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Coleção Jikan Volume 12 Coletânea de Narrativas Jikan
Prefácio
Esta obra reúne artigos publicados no jornal Hikari Shimbun e na revista Tijotengoku, ambos editados por nossa Igreja. Deles se extraíram apenas os mais interessantes e significativos, como alimento para a alma. É claro que houve pontos consideravelmente alterados e outros complementados; como se buscou a maior perfeição possível, mesmo quem já leu os artigos originais terá uma impressão nova.
O conteúdo principal, como seria de esperar, abrange questões atuais, religião, ética, preceitos para a vida e outros assuntos que todo ser humano precisa conhecer. Espera-se, pois, que a obra seja lida como um guia para a jornada da vida; ao mesmo tempo, pode-se dizer que constitui uma nova filosofia de vida.
Janeiro de 1950
Pelo Autor
Verdade e Pseudo-Verdade
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição nº 6 de "Tijotengoku", em 20 de julho de 1949)
Desde os tempos antigos todos falam da verdade, mas ninguém parece falar da não-verdade, ou seja, da Falsa Verdade. No entanto, quando se examinam os problemas práticos, é preciso saber que há diferença entre uma e outra, pois essa distinção repercute diretamente nos resultados. A esse respeito, sempre penso o seguinte: é extremamente comum confundir a Falsa Verdade com a verdade, e o público em geral simplesmente não se dá conta disso.
Falsa Verdade e verdade existem na religião, na filosofia, na ciência, na arte e na educação. Seja qual for o campo, a Falsa Verdade se desintegra em alguns anos, algumas décadas ou alguns séculos; a verdade, essa é eterna e imutável.
Quando algo novo é descoberto, os contemporâneos acreditam tratar-se da verdade suprema; é muito comum, porém, que o surgimento de novas teorias acabe por desintegrá-lo. Da mesma forma, quem pode garantir que mesmo uma grande religião não desaparecerá depois de centenas ou milhares de anos? Isso não significa, contudo, que ela desapareça por completo: desaparece apenas o seu aspecto de Falsa Verdade, e permanece o aspecto de verdade nela contido. E, ainda que nada reste, até ali ela terá cumprido seu papel como etapa do progresso da cultura — por isso não se torna alvo de críticas. Assim, mesmo sendo Falsa Verdade, quanto mais próxima da verdade, mais longa será sua vida; quanto mais distante, mais curta será sua existência. Essa é uma lei natural.
Falando francamente, cabe aos sábios e visionários de cada época distinguir corretamente entre verdade e Falsa Verdade; o fato, porém, é que são raríssimos os que possuem visão tão transcendental. Ainda assim, a Falsa Verdade pode perdurar por tempo considerável. Até a política tirânica e o pensamento feudal foram tratados como verdade. Para citar um exemplo recente, o fascismo de Mussolini, o nazismo de Hitler e o Hakkō Ichiu de Tōjō tiveram destino realmente curto — e é estranho que os contemporâneos não o tenham percebido. Mesmo sendo Falsa Verdade, ela levou aquele povo a tomá-la por verdade durante algum tempo e a desprezar a própria vida. Lembramo-nos vividamente das inúmeras pessoas dignas de pena que, vítimas desse engano, pereceram. Compreende-se perfeitamente o terror da Falsa Verdade.
É inegável que Falsa Verdade e verdade abundam na religião. Muitas seitas menores surgem e perecem; por mais esplêndidas que sejam no início, têm vida curta e desaparecem sem deixar vestígios, precisamente porque eram religiões de Falsa Verdade.
Por isso, enquanto uma religião tiver valor equivalente ao da verdade, ainda que sofra forte opressão temporária, um dia certamente há de erguer-se e tornar-se uma grande religião — como mostram as grandes religiões hoje existentes.
(Nota)
Hakkō Ichiu — Tornar o mundo uma só casa. Foi um slogan usado durante o período da Guerra do Pacífico para justificar a invasão ultramarina do Japão.
Explicando as Cinco Sabedorias
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição nº 23 de "Hikari", em 20 de agosto de 1949)
Ainda que se fale apenas em sabedoria, há vários tipos dela. Vamos classificá-los. A mais elevada é a Sabedoria Divina, seguida, em ordem, pela Sabedoria Maravilhosa, pela Sabedoria Sagrada, pela Sagacidade e pela Sabedoria Astuta — cinco estágios ao todo. É a isso que denomino Cinco Sabedorias. Expliquemos cada uma delas.
A Sabedoria Divina é a mais elevada de todas e não pode ser obtida por pessoas comuns. É a sabedoria que uma pessoa especial recebe de Deus, por dEle ter recebido uma missão importante. Desde os tempos antigos se diz: "O que se aprende e se conhece é sabedoria humana; o que se conhece sem aprender é Sabedoria Divina" — frase que exprime bem, de uma só vez, todo o conceito.
A Sabedoria Maravilhosa corresponde ao "poder maravilhoso da sabedoria de Kannon" e, em contraste com a Sabedoria Divina de que falei, pode ser chamada de sabedoria de Buda. Se a Sabedoria Divina é masculina, pode-se dizer que a Sabedoria Maravilhosa é feminina; e acho interessante que o caractere "maravilhoso" (myō) traga em si o radical de "mulher".
A Sabedoria Sagrada é a sabedoria manifestada pelos seres humanos sábios. No budismo, é a ela que se referem termos como "Chieshōkaku" (Inteligência da Percepção Verdadeira), ou simplesmente "sabedoria". No mundo de hoje, porém, são realmente raros até os que fazem uso dessa Sabedoria Sagrada, pois é difícil julgar corretamente as coisas quando pensamentos malignos se interpõem. Vou dar um exemplo. Hoje em dia, políticos e até intelectuais, quando se reúnem para discutir um problema, por menor que seja, não conseguem chegar a uma conclusão sem que muitas pessoas passem horas quebrando a cabeça. Se o problema é um pouco maior, dez e poucas ou várias dezenas de pessoas se reúnem, travam discussões acaloradas e, mesmo voltando a reunir-se por muitos dias, dificilmente chegam a uma conclusão. Isso mostra como é lento o funcionamento do cérebro.
Pense bem: seja qual for o problema, a conclusão é uma só, nunca várias. Ainda assim, exigem-se muitos cérebros e vários dias — o que é realmente lamentável. Tudo isso se deve à falta de Sabedoria Sagrada. Faltar Sabedoria Sagrada significa ter o cérebro nublado; ter o cérebro nublado significa abrigar pensamentos malignos; abrigar pensamentos malignos significa crer no materialismo; crer no materialismo significa não reconhecer a existência de Deus; e não reconhecer a existência de Deus significa não ter uma religião que faça as pessoas acreditarem nEle. Sendo assim, a religião que faz as pessoas compreenderem claramente a existência de Deus é que deve ser chamada de religião verdadeiramente viva. O simples fato de ser preciso repetir algo assim mostra o quanto se deteriorou o cérebro do homem moderno.
Nesse sentido, quem possui Sabedoria Sagrada encontra a conclusão de qualquer problema em poucos minutos, ou em algumas dezenas de minutos. Por isso digo aos meus subordinados que, diante de qualquer problema, a discussão até a conclusão deve ter como limite cerca de trinta minutos; passando de uma hora, que suspendam temporariamente a reunião, a remarquem para outro dia ou me consultem diretamente.
É constrangedor falar de mim mesmo, mas encontro em poucos minutos a conclusão de qualquer problema difícil. Há vezes em que ela não me vem depressa; nesses casos não insisto e a adio temporariamente. Então, logo em seguida, a conclusão certamente brilha em minha mente, como uma inspiração.
Vem em seguida a Sagacidade. Como todos sabem, é uma sabedoria superficial, apenas aparente. Por isso, ainda que sirva por algum tempo, com o tempo levará fatalmente ao fracasso ou à perda de credibilidade. Em outras palavras, bem se pode chamá-la de sabedoria tola ou obtusa.
A Sabedoria Astuta, como o próprio nome indica, é a sabedoria do mal, uma sabedoria perversa. Também ela é bastante comum no mundo e, além disso, abunda entre a classe intelectual e a classe dirigente — enquanto isso persistir, não há como a sociedade melhorar. Somente quando os japoneses se tornarem pessoas capazes de eliminar essa sabedoria perversa é que surgirá uma sociedade brilhante e o país se tornará excelente. Pergunta-se, então, se existe um método para erradicar a Sabedoria Astuta. Não há nisso mistério algum: é destruir por completo o local de origem da sabedoria perversa. E esse método não é outro senão a atividade de uma religião poderosa, capaz de fazer as pessoas acreditarem na existência de Deus.
A Filosofia da Intuição
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição extra de "Hikari", em 30 de maio de 1949)
Em minha juventude, simpatizei com a teoria do falecido filósofo francês Henri Bergson, então muito elogiado. Lembro-me bem dela até hoje e, por ser de grande proveito do ponto de vista da fé, vou expô-la aqui.
Sua filosofia assenta, provavelmente, em três pilares centrais: o fluxo perpétuo de todas as coisas, a teoria da intuição e o "eu do instante". O que particularmente me impressionou foi a filosofia da intuição. Segundo ele, ela consiste no seguinte.
Quando o ser humano observa alguma coisa, não lhe é fácil vê-la em si mesma, sem o menor desvio. Apreender a realidade de um objeto é realmente difícil. Por que será?
Todo ser humano traz em si, de forma latente, ideias de toda ordem — educação, tradição, costumes etc. —, que se combinam numa única barreira, embora quase ninguém perceba isso. É ela que atrapalha no momento de observar. Ao examinar uma nova religião, por exemplo, já se parte do princípio de que toda nova religião é uma religião maligna e supersticiosa, um charlatanismo: a barreira interfere por completo. No homem social de hoje, as opiniões dos jornalistas entram sem cessar pelos olhos, através de jornais e revistas; pelo rádio e pelos boatos, entram também pelos ouvidos, e a barreira vai ficando cada vez mais grossa e sólida. Mesmo diante de um milagre — uma doença incurável pela medicina curada pela fé —, não se consegue aceitar o fato como ele é: primeiro vem a dúvida. É obra da barreira. Como a ideia de que as doenças são curadas pela medicina forma o centro dessa barreira, quando a cura ocorre ela cria justificativas de toda espécie — "porque chegou a época de curar", por exemplo —, distorcendo os fatos. É algo que experimentamos constantemente.
A filosofia da intuição é justamente a que corrige esses erros em que os seres humanos facilmente incorrem. Ou seja: ao observar algo, torna-se um "eu" de mente aberta e imparcial, como uma folha de papel em branco, que a barreira não prejudica. E como consegui-lo? Tornando-se o "eu do instante". A impressão intuitiva do momento em que se vê alguma coisa é a que apreende, sem erro, a realidade dessa coisa em si. Portanto, se você viu com os próprios olhos o fato de uma doença grave ser curada, deve acreditar nele tal como é — essa é a maneira correta de ver. Pensar "isso não é possível", "algo que não se cura com instrumentos ou remédios não pode ser curado com algo invisível como o ar" já é sinal de que a barreira está atrapalhando. E se alguém disser: "Isso é superstição. Como pode existir uma história tão absurda?", a barreira de outrem vem somar-se ao obstáculo. É preciso, portanto, muito cuidado com isso. O que ficou dito acima é apenas um esboço da filosofia da intuição.
Já o fluxo perpétuo de todas as coisas significa que tudo corre sem um único instante de pausa. O "eu" de ontem e o "eu" de hoje, por exemplo, decerto diferem em algum aspecto — na verdade, até o "eu" de cinco minutos atrás e o "eu" de agora são diferentes. O mundo de ontem não é o mesmo de hoje; e com a sociedade, a cultura e as relações internacionais dá-se, obviamente, o mesmo. Por isso a maneira de ver dos seres humanos também deve ser clara quanto a essa própria mudança — é essa a maneira correta de ver. Segundo esse princípio, a religião e a cultura deveriam mudar sua maneira de ver e de pensar. As pessoas, no entanto, criticam as novas religiões pela ótica de religiões de centenas ou milhares de anos atrás, e é natural que assim não se possa chegar a um conhecimento preciso. Esta é a teoria do fluxo perpétuo de todas as coisas.
