← Palavra Escrita
0%
← Voltar à Palavra Escrita

Montanha e Água

1949-12-23

⚠️ Uso exclusivo do Goshinsho: não autorizamos a reprodução deste conteúdo sem autorização expressa. Tradução em revisão — pode conter erros.

Coletânea de Poemas: Montanha e Água — Primeira Edição, 23 de dezembro de 1949 ※ "Montanhas e Águas" teve duas edições: a primeira, publicada em 1949, e a segunda, em 1950. Os poemas reunidos, o projeto da capa e os demais elementos são praticamente os mesmos nas duas. Apresentamos aqui a primeira edição. O conteúdo entre 〔 〕 indica trechos corrigidos na segunda edição ou o que parecem ser erros de digitação evidentes. Nas edições posteriores, a ortografia parece ter sido ajustada para a forma antiga, com base na edição de 1950; por isso, informamos que há diferenças de detalhe em relação aos poemas aqui apresentados. Prefácio Recentemente, entre coisas guardadas numa velha biblioteca, vieram à luz mais de mil poemas tanka que compus ao longo de cinco anos, de 1931 a 1935. Ao relê-los, achei a maioria tão esquecida que os tomei por obra de outra pessoa. Ainda assim, pareceu-me uma pena deixá-los sepultados. Por isso, depois de selecioná-los e de lhes fazer algumas correções e ajustes, decidi publicá-los agora em forma de coletânea. Nunca estudei poesia de modo sistemático: li, por simples gosto, alguns livros antigos e modernos, e posso ser tido, antes de tudo, por um poeta amador. O estilo do Manyoshu e do Kokinshu, porém, é difícil demais para as pessoas de hoje; e o estilo moderno, por sua vez, prende-se em excesso às novas tendências, pende para o realismo desmedido e carece de refinamento, além de ser indiferente ao "espírito da palavra" — o que resulta, entre outras coisas, na ausência completa de uma qualidade límpida e cristalina. Nem um nem outro me satisfazem. Creio, assim, ter manifestado nestes poemas a minha própria individualidade, deixando aos leitores o julgamento de sua qualidade. Outubro de 1949 Na residência temporária em Atami Akitsura A Primavera Passou 1. Passada a chuva, o orvalho ainda reluz; sob a sombra azul do bambuzal, floresce o musgo. 2. Sobre a folha larga e verdejante da bananeira, uma rã verde, sem o menor movimento, deixa-se molhar pela chuva. 3. Cessada a chuva de maio, vejo ao longe as cristas das nuvens alinhadas e um tênue arco-íris que desponta. 4. Na escuridão sob as árvores densamente entrelaçadas, algumas flores de lírio-da-montanha flutuam, branco-pálidas. 5. A canção do plantio de arroz ecoa serena; na casa do campo é meio-dia, e não há sinal de ninguém em parte alguma. 6. Ao anoitecer, é fresco o vento que sopra sobre os arrozais verdes; vaga-lumes roçam a escuridão à frente. 7. Trazendo o perfume das árvores de folhagem nova, o vento passa pelas mangas da roupa que troquei hoje. 8. Na superfície do lago reflete-se a sombra escura dos pinheiros; também a luz da lua nova ali desponta, tênue. 9. O vento é perfumado, as folhas verdes reluzem; ao descer ao jardim no início do verão, meu peito se dilata. 10. As flores desabrocham; hoje, já no mês de Minazuki, florescem as íris à beira do lago. 11. Ao entardecer, do mirante do Hakkei-en, olho para o mar: as luzes de pesca piscam. 12. No crepúsculo, no jardim, vejo os botões da ipomeia roxa e meu coração se alegra. 13. Os frutos do umê, no beiral da casa do campo, molham-se na chuva; que verdejantes se mostram aos meus olhos que os admiram. (Era Showa 6 — 1931, 18 de maio). Sol e Lua 14. A luz do sol e a bênção da lua: aguarda-se o tempo em que o povo há de crescer vigoroso. 15. Recebendo em abundância a luz bendita do sol e da lua, que eu possa habitar eternamente em Taka Ama Hara. 16. Na noite escura, na reunião de hoje, a lua ilumina o céu do coração das pessoas sinceras. (Era Showa 6 — 1931, 5 de junho). Monte Fuji 17. A planície de Musashi cobre-se de folhas verdes até onde a vista alcança; no horizonte do céu, avista-se o Monte Fuji. Luz 18. O espírito da água, que se originou com o deus Susanoo; a poesia waka deve ser a luz do nosso país. (Era Showa 6 — 1931, 3 de junho). 19. Atraído pelo nome do Templo Japonês, ao visitá-lo vi uma árvore que jamais havia visto, chamada shala (sarasōju). 20. Aqui e ali, os budas de pedra, cobertos de musgo, erguem-se solitários no Monte Kenkon. 21. Deitado sobre a grama verde, no vale da montanha, ouvi o canto dos pássaros como em sonho. 22. Só aqui é o Paraíso: sobre a grama verde, os poetas todos tecem seus pensamentos. 23. O mar levemente enevoado, com suas ilhas e montanhas, parece uma pintura; no jardim do Donkai-rō, as plantas estão pisoteadas. 24. Subindo o Monte Kenkon, a contemplar o mar distante de Awa, a brisa do início do verão toca-me as mangas. 25. No topo da montanha, ergue-se o sol nascente; e todos, reverentes, adoram o Monte Kenkon. 26. Nem sei quando me esqueci até mesmo de compor poemas: a vista do mar roubou-me o coração. 27. Deve haver uma ligação com o deus do sol celestial; o nome também é o templo do país do sol nascente. (Era Showa 6 — 1931, 15 de junho). Crônica de Viagem a Awa 28. Com mais de trinta companheiros queridos, parto esta manhã da capital rumo à província de Awa. 29. Ainda de madrugada, sem ter dormido no campo, o automóvel já chegava, veloz, à casa de chá ao pé da montanha. 30. À luz tênue dos lampiões, cambaleante, subi enfim a escadaria de pedra. 31. Do sopé do Monte Nokogiri, o portão do tão desejado Templo Japonês ergue-se imponente. 32. É espaçoso o tatame do templo na montanha; mesmo aos olhos da noite, a atmosfera antiga tinha um ar nostálgico. 33. Mergulhei no banho de ar melancólico, coberto de telhado de palha; lavei o suor e revivi quase por completo. 34. A noite no templo Zen adensa-se, silenciosa; por mais que conversemos, a conversa não tem fim. 35. Os de pernas fracas ficaram; conduzindo mais de vinte pessoas, tomei o rumo da montanha. 36. Abrindo caminho na escuridão da trilha da montanha, subi guiado pela luz dos lampiões. 37. Enfim, ao alcançar o topo do Monte Kenkon, as coisas começam a se tornar vagamente visíveis. 38. No céu a leste, a sombra da montanha, clara e nítida, descreve uma curva e vai unir-se ao mar. 39. À medida que a névoa matinal se dissipa, o mar vai aparecendo, perto e longe, e as montanhas também emergem. 40. As ilhas adormecidas e as cadeias de montanhas de Bōsō, vívidas; o sol nasce em silêncio. 41. Dizem que o topo da montanha é um mirante das dez províncias; de fato, o nome lhe assentava bem. 42. A luz do farol pisca, tênue, no fundo onde a névoa matinal se acumula. 43. Como diante de uma pintura a nanquim: a superfície do mar, as sombras das ilhas ao longe, os pequenos barcos a flutuar. 44. Quando o sol nascente ilumina todos os cantos sem exceção, o grupo desce a montanha. 45. No interior da caverna rochosa do vale da montanha erguem-se, reverenciadas, inúmeras estátuas de arhats. 46. Mais de cem Kannon de pedra, Shaka Nyorai, Daruma e vários Budas residem nesta montanha. 47. O salgueiro-chorão e outras árvores crescem densamente; o mar cerca o Monte Kenkon. 48. A estupa esculpida pelo Bodhisattva Gyōki, fundador do templo, e a figura do Yakushi Nyorai são veneráveis. 49. Outrora, por ordem imperial da Imperatriz Kōmyō, o templo foi fundado pelo Bodhisattva Gyōki. 50. A Kannon de onze faces reside aqui; desde os tempos antigos, é a estupa esculpida pelo Grão-Mestre Jikaku. 51. Com a culinária rural do templo na montanha, estalei a língua; é um sabor inesquecível. 52. Erguido em praia de bela vista, o jardim do Donkai-rō nunca cansa. 53. No gramado do jardim do Donkai-rō, estendemos esteiras e nos divertimos em encontros de poesia. 