários. Uma pessoa pública, como o chefe de uma aldeia, de uma cidade, de um distrito, de uma municipalidade, o governador, o primeiro-ministro, o presidente, o rei etc., todos têm ligações de elo espiritual com as pessoas de sua área de jurisdição ou sob seu comando; quanto mais alto o cargo, maior o número. Nesse sentido, a personalidade de cada líder deve ser nobre e pura. Se a alma do líder estiver turva, isso se refletirá em muitos, e o pensamento da maioria se deteriorará; portanto, o primeiro-ministro de um país, por exemplo, deve ser uma pessoa de grande personalidade, rica em Chieshōkaku (Inteligência da Percepção Verdadeira) e que aja com toda a sinceridade. Se o pensamento do povo se deteriora, a moralidade decai e os criminosos surgem em massa, a responsabilidade é dos governantes. Especialmente os educadores, se soubessem que sua própria personalidade se reflete nos alunos através do elo espiritual, deveriam sempre polir sua própria alma e tornar-se pessoas que não se envergonhem como modelo. Particularmente os religiosos, como o fundador de uma seita, o presidente ou os Ministros, são louvados como deuses vivos por muitos fiéis; portanto, o poder de reflexão de sua alma é notável, e devem ter muito cuidado. No entanto, se houver ações desagradáveis aproveitando-se dessa posição elevada, isso se refletirá em todos os fiéis, levando, por fim, ao colapso inevitável da religião; exemplos disso são conhecidos. O elo espiritual não se limita aos seres humanos; os deuses e budas também o fazem chegar aos seres humanos. Diferentemente dos seres humanos, o elo espiritual vindo dos deuses e budas é luz; o elo espiritual dos seres humanos, para pessoas de raiz superior, é de luz fraca; em geral, é como uma linha cinzenta sem luz, e quanto mais má a pessoa, mais negra ela se torna. No mundo, quando se escolhem amigos, deseja-se pessoas boas; isso ocorre porque, ao se relacionar com o bem, torna-se bom; ao se relacionar com o mal, torna-se mau; tudo se deve à reflexão do elo espiritual. Portanto, ao praticar a fé, é essencial discernir o certo e o errado entre deuses e budas. Mesmo entre as divindades corretas, há diferenças na intensidade da luz, conforme a elevação de sua qualificação divina. Quanto mais elevados são os deuses e budas, mais numerosos são os milagres entre seus seguidores, pois a luz de seu elo espiritual é mais forte. Acima, esbocei o significado do elo espiritual em relação aos seres humanos, mas há também sua atividade em fenômenos não humanos. Isso se aplica às residências onde os humanos habitam e aos objetos que usam e estimam no dia a dia — e, especialmente, quanto mais se estima um objeto, mais espesso se torna o elo espiritual. O mesmo ocorre com roupas, adornos e couro. Existe uma história a respeito, registrada em uma revista espiritual dos Estados Unidos. Conta-se que uma certa senhora possuía uma habilidade misteriosa: parecia capaz de discernir, por meio dos objetos, a fisionomia, a idade, as ações recentes e outras características de seus donos. Ao examinar atentamente o objeto, a imagem aparecia em sua superfície como uma fotografia — algo impresso pelo elo espiritual. Isso permite perceber quão profunda e sutil é a atividade do elo espiritual. Recentemente, os raios cósmicos têm sido estudados cientificamente, mas, pelo que vejo, trata-se do elo espiritual que conecta as estrelas e a Terra. A estabilidade da Terra no espaço vazio deve-se ao elo espiritual dos satélites que a circundam, os quais a tracionam. O número desses elos espirituais é tão imenso — na casa de dezenas de milhares ou centenas de milhões — que se torna impossível medi-lo, e eles penetram até o centro da Terra. Aproveitando a oportunidade, gostaria de falar um pouco sobre a relação entre os corpos celestes e a Terra. Em sua origem, eles são como espelhos que se refletem mutuamente. Há dois tipos de estrelas: claras e escuras, ou