A Superstição da Lógica
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição nº 30 de "Hikari", em 8 de outubro de 1949)
Hoje em dia critica-se e despreza-se a superstição; o assunto, porém, merece reflexão — sobretudo por ser algo especialmente comum entre os intelectuais, e nisso está uma realidade problemática. Será preciso, pois, esclarecer de que causa nasce a superstição. Antes de tudo, ao olhar para a vida humana de hoje, vê-se que este mundo está repleto de coisas que não fecham logicamente. Todos devem ter experimentado que, mesmo pensando "vou fazer assim", "com certeza vai dar certo", "vai ser assim", são abundantes os resultados contrários ao que se esperava. Se for assim, não estará errada a maneira de pensar que prevê "com certeza vai dar certo"? As coisas não saírem conforme a lógica quer dizer que, ao cabo, é a própria lógica que está errada. É esse o ponto que se precisa perceber.
É claro que, se a infelicidade humana vem de nada seguir a lógica, é natural que, seguindo-a as coisas, as pessoas pudessem ser felizes.
Daí ser crucial mudar a maneira de pensar seguida até agora, e mudar a própria cabeça que cria a lógica: é desse ponto que se tem de partir. De fato, ao olhar para a sociedade, pode-se dizer que a maioria são fracassados. Se for assim, a lógica que o público em geral tem por certa é justamente a lógica ao contrário; e a que se opõe a esse contrário é que vem a ser a lógica verdadeira. Nisso consiste o Princípio Inverso a que sempre me refiro. Porque nele os fatos vêm antes da lógica, o fracasso quase não existe. Ouço dizerem amiúde, por exemplo: "O Johrei da nossa Igreja não faz sentido lógico, mas cura milagrosamente; a medicina faz sentido lógico, mas não cura nada."
Há ainda o seguinte: quando a pessoa se forma na escola e entra na sociedade real, descobre que a lógica ali aprendida é muito diferente da realidade. A culpa cabe inteira ao mal de uma educação que põe a lógica acima e os fatos abaixo — problema particularmente grave no Japão. Sob influência da educação americana ela se fez, nos últimos tempos, um pouco mais prática; ainda assim, sinto que o verdadeiro despertar está muito distante. O exemplo é trivial, mas serve: quem estudou ciências na escola não sabe, depois de formado, reparar uma falha elétrica; quem se formou em escola feminina não sabe sequer preparar o nukamiso (pickles de farelo de arroz). Mostra isso que se aprende apenas a lógica teórica, sem que se ensine o conhecimento prático.
Prender-se à lógica e ignorar a realidade, como se vê, não deixa de ser cair na superstição da lógica.
A Materialização da Verdade
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição nº 18 de "Hikari", em 16 de julho de 1949)
Qual é, afinal, o verdadeiro propósito da religião? É, sem dúvida, a materialização da verdade. E o que é a verdade? Naturalmente, a própria forma da natureza. O sol nascer no leste e se pôr no oeste; todo ser humano que nasce certamente morrer — o que o Budismo exprime como "aquele que nasce certamente perece, aquele que se encontra certamente se separa" —; os seres humanos viverem respirando ar e comendo alimentos: tudo isso é, obviamente, a verdade. O estado atual da humanidade está tão caótico que se torna necessário dizer coisas assim tão óbvias.
De acordo com esse princípio, mesmo observando os fenômenos deploráveis da sociedade atual — confusão, conflitos, desordem, crimes —, não se pode negar que as condições para a infelicidade superam as da felicidade humana. Sendo assim, é preciso considerar onde está a causa disso. A meu ver, a causa fundamental de tudo é que nos afastamos demais da verdade — coisa evidente demais; apenas não percebemos esse afastamento. Vou examinar aqui por que isso acontece. Na verdade, o homem moderno nem mesmo consegue distinguir o que é a verdade — talvez porque, sob a pressão dos problemas de subsistência, não lhe sobre espaço para pensar nela. Além disso, mesmo a religião, sendo crucial, teve até hoje pontos em que a própria verdade não era clara, e muitas vezes pregou a não-verdade acreditando ser a verdade. Se a verdade tivesse sido realmente pregada, a sociedade humana deveria estar melhor do que está agora; talvez o Paraíso Terrestre já estivesse, em certa medida, realizado. Chegou, porém, o tempo de Deus, e a Vontade Divina se manifestou. Através de mim, a verdade é explicada e, ao mesmo tempo, sua materialização está sendo realizada. Como todos os meus ensinamentos proclamam a própria verdade da maneira mais compreensível para todos, se o leitor os ler com atenção, de mente aberta e imparcial como uma folha em branco, a verdade surgirá, ainda que vagamente.
Firmado isso, explicarei a partir das coisas mais próximas. Se o ser humano adoece, é porque em algum ponto se desviou da verdade; e a medicina, incapaz de curá-lo, desviou-se dela igualmente. A política ruim, o pensamento ruim, o crime que aumenta, as pessoas a sofrer com aperto financeiro, inflação e deflação — tudo remonta a algum desvio da verdade. Não houvesse esse desvio, as coisas certas se dariam conforme a esperança humana, pois foi assim que Deus criou a sociedade dos homens. A sociedade ideal que se concebe no pensamento, e a vida dos seres humanos em alegria e felicidade, nada têm de difícil — e é aí que está a possibilidade de surgir o Paraíso Terrestre que venho defendendo.
Meus ensinamentos podem parecer bastante diferentes; na verdade nada têm de diferente — são coisas extremamente naturais. Se assim parecem, é por serem vistos com os olhos da não-verdade. E quanto mais estranhos parecem, mais isso se deve à estranheza da própria realidade da sociedade.
Deus concede ao ser humano liberdade infinita — eis a verdade. Aos animais e às plantas, que humanos não são, concede-se liberdade apenas limitada; e é nisso que está a nobreza do homem. Em que consiste, então, essa liberdade humana? Em que o homem se acha numa posição intermediária entre dois extremos: elevando-se, faz-se Deus; corrompendo-se, faz-se besta. Levado adiante, o princípio conduz a isto: conforme o modo de agir do ser humano, este mundo tanto pode tornar-se um jardim de delícias extremamente agradável quanto, ao contrário, um inferno extremamente miserável.
Esta é a verdade. E, sendo assim, qual dos dois deve o ser humano escolher? Natural é que, salvo se for demônio de nascença, deseje o primeiro.
A realização do mundo paradisíaco é, pois, o objetivo final da humanidade. E, para alcançá-lo, não há senão a materialização da verdade. Como essa é a missão original da religião, ensino sempre a verdade por escrito e oralmente e, como materializador dela, esforço-me e atuo incansavelmente, dia após dia.
O que é o Poder Kannon?
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição nº 2 de "Hikari", em 20 de março de 1949)
Desde os tempos antigos fala-se em "poder maravilhoso da sabedoria" ou "Poder Kannon" — expressões que, naturalmente, têm o mesmo significado. Não existirem palavras como "Poder de Amida", "Poder de Shaka" ou "Poder de Daruma", e proclamar-se apenas o poder de Kanzeon-Bosatsu, é coisa misteriosa, e alguma razão deve haver para isso, embora não haja documentos nem tradições orais a respeito. Há muito tempo eu tinha dúvidas quanto a esse ponto; à medida que minha fé avançou, porém, tornei-me capaz de entendê-lo com clareza. Vou explicar.
Há também, a esse respeito, outra dúvida, que se ouve com frequência: será Kanzeon-Bosatsu do sexo masculino ou do feminino? Pergunta que se prende, íntima e inseparavelmente, ao Poder Kannon. Na verdade, esse Buda é homem e é mulher: possui, pode-se dizer, um e outro sexo.
Todos sabem, aliás, desde os tempos antigos, que ao masculino corresponde o yang e ao feminino o yin. Repartidos os dois em fogo e água, cabe o fogo ao masculino e a água ao feminino: aquele queima na vertical, esta corre na horizontal. E chegou enfim a hora em que essa vertical e essa horizontal se hão de unir.
Quanto à luz, ela é a união íntima do fogo com a água: cresce em intensidade na medida em que cresce a quantidade do Elemento Fogo. Por esse mesmo princípio, no mundo diurno a quantidade do Elemento Fogo aumenta, e com ela se robustece a luz. Daí manifestar-se a ação de Kanzeon-Bosatsu como Komyo-Nyorai.
Em seguida, o ponto mais importante: a verdadeira força surge da união da vertical com a horizontal. O caractere "força" (chikara) é formado pela barra vertical e pela barra horizontal que se unem, se curvam e projetam a ponta — significando que dessa união surge e vibra uma força rotacional centrípeta ("avanço à esquerda, recuo à direita"). É algo que nos faz pensar na profundidade do significado dos caracteres. Como se vê, apenas Kanzeon-Bosatsu possui ambos os sexos, vertical e horizontal, e é dessa união que nasce a força — daí ser chamado, especialmente, de Poder Kannon.
Aproveito para tratar de mais um ponto importante. Kanzeon-Bosatsu manifesta-se como Komyo-Nyorai e, em seguida, desempenha as atividades de Miroku, ou Messias. Como já disse, a luz é fogo e água; quando a ela se junta a terra, essa luz passa a agir como fogo, água e terra. Originalmente, só com fogo e água há apenas a ação do espírito, sem corpo; vinda a terra, exerce-se pela primeira vez o poder da trindade fogo-água-terra. É essa a esfera (jóia) que realiza os desejos (Nyoi Hōju), a Mani no Tama. E, como o fogo é cinco, a água é seis e a terra é sete, os números cinco-seis-sete leem-se Miroku. A profecia do Buda Shaka de que, passados 5.670.000.000 anos, teria início o Mundo de Miroku não é outra coisa senão o surgimento deste mundo de cinco-seis-sete — o mundo em que fogo, água e terra guardam a ordem correta.
Ora, por maior profeta que fosse o Buda Shaka, seria necessário profetizar um futuro com um número astronômico como 5.670.000.000 de anos? Semelhante profecia não teria significado algum. Como profecia de algum valor, o realista é ficar, quando muito, em alguns milhares de anos — e o número mais adequado é provavelmente o de Cristo, que profetizou para 2.000 anos depois.
O Miroku de Kanzeon-Bosatsu é, como quer a doutrina budista, o Ooshin Miroku (Miroku da Ação Livre e Desimpedida). Daqui por diante, é às suas ações de mil transformações que se deve prestar atenção.
Além disso, a soma dos números cinco-seis-sete e a de três-seis-nove dão dezoito: o dez é o número da união e o oito, o da abertura. Desde os tempos antigos ficou assentado que o corpo principal de Kanzeon-Bosatsu mede 1 sun e 8 bu de ouro (cerca de 5,5 cm); e o templo, com seus 18 ken de frente por 18 ken de profundidade, também nos faz pensar em seu profundo significado.
O Caractere "Senhor" (Shu)
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição nº 25 de "Hikari", em 3 de setembro de 1949)
Sempre digo que é preciso corrigir a ordem; e é essa ordem que o caractere "senhor" (shu) exprime, ele sozinho. Vamos agora dissecá-lo.
As três barras horizontais — superior, média e inferior — significam Céu-Terra-Homem, Sol-Lua-Terra, cinco-seis-sete, Divino-Espiritual-Material. A barra vertical as atravessa e, no topo, há um ponto: esta é a ordem correta. Na política, na economia, na educação e na religião, e também dentro de uma família, tudo deve seguir essa forma. Até hoje, porém, em quase tudo, a vertical e a horizontal permaneceram, em geral, separadas — e o maior exemplo disso é a separação entre o pensamento oriental (vertical) e o pensamento ocidental (horizontal). Mas chegou enfim a época em que ambos se unirão em forma de cruz. Ou seja, o centro do caractere "senhor" é justamente o caractere "dez" (cruz), e as barras horizontais superior e inferior são o Céu e a Terra; o mundo humano, em outras palavras, está entre um e outro e, por isso, será unido em forma de cruz. Essa é a verdadeira forma do Paraíso Terrestre — o mundo de Deus em forma de cruz. A própria palavra "Deus" (kami) guarda esse mesmo significado: "Ka" é fogo, "mi" é água; o fogo queima na vertical, a água flui na horizontal, e da união de ambos nasce "kami". Como em "Kamimusubi" e "Takamimusubi", a ação de Deus é unir. "Buda" (hotoke), por sua vez, traz o espírito da palavra "hodokeru" (desatar, soltar). A grande transformação por vir é, portanto, a de Deus unindo o mundo que está desatado. A cruz que os cristãos imaginam em seus corações é uma sugestão disso. A suástica (manji) do Budismo tem significado semelhante, mas "a suástica do Budismo tem cada um dos braços da cruz tortos. Isso significa que, ao mesmo tempo em que se une na forma de cruz, começa a rotação." Por esse princípio, tudo precisa ter três planos para funcionar bem. O superior e o inferior firmemente unidos pelo "dez" do meio, que sustenta as barras de cima e de baixo, significam também o papel da classe média em harmonizar as classes superior e inferior. E, como a forma indica o líder sentado no topo, presidindo, adotar a forma do "senhor" faz com que tudo funcione bem, sem falhas — na política, na gestão de empresas, na administração de grupos, a lógica é a mesma. É a forma do mundo de Miroku que sempre proclamamos.