54. Raras rochas em forma de tartaruga e musgo; sobre o rochedo, um velho pinheiro estende seus galhos. 55. Sob o céu limpo, brincamos à vontade no jardim do topo da montanha. 56. Visitei o Kannon de Nago; o templo Kannon em forma de barco tem um belo vermelho. 57. Alteando-se sobre o penhasco perigoso, o templo do Kannon domina uma bela vista do mar. 58. No início do verão, entre os arrozais verdes onde os lavradores estão ocupados, meu trem corre veloz. 59. Aqui e ali, como se visse uma pintura de Gauguin, os campos de nêsperas brilham ao sol. 60. Ao receber a brisa suave que sopra sobre os arrozais verdes, que agradável é a viagem do início do verão. 61. O vento é perfumado, as montanhas de folhas verdes, o mar de Awa; inesquecível é a viagem em que os contemplei. (Viagem a Awa). (Era Showa 6 — 1931, 15 de junho). Amor (Poemas Imaginários) 62. Embora a cabeça se me cubra de geada, sou alguém que abriga pensamentos de fogo ardente. 63. A deusa de sobrancelhas de lua e rosto de flor, não menos bela, é o alvo do meu amor. 64. Sabendo que o amor não tem relação com a idade, prossigo além dos cinquenta anos. (Edição de 1950: [Meu recentemente]). 65. Agora, não há ninguém a quem revelar meus pensamentos; até quando durará esta angústia de esconder o amor? 66. Mesmo na rara noite de nosso encontro, há a barreira dos olhares alheios e as amarras do mundo. 67. Mesmo sem nos vermos, o coração percorre mil léguas; assim deve ser, ah, este corpo. 68. Seguindo o caminho poético de Shikishima, não será que meu pensamento também viaja para além das nuvens? 69. Neste mundo entregue à fúria do vento frio, o coração se aquece porque há amor. 70. Desejando ir ao teu encontro, acompanhando a lua que cruza o céu, quantas noites nisso pensei. 71. Agora, desvio o olhar até mesmo dos passarinhos que, afetuosamente, se empoleiram nos galhos. (Era Showa 6 — 1931, 1º de julho). Estação Chuvosa 72. De madrugada, ao abrir a janela, vejo que hoje também a chuva de maio cai como se sufocasse. 73. Embora já seja verão, ao olhar o vasto céu onde ainda resta a estação chuvosa, recordo com saudade a viagem daqueles dias. 74. O pôster desperta o espírito de busca por paisagens; a estação está movimentada; é o início do verão. 75. Molhadas e brilhantes, as folhas verdes e novas recebem, como um fino véu, a chuva que cai silenciosa. 76. Com a chuva prolongada, a cor das hortênsias não desbota; contemplo-as, ainda que me lembre do mundo que se transforma. 77. O musgo do lampião de pedra, verdejante, reflete-se na superfície do lago, enquanto uma chuva fina cai incessantemente. 78. Cessa a chuva; sob a luz do sol que espreita por entre as nuvens, é ofuscante o brilho das folhas molhadas das árvores. 79. Verdejante, a grama do gramado, molhada pela chuva; ao ver que estremece, dou com um sapo ali. (Era Showa 6 — 1931, 1º de julho). Passeio pela Região dos Lagos 80. Água e céu; também o vento sobre os juncos era claro. É o Lago Kasumigaura no início do verão. 81. Nuvens escamosas refletem-se na água; de leve, a brisa costeira do início do verão agita as mangas. 82. Verdejantes, os juncos crescem cerrados e parecem ilhas na superfície do Lago Kasumigaura. 83. Quando um pequeno barco abre caminho entre os juncos, de quando em quando levanta voo um pássaro desconhecido. 84. Do barco, olhando para cima: nuvens brancas estendem-se sobre o pico roxo do Monte Tsukuba. 85. No início do verão, sob a luz fraca do sol e sem vento, o barco desliza erguendo pequenas ondas. 86. O velho de pele escura ergue e torna a erguer algo na mão; estará apanhando enguias? 87. À brisa suave, o verso branco-brilhante das folhas dos choupos volta-se ao vento e reluz sobre os juncos. 88. A íris que floresce em roxo: hoje, no início do verão, tive-a por rara ao vê-la na região dos lagos. 89. Atracado o barco na tão desejada Itako-Dejima, contemplei as casas com curiosidade. 90. Ainda não vi a cidade de Veneza, na Itália; ao menos aqui, nesta região dos lagos, pude imaginá-la. 91. Pelo tranquilo Lago Kasumigaura, que enlaça lagos, rios e pântanos, passei o dia inteiro de barco. 92. À tarde, o Lago Kasumigaura cai em calmaria; quão lentas são, no retorno, as velas brancas. 93. Ao anoitecer, na Ilha Itako, enfileiram-se negras as casas, e as luzes piscam. 94. A névoa vespertina paira sobre o Lago Kasumigaura; velas brancas deslizam por cima dos juncos. 95. A lua sorri sobre as pequenas ondas; uma garça-da-noite, fazendo tremer os juncos, alçou voo dançando. 96. Neste mês de Fumizuki, visitei em Bandō os famosos santuários de Kashima e Katori. 97. A floresta de cedros antigos, silenciosa e sagrada; no santuário de Kashima, profundos são os pensamentos. (Era Showa 6 — 1931, 1º de julho). Chuva de Maio 98. A noite avança e há um sussurro de folhas; ao abrir a janela, vejo o jardim sob a chuva de maio. 99. Cai a chuva, fina e constante; à beira do lago onde cai a chuva de maio, as íris molham-se de roxo. 100. Com a chuva, o verde dos mil arrozais adensa a cor; é o entardecer em que não cessa o coaxar das rãs. 101. O Monte Mukō, envolto na fumaça da chuva; o rumor do riacho, no vale do rio, soa alto aos meus ouvidos. 102. Ao longe flutuou a jangada do barqueiro, branco-brilhante sob a chuva de maio. 103. Embora se veja um arco-íris matinal no céu a leste, parece que ainda chove nas montanhas próximas. 104. À beira do rio, indo de um lado para o outro, vejo um pescador; a chuva não cessa. 105. Foi um dia de chuva tranquilo; desenhando e compondo, passei-o inteiro, até o anoitecer. (Era Showa 6 — 1931, 6 de julho). Ascensão ao Monte Haruna 106. Éramos mais de vinte; de espírito descansado, subi hoje com os companheiros que se reuniram. 107. Cansado da chuva que caía dia após dia, deixei a capital para trás, tendo por destino o Monte Haruna. 108. O destino, coberto de névoa densa; no meio dela, o automóvel avança perigosamente. 109. Não se vê a montanha, tampouco se vê o lago; até mesmo o caminho reto a névoa o esconde. 110. Pisando a grama do caminho, sem saber ao certo se o há, cambaleio pela trilha estreita da montanha neste dia de chuva. 111. A montanha não é alta, mas a ladeira é íngreme; como quem rasteja, chego ao topo. 112. Envolta em névoa, a margem do lago é indistinta; veem-se pequenas ondas, e tudo é muito tranquilo. 113. No teleférico que avança pela névoa profunda, sinto-me como quem brinca acima das nuvens. 114. Nuvem ou névoa, simplesmente vasto e indistinto, envolve o Monte Haruna como nos tempos primordiais. 115. Quem diria! Ikaho é hoje lugar de música e algazarra; ao recordar a tranquilidade de outrora, choro. 116. Lembrando o passado tranquilo de Ikaho, é triste haver parado por aqui. 117. Enquanto ando pela cidade termal, tratam-me com familiaridade: uma mulher maquiada puxa-me a manga. 118. Vim à fonte termal da montanha para me imbuir do espírito puro, mas só encontro pensamentos inesperados. 119. Pisando e abrindo caminho entre as inúmeras ervas altas, molham-se de orvalho as minhas mangas. 120. Montanhas e florestas, escuras e silenciosas, refletem-se na superfície do lago como num espelho. 121. Mal parece que vai clarear, a névoa da montanha investe num instante; não há descanso no planalto de verão. 122. Nuvens brancas vão e vêm pelas montanhas próximas e distantes; quão interessante é o caminho da montanha no verão. 123. Entre as nuvens flutuantes avista-se o Monte Akagi; clara na madrugada, a pousada da fonte termal de Ikaho. 124. Entre a névoa, algo desponta num vermelho vivo, ainda que seja verão; que raridade — será uma azaleia da montanha? 125. Em roxo ora intenso, ora claro, as montanhas de Shin'etsu veem-se enfileiradas; é a fonte termal da montanha de Ikaho. 