seja, luminosas e escuras. As estrelas escuras não têm luz alguma e, por isso, não são visíveis aos olhos humanos; mas, ano após ano, transformam-se em estrelas luminosas, e o número destas aumenta. Por que as estrelas escuras se transformam em luminosas? Isso se deve à ação de endurecimento da matéria cósmica: quando atingem o ponto máximo de endurecimento, começam a emitir brilho. É o mesmo princípio pelo qual o mineral mais endurecido da Terra, o diamante, é o que mais brilha. Consequentemente, na época da criação da Terra, o número de estrelas era tão escasso quanto as estrelas da manhã, e o aumento do número de estrelas é diretamente proporcional ao aumento da população humana. No futuro, tanto o número de estrelas quanto o de humanos poderão aumentar em proporção incalculável. Os astrônomos frequentemente descobrem novas estrelas, e isso ocorre porque estrelas escuras se transformam em luminosas e começam a se tornar visíveis aos olhos humanos. As estrelas cadentes, por sua vez, são um fenômeno de fissão estelar, e os meteoritos, os fragmentos desse processo. Há também inúmeras estrelas grandes, médias e pequenas, começando pelos grandes planetas: Marte, Júpiter, Saturno, Vênus e Mercúrio. Todas elas, sem exceção, refletem-se na humanidade terrestre, e esses cinco planetas correspondem, em cada época, a cinco pessoas de destaque mundial. Acho interessante comparar os seres humanos às estrelas e, a respeito de pessoas famosas, dizer coisas como "a grande estrela vem e vai" ou "a grande estrela cai". No Ocidente, a astrologia foi extremamente popular em certa época; os sacerdotes a praticavam para determinar a sorte e o azar, a felicidade e a infelicidade, o diagnóstico de doenças etc. Segundo os registros históricos, ela dominou uma era. Na China, a escola do I Ching também tem como fundamento as nove estrelas, e acredito que o grande interesse dos antigos pelas estrelas não foi sem significado. Quanto à teoria da existência de vida em Marte, trata-se de um erro. Pelo que entendo, a vida existe apenas neste planeta Terra; além disso, o centro do grande universo é a Terra, e todas as coisas existem para a humanidade. Portanto, deve-se pensar em quão nobre é o ser humano. Kami e Buda Desde os tempos antigos, existe a expressão "deuses e budas têm a mesma raiz". Gostaria de interpretá-la. Quando um discípulo perguntou a Shakyamuni: "Gostaria que o Dharma Budista fosse expresso em uma única palavra", ele respondeu de imediato: "Se o Dharma Budista for expresso em uma única palavra, é 'Talidade' (Shinnyo)". "Talidade" provavelmente significa a lua da Talidade, ou seja, a luz da noite. A Índia, nos tempos antigos, também era chamada de "País da Lua" (Getsushikoku). Certo dia, Shakyamuni estava com uma aparência de tristeza insuportável, e um de seus discípulos, preocupado, perguntou-lhe o motivo. Então Shakyamuni disse: "Na verdade, fiquei decepcionado ao saber que este Dharma Budista, que preguei com tanto esforço, um dia chegará ao fim." Diz-se que, depois disso, ele pregou o Sutra da Extinção do Dharma (Hōmetsujin-kyō) e, em seguida, o Sutra do Advento de Maitreya (Miroku Shutsugen Jōju-kyō). Shakyamuni também disse: "Aos setenta e dois anos, tornei-me Kenshinjitsu (Inteligência da Percepção Verdadeira). Portanto, os sutras até hoje não são completos, mas os sutras que pregarei daqui em diante são a verdade e não contêm erro algum." Conta-se que, a partir de então, ele pregou os vinte e oito capítulos do Sutra de Lótus (Hokekyō), sendo o vigésimo quinto o Capítulo da Porta Universal de Kannon (Kannon Fumon-bon). O Venerável Nichiren, sabendo disso, considerou o Sutra de Lótus como a essência do Dharma Budista e, com uma fé ardente, dedicou-se à propagação do Sutra de Lótus. Em seguida, há esta história interessante. Trata-se do corpo principal de Kanzeon-Bosatsu (Bodhisattva Avalokiteshvara). Até hoje, os bodhisattvas eram mantidos como budas