A Construção do Mundo de Cinco-Seis-Sete (Miroku)
(Texto acrescido ao mesmo artigo publicado na edição nº 18 de "Hikari", em 16 de julho de 1949)
A verdadeira forma do mundo de cinco-seis-sete (Miroku) que proclamamos está sendo escrita neste momento, e pretendo publicá-la em breve; aqui, quero falar um pouco do processo que antecede essa construção.
O mundo de cinco-seis-sete é, naturalmente, o Paraíso profetizado por Cristo e o chamado mundo de Miroku defendido por Shaka. No entanto, esse mundo ideal está prestes a dar seu primeiro choro.
Segundo minha inspiração, a base do mundo de cinco-seis-sete já está assentada no mundo espiritual, e não há dúvida de que, num futuro próximo, ele se manifestará neste mundo de forma extremamente concreta. Que época abençoada para se nascer! Só de pensar nisso, a alegria brota em nós.
A esse respeito, é preciso saber o seguinte: para erguer, por exemplo, um edifício grande e magnífico, as casas antigas que ocupavam o terreno precisam ser destruídas. Entre os materiais antigos, é claro, os que servem à nova construção são selecionados, lavados, purificados, aparados e reaproveitados. Do mesmo modo, fenômenos semelhantes ocorrerão na construção do mundo de cinco-seis-sete.
Quanto a isso, talvez ocorram situações que aos olhos humanos pareçam ilógicas, inúteis ou destrutivas, mas é preciso saber que se trata de uma grande limpeza da impureza. Como tudo é manifestação da Vontade Divina, não podemos julgar precipitadamente com os olhos comuns dos humanos; devemos, como seres humanos, nos adaptar a todas as mudanças com grande humildade. E nós, que pudemos conhecer isso por intuição espiritual, devemos sempre nos precaver para não distorcer a grandiosa Vontade Divina: diante de qualquer anormalidade ou força destrutiva sem precedentes na experiência humana, cabe-nos habitar, com uma correta visão de Deus, no estado de tranquilidade e paz espiritual concedido como privilégio aos que se dedicam à fé, aguardando o momento e desfrutando da vida.
Se a explicação é tão vaga, é porque a profunda intenção secreta de Deus não permite, por ora, que seja dita concretamente.
Em suma, o que aqui se expõe é apenas a postura mental com que enfrentar o processo que, por natureza, deve ser percorrido antes de realizar-se o Mundo de Miroku.
Super-Religião
(Publicado na edição nº 6 de "Tijotengoku", em 20 de julho de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
O lema de nossa Igreja — um mundo sem doença, pobreza e conflito, a construção do Paraíso Terrestre — dificilmente será tomado pela maioria das pessoas por outra coisa que não um sonho de tolo. De fato, Cristo disse: "O Reino dos Céus está próximo", mas não disse que construiria o Paraíso. O Buda Shakyamuni anunciou que "após a Extinção do Budismo, surgiria o mundo de Miroku"; falava, porém, de um prazo absurdamente longo, de 5.670.000.000 anos, sem afirmar que o mundo de Miroku estivesse iminente. Os judeus oram pela vinda do Messias, mas ignoram quando será. As antigas lendas indianas sobre o surgimento do Bodhisattva Chakravartin, o Mundo do Pedestal do Néctar da religião Tenrikyo, o Mundo da Agricultura Justa proclamado por Nichiren, o Mundo do Pinheiro proclamado pela fundadora da religião Oomoto — nenhum deles especificou o tempo. É preciso refletir profundamente sobre isso. Todas essas profecias tiveram sua utilidade, mas nenhuma trouxe declaração de execução nem plano de realização, o que se deve interpretar como sinal de que eram prematuras. E, como todos podem ver, o que esses fundadores pregaram e praticaram tornou-se a base das várias religiões de hoje.
Naturalmente, para se adequarem a cada nação e povo do mundo, os fundadores criaram e propagaram doutrinas, formas e métodos; e é certo que o Deus Supremo os fez agir segundo Sua intenção, valendo-se de meios e métodos adequados à época, à região, ao povo, à tradição e aos costumes. Assim se cultivou o espírito de harmonia e se tornou possível o desenvolvimento da cultura esplêndida de hoje. Se as religiões não tivessem surgido nos países do mundo, a tirania dos demônios não teria limites, e o mundo já poderia ter sido destruído e aniquilado. Ao pensar nisso, por mais que se valorizem os méritos dos fundadores e santos surgidos até hoje, nunca será demais.
Como disse, ainda que a força das religiões existentes tenha conseguido conter a destruição do mundo, é questionável que ela continue útil ao mundo de hoje e de amanhã. Por quê? Porque basta olhar para o mundo atual para ver como ele geme em sofrimentos infernais. Contê-lo e elevá-lo a um estado celestial é impossível com a força das religiões existentes — e a incapacidade de sequer salvar o presente já o demonstra com clareza. Na verdade, só uma parte limitada dos povos pode desfrutar dos benefícios da brilhante cultura atual, e a causa está na excessiva falta do espírito de harmonia e na excessiva entrega à luta.
Observando assim o mundo atual, os que têm consciência não podem deixar de esperar que chegue o tempo em que uma grande luz há de surgir para dissipar essa escuridão da ignorância — ou seja, o poder de salvação super-religiosa.
Cientes de que nos foi incumbida a missão de super-religião nesse sentido, praticamo-la sem cessar e colhemos resultados surpreendentes.
Nossa Igreja e o Grande Caminho
(Publicado na edição nº 4 de "Hikari", em 8 de abril de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Ao olhar para a sociedade de hoje, vemos uma agitação: uns se dizem de esquerda, outros de direita, e há ainda os que afirmam não ser nem de esquerda nem de direita, mas de centro. Quando cada um se apega obstinadamente a uma ideologia ou pensamento limitado e procura mantê-lo, o atrito é inevitável. É verdade que alguns têm como objetivo o próprio atrito e a disputa, mas isso é outra história.
Após a guerra, o objetivo nacional é, obviamente, a democracia. Mas, como a democracia visa a maior felicidade do maior número, insistir obstinadamente na própria ideologia ou pensamento provocará disputas e trará, em vez da maior felicidade do maior número, a maior infelicidade para a maioria.
Não sou eu quem diz isso; a realidade da sociedade atual o demonstra claramente. Vejamos os partidos políticos: dentro de um mesmo partido, facções de ideologias e opiniões diferentes vivem em conflito constante, e há sempre o perigo de divisão e desintegração. Tudo o que não se alinha com a própria ideologia é imediatamente visto como inimigo. Ora planejam derrubar um gabinete recém-formado, ora cobram de um gabinete com apenas dois ou três meses de existência a execução das políticas que prometera quando estava na oposição, chamando-o de "papel sem valor". Assim, os gabinetes japoneses mudam com frequência, sem tempo para se firmar — nesse aspecto, o Japão se assemelha muito à França. O gabinete trabalhista britânico, logo no início, após cerca de um ano, teve um desempenho surpreendentemente ruim; no Japão, teriam surgido críticas veementes, mas a tolerância do povo britânico, que delegou a Attlee e se manteve em silêncio, chegou a parecer-nos estranha.
Vejamos também os Estados Unidos. É porque o mandato do presidente é de quatro anos que ele pode implementar políticas ousadas. A magnífica visão de obter a vitória na Segunda Guerra Mundial e, mesmo depois dela, ainda ter fôlego para socorrer a Europa e o Leste Asiático deve-se inteiramente ao fato de Roosevelt, eleito quatro vezes, ter disposto de dezesseis anos para adotar medidas ousadas e colher os resultados adequados.
A situação atual do Japão, tal como descrita, deve-se inteiramente à incapacidade de se livrar do estreito espírito insular. Por isso, mais do que tudo, cabe agora a todo o povo japonês cultivar amplamente o espírito de tolerância — eis a questão urgente do momento.
Se o objetivo da religião é criar uma sociedade sem conflitos, antes de tudo é preciso abandonar a estreiteza de espírito que, por autojustificação, exclui os outros. Nesse sentido, nossa Igreja não se inclina nem para a direita nem para a esquerda, tampouco se prende ao centro: busca avançar sob um grande ideal elevado — um pensamento mundial que abrange todas as ideologias e opiniões e as controla. A isso chamamos de Grande Caminho.
(Nota)
Cultivar (kan'you): nutrir e educar gradualmente, como a água que penetra naturalmente.
Religião Daijo
(Publicado na edição nº 9 de "Tijotengoku", em 25 de outubro de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Na religião, e sobretudo no budismo, a distinção entre Daijo e Shojo é amplamente conhecida; ainda assim, parece não ter sido, até hoje, compreendida por inteiro. Gostaria de expor minha opinião a respeito.
Em primeiro lugar, Daijo significa grande natureza — e a grande natureza, naturalmente, é o modo pelo qual todas as coisas se geram e se desenvolvem. Daijo, portanto, abrange tudo, sem deixar nada de fora. Nesse sentido, o Daijo que prego agora não é o budismo Daijo, mas o Caminho Daijo, que inclui religião, filosofia, ciência, política, educação, economia, arte — tudo. E não só: inclui também guerra e paz, bem e mal.
Ao contemplar dessa forma a atividade de todas as coisas, vislumbra-se o Caminho natural, e é digno de ser verdadeiramente humano quem reconhece que deve progredir suavemente ao segui-lo. Por essa mesma razão, quando se desvia do Caminho surgem dificuldades, que causam obstáculos e acabam por levar à estagnação ou à destruição. Seguir o Caminho leva à criação; desviar-se dele leva à destruição — essa é a verdadeira forma deste mundo. É como um trem ou um bonde, que avança enquanto não sai dos trilhos, mas não funciona se deles sai.
Portanto, tudo o que perece tem uma razão para perecer, e tudo o que nasce tem uma razão para nascer. Não há acaso: tudo é necessidade. Assim se dá também no pensamento — quem pende para a esquerda faz surgir a direita; quem pende para a direita faz surgir a esquerda. É preciso avançar pelo caminho sem pender para nenhum dos lados, como quem dirige um automóvel. Por essa razão, o capitalismo, o socialismo, o comunismo, os conservadores, os progressistas, o ativismo, o passivismo e toda e qualquer outra ideologia nascem por necessidade e desaparecem por necessidade. Com a religião não é diferente: ela surge porque há uma razão para surgir. A maioria das pessoas, no entanto, observa a partir do próprio ponto de vista e tende a tomar por heresia tudo quanto lhe seja diferente — enxerga pelo pequeno orifício do "eu", como diz o provérbio: "Olhar o teto pelo miolo do junco". Mas, aos olhos de Deus, que governa esta terra segundo o Plano Divino, a pequenez dos humanos que disputam nos chifres de um caracol há de arrancar-Lhe um sorriso amargo.
Toda matéria, se desnecessária aos humanos, é eliminada pela seleção natural; se necessária, de nada adianta o empenho humano em eliminá-la. Suponhamos que surja aqui uma nova religião ou um novo pensamento: ainda que aos olhos humanos pareça superstição ou heresia, se for necessário à humanidade, há de se desenvolver; se for desnecessário, será eliminado. Convém, portanto, deixar que a natureza atue até certo ponto.