126. Hosta, lespedeza e sasa de urso aglomeram-se no fim do campo; quão suave é o Monte Haruna Fuji. 127. Na margem do lago, na Pousada da Margem, enquanto descanso e deixo correr a fumaça do cigarro, a névoa se aproxima e o ar da montanha penetra no corpo. (Era Showa 6 — 1931, 15 de julho). Relâmpagos 128. Enquanto saio pela cidade para refrescar-me, vez ou outra brilham relâmpagos; negros estão os fios dos cabos elétricos. 129. Diziam ser esta vila famosa por seus vaga-lumes; os relâmpagos, porém, são frequentes e passam sem piedade. 130. Ora altos, ora baixos, cruzam-se os vaga-lumes em voo, tão queridos; enquanto os fito com carinho, brilham relâmpagos no céu que contemplo. 131. Ainda que tenha cessado o ribombar distante do deus do trovão, permanece apenas o brilho dos relâmpagos. 132. De vez em quando brilha o relâmpago e, ao erguer os olhos, vejo quão velozes são as pernas das nuvens no céu. 133. Sombrio e ameaçador, o trovão ainda ressoa ao longe; na orla das nuvens brilham os relâmpagos. 134. O calor insuportável de hoje, ao primeiro brilho do relâmpago, veio a abrandar. (Era Showa 6 — 1931, 6 de agosto). Vaga-lumes 135. Na beira da varanda, as crianças estão quietas; estranhando, vejo que ali há uma pequena gaiola de vaga-lumes. 136. A escuridão do anoitecer adensa-se em negro; a luz dos vaga-lumes acende e se apaga, apaga e acende. 137. Voando entre os juncos, os vaga-lumes, soprados e soprados pelo vento do rio, somem de vista. 138. Uma luz de vaga-lume passa entre os juncos e, num instante, desaparece além da ponte. 139. Deslizando suave, costurando a escuridão sobre os arrozais, a luz do vaga-lume passa baixa, fluindo. 140. Ansiando por ti, na espera, tomei por mim mesmo o brilho ardente do vaga-lume no galho do pinheiro. 141. Na sombra da erva-orelha-de-rato, a emitir uma luz tênue, assemelho-me agora ao vaga-lume. 142. Noite após noite, o vaga-lume que se consome e se esconde na escuridão — a mim mesmo o comparei. 143. Terá amor mesmo um inseto tão pequeno como o vaga-lume? Ao cair da tarde, ele se consome. (Era Showa 6 — 1931, 6 de agosto). Luar 144. Batendo lentamente as asas, a garça-real faz tremer a luz da lua. 145. Como se talhada, a parede do rochedo, reta e verde-azulada, recebe a luz da lua. 146. Depois da chuva de amieiro, o céu é como vidro polido; refrescante, a lua no centro do céu. 147. Parece que alguém contempla a lua: na varanda da estalagem das termas, move-se uma sombra. Nota: "obashima" significa balaustrada. 148. As sombras dos galhos do pinheiro entram e se espalham; o jardim ilumina-se de um branco puro — esta noite é de lua cheia. 149. A grama está encharcada de orvalho; longas, longas, as sombras das árvores, enquanto a lua se inclina. 150. A noite avança; no pequeno jardim ao luar, ainda que seja verão, já se ouve o canto do inseto "haya-chichi". 151. Na crista das ondas, quebrando-se e despedaçando-se, a luz da lua esconde-se por trás da sombra da pequena ilha. 152. Onde contemplarei esta noite a lua brilhante? Hesitante, vagueio pela cidade. 153. Ao sair das vielas do dia de feira, ergo os olhos: a lua brilha intensa no céu. 154. Olhando lá para baixo, o trem, soltando agora fumaça negra, aproxima-se da colina iluminada pela lua. 155. Molhado pelo orvalho da calçada deserta na calada da noite, volto banhado pela luz da lua. 156. Eriçadas e negras, as chaminés; os telhados da fábrica brilham ao luar. 157. A brisa fresca agita o mosquiteiro, e a luz da lua espalha-se por todo o quarto. 158. As janelas do edifício, uma a uma sem luz, erguem-se imponentes no céu noturno de lua. 159. Perto do fosso, ao redor do Teatro Imperial, parece haver algumas pessoas caminhando sob a luz da lua. 160. A sombra do muro, negra e muito longa, obstrui metade da estrada enluarada. 161. Pela trilha estreita da noite, coberta pelo hagi que cresce dos dois lados, passei incomodado com o orvalho. 162. Na noite de lua, entre as árvores do bosque de Ueno, a água brilha no Lago Shinobazu. 163. Do alto, até onde a vista alcança, os telhados brilham ao luar como ondas. 164. Espreitando por entre as nuvens, a lua em quarto minguante lembra-me o cenário de uma peça; detenho-me um instante. 165. No banco do parque, parece que alguém conversa; passo indiferente. 166. Sob a luz da lua brilham os trilhos; na estação, a noite avança, filtrando-se pela porta de vidro da janela. (Era Showa 6 — 1931, 6 de julho). Mar 167. Entre os confins do Polo Sul e do Polo Norte, enchendo e vazando, o deus Watatsumi protege as oitenta ilhas. 168. Também as ondas furiosas que golpeiam o céu se aplacam como um espelho; o mar é sempre o mesmo mar. 169. Na beira da praia, mordendo bravamente as rochas grandes e pequenas, ecoa o rugido das ondas. 170. Levanta-se o vento; entre as vagas do alto-mar surgem e desaparecem barcos de pesca à luz de archotes. 171. Detendo-me na praia, na calmaria da manhã, vejo restos de algas espalhados, vestígios da tormenta da noite passada. 172. Caminhando pela orla, pisando a areia da manhã, em meus ouvidos soa incessante o grito do maçarico. 173. Do alto do precipício, vejo as ondas morderem os rochedos e erguerem espuma branca; é assustador. 174. As ilhas e montanhas de Boso surgem nítidas; o vento leste sopra sobre a Baía de Tóquio. 175. Velas cheias e velas meias despontam entre as ondas; calmas, batendo as asas, dançam as aves marinhas. 176. Vejo as sombras longas dos pescadores que puxam a rede de arrasto na areia do sol poente. 177. O céu se tinge vagamente de vermelho-escarlate; a névoa espessa cobre a superfície do mar. 178. No borrifo das ondas que mordem os rochedos, como um manto de água, vejo a linha do horizonte surgir por um instante. 179. Na areia da praia, à sombra dos pinheiros, apreciando o cheiro da maresia, descanso um pouco. 180. Soprando violento o vento da praia, erguem-se as ondas; as ilhas distantes são engolidas e vomitadas. 181. Na crista das ondas, a luz do sol nascente brilha clara; o mar em calmaria matinal após a tempestade. 182. Batendo na costa, a crista das ondas brilha branca e cintilante; a janela do trem refulge ao sol nascente. 183. Na superfície do mar, a névoa da tarde se adensa; na vila de pescadores ao longe, as luzes começam a piscar. 184. A lua agora se escondeu; o mar escurece, e apenas se ouve o som das ondas batendo na costa. 185. Sobre o precipício, um velho pinheiro solitário inclina-se perigosamente; vasto é o oceano. 186. Eternamente, indo e vindo, as ondas do deus Watatsumi esculpiram a pele da rocha ao longo de incontáveis anos. 187. Ao largo, flutuando sobre uma única onda, será uma ilha? Não há como saber. 188. Na praia há muitas pequenas rochas; nas bolhas das ondas que se aproximam, molham-se e brilham. (Era Showa 6 — 1931, 15 de agosto). Renovação 189. Depois de dar uma volta pelo céu e pela terra, a lua começa agora a emitir uma luz nova. 190. Ainda mais, ainda mais, eu que dedico a força vital aos outros e ao mundo. (Era Showa 6 — 1931, 10 de agosto). Tanabata (Festa das Estrelas) 191. Desejo que o costume de celebrar o Tanabata perdure para sempre em nosso país. 192. Nesta noite de Tanabata não há nuvens, e o céu está límpido; com alegria, penso no encontro do Pastor e da Princesa. 193. A cada ano se renova a firme promessa: é a noite do encontro das estrelas, à margem do Rio Celeste. 194. Para encontrar a amada, estendo sobre o Rio Celeste a ponte do afeto; esta é a noite em que a atravesso. 195. À margem do Rio Yasoshima, nela incluindo a promessa, firmo esta noite um voto inabalável. 196. No Rio Celeste, superficial é a promessa na noite de verão; triste, porém, é o canto da pega. 197. Ao luar, balançam-se as folhas de bambu; esta noite, entrego-me à celebração do festival de Tanabata. 