secretos e envoltos em grande mistério, mas, de acordo com minha pesquisa, o Bodhisattva é uma certa divindade do Japão que, sofrendo perseguição de divindades malignas e com sua vida em perigo, viu-se obrigada a fugir do Japão para a Índia. Lá, no topo de uma montanha chamada Potalaka, perto do mar, ao sul da Índia, construiu um templo e, sob os nomes de "Grande Sábio do Mar do Sul" (Nankai Daishi) ou "Bodhisattva da Liberdade de Observação" (Kanjizai Bosatsu), pregou seus ensinamentos. No Sutra Avatamsaka (Kegon-kyō), está escrito: "Ao sul, há uma montanha chamada Potalaka, onde reside o Bodhisattva da Liberdade de Observação. Na ocasião, o jovem Sudhana (Zenzai Dōji), em peregrinação, subiu ao topo da montanha, visitou o Bodhisattva e conseguiu encontrá-lo. Naquele lugar, as árvores cresciam exuberantemente, havia riachos e áreas úmidas aqui e ali, e, no centro, sobre um macio leito de grama, em um trono de diamante, o Bodhisattva da Liberdade de Observação estava sentado em posição de lótus, sendo venerado por muitos santos, enquanto pregava o Sutra da Grande Compaixão." E continua: "Naquela ocasião, havia vinte e oito grupos de servos, incluindo Daiben Zaiten (Mahasarasvati), Daibon Tennō (Mahabrahma), Taishaku Tennō (Shakra Devanam Indra), Konjiki Kujaku Ō (Rei Pavão Dourado), Bishamon Ten (Vaisravana), Ashura Ō (Rei Asura), além dos dois irmãos Narayana Kongō e Vajrapani Kongō (que são os Reis Nio), entre outros devas." Acredita-se que o jovem Sudhana seja o próprio Shakyamuni. Que o Bodhisattva seja japonês pode-se inferir de seus cabelos negros caídos sobre os ombros, do rosto de tipo japonês e do fato de seu corpo principal ser uma estátua de Buda de ouro de um sol e oito bu (aproximadamente 5,45 cm). Desde os tempos antigos, o Japão é chamado de "país do ouro". Ademais, pela coroa, colar, pulseiras etc., pode-se deduzir que era uma pessoa de origem nobre. O turbante e a túnica branca em que estava envolto parecem ser uma vestimenta de disfarce durante a fuga. Por outro lado, tanto Shakyamuni quanto Amida Nyorai (cujo nome original era Hōzō Bosatsu) têm cabelos crespos, o que sugere que nasceram na Índia. A propósito, Hōzō Bosatsu encontrou-se com Shakyamuni e prometeu: "Eu criarei uma Terra Pura no Ocidente. Portanto, de agora em diante, entre seus discípulos, aqueles que se tornarem budas, envie-os para esta Terra Pura. Assim, farei com que os budas habitem por muito tempo na Terra Pura da Luz Silenciosa." "Luz Silenciosa" (Jakko) significa uma luz silenciosa; portanto, seria uma terra abençoada iluminada pela luz da lua. Assim, Dainichi Nyorai é Amaterasu Ōmikami; Shaka Nyorai é a deusa Wakahimegimi no Mikoto (Shakyamuni disse: "Eu sou uma mulher que mudou de natureza"); e Amida Nyorai é Tsukuyomi no Mikoto. Cada divindade se encarnou como Buda para salvar o mundo. Há uma lenda de que os cinco filhos homens e três filhas mulheres mencionados no "Shinten" (Escritos Divinos) se tornaram os Oito Grandes Reis Dragões e foram selados por Shakyamuni. Essas divindades se transformaram em deuses dragões e aguardaram a vinda do mundo de Miroku (Maitreya). As outras divindades, em sua maioria, se transformaram em budas. Como visto acima, o período em que as divindades se encarnaram como budas foi o Mundo da Noite. No momento em que se torna o Mundo do Dia, elas retornam à sua qualificação divina original. Na Índia, berço do Dharma Budista, cuja população é de trezentos e cinquenta milhões, o número de seguidores do budismo hoje é de cerca de trezentas e cinquenta mil pessoas, com tendência a diminuir a cada ano. Isso mostra que a Extinção do Budismo está se manifestando claramente na Índia, e a profecia de Shakyamuni se concretizou plenamente. Portanto, acredito que a vinda do mundo de Miroku após a Extinção do Budismo também deve se concretizar. (Fim de "O Evangelho do Paraíso")

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