Aquilo que tem verdadeira vida e valor tanto mais se desenvolve quanto mais se tenta suprimi-lo pela força humana. O melhor exemplo é o cristianismo: condenaram o fundador, Cristo, e no entanto, diante de seu florescimento atual, o que se pode dizer?
Escrevi este texto para chamar à reflexão sobre o erro do homem moderno, que enxerga tudo de modo demasiado pequeno e míope.
(Nota)
Disputa nos chifres de um caracol (kagyū kakujō no arasoi): fábula do filósofo chinês Zhuangzi. Refere-se à disputa entre um país situado no chifre esquerdo e outro no chifre direito de um caracol. Algo insignificante e trivial.
A Porta do Mistério se Abriu
(Publicado na edição nº 7 de "Tijotengoku", em 30 de agosto de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Pode-se dizer que a maioria das muitas teorias que exponho é inédita. Imagino que isso desperte em muitos, no bom sentido, alguma dúvida; escreverei, pois, brevemente o motivo.
Sempre prego a construção do Paraíso Terrestre, mas não fui eu que a concebi. Chegado o tempo do Céu, Deus me mostrou o plano e a forma a serem realizados e, ao mesmo tempo, concedeu-me o poder imenso para cumprir esse propósito. Dentre esses poderes, o de conhecer as coisas, ao manifestar-se, tornou-se as teorias que exponho. Os enigmas trancados sob um véu escuro, as coisas cobertas de névoa e vagueza, tudo se reflete com nitidez em minha percepção espiritual, e eu as escrevo tal como são. Chegou, portanto, o tempo em que tudo será esclarecido. Até agora vivíamos o Mundo da Noite, e por isso, naturalmente, as coisas permaneciam invisíveis na escuridão da noite; mesmo ao luar não se podia enxergá-las com clareza. Essa era a verdadeira forma do mundo até hoje.
No entanto, por volta de meados de 1931, entramos no período da aurora. Desde então o sol foi ascendendo aos poucos e entramos no Mundo do Dia. Agora o Mundo da Luz está prestes a chegar, e o Paraíso Terrestre, prestes a surgir. Nesse sentido, todos os enigmas, segredos e males sociais serão expostos à luz — ou seja, o opaco se torna transparente, e chega o tempo em que o mal não terá onde se esconder.
Se a causa dos três grandes sofrimentos humanos — doença, pobreza e conflito — está no mal, não é de estranhar que, expulso o mal, surja um mundo sem doença, pobreza e conflito.
E, sendo o principal desses três grandes sofrimentos, naturalmente, o da doença, é natural também que se revele até a raiz das enfermidades: é aqui que se realiza um mundo sem doenças.
E, até hoje, a religião, a filosofia, a educação, o pensamento e tudo o mais eram tidos por incapazes de interpretar o que estivesse além de certo ponto e de tocar o núcleo profundo. Diz-se que o Buda Shakyamuni se tornou Kenshinjitsu (Inteligência da Percepção Verdadeira) aos 72 anos, e Nichiren, aos 50 e poucos. Kenshinjitsu significa ter tocado esse núcleo. O que daí se esclareceu foi, para Shakyamuni, a Extinção do Budismo e a descida de Miroku; para Nichiren, o surgimento do Bodhisattva Jōgyō 650 anos depois e o advento do Mundo da Agricultura Justa. Cristo não pronunciou a palavra Kenshinjitsu, mas a afirmação "O Reino dos Céus está próximo" e a profecia da "Segunda Vinda de Cristo" não poderiam ter sido compreendidas sem esse estado. É de imaginar, ainda, que desde os tempos antigos tenham surgido santos que, sem serem Kenshinjitsu, dele se aproximavam. Para explicar Kenshinjitsu de modo simples, basta pensar em quem sobe ao topo de uma pirâmide: quanto mais alto, mais amplo o campo de visão e mais se enxerga ao redor — é exatamente assim.
Aqui não posso deixar de falar de mim mesmo. Tornei-me Kenshinjitsu aos 45 anos. Uma vez nesse estado, conhece-se com clareza tudo — passado, presente e futuro. Naturalmente, todos os erros do passado vêm à tona, e o mundo futuro, bem como o estado dos humanos naquela época, podem ser vistos com nitidez. Não me é possível, contudo, contar tudo o que sei agora. Por quê? Porque Satanás, Devadatta e os fariseus ainda continuam a obstruir. Vejo-me obrigado, portanto, a divulgar apenas dentro de certos limites, e não deixo de sentir a angústia de não ser completo, de faltar um passo — mas isso é inevitável no Plano Divino. Ainda assim, mesmo com o que foi divulgado até agora, quem leu meus textos há de ter reconhecido a diferença marcante em relação aos antecessores.
Como diz o título, a Porta do Mistério já se abriu.
(Nota)
Extinção do Budismo (hōmetsujin): a extinção do Dharma budista.
Descida de Miroku (miroku geshō): o ensinamento de que, 5.670.000.000 anos após o nirvana de Shakyamuni, o Bodhisattva Miroku descerá a este mundo e salvará todos aqueles que não foram salvos pelos ensinamentos de Shakyamuni.
Mundo da Agricultura Justa (ginō no yo): um mundo ideal como o governado pelos imperadores lendários chineses Fuxi e Shennong.
Devadatta (daibadatta): primo de Shakyamuni. Embora fosse uma pessoa muito capaz, por rancor, assediou persistentemente Shakyamuni e sua ordem.
Fariseus (parisai-bito): uma seita do judaísmo. Desempenharam um papel ativo na hostilização e perseguição de Cristo.
O Desalinhamento do Conhecimento
(Publicado na edição nº 5 de "Tijotengoku", em 25 de junho de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Fala-se em conhecimento, mas há conhecimento vivo e conhecimento morto. Pode parecer estranho, mas, em poucas palavras, o conhecimento pelo conhecimento é morte; aplicar o conhecimento na sociedade real é conhecimento vivo. Outra coisa, porém, é o conhecimento voltado para a busca da verdade — e esse é valioso.
Primeiro, o que é conhecimento? Hoje, nas escolas de todos os níveis, os livros didáticos são a base e a prática, o complemento, e é assim que os professores ensinam. Esse método educacional, porém, foi construído a partir do árduo estudo e da pesquisa de muitos filósofos e estudiosos do passado, até tomar a forma que o conhecimento tem hoje. Naturalmente, novas descobertas e novas teorias surgem e desaparecem, surgem e são derrubadas, e apenas o que há de valioso se preserva e se acumula. Mesmo aquilo que em sua época foi aceito como verdade e tratado como regra de ouro desaparece sem deixar vestígios diante de teorias e descobertas superiores — ou então conserva sua vida e continua útil à sociedade e à humanidade. Tudo é decidido pelo tempo. Nesse sentido, mesmo o que se acredita ser verdade absoluta e imutável está sujeito a que um dia, não se sabe quando nem por quem, surja uma nova teoria que o derrube. Quando aparece uma nova descoberta, é natural que ela não caiba no molde das teorias já estabelecidas, e é justamente por não caber que tem valor — numa palavra, trata-se de quebrar o molde, e quanto maior a quebra, maior o valor. Portanto, que algo tido por verdade acabe sepultado significa que nasceu uma verdade superior: é assim que se dá o progresso incessante da cultura.
Vou aprofundar um pouco mais. A educação estabelecida tem uma forma acabada, construída ao longo de muitos anos, mas o rápido progresso da cultura ultrapassa essa forma fixa a uma velocidade extraordinária. Ouvi recentemente o desabafo do presidente de uma grande empresa. Ele disse: "Muitos dos brilhantes formandos de universidades de mais de dez anos atrás não se adaptam mais aos problemas práticos de hoje. Por quê? Porque o conhecimento adquirido naquela época e a era atual estão demasiadamente distantes. É um desalinhamento entre o tempo e o conhecimento. Isso é especialmente verdadeiro para os técnicos." Vê-se, pois, como eu dizia, que a teoria acadêmica se apoia na época até então vivida e, se não acompanha o padrão da cultura que depois avançou, morre. Dou outro exemplo: diz-se que os políticos de hoje se tornaram muito pequenos em seu molde. Quase não se veem mais políticos de grande estômago, que usam a "arte do ventre". Diz-se que os ministros de hoje não querem nem saber de estratégia, ocupados apenas com os problemas imediatos, e que seu interior é transparente. Por que isso? Porque os ministros de hoje, formados em universidades públicas, tendem a se prender a teorias antigas, apoiando-se apenas na lógica e desconhecendo a lógica que está além da lógica. É como tentar puxar uma carruagem na era dos automóveis: aprenderam a conduzir a carruagem, mas não conhecem o automóvel. De modo geral, o conhecimento desenvolve o cérebro humano e cria uma base até certo ponto, como a fundação de uma construção. Sobre essa fundação ergue-se um novo edifício — ou seja, utiliza-se o conhecimento, faz-se com que progrida e cria-se algo novo. É estar em sintonia com o ritmo da cultura em constante progresso; mais que isso, é avançar além dela e desempenhar um papel de liderança. Isso é conhecimento vivo. O presidente dos EUA, Truman, era um comerciante de miudezas por volta de 1921, segundo declarou recentemente — o que mostra que foi a experiência prática na sociedade que o levou aonde hoje está.
Há mais de dez anos comecei a pregar uma nova teoria sobre a medicina e, assim que a publiquei em livro, ela foi imediatamente proibida. Proibiram-na três vezes, e por isso desisti por enquanto. A razão era tratar-se de uma teoria oposta à medicina atual. Em resultados práticos, no entanto, comparada à taxa de cura da medicina moderna, a minha produz um efeito dezenas de vezes maior — e não temporário, mas uma cura fundamental. É um fato sem qualquer exagero e, embora eu tenha escrito no livro que "estou sempre disposto a experimentar", as autoridades e os especialistas não lhe deram a menor atenção — e não há o que fazer.
Afinal, qual é o objetivo da terapia? Curar todas as doenças, promover a saúde humana e prolongar a vida. Que outro poderia haver? Por mais que se discuta a teoria, por mais que se aperfeiçoem instalações materiais e engenhocas mecânicas, nada disso terá significado algum se não atender a esse objetivo. Que minha teoria seja ignorada, sem exame algum, simplesmente por divergir da teoria médica estabelecida, não escapará à acusação de reacionarismo cultural. E, como o governo dá total confiança a essa situação, o homem moderno é, de fato, uma pobre ovelha.
Por que teorias tão ousadas como as que acabo de expor? Não sou louco: jamais as publicaria sem absoluta convicção. Se as publico, é porque descobri que a medicina, hoje tão orgulhosa de seu progresso, encobre uma falha enorme e terrível. Descoberta que nenhuma outra, por maior que tenha sido até hoje, provavelmente iguala. Por quê? Porque nada há de mais importante do que resolver o problema da vida humana. Por isso afirmo: enquanto não despertar para essa grande falha, a medicina moderna não é uma existência útil.
Por outro lado, basta olhar para as ruas: quem não sabe quantos infelizes gemem sob doenças graves e difíceis por culpa de uma medicina equivocada? Diante disso, não há como ficar tranquilo.
Por ora, não me resta senão orar a Deus para que essa medicina equivocada desperte quanto antes.
(Nota)
Regra de ouro (kinkagyokujō): refere-se às leis de ouro e jade — as regras e leis mais importantes a serem guardadas e seguidas.
O Sol e a Lua
(Publicado na edição nº 9 de "Tijotengoku", em 25 de outubro de 1949)
Explicarei o Sol e a Lua do ponto de vista religioso. O tema é misterioso e profundo ao extremo, e talvez haja quem o julgue forçado; mas, sendo a verdade, peço que se leia com a mente serena. O Japão antigo tem os Três Tesouros Sagrados: a esfera (jóia), a espada e o espelho. A esfera representa o Sol; a espada, a Lua; e o espelho simboliza a Terra. A esfera tem a forma do Sol; a espada, a da lua crescente; e o espelho, chamado Yata no Kagami, divide-se em oito partes — isto é, figura as oito direções: leste, oeste, sul, norte, nordeste (ushitora), sudeste (tatsumi), sudoeste (hitsujisaru) e noroeste (inui). Dos três, a Terra é evidente e dispensa explicação; o Sol e a Lua, porém, encerram sentidos profundos, e é deles que tratarei.