198. No mundo dos homens, penso que até as estrelas do céu têm amor; e ergo os olhos para o Rio Celeste. 199. Eu também já tive exemplo de amor tão efêmero que se confunde com as estrelas do Tanabata. (Era Showa 6 — 1931, 20 de agosto). Gansos 200. Batendo as asas, brancas, brancas, sobre o lago raso, um bando de gansos selvagens banha-se na luz da lua. (Era Showa 6 — 1931, 10 de setembro). Insetos 201. Terá alma também este pequeno inseto? Fico com os olhos presos ao abajur. 202. Na noite de lua, entra em meus ouvidos, que se entristecem com o outono, a voz rouca do grilo-do-pinho. 203. No fundo da escuridão, a voz do inseto que flui torna-se tênue; o outono no jardim deve ter-se aprofundado. 204. Alegre, a luz também é nítida; sob a lua cheia, no jardim iluminado, os insetos cantam sem cessar. 205. Que inseto será este, que suga o orvalho da erva-orelha-de-rato? Olhando fixamente, vejo que é um vaga-lume. 206. Na noite de outono, a perturbar meus olhos absortos na leitura, veio pousar a mariposa odiosa. 207. Sonolento, ao som do canto dos insetos, saboreio por um instante a quietude da noite de outono. 208. Será o grilo-sino esse som que ecoa puro na noite de lua? De coração vazio, fico imóvel. 209. Triste é a canção dos insetos; enquanto lhes escuto a voz, por um instante o mosquito do mato me roça. 210. Toda vez que te vejo, com tua figura cômica, não consigo conter o sorriso, ó louva-a-deus. (Era Showa 6 — 1931, 16 de setembro). A Certas Pessoas 211. Quem julga os outros, chamando a este bom e àquele mau, usurpa a posição divina. 212. Cercado de perseguição e de mal-entendido, passo os dias com alegria. 213. Como poderia o profundo coração do Grande Deus refletir-se em olhos humanos tão pequenos? 214. Recordo o fundo do grande coração compassivo do santo que orou pelos inimigos. 215. Ó fariseus, examinem uma vez mais as escrituras à luz do Espírito Direto. (Era Showa 6 — 1931, 16 de setembro). Outono (I) 216. Plana e vasta, a estrada de terra vermelha; a poeira se levanta, e ao longe segue a carruagem. 217. Nas flores e nas folhas, sutis são o aroma e a cor do outono; e um tufo de lespedeza me parece agradável. 218. Pelo vidro embaçado entra a luz do sol de outono; no tatame, vejo o corpo de uma mariposa. 219. Na chuva de outono, na estalagem silenciosa, a noite inteira, as lembranças do passado; é a época em que sinto sua falta. 220. O dia inteiro, a cor da decadência tinge o campo outonal, enquanto a chuva continua. 221. No crepúsculo, a névoa se aproxima devagar; e o branco das flores de capim-dos-pampas turva-se aos olhos. 222. A estrada de montanha que se aproxima está tomada pela densidade dos capins-dos-pampas; na névoa da tarde, a montanha tinge-se de roxo. 223. Na paragem do campo onde cresce o capim-dos-pampas, dou de repente com a flor da campânula: parece sorrir-me. 224. Definhando no verão, as cem flores se desordenam dia após dia; entristecido com a face do campo, arrasto os passos. 225. Tudo amarelece; na aldeia, ao sopé da montanha, vejo alguns pés de caqui, todos maduros e vermelhos. 226. O céu límpido reflete-se no arrozal já colhido; um único vulto de sombra reluz — deve ser uma cotovia do campo. 227. Perseguido e expulso pelas cigarras que cantam ao entardecer nas aldeias, parti para a cidade. 228. No campo de capim-dos-pampas, que se curva ao vento e treme com a geada, os vestígios da batalha de perseguir sonhos. 229. Os juncos secos que restam, quebrados e frios, refletem-se no lago; no céu, o inseto-tecelão-d'água desenha fios. 230. É outono; embora o sol que brilha aqueça a terra, estão frias as pontas dos dedos que cavam o jardim. 231. Aqui e ali, nas falésias, brilham as folhas vermelhas; alto e límpido, o céu azul-escuro. 232. Sobre as algas d'água, despreocupadamente, a libélula; em suas asas que se recolhem, brilha o sol poente. 233. Entre os pinheiros de Marunouchi, relampejam os faróis dos carros; seus traços de luz perdem-se na névoa. (Era Showa 6 — 1931, 20 de setembro). Outono (II) 234. Nuvens finas, que nem parecem mover-se, vão fluindo; uma pipa, em movimento suave, desenha um círculo. 235. No ar límpido, um camponês move-se em paz; é como uma pintura de Gauguin. 236. Por entre as folhas esparsas do carvalho, recém-podadas, vê-se o céu azul-cobalto. 237. Na sensação do cobertor noturno que cobre por inteiro, sinto uma grande familiaridade: é o início do outono. 238. Entre o rumor dos insetos, destaca-se o som agradável do grilo; e fico extasiado. 239. Alinham-se os rostos negros das crianças que pescam libélulas; os olhos, olhos, olhos fixos no peixinho-dourado dentro do cercado. 240. Fluem as linhas suaves da colina, levemente tingidas das cores do outono; e como é azul o céu! 241. A libélula-vermelha desliza veloz pelo céu, como se houvesse ocorrido um grande incidente. 242. A faixa de arbustos, em que se misturam o vermelho, o amarelo e o roxo, brilha ao sol: é o planalto de outono. 243. As folhas amarelas do plátano esvoaçam e dançam na rua pavimentada, por volta das quatro da tarde. (Era Showa 6 — 1931, 20 de setembro). Sociedade e Pensamento 244. O que é Marx? O que é Mussolini? Não passam de fantasmas nas duas pontas do balanço. 245. Napoleão, Kaiser, Marx — cada um deles não passa de um degrau da escada pela qual todos subiram. 246. Num país incapaz de criar uma teoria que supere a teoria de Marx, quantos milhares de doutores existem! 247. Que prossiga a luta entre capital e trabalho — quando ambos estiverem exaustos, se resolverão. É a partir daí que nasce a coisa verdadeira. (Era Showa 6 — 1931, 20 de setembro). Sociedade 248. Rumo ao imponente edifício, calçando as meias que a esposa remendou de manhã, segue o assalariado. 249. Erguem-se arranha-céus um após outro — em contraste com o número crescente de pobres vendedores noturnos. 250. A sociedade apenas ofega — rostos cansados, olhos sem esperança. Ah, para onde vão vocês? 251. Tomar dinheiro emprestado a juros de um iene ao dia e atirar dez ienes em perfume erótico — que psicologia incompreensível! (Era Showa 6 — 1931, 20 de setembro). Japão 252. O mundo é uma pintura em constante transformação — o vermelho, o branco, o preto: todas são cores necessárias à composição. (Era Showa 6 — 1931, 20 de setembro). Lua 253. Quão venerável é o rosto redondo da lua — ao contemplá-lo, desfazem-se as angústias. 254. A luz da lua é tecida, vez após vez, nas inúmeras camadas das ondas que se aproximam. 255. Será luz da lua ou cor da névoa? — branca, envolve a floresta e flutua. 256. Na calçada, alta noite, alonga-se a sombra do ginkgo, e a luz da lua é azulada. 257. Pendendo sobre a lua refletida no lago, os ramos da lespedeza — que encanto em seus cachos esparsos! 258. Se apago a luz diante do luar que incide pela janela redonda, a sombra do bambuzal é como uma pintura a nanquim. 259. Não é que reste luz do entardecer — é o brilho da lua crescente que acaba de despontar na borda da montanha. 260. A luz da lua cheia, clara e límpida, brilha sobre o campo — de repente, lembro-me de uma cena de cinema. 261. Na estrada da aurora, ecoa o som de um carro — pálido o céu lá em cima, e a lua ainda permanece. 262. Ao entardecer, com um amigo que segue o caminho pelo campo de capim, conversávamos sobre se haveria lua. 263. A lua brilha intensa e, no jardim que se faz branco, resplandece a flor vermelho-clara do sagu-do-japão. 264. A luz da lua, suave sobre o lago, é levemente branca — e entre as flutuações, a flor de lótus. 265. As nuvens fragmentadas parecem imóveis e a luz brilha intensa — a lua tampouco se move, por um instante, no céu. 266. No final do outono, entristecido com a lua desta noite, sozinho, apoiado em um bastão, vagueio pelo campo. 267. A lespedeza e o capim, todos dispostos — neste outono, no jardim iluminado pela lua, eu caminhava. 268. Sobre o rio, como se fumegasse, o luar eleva-se em névoa — e sobre a ponte há uma pessoa. (Era Showa 6 — 1931, 6 de outubro). Outono em Nikko 269. Excepcional — Nikko, de montanhas púrpuras e águas cristalinas: será a montanha de Fudaraku, onde habita Kannon? 270. À medida que subimos, aprofunda-se a cor das folhas outonais — o outono nesta montanha está agora em seu auge. 271. Ruidosa, a cachoeira Kegon parece contar os mistérios da montanha Futara. 272. A superfície do lago, como um espelho, reflete nítidos o céu do outono e a fileira de montanhas com folhas outonais. 273. Amarelecem as copas das bétulas, e a luz do sol, filtrada, incide pálida sobre as folhas do bambu-anão. 274. No vale entre montanhas, erguem-se picos de nuvens cor de cobalto no extremo do céu outonal límpido. 275. Sobre a grande encosta rochosa, vermelhas, as cores das folhas outonais ardem e fervem ao sol poente. 276. Toda a montanha se tinge de vermelho, amarelo e azul — o outono em Nikko supera a primavera em florescimento. 277. Tendo ao fundo o céu azul-escuro, sucedem-se as montanhas com folhas outonais, e o sol de outono brilha. 278. Quando olho o lago Yu, como um espelho polido, ele reflete até a base do Shirane outonal. 279. A cor do entardecer, púrpura, mal consegue conter as folhas outonais vermelhas das montanhas. 280. Em curvas sinuosas, subindo a montanha, as cores das folhas outonais que aprecio aprofundam-se cada vez mais. 281. Nas encostas da grande rocha que se ergue íngreme, aqui e ali, as folhas outonais espalham-se como se rastejassem. 282. A cor vermelha intensa da sorveira-dos-passarinhos destaca-se e brilha no outono da montanha. 283. No topo da montanha que ainda conserva o verão em tom azul-claro, as folhas outonais avermelham-se como se costuradas. 284. Na montanha onde o sol brilha, a maior parte são cores das árvores — não há folha que não se colore, entre o intenso e o pálido. 285. A planície de Senjogahara amarelece levemente — aqui e ali, as espigas do capim tremem. 286. Até onde a vista alcança, as folhas outonais brilham e refletem — de montanha em montanha, em Nikko, é um turbilhão de vermelho. 287. Como fios de algodão branco, a cachoeira desce em cascata — a beleza que se vê por entre os ramos das folhas outonais. 288. Perigosamente suspensas entre as rochas, as folhas outonais ardem e brilham, molhadas pelos borrifos da cachoeira. 289. A grande cachoeira que desce em cascata, branca, fica para trás no crepúsculo, e escurecem as profundas montanhas do outono. (Era Showa 6 — 1931, 18 de outubro). Folhas Outonais 290. Resolutamente, o outono arde no auge das folhas outonais — e de repente entra o inverno cinzento. (Era Showa 6 — 1931, 20 de outubro). Ídolos 291. Ó ídolos! Por vós as massas respiram, alegram-se e dançam! 292. Um grupo de negadores de ídolos sua agora para idolatrar Lênin. 293. Ó ídolos que adornam a história da humanidade! Que existência brilhante! 294. Penso que os ídolos são necessários ao homem no mesmo grau em que o são o pão e o ar. 295. O trono no alto da pirâmide não é sempre ocupado por ídolos? 296. A diferença entre ídolos vivos e ídolos mortos — é preciso reavaliá-la com os olhos, os olhos, os olhos! 297. Tanto o proletário quanto o burguês, brancos, negros e amarelos, todos se ajoelham — esperemos pelo ídolo messiânico! 298. Shaka, Nichiren, os diversos veneráveis — não passam de ídolos religiosos do passado, não é? 299. As escrituras e O Capital, se existem apenas nos catálogos das bibliotecas, não têm significado. (Era Showa 6 — 1931, 18 de outubro). O Mundo Agora 300. Ruge, China! Os descendentes de Adão e Eva riem de ti. (Era Showa 6 — 1931, 18 de outubro). Lago Velho 301. As folhas verdes do lírio-d'água transparecem na água do lago — e, pontilhadas, flutuam as flores amarelas. Nota: planta aquática perene da família das ninfeáceas. 302. Que atmosfera, que parece a de uma história! À beira do lago ergue-se um pequeno templo pintado de vermelho. 303. Ainda é clara a cor da noite que envolve o velho pântano — e as flores do junco, de brilho frio, já estão brancas. 304. O lago, que deve guardar muitas lendas, tem a água azul e estagnada, onde flutuam algas velhas. 305. Densos, os bosques aqui e ali projetam sombras à beira da água — e o lago está tranquilo. 306. Aqui e ali veem-se pescadores — no lago que reflete o céu outonal, lançam suas linhas. 307. O rouxinol-dos-juncos canta entre os juncos — fria é a tarde, e a margem oposta esconde-se na névoa. 308. Nem se movem os ramos pendentes do salgueiro — refletidos no lago, alguns fios de linha. (Era Showa 6 — 1931, 20 de outubro). Outono em Musashino 309. É aqui que encontro Musashino — chego à beira do caminho que se estende até os campos de capim. 310. Por mais que eu ande, o riacho costura bosques e campos — e o outono, generoso, cobre Musashino. 311. Pela colina de terra vermelha, um camponês carrega capim para o cavalo — sobe lentamente e desaparece no céu azul. 312. No campo de berinjelas murchas, frio e triste, escorre pálido o sol poente. 313. Há um campo de alface crespa que verdeja viçoso — só ali não parece outono. 314. Lastimáveis, os juncos secos jazem enterrados no lago — hoje também o vento frio do inverno não cessa de soprar. 315. Uma, duas, três libélulas pousam imóveis na antena, sob o céu outonal. 316. Ecoa na névoa matinal o rangido do carro do verdureiro — o som permanece por um instante nos ouvidos. 317. Castanhas e cogumelos matsutake começam a aparecer aqui e ali — já o outono chega até às ruas. (Era Showa 6 — 1931, 20 de outubro). Viagem a Tsukuba 318. Um único vermelho brilha ao sol — destaca-se no meio do bosque de pinheiros novos. 319. Montes e cercas de feixes de arroz colhido, aqui e ali — alegra vê-los até onde a vista alcança. 320. O outono flutua em tom amarelo-claro — vasta, a superfície dos campos após a colheita das espigas balança na janela do trem. 321. Sucedem-se as árvores de folhas variegadas à beira dos caminhos entre os campos — e refletem-se na água dos campos ceifados. 322. O vento outonal sopra sobre as espigas pendentes do arroz tardio — de vez em quando, a aldeia de Oyamada sussurra. 323. Límpida é a água dos campos de espigas ceifadas — nela se refletem as pequenas nuvens do céu outonal, e tudo é tranquilidade. 324. No campo de lótus que restou seco, lastimáveis, os caules se quebram — e a maior parte das folhas afunda na água. 325. Os camponeses colhem o arroz sob o sol outonal — e de repente pensei em pintar essa cena. 326. Estende-se o dique de cerejeiras com folhas outonais — e, separando a superfície dos campos, brilha ao sol. 327. O céu outonal, sem limites, envolve os campos e arrozais tingidos de amarelo-milho. 328. Na encosta da colina um pouco elevada do monte Matsuyama, fumega a luz do meio-dia outonal. 329. Ao lado de uma casa de campo, florescem os crisântemos — cada um com sua cor, recebem o sol e brilham. 330. No sopé da montanha, três ou quatro paredes brancas brilham ao sol — o outono na superfície dos campos era agradável aos olhos. (Era Showa 6 — 1931, 1º de novembro). Outono nas Raízes de Tsukuba 331. O monte Tsukuba — seus dois picos traçam uma linha vermelho-clara no céu azul. 332. Subindo suavemente a encosta íngreme no teleférico — pela janela, plantas e árvores descem todas. 333. Ao chegar ao topo, de repente a vista se abre — montanhas, rios, plantas, tudo em cores de outono. 