Para facilitar a compreensão, tomo emprestada a explicação da religião Tenrikyo: a Lua é empurrar, e o Sol é puxar; Sol e Lua são puxar e empurrar. Acho a interpretação muito interessante. No Mundo da Noite, aprecia-se empurrar em tudo. Em grande escala, são os países que se empurram uns aos outros — a guerra é isso, e o choque também é empurrar. Na antiguidade, as guerras eram claramente lutas de espada; com o tempo isso se transformou, e o ato de se relacionar passou a chamar-se "tsukiau" (relacionar-se). As palavras diferem, mas o espírito da palavra é o mesmo. A palavra "tsukisusumu" (avançar empurrando) significa vitória — ação inteiramente da Lua, que representa o Mundo da Noite.
Em contraste, "hiki", "hiku" (puxar) é recuar. Atrair, recolher as tropas, ser derrotado, abaixar a cintura — tudo isso é o oposto da Lua. Por essa razão, no Mundo do Dia tudo é ação de puxar, e é perder o que se tem por bom; no homem, isso é a humildade. Assim, não há como nascerem conflitos. Entre nós, pegar um resfriado é considerado bom. O objetivo de nossa Igreja é criar um mundo sem doença, pobreza e conflito, e o desaparecimento do conflito se depreende do que ficou dito. Como a atividade principal de nossa Igreja é o Sol, ou seja, o Elemento Fogo, devemos agir com o "puxar" gravado no coração — e não a Lua —, e assim muitas pessoas serão atraídas.
O Sol, ademais, é a esfera: há de ser, pois, naturalmente pleno, luminoso, suave e flexível.
A Cultura que Ignora a Natureza
(Publicado na edição nº 9 de "Hikari", em 14 de maio de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
A cultura progride no Japão de hoje e, no entanto, por que em certos aspectos surgem vários impasses e nada sai como se esperava? A meu ver, há aí um grande erro de fundo, que o mundo mal percebe.
Tomemos a política. O governo elabora um plano, a Assembleia o aprova e, na hora de executá-lo, nove em cada dez medidas terminam em fracasso — fracassos que enchem sem cessar as páginas dos jornais. Não seria exagero dizer que a seção política dos jornais é quase um registro de malogros políticos. E por que malogram sem parar? A meu ver, em uma palavra, por ignorarem a natureza. O mal não é só da política: o homem moderno, em tudo, julga melhor fazer as coisas artificialmente e crê com firmeza que nisso consiste o progresso da cultura — aí está o problema. Daí que também na política se concebam e executem medidas desnecessárias, ou melhor, francamente nocivas. Uma das formas em que isso se mostra é a criação de regras para tudo, até que tudo esteja repleto delas. Hoje toda gente fala em liberalismo; pela nossa experiência, porém, não há como medir quanto o povo era livre nas eras Meiji e Taisho, e, em comparação, o presente é de fato sufocante — pelo excesso de regras, como disse. Amarrado pelas cordas das regras, o povo não consegue mover-se. O curioso é que isso não atinge apenas as pessoas comuns: os próprios funcionários públicos se veem, às vezes, atados por essas mesmas cordas e passam apertos. A melhor prova está nos casos em que surge um problema que o senso comum e a compaixão humana não censurariam — e a regra não permite outra saída. Não é raro ouvi-los lamentar: "Mesmo para nós, as regras são um problema." Já se disse que o Japão é o país com o maior número de leis do mundo, e é bem assim. Existe um ditado: "Quanto mais as leis se multiplicam, mais os crimes aumentam" — e sinto que se aplica ao Japão de hoje.
Como se chegou a isso? As causas podem ser várias, mas uma das mais poderosas foi aquela grande guerra. Naquele tempo, empenhou-se um esforço acima de todo limite para mecanizar o povo. A máquina fica onde a puserem e opera do modo que lhe fixarem; não tem liberdade, e basta lubrificá-la de quando em quando e fazer girar as engrenagens. Foi assim, como a máquinas, que se tratou os seres humanos: não se podia dizer o que se queria, não havia liberdade de agir, não se comia o que se desejava — e assim se fabricaram "humanos-máquina". Ora, para mecanizar o homem é preciso um molde, e esse molde são as tais regras. A economia controlada que ainda subsiste é um deles.
E mecanizar o povo exige muitos funcionários públicos. Durante a guerra, ministérios e agências foram criados um após o outro e, por isso mesmo, o número de funcionários cresceu de forma vertiginosa, várias vezes o normal. Os que então se acrescentaram permanecem até hoje. Só de salários eles custam trinta bilhões de ienes por ano — cifra que espanta. Ainda assim, se fosse só isso, passaria; o grave é um problema que ninguém nota. É que, sendo os funcionários tantos, sobra gente; e, sobrando gente, ninguém pode ficar de braços cruzados: é preciso arranjar alguma ocupação. Nesse ponto, o que atrai o olhar do funcionário é a revisão das regras — e aí está um mal gravíssimo. Por quê? Porque, promulgada uma lei nova, o trabalho de até então se anula. Aparecem métodos e expedientes para lidar com ela e, quando enfim se ganha prática e tudo corre sem tropeço, o serviço que tomava uma semana se conclui em três dias, e o funcionário fica com tempo de sobra — daí nasce a ideia de rever as regras. Urge, portanto, despertar para isso e reduzir o número de funcionários públicos, o que pede uma reforma administrativa levada a cabo com grande determinação.
Tudo isso, direta ou indiretamente, custa perdas imensas ao país. Ouço com frequência que, na Inglaterra e nos Estados Unidos, não são poucos os que permanecem décadas na mesma profissão; no Japão, isso é raro — não deve existir no mundo país onde tudo mude tão depressa. Em uma palavra, a razão de fundo é que o japonês de hoje ignora a natureza em excesso, supondo que fazer tudo artificialmente seja progresso da cultura.
Falei sobretudo da política, mas há muito que dizer também de outros campos. Tome-se o cultivo sem fertilizantes de produtos agrícolas, que venho defendendo e que tem dado bons frutos. Desde o primeiro número, publico em todas as edições relatos de resultados práticos: valendo-se apenas dos componentes do solo e do composto natural, colhe-se, em qualidade e em quantidade, um resultado surpreendentemente bom. Sua teoria fundamental está em conformar-se à natureza. Cegos a isso, os agricultores tiveram por bons, durante longos anos, os fertilizantes artificiais; neles gastaram somas altas e trabalho sem conta, mataram o solo, criaram pragas, esgotaram-se no próprio esforço e ainda colheram maus resultados. Tolice que não há palavra que descreva — e que outra coisa não é senão o preço de ignorar a natureza. Se nosso método de cultivo valoriza o composto natural, é porque folha caída e grama seca são coisas da natureza. Passo agora à medicina, outro mal nascido desse mesmo desprezo. A doença que aparece no ser humano é um processo de purificação das toxinas acumuladas por causas várias: é, portanto, função fisiológica natural, e das mais necessárias. É então que a febre, a tosse, o catarro, a secreção nasal, o suor noturno e as demais excreções limpam o corpo e lhe aumentam a saúde — a doença é um princípio de promoção da saúde e, na verdade, uma grande bênção de Deus. A medicina de hoje, no entanto, entende o contrário e tem por bom estancar a ação de excreção das toxinas. Que erro descomunal! A forma mais simples dessa excreção é o resfriado: quem pega um resfriado pode livrar-se da pneumonia e da tuberculose pulmonar. Estimulado o resfriado, quantas vezes menos haveria de tuberculose e de pneumonia? É mais claro que a luz do Sol. Mas a medicina não o percebe e, pelo Princípio Inverso, ao agir para estancar a excreção de toxinas no resfriado, em vez de diminuir a tuberculose e a pneumonia, acaba por aumentá-las. Essa é a melhor prova, e nem é preciso dizer que também aqui se ignora a natureza.
A Luz da Sabedoria
(Publicado na edição nº 10 de "Hikari", em 25 de maio de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Fala-se em sabedoria de modo geral, mas há sabedorias de vários tipos, umas rasas, outras profundas. Vou explicá-las.
As mais altas de todas são a Sabedoria Divina, a Sabedoria do Bem e a Sabedoria Sagrada; cumpre empenhar-se na fé para apurá-las. Por quê? Porque só nascem do reconhecimento de Deus e de um coração sincero e reto. Por isso, quem tomar a Sabedoria do Bem por norma de conduta e se esforçar jamais errará o caminho, e poderá alcançar a verdadeira felicidade.
Do mal, ao contrário, nascem a Sabedoria Astuta, a Sagacidade e a Sabedoria Demoníaca. Não há criminoso que não as tenha, e nelas sobressaem sobretudo os criminosos intelectuais, como os fraudadores. Vistos por esse ângulo, os heróis e os homens de êxito passageiro, desde a antiguidade, não passam de figuras cujo contorno dessa sabedoria maligna é grande.
Curioso é que a Sabedoria do Bem seja a mais funda, e a do Mal, a mais rasa. Basta seguir a trajetória dos malfeitores, da antiguidade até hoje, para vê-lo com clareza: por mais engenhosa que a trama pareça, há sempre uma falha em algum ponto, e por essa brecha vem o desmoronamento: tudo se descobre e tudo malogra. Por esse princípio, quem aspira não à glória de um momento, mas à glória eterna, há de agir com sabedoria profunda. E, como a sabedoria mais funda brota da força da sinceridade, a conclusão é uma só: é preciso, de todo modo, ser pessoa de fé correta.
Compreendido esse princípio, também a maldade social de hoje não é nada de mais: ela se deve inteiramente à superficialidade do pensamento do homem moderno, e se manifesta em todas as áreas. Os políticos, por exemplo, pensam apenas no imediato: surgido um problema, apressam-se em tomar medidas para contê-lo — muito semelhantes, nesse ponto, à terapia sintomática da medicina. Mas os problemas surgem porque têm uma causa; jamais surgem por acaso. E, com sabedoria superficial, não se pode prever o futuro nem se pode, portanto, estabelecer uma verdadeira política. É como no jogo de Go ou no Xadrez: o mestre vê cinco ou dez jogadas à frente e por isso vence; o amador vê duas ou três, no máximo, e por isso está fadado a perder.
Saiba, pois, o ser humano que nada lhe pode dar certo enquanto não cultivar amplamente a Sabedoria do Bem e não deixar atuar a Sabedoria Sagrada — e saiba também que, para isso, não há outro método senão a fé.
As Baixas Pressões São Causadas pelo Homem
(Publicado na edição nº 28 de "Hikari", em 24 de setembro de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Desde os tempos antigos, tufões, tempestades, inundações e afins foram todos tidos por desastres naturais e aceitos como fenômenos inevitáveis — todos o sabem. Do nosso ponto de vista, porém, não são desastres naturais, e sim desastres causados pelo homem. É o que passo a explicar. Para tentar reduzi-los um pouco, a ciência de hoje se empenha no estudo e no progresso da meteorologia. Também no Japão, é claro, investem-se anualmente grandes quantias e montam-se as melhores instalações possíveis; mas estará esse esforço obtendo algum resultado? Ao que parece, o objetivo pretendido está longe de ser alcançado. Vejam: os prejuízos sofridos a cada ano por essa causa atingem cifras realmente enormes. Exemplo recente é o tufão Kitty. Só os números divulgados apontam uma perda de 2.140.000 koku de arroz, 4.229 casas destruídas ou arrastadas, 144 mortos e desaparecidos e dezenas de milhares de feridos. Somando-se os danos às plantações de sequeiro, a destruição de estradas e margens e os estragos em casas e instalações diversas, o total divulgado pelas autoridades chega a 87 bilhões de ienes, o que mostra a imensidão do prejuízo. E, se a isso acrescentarmos os danos das várias tempestades, grandes e pequenas, que ocorrem repetidas vezes ao ano, as perdas tangíveis e intangíveis certamente alcançarão uma soma impossível de calcular.
Sendo assim, ainda que não possamos eliminar por completo tais desastres, cumpre esforçar-nos por reduzir os danos ao mínimo possível. Governo e povo, é claro, tomam todas as medidas ao seu alcance, mas, por insuficiência de orçamento, os resultados ficam muito aquém do planejado. Não podemos continuar assim. Depender apenas do estudo meteorológico, na situação atual, não permitirá resolver o problema com rapidez — é quase como esperar que o Rio Amarelo fique limpo. Isso porque o estudo científico é material: observa somente a superfície das coisas, sem conseguir descobrir-lhes o interior. Não há outro método absoluto senão apreender o fundamento que jaz no fundo desse interior.