334. Abaixo, a planície de Kanto estende-se como um mapa — e, ao longe, tênue, o Fuji. 335. Serpenteiam estradas brancas; campos, arrozais e pequenas vilas brilham ao sol outonal — é tão belo que não me canso de ver. 336. Rochas estranhas e pedras bizarras, inúmeras, enquanto desço — e, sem perceber, chego ao sopé. 337. Absorvendo o ar outonal da montanha nas raízes de Tsukuba, brinquei o dia inteiro e hoje me satisfiz. 338. Como se me recebesse, ergue-se diante de mim o monte Tsukuba outonal, as faces como que ardendo. 339. Ao visitar o santuário e erguer os olhos, o monte Tsukuba — agora as cores dos picos se avermelham. 340. Deixando para trás o som dos corvos da tarde, e olhando para trás, olhando para trás o monte Tsukuba, embarquei no trem. (Era Showa 6 — 1931, 1º de novembro). Início do Inverno 341. Quando chega o inverno das árvores nuas, como é difícil esquecer as cores e os aromas da primavera, do verão e do outono. 342. Apenas os pinheiros se destacam, verdejantes — enquanto o inverno se espalha pelas colinas e campos. 343. Silenciosos, os campos e os caminhos entre eles: não há sinal de gente — e uma luz pálida incide sobre as espigas ceifadas que restam. 344. Familiar, junto ao braseiro, uma mosca pousa, como sem forças, no dorso da mão que estendo. 345. Incide o sol pálido — junto à porta de vidro, pego a caneta, mas a mão está enrijecida. 346. Reflete-se nítida a sombra do corvo que se apressa para o ninho — na superfície do lago, a água se purifica. 347. A maior parte dos crisântemos do jardim murchou — olho com pesar as uma ou duas flores que restam. 348. As folhas do caqui, que se podem contar, ainda nos galhos — e, frios, os três ou quatro frutos vermelhos que restam. (Era Showa 6 — 1931, 6 de novembro). Folhas Caídas 349. Tomo nas mãos uma folha seca, e ela, solene, fala da lei da reencarnação. 350. Até onde a vista alcança, as folhas caídas parecem sussurrar umas com as outras — sob as árvores, o vento sopra. 351. Sobre o asfalto, dançam loucamente — há um lugar onde as folhas caídas se acumulam. 352. Pisando-as com ruído, sigo o caminho deste bosque coberto de folhas caídas — e, ao sair, chego ao campo outonal. 353. Quantos dias se acumularam para que as folhas caídas enterrassem este caminho? — quão profundo é sob as árvores do bosque! 354. Será por folhas caídas que se acumularam por anos a fio? — nesta trilha da montanha, não se veem pegadas. 355. Sobre a superfície da terra purificada caem três ou quatro grandes folhas secas de caqui. 356. Duas ou três folhas caídas de um vermelho intenso — que cena, a flutuar na superfície do lago! 357. Impiedosa, soprou a tempestade noturna — e as árvores de momiji que ainda restavam no jardim ficaram nuas. 358. Pela manhã úmida, ando entre as árvores — a cada passo, estalam as folhas caídas cobertas de geada. 359. Na esquina asfaltada, as folhas caídas formam redemoinhos — no meio do vento frio, um cachorro corre. 360. Tão fundo que nem parece que piso em terra — sigo o caminho de folhas caídas à beira do riacho. 361. Junto ao muro, as folhas caídas e as folhas secas das várias plantas que se espalharam neste outono amontoam-se em altas pilhas. 362. À beira da água, as folhas secas do salgueiro flutuam aos poucos — e um bando de aves aquáticas, ao nadar, divide-as. 363. A tempestade noturna sopra por algum tempo; a lua surge e ilumina de branco as folhas caídas do jardim. 364. Nítidas ao sol poente, veem-se as agulhas de pinheiro secas nos ombros do menino que junta as folhas caídas. 365. O moleque — quando foi que as sacudiu? — as folhas verdes caídas sob a cerca de cipreste. (Era Showa 6 — 1931, 10 de novembro). Pardal 366. Na superfície da neve algo se move; da lareira, ao abrir a porta de vidro, vejo que são pardais. 367. Como folhas dançando ao vento que sopra de repente, o bando de pardais cruza o céu distante. 368. O chilrear dos pardais vai-se tornando mais ruidoso; ao redor da janela, já clareia um pouco. (Era Showa 6 — 1931, 10 de novembro). Ano Novo 369. A luz do céu que envolve a terra também se renova; neste dia em que nasce o que chamamos de "este ano". (Era Showa 6 — 1931, 16 de dezembro). O Canto do Galo na Aurora 370. A escuridão tênue clareia, cada vez mais luminosa; estridente é o canto do galo doméstico. 371. De uma casa de palha, entre duas ou três, no meio da névoa espessa, ouve-se o canto do galo que agita o ar matinal. 372. O galo canta alegremente, e na orla do céu entre as montanhas desponta um rubor alaranjado. 373. A luz do santuário xintoísta aparece no fundo da névoa; ouve-se ao longe o canto do galo doméstico. 374. No silêncio, o galo que agita a manhã solta um canto estridente. (Era Showa 6 — 1931, 23 de dezembro). Noite Fria 375. O vento frio que penetra pelas frestas da porta fere o corpo; o papel da porta de correr range de vez em quando. 376. Ainda que leia um livro e me aqueça ao braseiro, sinto como se um banho frio me descesse pela espinha: assim é o frio da noite de inverno. 377. Uivando, os fios elétricos choram; na noite em que o vento invernal sopra forte, faço minha caneta correr. 378. Fazendo soar alto o ruído dos sapatos na estrada congelada, retorno sob a noite de lua. 379. A geada congelou nos fios elétricos, brilhando intensamente à luz da lua; os passos das pessoas cessaram. 380. Aqueço as mãos frias na brasa que mal queima; e mergulho em pensamentos nesta noite que avança. 381. A noite avança profundamente, mas fico sozinho, arrumando o quarto frio. 382. É uma noite em que o som das geta se destaca; o vento invernal que soprou o dia todo cessou, e a cidade está em silêncio. 383. Tiro a brasa enterrada nas cinzas e ponho-a de lado; torno a pegá-la e a pô-la; e por um momento fico absorto em pensamentos. 384. A noite silenciosa chega ao extremo, sem som algum; lá fora, a neve em flocos finos começa a cair e a se acumular. (Era Showa 6 — 1931, 23 de dezembro). O Anoitecer se Aproxima 385. Com o bulício do fim do ano, os pensamentos se enredam; em cada coisa há uma agitação vaga. 386. Olhando o céu do dia curto, de repente sorrio deste meu momento de folga. 387. Sem razão aparente, o dia de hoje também terminou; penso se amanhã também perseguirá o hoje. 388. Sempre penso em pegar no colo aquela criancinha; quantos dias se passaram? Hoje também terminou. 389. Ao pisar no jardim depois de muito tempo: espalhadas, as folhas caídas apodrecidas pela geada; e a terra, úmida. (Era Showa 6 — 1931, 23 de dezembro). Seu Perfil 390. Tolo ou sábio, seja como for, vejo nele uma figura que não se alinha ao nível do mundo. 391. Cabelo desgrenhado, rosto sujo — impassível, ele se aproxima de uma jovem; observo seu perfil. 392. Tem uma natureza tola e é enigmático, mas há nele também um lampejo de gênio. (Era Showa 6 — 1931, 23 de dezembro). Ela (Na Época de Juventude) 393. Decididamente, a fragrância da juventude é rica, e parece sacudir-me o coração. 394. O rosto radiante e perturbador da fragrância juvenil; fecho os olhos e suspiro. 395. Diante de mim ela está, de maquiagem elegante e esmerada; e eu, vazio. 396. Sua figura graciosa e ereta parece exalar a fragrância da ameixeira branca; a ela eu a comparo. 397. Aquelas pupilas que parecem estrelas numa noite de outono; será que não se apagarão do fundo dos meus olhos? 398. Se meus sentimentos forem correspondidos, envergonho-me; se não chegarem, angustio-me; que devo fazer? 399. O que evoco em sua bela figura é a de uma deusa dançando no jardim do Paraíso. 400. Temendo que você perceba a palpitação do meu coração, temo também aproximar-me de você. 401. Agora mesmo quero ver suas pupilas estreladas, mas os meus olhos, lamentavelmente, desviam-se para o tatame. 