Como conhecer, então, essa causa fundamental? É o que passamos agora a anunciar.
Afinal, o que é uma baixa pressão? É a ação de limpeza do espaço terrestre, ou seja, daquilo que chamamos de mundo espiritual. Por quê? Porque também no mundo espiritual a poluição se acumula sem cessar — tal como, materialmente falando, a poeira que se junta nas cidades ou nas casas das pessoas. A diferença é que, sendo invisível o mundo espiritual, esse acúmulo não é percebido pelos seres humanos, que até hoje não se deram conta dele. É claro que a culpa cabe também ao conhecimento, que até agora pendeu apenas para o materialismo, negligenciando o estudo espiritualista. Esse é o maior defeito da humanidade, como sempre afirmamos. Enquanto não se reconhecer e estudar a existência do mundo espiritual, o princípio das baixas pressões não poderá ser facilmente compreendido.
Levar as pessoas a reconhecer a realidade do mundo espiritual, negada como se viu, é a verdadeira missão da religião. Até hoje, no entanto, as religiões estabelecidas têm sido, nesse ponto, não diria mornas, mas parecem até indiferentes — o que é estranho.
Deixando de lado o parêntese: como se disse, acumulando-se a poluição no mundo espiritual, é natural que sobrevenha uma ação de limpeza — ou seja, varrer com o vento e lavar com a água, e isso é a baixa pressão. Em nada difere da ação de limpeza do mundo real. Descobrir a origem dessa poluição é, pois, a chave da solução absoluta. E que poluição é essa? São as nuvens espirituais criadas pelos pensamentos, palavras e ações dos seres humanos: a mente, as palavras e as ações más afetam o mundo espiritual invisível e, em consequência, nele fazem surgir nuvens espirituais. Por esse princípio, a frequência com que hoje grassam grandes tempestades mostra o quanto o coração das pessoas se deteriorou, e quantas são as más palavras e as más ações. Existe, porém, um método para eliminar essas nuvens espirituais? É extremamente fácil: basta tomar o método oposto, ou seja, a purificação do coração das pessoas e as boas palavras e boas ações — dissipar com o bem o mundo espiritual obscurecido pelo mal. Nesse caso, o bem se faz luz e dissolve as nuvens espirituais. O canto de hinos no Cristianismo, a recitação de sutras no Budismo e o norito do xintoísmo, por exemplo, são todos norito de boas palavras e louvores, e contribuem, portanto, um pouco para a limpeza do mundo espiritual. Se não houvesse tais norito de boas palavras e louvores, ocorreriam baixas pressões ainda maiores do que as atuais.
Como se vê, a verdade é que os próprios seres humanos criam as baixas pressões e com elas sofrem. A natureza é realmente bem feita: dá-se aí exatamente o que se dá no corpo humano quando nele se acumula sujeira e sobrevém o processo de purificação a que chamamos doença.
Pelo exposto, como meio de prevenir as baixas pressões, basta conscientizar-se do princípio acima, corrigir o mal e praticar o bem. Saiba-se que não há absolutamente nenhuma solução fundamental além disso.
(Notas)
Ciência material: aquilo que possui forma. Fenômenos naturais em geral.
Morno: algo que é incompleto e não é levado a cabo.
A Terceira Religião
(Publicado na edição nº 13 de "Hikari", em 18 de junho de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Embora seja inevitável que esta Doutrina seja vista como uma religião ao lado das religiões estabelecidas, há nela, na verdade, uma diferença notável, que não se compara às religiões existentes. Em primeiro lugar, esta Doutrina inclui o Xintoísmo, o Budismo, o Cristianismo, a filosofia, a ciência e a arte, e também, é claro, a esquerda e a direita, o capitalismo, o socialismo e o comunismo. Qualquer um que veja os livros, revistas e jornais por ela publicados há de concordar.
Aquilo que esta Doutrina chama de Imagem da Luz Divina, seu objeto de adoração, são os caracteres de Komyo-Nyorai. Ainda que Nyorai seja nome de Buda, chama-se Imagem da Luz Divina. Recitamos também a Oração Zengen-Sandji, que é, a um só tempo, norito e sutra budista. Fui eu quem a compôs, comprimindo ao máximo o Sutra de Kannon e vertendo-o em forma de norito. A razão é que recitar o Sutra de Kannon exige mais de trinta minutos, o que não se ajusta à vida social do Japão de hoje — se a adoração matinal não puder concluir-se em cinco minutos, há o receio de que, em caso de acidente de trem, o trabalho seja negligenciado.
Em minhas muitas exposições, escrevo ainda sobre o sabor de todas as religiões, astronomia, geografia, o espírito da palavra, o Livro das Mutações, filosofia, literatura, política, economia, arte, conversas sobre o mundo espiritual e até mesmo teatro e cinema, o que surpreende as pessoas. Especialmente a medicina espiritual das revelações divinas e a manifestação dos espíritos de divindades são consideradas sem precedentes no mundo, dos tempos antigos até hoje — o que fica claro pelo fato de haver, só nesta Doutrina, muito poucos doentes entre os seguidores. E, em todos os assuntos humanos, qualquer questão difícil ou estranha pode ser resolvida.
Nesta Doutrina existem preceitos, mas é como se não existissem, pois a salvação é indiferente ao bem e ao mal; ao mesmo tempo, tem-se por premissa que o bem e o mal são estritamente invioláveis. Sendo ela, além disso, o Caminho do Daijo, a indústria é promovida pelo capitalismo, a distribuição desigual é corrigida pelo socialismo, o bem-estar da classe trabalhadora, que constitui a maioria do povo, é promovido pelo comunismo, e o surgimento de classes privilegiadas é prevenido pela democracia; as classes naturais formam-se apenas pela virtude e pelo prestígio. Tudo se assenta no pensamento mundial e de amor à humanidade, e o grande ideal da prosperidade comum da humanidade é o objetivo principal da atividade. Além de expor uma filosofia religiosa profunda, esta Doutrina apela às massas, sustentando que a religião é a vida, e empenha-se em transformar a vida real em fé. Por isso não há aqui o aperto das religiões estabelecidas, nem se dá muita importância às formas religiosas — pode-se dizer que é verdadeiramente liberal, democrática e alegre. Também as cerimônias, é claro, são extremamente simples e se ajustam bem à vida moderna.
Uma coisa quero dizer em especial: nesta Doutrina, os milagres são decididamente numerosos. Religião assim, provavelmente, não tem paralelo na história.
O que ficou dito acima é uma explicação muito resumida. Em suma, isso não pode ser compreendido de forma alguma pela visão histórica religiosa convencional — e é por isso que esta Doutrina se chama Terceira Religião.
Tipos de Fé
(Publicado na edição nº 7 de Tijotengoku, em 30 de agosto de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Mesmo quando se fala simplesmente em fé, há dela vários tipos. Enumero-os resumidamente: (1) Fé que visa a graça. (2) Fé de Ocasião. (3) Fé de Agradecimento. (4) Fé Aproveitadora. (5) Fé de Possessão por divindades. (6) Fé que visa o Interesse Pessoal. (7) Fé do 'Querer'. (8) Fé de quem se ausenta. (9) Fé Instável. (10) Fé Inconstante. (11) Fé de Aparência. (12) Fé Falsa. E assim por diante.
Passo a explicar cada uma delas.
(1) Fé que visa a graça é:
Apenas querer receber a graça. Coisas como Deus ou o mundo ficam em segundo plano — é uma fé egoísta, que só pensa em si mesma. Comum entre pessoas de classe média para cima, que sabem usar a fé, mas não sabem agradecer a Deus e servi-Lo. E usar a fé significa pôr o ser humano acima e Deus abaixo, quando é justamente por adorar e servir a Deus que dEle se recebem as bênçãos. Por isso essa Fé que visa a graça acaba, ao contrário, com a graça, e não é duradoura.
(2) Fé de Ocasião é:
Enquanto a religião permanece escondida aos olhos do mundo, a pessoa mostra muito pouco entusiasmo. Mas, uma vez que a religião se torna conhecida e as pessoas passam a falar dela, de repente, como quem se lembrasse, ela se aproxima de Deus e quer trabalhar.
(3) Fé de Agradecimento é:
Resume-se a "que grato, que grato". Aos olhos dos outros, parece um crente realmente admirável, mas lhe falta um pensamento grande como o da salvação da humanidade, que é o grande objetivo de Deus. É extremamente Shojo e, por isso, não gera trabalho algum — como uma árvore seca que apenas anima a montanha.
(4) Fé Aproveitadora é:
Pensamento bastante astuto, que tenta valer-se da religião para ganhar dinheiro ou que oculta alguma ambição. Quando descobre que não pode servir-se da religião, essa pessoa foge depressa.
(5) Fé de Possessão por divindades é:
Gostar indiscriminadamente de possessão por divindades, achar bom lidar com ela e querer conhecer o mundo espiritual. Não chega a ser tão mau, mas não é o caminho principal — é o trabalho que fazem as sociedades de pesquisa espiritual. Quem assim procede acredita com facilidade nas profecias de espíritos inferiores e dá valor a profecias sem sentido, que não se cumprem: é, antes de tudo, um caminho desviado.
(6) Fé que visa o Interesse Pessoal é:
Praticar a fé apenas por desejo. É comum, no mundo, fazer peregrinações mensais a santuários de "Fulano" ou "Inari", oferecer dinheiro ou oferendas e cultivar a fé de olho em benefícios materiais, sem nunca pensar na sociedade nem na infelicidade dos outros. É o tipo mais comum.
(7) Fé do 'Querer' é:
Fé realmente superficial, incapaz de libertar-se do amor egoísta: querer se gabar, querer receber, querer ser bem visto pelos outros, querer ser elogiado. Também esses são tipos de fé inferior.
(8) Fé de quem se ausenta é:
Reaparece quando já se havia esquecido dela, depois de muito tempo ausente. Pensa-se que abandonou a fé, mas não é bem assim — de que terá se lembrado? Eis que surge, vagando como um fantasma. Melhor seria, a meu ver, abandonar a fé de uma vez.
(9) Fé Instável é:
Não consegue fixar-se numa única fé; quer experimentar várias. Hoje numa margem, amanhã na outra, como planta aquática à deriva — e por isso nunca recebe verdadeiros benefícios materiais. Sem alguma fé, porém, sente-se só. Vive cheio de dúvidas e, ao ouvir a conversa de alguém, logo se deixa convencer. É, antes de tudo, uma pessoa infeliz.
(10) Fé Inconstante é:
Muito inconstante. Como a Fé Instável, não consegue dedicar-se a uma só fé e passa de uma para outra — é uma espécie de peregrino religioso. Tipo que tende a ser relativamente comum entre os intelectuais.
(11) Fé de Aparência é:
Servir-se de Deus ou da fé como pretexto para satisfazer os próprios desejos. Equivale à Fé que visa o Interesse Pessoal — modelo comum nas organizações religiosas e frequente entre líderes, estudiosos e pessoas importantes.
(12) Fé Falsa é:
Na aparência é um crente, mas no fundo do coração não reconhece Deus de forma alguma. E, como gente assim costuma ser muito boa de conversa, no começo a maioria das pessoas se deixa enganar. Deus, porém, não permite que isso dure muito: no fim o rabo aparece, e eles fogem.
Não se enquadrando em nenhum dos itens acima, a fé é a correta.
Pessoas Boas, Tornem-se Fortes
(Publicado na edição nº 31 de "Hikari", em 15 de outubro de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Observando com atenção a situação social de hoje, vejo que os maus se pavoneiam em excesso. E quanto não sofrem as pessoas boas, oprimidas por isso? Todos o sabem. Escreverei sobre a causa fundamental disso.