402. O céu de primavera, tingido pelas cerejeiras de flor dupla: foi a ele que tentei comparar a sua figura. (Era Showa 6 — 1931, 23 de dezembro). Neve 403. Nos galhos de todo secos, quando chega o inverno, há um instante de contemplação em que desabrocham as flores de seis pétalas. 404. A neve miúda cai densa, tudo oculta e desaparece; o azul da superfície do rio penetra nos olhos. 405. À sombra da moita, a neve ainda por derreter brilha de leve na escuridão do entardecer. 406. Ao sopro do vento, a neve que cai rodopia e dança; as árvores perenes do jardim balançam de leve. 407. Instalado com conforto no quarto aquecido, olho distraído para fora, através da porta de vidro; passa o olho da cobra escarlate. 408. De manhã cedo, ao caminhar pela estrada coberta de neve branca, um cachorrinho a atravessa e sai em disparada. 409. Nuvens baixas nesta manhã; ao ir para a estação, entra um trem com neve no teto. 410. A neve eterna cintila nas dobras das rochas; as montanhas dos Alpes refletem o sol. 411. Enfim reconheço a lixeira: semienterrada na neve, encostada ao muro. 412. Sobre a lixeira enterrada na neve, um pardalzinho parece procurar comida. 413. Uma rajada de vento atinge o velho pinheiro coberto de neve e espalha a neve fina de seus galhos. 414. A neve branca que cobria um dos lados do poste elétrico começa a derreter ao sol, e as letras aparecem. 415. A neve da primavera acumula-se de leve nos galhos das árvores secas; a janela do quarto de onde a observo com carinho. 416. A neve da primavera derrete ao cair e, com um som seco, gotas de orvalho tombam sobre a grama seca. 417. No crepúsculo da rua, sob a neve que cai e à luz do poste, parece haver uma sombra de pessoa. (Era Showa 6 — 1931, 25 de dezembro). Indignação 418. A excitação, acima da indignação, esfriou de repente e converteu-se num sorriso de vazio. 419. O silêncio com que se responde ao mal-entendido e ao insulto; penso que nisso há algo de nobre. 420. Tentei imaginar um modo de transformar em sonho a realidade traída. 421. Não consigo, de modo algum, odiar aquele que me desferiu o golpe de misericórdia; que fraqueza. 422. Deparei-me com a questão de como tratar um degenerado religioso. (Era Showa 6 — 1931, 25 de dezembro). Emoção 423. Uma alegria sem causa surgiu sutil e, de repente, desapareceu. 424. A emoção dele, pulsando em ritmo agradável, flui até mim. 425. As mentiras dele, que agora escuto; ah, que passem depressa pelo meu cérebro. 426. Frios foram os olhares que trocamos; por que este meu coração não se comunica? 427. O quarto em ordem; que prazer, a claridade daquela lâmpada elétrica! (Era Showa 7 — 1932, 25 de dezembro). Céu Limpo Após a Neve 428. A neve dos galhos, prestes a tombar de leve, flutua no céu da aurora que clareou. 429. Cada uma das partículas brancas resplandece; é a manhã depois da neve. 430. A neve acumulada sem falhas sobre o imponente pinheiro velho; que magnificência, a da neve. 431. As linhas brancas e suaves da neve desenham o jardim na manhã. 432. Sob o céu ofuscante de sol, as suaves linhas de neve, num esboço a branco. (Era Showa 7 — 1932, 18 de janeiro). Movimento 433. O jazz de ângulos, círculos, linhas etc. agita o fundo dos olhos; é o trabalho mecânico. 434. Fito uma nuvem solitária no céu; ei-la, move-se! Ligeiramente para a direita. 435. No céu do entardecer, percebo de súbito o movimento do eixo da terra, e assinto. 436. Um turbilhão de vozes; pessoas, luzes, carros, casas; as cores e os sons da noite: uma dança vertiginosa. 437. Oh! O piscar das estrelas parece chamar a humanidade sobre a terra. 438. O suave balanço junto ao nariz do bebê que dorme tranquilo. 439. Os fios elétricos tremem de leve no céu, no céu da lua; a primavera mal começou. 440. Ao sol, aquele gato move as orelhas; sua sombra estica-se e desloca-se amplamente. 441. Uma fumaça roxa desenha um círculo junto à minha cabeça e sobe devagar. (Era Showa 7 — 1932, 18 de janeiro). Primavera 442. A superfície do mar sonolento da primavera; o som das ondas, quase imperceptível, quebra na costa. 443. O barqueiro, imóvel no barco; os galhos do salgueiro brotam e refletem-se na água. 444. Ora altas, ora baixas, as aves migratórias costuram a névoa e voam em fila, como relâmpagos. 445. A luz do sol flui suavemente sobre a planície verde; de repente, pensei: “se houvesse ovelhas”. 446. A sombra de uma borboleta desliza sobre a grama verde, reflete-se no céu, cruza o riacho e desaparece. 447. A chuva de primavera, como fumaça nos salgueiros, sem ruído; como é lento o correr do rio. 448. Sob o sol da primavera, um boi deitado; a sombra de uma pequena borboleta enlaça seus chifres. 449. Entre as folhas de um verde brilhante, a maior parte das flores vermelhas da camélia já caiu. 450. O verso das folhas da árvore da dádiva destaca-se nítido, refletido na água da bacia de pedra; o sol ainda vai alto. (Era Showa 7 — 1932, 15 de janeiro). Calor Trêmulo 451. Ora altas, ora baixas, as borboletas atravessam o calor trêmulo; fiquei a observar seu destino. 452. Nos campos onde a neve derrete, o calor trêmulo ondula de leve; há nisso algo de alegre. 453. Piso em meio ao calor trêmulo; na grama macia, assinto à primavera que surge naturalmente. 454. No extremo da oscilação do calor trêmulo, tanto as montanhas como as vilas cobrem-se de névoa; tudo é sereno. (Era Showa 7 — 1932, 15 de janeiro). Sino do Templo 455. O som do sino do templo, no púrpura do crepúsculo, ecoa e recolhe-se na floresta escura. 456. Uma nuvem solitária paira sobre o topo verdejante e denso do pinheiro velho. 457. As folhas do pinheiro são como agulhas; brilham ao luar, e o céu noturno é claro. 458. As espigas de trigo, alinhadas, refletem-se nitidamente na água; ouve-se ao longe o canto da cotovia. 459. Acima da torre, no céu noturno, um bando de corvos de súbito levanta voo e parte. (Era Showa 7 — 1932, 15 de janeiro). Sinais da Primavera 460. No sol que atravessa o vento frio do campo, o amolecimento, embora não visível, é sutil. 461. Nos galhos da ameixeira branca carregada de flores, já não se vê a semelhança com a manhã de neve dos dias passados. 462. A luz púrpura do sol poente entra pela janela; sente-se o ar da primavera, que fica aquém de sua beleza. 463. No campo seco as cores não se destacam, mas, se prestarmos atenção, a terra prepara-se sob o sol fraco da primavera. 464. Ao pisar a grama seca, já se percebem os sinais da primavera, tênues na terra. 465. No lugar onde se avista o remanso ao luar, coberto de bruma, cresce o salgueiro-gato. 466. Relaxados os dedos que seguram a caneta, a primavera chegou; estou diante do papel, sem conseguir acreditar. 467. O salgueiro-gato brilha ao sol forte, a água aquece; sua sombra recorta-se clara no riacho. 468. Quando os galhos floridos da ameixeira vermelha enfim se compõem, ao receberem a luz do sol, brilham ainda mais. 469. Na vila das ameixeiras, ao anoitecer, a fumaça das casas de sapê envolve os arredores das flores. (Era Showa 7 — 1932, 16 de janeiro). Flor de Ameixeira 470. Atravessando o bosque de ameixeiras em plena flor, quase sufocado pela fragrância, enfim saí. (Era Showa 7 — 1932, 16 de janeiro). Montanha na Primavera 471. Oh, dia ensolarado e radiante! As sombras das jovens que colhem brotos de samambaia estendem-se sobre a grama macia. 472. A névoa verde-clara espalha-se pelo Monte Mikasa, como se ali se traçasse uma pincelada de bruma. 473. Desde que a névoa surgiu, o verde do Monte Matsu clareou em alguns pontos. 474. Atraído pelo canto distante e flutuante do rouxinol — a estrada campestre da primavera fica dominada por ele. 475. Quando se levanta? Quando desaparece? A névoa da primavera simplesmente se estende diante das montanhas distantes. 