Desde os tempos antigos tem-se as pessoas boas por fracas e as más por fortes — e é assim que os maus se tornam ainda mais insolentes e desenfreados. Antigamente, porém, não havia leis completas nem órgãos de repressão à violência como hoje, de modo que as pessoas boas não podiam enfrentar a violência dos maus e acabavam sofrendo em silêncio. Assim, na classe mercantil, tinham influência os fortes e os imprudentes; e mesmo na classe samurai os maus entre eles usavam mal o poder da espada, sem que a classe mercantil, temerosa, pudesse enfrentá-los. Incontáveis exemplos disso permanecem na história e nas narrativas — havia uma diferença abismal em relação aos dias de hoje. É verdade que, após a Restauração, o mundo entrou na era da civilização e do esclarecimento, as leis foram pouco a pouco se aperfeiçoando e a sociedade como um todo começou a inclinar-se para a negação da violência, e assim se chegou aos dias de hoje. Mas, infelizmente, a sociedade do nosso país ainda não erradicou a violência. Sobretudo até o fim da guerra, os senhores da guerra, os ronin e os ativistas de direita valiam-se por vezes de um pouco de violência, como se fosse uma espada preciosa de família.
Depois do fim da guerra, no entanto, já não há senhores da guerra, e a direita foi quase suprimida, de modo que esse ponto se tornou muito mais claro. Em compensação, os maus de hoje passaram a manejar com habilidade meios que não a violência — com o objetivo, é claro, de atormentar as pessoas boas por dinheiro. Que meios são esses? A chamada chantagem legal: agem de tal modo que a lei não os alcance, por um fio de cabelo. Aí entram, é claro, os casos de extorsão que este jornal publica sempre, bem como vários processos judiciais que não chegam a ser publicados. Também nestes se recorre, é claro, a falsidades e invenções, abusando da lei para tentar alcançar os próprios desejos. E, como se trata de gente de classe média para cima, a história é lamentável. Prova disso é que, há décadas, nunca deixei de ter processos judiciais — ou seja, mantenho desde sempre um certo princípio.
O princípio é este: as pessoas boas não devem perder para as más, e o bem forte, mais forte que o mal, é o verdadeiro bem. Na verdade, é justamente porque as pessoas boas perdem para as más que os maus se tornam arrogantes — aí está a maior causa de o mal social não se deixar erradicar. Nesse ponto, o fenômeno é especialmente comum entre pessoas de classe média para cima: é o chamado crime intelectual. Acrescente-se que a pessoa boa maltratada pelos maus, ainda que saiba que poderia denunciar ou protestar, teme uma retaliação mesquinha; e, como um processo judicial custa dinheiro e trabalho, conclui que não vale a pena e desiste. Assim, nos meus processos, veem em mim uma pessoa boa e começam por me subestimar, supondo que eu desistirei mesmo diante de algo assim. Mas, fiel ao princípio acima e sem poder perder para o mal, luto até vencer. Daí muitos desses processos demorarem tanto a terminar — o mais longo, atualmente, já dura onze anos. E que os chefões não desapareçam nas várias regiões, e que os escândalos de funcionários públicos não cessem, são fatos que ninguém desconhece.
Dei acima vários exemplos. Em uma palavra, a causa do mal social é a fraqueza das pessoas boas. Ora, se é assim, pessoas boas fracas não são verdadeiras pessoas boas — são, na verdade, covardes, pois lhes falta indignação contra o mal. São, por assim dizer, boas de modo passivo. Ainda que tais pessoas se multipliquem, é bom nesse aspecto que não tenham elas próprias coragem de fazer o mal; mas não deixam de ser um tipo de covarde que, tolerando a arrogância do mal, só deseja a própria segurança. Em suma, se os maus perceberem que não podem vencer as pessoas boas, que estas são de fato fortes e difíceis de enfrentar, que de nada lhes adianta esforçarem-se, e então resolverem abandonar o mal e passar para o lado das pessoas boas, o mal social diminuirá drasticamente e o mundo se tornará um lugar mais agradável e brilhante para se viver.
Supondo aceita a teoria acima, ainda que as pessoas boas rangam os dentes, é impossível agir individualmente. Que fazer, então? Primeiro, as pessoas boas devem unir-se e formar uma aliança. O nome poderia ser "Aliança para a Eliminação da Maldade". Proponho essa ideia por acreditar que este é o meio mais eficaz de melhoria social.
(Nota)
Insolente (chōryō): agir de forma desenfreada. Os maus se pavonearem.
Desenfreado (bakko): agir arbitrariamente. Arrogante e dominador.
O Eu que Eu Vi
(Publicado na edição nº 6 de "Tijotengoku", em 20 de julho de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Ao ver este título, o leitor há de achá-lo estranho; à medida que for lendo, porém, certamente concordará com um "é mesmo".
Antes de mais nada, não deve haver ser mais misterioso do que "eu" — pois, na história da humanidade, não há registro de um ser humano como eu. Ao escrever este artigo, pretendo evitar ao máximo a subjetividade e expor-me de forma objetiva; peço, portanto, que se leia com essa disposição.
Vou começar por meu trabalho. Meu objetivo, naturalmente, é a salvação da humanidade, e nenhum dos meus atos pode desviar-se dessa linha. Atualmente, a atividade em que concentro mais esforço é escrever caracteres em papel, ou seja, a caligrafia. Empenho-me em atender aos pedidos de muitos seguidores e satisfazê-los ao máximo. Os seguidores, então, penduram isso no pescoço como Ohikari, guardam-no no peito e, diante de doentes, a uma distância de alguns shaku (cerca de 60 cm a 1 metro), direcionam a palma da mão e realizam a Irradiação Espiritual. Com isso, o sofrimento da doença invariavelmente se alivia. Além disso, doentes abandonados como incuráveis por vários médicos, já à beira da morte, são curados por seguidores convertidos havia apenas alguns meses, tornam-se pessoas saudáveis e voltam a viver em sociedade. Exemplos assim ocorrem aos montes, todos os dias, e não é de admirar que todos os que testemunham esse milagre de ressuscitar os mortos fiquem maravilhados. É algo que torna possível a extensão da vida humana — algo que, dos tempos antigos até hoje, ninguém considerava possível; provavelmente esta é uma grande questão mundial. A gratidão e a comoção dos que assim são salvos são incontáveis a cada dia, e seus relatos e cartas de agradecimento formam montanhas sobre minha mesa; sempre que os leio, não sei quantas vezes meus olhos se aquecem. E não é só isso: este método de colocar o Ohikari no peito e direcionar a palma da mão chama-se Johrei. Por meio dele, ladrões prestes a arrombar portas fogem; pessoas que caíram de penhascos, foram atropeladas por trens ou bondes, ou atingidas por carros, saem ilesas e têm a vida salva; há também casos de incêndios evitados, entre exemplos tão numerosos que não caberiam numa lista. Especialmente notáveis são os milagres na agricultura: há inúmeros exemplos de campos de trigo prestes a morrer que reviveram através do Johrei, de colheitas que, livres de pragas por ele, invariavelmente renderam mais, e de cavalos e bois que os veterinários consideravam mortos e que retornaram à vida. Além disso, pessoas pobres são libertadas do sofrimento da pobreza, lares sombrios se tornam alegres e, a partir do momento em que se põe o Ohikari no peito, o destino começa a melhorar. Esses inúmeros milagres estão publicados no jornal 'Hikari' e na revista 'Tijotengoku'; uma breve leitura já dará uma boa ideia. Desde os tempos antigos, mesmo nas biografias de grandes santos e líderes religiosos, há milagres de cura de um doente de cada vez — houve exemplos de pessoas que, ao se converterem a uma religião, foram curadas por seus benefícios materiais, e casos em que ministrantes manifestaram poder de cura. Mas a diferença entre esses e o poder notável do Johrei realizado pelos ministrantes através de mim é, provavelmente, incomparável.
Há um fato: dizem que, ao se olhar para os caracteres que escrevo, a forma exata deles se transforma em luz, dispersa-se inúmeras vezes e dança no espaço. Ouço isso constantemente de muitas pessoas. Há também quem veja, dentro do meu abdômen, uma esfera (jóia) de luz do tamanho de uma bola de borracha pequena; e muitos viram luz sair da palma da minha mão. Houve ocasiões em que se captou em fotografia o estado dessa esfera de luz jorrando em ondas de Luz de Luz de Luz, bem como o momento em que sua luz se expandiu por toda a sala.
Diariamente reservo uma hora para me encontrar com centenas de seguidores, dizendo-lhes de antemão que podem fazer qualquer pergunta, por mais difícil ou duvidosa que seja. Nos dias de maior movimento, chego a receber dezenas de perguntas nessa única hora, e posso dizer que quase não há questão a que eu não consiga responder — sendo, naturalmente, diferentes as perguntas a cada dia. Ainda que ocasionalmente surja algo que eu não saiba, no instante em que me deparo com a pergunta a resposta brilha de imediato em meu cérebro e sai pela minha boca. Dá-se também o fenômeno curioso de eu ser, por esse meio, ensinado por mim mesmo.
Em seguida, pessoas de fora, que não são seguidoras, costumam dizer que levo uma vida luxuosa. Diante da escassez de materiais dos dias de hoje, não é de espantar que o digam, mas jamais desejei uma vida assim. Ocorre que muitos seguidores agraciados com bênçãos me oferecem toda sorte de materiais em sinal de gratidão, e procuro acolher essa sinceridade tanto quanto possível. Quanto ao dinheiro, sempre que ele é necessário à obra de salvação reúne-se naturalmente na medida exata — o que é misterioso. O avanço da frente de expansão religiosa, dia após dia, mês após mês, está à vista dos senhores seguidores. Nada disso, portanto, se faz por vontade minha, e sim pela vontade de Deus, que me utiliza com inteira liberdade: pode-se dizer que não sou senão uma marionete de Deus. Por isso me pergunto, com interesse: "O que Deus me fará fazer a seguir?", e fico a observar a mim mesmo — fato verdadeiramente misterioso neste mundo.
Há ainda os vários trabalhos que realizo e os hobbies que os acompanham; e a quantidade destes últimos também é coisa rara. Escreverei sobre eles a seguir.
Escusa dizer que sou um religioso; na verdade, porém, não me considero como tal. Que sou eu, então? Embora a expressão soe um tanto estranha, parece-me que "agente de salvação do mundo" me assenta melhor. E, como ouço com frequência que muitos dos meus discípulos, salvando inúmeras pessoas e realizando milagres todos os dias, são reverenciados como deuses vivos, às vezes caio na gargalhada e digo: "Então, eu sou um fabricante de deuses vivos".
Pinto quadros, faço caligrafia, componho poemas, crio senryu (poemas satíricos), escrevo livros, romances, letras de música e artigos para revistas e jornais, além de cuidar da edição. Com o propósito de erguer um pequeno modelo do Paraíso Terrestre, dirijo ainda, sob minha supervisão e meus projetos, obras de construção, jardins, cultivo de flores, decoração de interiores e agricultura. Quem já viu o Jardim Divino de Hakone Gōra por certo há de concordar.
Quanto aos meus hobbies: aprecio as belas-artes e, dos quatorze ou quinze anos até hoje, não perdi o hábito de contemplar obras de artistas excelentes, antigas ou modernas. Interesso-me tanto pela música japonesa quanto pela ocidental, e sou, em minha casa, quem mais ouve rádio. Política, economia, educação, filosofia, literatura, questões sociais e afins despertam em mim interesse especial, e nunca deixo de estudá-las. Pretendo publicar aos poucos, em livros, o conhecimento que venho acumulando sobre esses temas.
Em suma, se me classificassem por profissão, eu seria: religioso, pesquisador de política, economia e educação, escritor, crítico de civilização, médico especial, poeta, pintor, calígrafo, arquiteto, paisagista, agricultor, crítico de arte e de música, entre outras coisas — uma diversidade e tanto.
Diz-se que Kannon de Mil Braços tem quarenta mãos, e que cada uma delas realiza vinte e cinco tipos de ações, perfazendo mil mãos para operar toda sorte de salvação. Daí eu pensar sempre: "Não será que Deus está me fazendo realizar o trabalho de Kannon de Mil Braços?" Muita coisa eu ainda gostaria de escrever, mas, como o texto já vai longo, deixo o restante à imaginação do leitor e encerro por aqui.
Acima está a realidade do "eu" que eu vi.
A Minha Pessoa
(Publicado na edição nº 7 de "Tijotengoku", em 30 de agosto de 1949)
Escrevi antes um artigo intitulado "O Eu que Eu Vi". Ao contrário daquele, de visão objetiva, desta vez gostaria de descrever, de forma subjetiva, o meu verdadeiro estado de espírito.
Penso, no fundo, que não deve haver hoje ninguém tão feliz quanto eu, e vivo sempre cheio de gratidão a Deus. Qual será a causa disso? É verdade que sou diferente das pessoas comuns: recebi de Deus uma missão importante e me esforço dia e noite para cumpri-la. Quantas pessoas venho salvando por esse meio, todos os senhores seguidores hão de saber. No entanto, mesmo para as pessoas comuns, que não são especiais como eu, existe um segredo para alcançar a felicidade com facilidade. Vou expô-lo; antes, porém, gostaria de descrever o estado de espírito que sempre carrego comigo.
Desde jovem gosto de alegrar as pessoas — quase a ponto de ser um vício — e penso sem cessar em como fazer todos felizes. A esse respeito, há um fato: ao acordar de manhã, a primeira coisa que me ocupa é o humor dos membros da minha família; se algum deles está de mau humor, eu também me sinto mal. Nisto sou o oposto do que se dá no mundo em geral, onde as pessoas se preocupam antes de tudo com o humor do chefe da família. Justamente por ser o contrário, sinto uma mistura de estranheza e até um pouco de pesar. Daí que ouvir vozes de insulto e gritos de raiva, ou queixas e lamúrias, seja o que mais me dói; e também me é penoso ouvir repetidas vezes a mesma coisa. Em tudo sou pacífico e feliz, e detesto apegos. Esta é a minha natureza.
Como o resultado descrito acima é um dos elementos que fazem de mim uma pessoa feliz, digo sempre: "Se não fizer os outros felizes, não posso me tornar feliz".
Acredito que o Paraíso Terrestre, meu maior objetivo, é a expansão e o compartilhamento deste meu coração. Pesa-me que este texto tenha algo de autoelogioso; se, ainda assim, puder ser de alguma utilidade, ficarei muito feliz.
A Ciência Cria a Superstição
(Publicado na edição nº 41 de "Hikari", em 24 de dezembro de 1949)
Como sempre, os jornalistas rotulam, à maneira de papagaios, todas as novas religiões de malignas e supersticiosas. Limitam-se a dizer que, aproveitando a confusão do pós-guerra, as religiões malignas e supersticiosas se alastram e enganam as pessoas, o que é inaceitável; mas não mencionam por que esse fenômeno ocorre, nem procuram examiná-lo. Tomam por malignas todas as novas religiões, julgando-as de antemão apenas com base em boatos e no próprio critério. Não há como não nos espantarmos com a simplicidade desse pensamento. Sinto, por isso, profundamente, que também para eles se faz necessária uma grande obra de esclarecimento, como parte de nossa responsabilidade.
Não pretendemos, contudo, negar por inteiro a atitude deles, pois sua visão fundamental repousa na perspectiva materialista subjetiva. É natural que julguem superstição tudo quanto é invisível — na mesma posição, decerto faríamos o mesmo. Mas, se negássemos a existência do invisível, que seria do mundo? O resultado do materialismo subjetivo seria terrível: as relações humanas — o amor, a afeição, os laços entre pais e filhos e entre irmãos — passariam a ser decididas apenas por interesse e cálculo, e daí resultaria uma sociedade fria como uma prisão de pedra. Nem eles mesmos, por certo, desejariam uma sociedade assim. Sendo assim, seu pensamento é incompleto e carece de profundidade.
Observemos agora, objetivamente, o lado prático. Por surpreendente que pareça, os casos de superstição abundam na camada intelectual de educação superior. Já vi uma tabela com o levantamento dos tipos de superstição em vários países do mundo: a Alemanha, tida como a mais avançada em educação científica, era a que apresentava o maior número deles. Note-se que a superstição é proporcional à ciência. Qual seria a causa disso? Segundo nossa visão, é esta: bombardeados durante muito tempo, na escola, por uma educação materialista fundada na Lógica, ao se formarem e entrarem na sociedade deparam com uma realidade cheia de coisas que não fazem sentido, e a maioria cai na dúvida — pois quanto mais se age de acordo com a Lógica, piores são os resultados. Os mais espertos passam então a pensar em aprender uma nova "sociologia"; como não existem escolas dessas, põem-se a estudar por conta própria. Uns levam alguns anos, outros dezenas de anos, até se "formar" nessa segunda educação, quase o oposto da primeira, aprendida com tanto esforço — mas, por ser prática e certa, funciona bem quando aplicada à vida. Os mais talentosos tornam-se doutores em sociologia, pessoas experientes que conhecem tanto o azedo quanto o doce. No entanto, quando enfim chegam a esses doutores experientes, já estão entrando na velhice, e muitos, a um passo do sucesso, terminam de forma medíocre. Há entre eles, porém, alguns grandes doutores excepcionais. O atual Primeiro-Ministro Yoshida é um exemplo: sua atitude de homem experiente e zombeteira, bem como sua habilidade política, são manifestações disso.
Pelo exposto, acredito que a causa da superstição tenha ficado clara. Em suma: aplica-se uma teoria em que se acreditava piamente, fracassa-se e cai-se na dúvida. Nesse momento, muitos tendem a correr para religiões malignas e supersticiosas, mas pode-se dizer que quase não há religião que realmente resolva o problema — a culpa, assim, está nas teorias distanciadas da realidade. Por essa razão, não se pode negar que os criadores da superstição são, na verdade, um aspecto da educação científica moderna.
Por fim, resta uma coisa a dizer. Reconhecemos, como eles dizem, ser um fato a proliferação de religiões malignas e supersticiosas nos dias de hoje. O erro está em julgar tudo por essa mesma medida: entre tantas superstições, deve haver algumas que não o são, e tomar por superstição o que não é superstição é também um tipo de superstição. É sobre este ponto que queremos alertar. O que gostaríamos de pedir aos senhores jornalistas, portanto, é que, embora seja correto criticar com severidade as religiões malignas e supersticiosas, atentem para o perigo de confundir com elas o que não o é, pois isso se tornaria um obstáculo ao progresso da cultura.
Metodologia e Resultadologia
(Publicado na edição nº 19 de "Hikari", em 23 de julho de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
A terapia de Johrei para doenças, praticada atualmente por nossa Igreja, tem a desvantagem de se prestar facilmente a mal-entendidos por parte do mundo. Explicarei aqui esse ponto em detalhe.
O efeito notável do método do Johrei de nossa Igreja no tratamento das doenças tornou-se, ultimamente, bastante conhecido; ouço dizer, porém, que subsiste considerável mal-entendido na maioria das pessoas, e sobretudo num grupo de especialistas. Foi para esclarecê-los que escrevi este artigo.
Até hoje, em tudo o que ouvi de crítica, não há um único ponto em que se diga ser o efeito inferior ao da terapia médica. Onde reside, então, a crítica? Dizem que o método está errado — o que, para eles, significa ser anticientífico e supersticioso. Vou refutá-lo. Por que o consideram anticientífico e supersticioso? Porque não usamos materiais como máquinas ou medicamentos. Também isso não é sem razão: enquanto eles tomam o corpo humano, objeto da terapia, por um animal, vendo nele apenas matéria, nós entendemos que o corpo humano não é só matéria — há nele um espírito invisível, e o ser humano se compõe desses dois elementos, corpo espiritual e corpo físico. Mais ainda: o espírito é primordial, e o corpo se move pelo movimento do espírito, isto é, pela vontade. Está aí, sem dúvida, a diferença entre a interpretação materialista e a idealista — em suma, entre "a matéria é primordial e o espírito é secundário" e "o espírito é primordial e a matéria é secundária".
Assim, enquanto eles tratam a matéria com matéria, nós tratamos o espírito com espírito. Para decidir qual das duas visões é a correta, por meio de que se poderá dar um veredicto preciso? Essa questão há de ser a chave para a solução do problema, e o método absolutamente infalível não pode ser outro senão o efeito prático.
Quanto a este ponto, a interpretação materialista, por lidar com a matéria visível, é facilmente reconhecida por todos; já a idealista, por lidar com algo invisível como o ar, tem a desvantagem de dificilmente se fazer reconhecer. É disso que se aproveitam: quando nos atacam, não tocam nem um pouco no resultado e criticam apenas o método — que, por ser visível, encontra ouvidos com facilidade. O fato, porém, é que, diante de doenças incuráveis por qualquer aplicação de máquinas e medicamentos, nós, sem recorrer ao poder de máquinas ou medicamentos, manifestamos, apenas pela operação da palma da mão humana, um efeito curativo surpreendente. Em suma: de um lado, a teoria está certa, mas não cura; do outro, a teoria está errada, mas cura. De um lado prioriza-se o método; do outro, o resultado. É preciso notar essa diferença. Naturalmente, é claríssimo qual das duas — metodologia ou resultadologia — está certa.
Levando essa lógica um pouco mais adiante, chega-se ao seguinte: um método que, ainda que científico, não seja útil na prática não pode ser tido, no mínimo, por ciência correta; ao passo que um resultado correto merece o nome de ciência correta, porque é útil na prática. A diferença está apenas entre o visível e o invisível — a primeira seria uma "ciência visível"; a segunda, uma "ciência invisível".
À luz dessa lógica, se minha tese estiver errada, que a refutem. E, se refutá-la for difícil, não seria acertado, daqui em diante, abandonar a metodologia e travar o debate entre a medicina materialista e a idealista somente no terreno da resultadologia? Assim poderíamos esperar o desenvolvimento de uma nova cultura que verdadeiramente sirva à humanidade.
Religião Progressista
(Publicado na edição nº 34 de "Hikari", em 5 de novembro de 1949, com acréscimos ao mesmo texto)
Observando a sociedade atual, vejo que, nestes dias de progresso acelerado, nada escapa a ele. Curiosamente, porém, só no campo da religião — o mais ligado à humanidade — não se vê progresso algum; ao contrário, não apenas permanece estagnada como no passado, como até retrocede. A maior prova disso está na frase que as religiões estabelecidas costumam repetir: "Voltem ao caminho original", ou seja, "voltem ao ponto de partida do fundador" — o que equivale a dizer que, por se terem desviado do caminho, devem retornar ao original. Repetindo-se isso, não há progresso nenhum, o que de fato contradiz o progresso da cultura. E o fato de as religiões estabelecidas já não terem poder de atrair as pessoas, lutando apenas para manter o status quo, é prova clara disso.
De fato, com exceção do Cristianismo, todas as religiões hoje existentes, embora tenham enfrentado, em sua fundação, perseguições e pressões que poderiam ser chamadas de destino das novas religiões, desenvolveram-se com vigor, animadas por um novo sopro de vida, e conheceram uma era gloriosa. Com o passar dos anos, porém, a maioria delas vem caindo pouco a pouco numa atmosfera de estagnação. É necessário, pois, examinar a causa disso.
Nem é preciso dizer: é porque não acompanham o progresso dos tempos. Apegadas com rigidez aos ensinamentos do fundador, como se fossem lei imutável, acabam por se distanciar da época; a lacuna vai crescendo aos poucos, até que passem, ao que parece, a ser criticadas como impotentes, tal como hoje. Se tudo tem uma causa e um efeito, as religiões estabelecidas deveriam refletir profundamente, pois não podem permanecer indiferentes para sempre. Vistas as coisas assim, os princípios fundamentais de nossa Igreja são todos progressistas, em sintonia com os tempos. E o fato de nossa Igreja desconsiderar as formas religiosas estabelecidas, poupando o tempo e os custos que as formalidades exigem, também se deve a este ponto: na prática, o fardo das formalidades não traz benefício algum, e nem mesmo os deuses e budas devem se agradar disso.
Nesse sentido, a missão da verdadeira religião há de ser melhorar a vida das pessoas modernas e desempenhar um papel de liderança; em suma, pode-se dizer que só a religião progressista tem valor para salvar as pessoas modernas.
Jikan Sosho, Volume 12
Coletânea de Narrativas Jikan
Título anterior: "Coletânea de Ensaios Jikan"
Publicado em 30 de janeiro de 1950 (Showa 25)
Formato B6, 77 páginas, não comercializável
Autor: Okada Jikan
Editor: Koizumi Morinosuke
Editora: Igreja Miroku do Japão
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