476. Na montanha de março, vislumbra-se a dança das flores e das pessoas. 477. Névoa, névoa, vejo névoa; e de novo hão de me puxar as cerejeiras daquela montanha. 478. O verde dos brotos novos tingiu a montanha inteira; a primavera serena chegou. (Era Showa 7 — 1932, 20 de janeiro). Poeira 479. Que preciosa! A poeira acumulada nos ombros de Buda Amida brilha branca, tremulando à luz da lâmpada. 480. Uma pessoa que, sem descanso, faz vigília na encruzilhada onde a poeira dança; pensei que fosse grandiosa. 481. Da janela alta, no feixe de luz solar que flui espesso, a poeira reluz como pó de prata. 482. Ao pegar objetos nas lojas de utensílios antigos, aqui e ali, cada um deles está coberto de poeira. 483. Em meio à poeira que se levanta densa, as folhas largas dos sicômoros da alameda dançam ao vento. 484. Sob a poeira que dança, a estrada pavimentada recebe o sol; a superfície lisa brilha com a água aspergida. (Era Showa 7 — 1932, 10 de fevereiro). Primavera 485. Flutuando, uma no céu suave: uma lua que parece de primavera. 486. O verde da grama é nítido. O sol desliza pela encosta. É de manhã. 487. Atravessando a tela de prata da chuva, como um sonho, andorinhas, andorinhas. 488. Em algum lugar, parece despertar a consciência da primavera; a voz do rouxinol. (Era Showa 7 — 1932, 10 de fevereiro). Pesca 489. A boia espalhou-se por todo o lago; o canto dos pássaros começou a tornar-se realidade. 490. De repente, os círculos que a boia cria, círculos; a pulsação jorra nos olhos. 491. A linha corta o mar alto em dois; o apito do navio desaparece nas ondas. 492. O céu logo virará chuva; mas eu estou preso à minha vara de pescar. (Era Showa 7 — 1932, 10 de fevereiro). Estrelas 493. Todas as estrelas respiram, conscientemente. 494. Os campos estenderam-se, como se a névoa cobrisse o sol poente. (Era Showa 7 — 1932, 10 de fevereiro). Noite de Primavera 495. Naquela ocasião, conversei contigo sob a lua enevoada. Era uma noite em que as flores começavam a cair. (Era Showa 7 — 1932, 16 de fevereiro). Névoa 496. No grande Rio Tone, as velas alinhadas balançam a ponto de não se verem. Como é lenta a corrente do rio! 497. A luz da primavera brilha tênue nos galhos secos. Sinto uma alegria indescritível. 498. O rubor da tarde dissolve-se, dissolve-se na névoa. O púrpura envolve as aldeias. 499. As pétalas caem esparsas, sem vento. As nuvens finas estão baixas, e a névoa tremeluz. 500. O amarelo das flores de colza esconde a superfície da terra. A névoa cobre os campos, rastejando. 501. Haverá uma brecha na névoa que envolve o pomar de pêssegos? Um único ponto de um vermelho pálido. 502. Os campos, as florestas, as casas rústicas: tudo está enevoado. A primavera, agora, parece ter tomado posse de todos os cantos, sem exceção. 503. A névoa da primavera estende-se densa pelo céu. A cotovia sobe, roça meus olhos por um instante e desaparece ao longe. 504. As flores ainda não desabrocharam. A névoa começa a surgir nas montanhas. Os sinais da primavera ainda são sutis. (Era Showa 7 — 1932, 25 de fevereiro). Meu Agora 505. O tédio que se repete, dia após dia. Revolvendo, revolvendo, de um jeito ou de outro, cheguei até aqui. 506. O ideal, na minha cabeça, ora se afasta, ora se aproxima, flutuando leve. 507. Algo como chumbo, em algum ponto do coração, está grudado, pesado e teimoso. 508. A esperança, com toda a sua força, como puxa este eu, tão pesado e lerdo! 509. Este eu que sabe demais o que fazer e, por isso, nada faz. 510. Eles e eles, indo e vindo no vazio do coração. 511. Será que me torno um Ashura e me desenfreio com toda a força? Isso também não tem graça. (Era Showa 7 — 1932, 1º de março). Atami 512. Quantos anos se passaram? A cidade de Atami, que agora percorro, é nostálgica e indistinta. 513. Muitas lojas vendem lembranças. Na cidade das fontes termais, a luz das lojas, derramada pelas ruas, é acolhedora. 514. Mergulho na banheira noturna, que fumega, e olho, vazio, para a luz da lâmpada elétrica. 515. Ó banheiro de cores modernas e fortes, com seu aroma de madeira! Lembro-me das antigas fontes termais, refrescantes. 516. O rouxinol faz balançar as folhas verdes do arbusto de louro. Vejo dois ou três; ainda não cantam. 517. O vapor da fonte termal desliza diante da montanha calva ao longe e se dissolve na cor estagnada do mar. 518. Vou cochilar. O silêncio da noite da fonte termal, calado aos ouvidos, é cortado pelo som do shamisen. (Era Showa 7 — 1932, 10 de março). Vagando 519. Ao vagar pela cidade no entardecer, quando as luzes se acendem, as luzes permanecem nos olhos do peixe de que gosto. 520. Na escuridão do entardecer, a silhueta de uma jovem é bela. Sinto um pouco de vergonha de tê-la seguido com os olhos. 521. As pessoas se dispersam da estação, silhuetas negras, e todas desaparecem na escuridão da noite. 522. O caminho do subúrbio é primaveril. As árvores e as casas, em sua familiaridade, curvam-se e retorcem-se. 523. Diante de uma casa de boa cerca, ao estilo novo, sinto uma ponta de vergonha e espio para dentro. (Era Showa 7 — 1932, 10 de março). Som do Sino 524. O som que se aproxima ondulando torna-se ondas. Passa por meus ouvidos: é o eco do sino. 525. Sob a torre, tingida em sua maior parte de púrpura na sombra, tremula o som do sino, que ressoa sem cessar. 526. O som do sino ondula, ondula no ar da manhã. Em que extremo ele desaparece? 527. Ao som do sino que ecoa, recordo o grande Edo de outrora, no Monte Tōei. (Era Showa 7 — 1932, 10 de março). Musgo 528. Fundo, o musgo espesso é familiar aos meus sapatos. O cheiro antigo sob a floresta. 529. A luz do sol que atravessa as árvores é clara. No musgo, avistam-se coisas que parecem pequenas flores. 530. Agarrado com firmeza às pedras arredondadas da margem, o musgo aveludado verdeja dentro da água. (Era Showa 7 — 1932, 10 de março). A Primavera Passa 531. O vento é agradavelmente quente e úmido. Ando sob as flores, com o céu nublado pela floração. 532. Se quebro um galho de cravo-da-índia, seu doce aroma se espalha num instante, e meus olhos piscam. 533. No alto da colina, onde as espigas da grama crescem aos poucos, o vento brando vem brincar. 534. A cor da primavera, fechada como névoa sobre arrozais e campos, deixa transparecer o ribeirão de brilho tênue. 535. A chuva passou. Sob o sol forte, da fileira de shiis sobe um vapor d'água rumo ao céu sereno. (Era Showa 7 — 1932, 16 de março). Campo de Primavera 536. Exausto, se descanso na grama, torno-me gente da primavera, envolto na miragem de calor. (Era Showa 7 — 1932, 16 de março). Cerejeiras 537. As cerejeiras florescem tão densas que embranquecem a ponto de não se ver através delas. Acima, o céu é de um azul puro. 538. Incide o sol fraco da manhã, e a cor das flores é viva. Não há vento que agite as cerejeiras do equinócio. 539. No lento fluir do Rio Sumida, até onde se estenderá a sombra da fileira de cerejeiras, tão branca? 540. Uma única cerejeira, em flor esplendorosa, como se iluminasse o céu azul, bem no alto da ladeira. 541. Na extremidade do campo onde o verde do trigo se espalha, não é névoa: são as cerejeiras que florescem. 542. As flores desabrocham. Ainda assim, ao olhar para as montanhas de Yoshino, que deveriam ser magníficas, sinto apenas vazio. 543. As cerejeiras na margem do fosso florescem. Do trem, saboreio secretamente a primavera. 544. As montanhas de cerejeiras em plena floração tornaram-se uma névoa que não entra nos olhos. 545. As cerejeiras jovens no fim da rua começam a florir e tornam mais lento o meu passo, que vai e vem. 546. As cerejeiras no topo do dique rodopiam loucamente ao vento. Onde há terra, há redemoinhos de pétalas. 547. Envolta em névoa, cessa a chuva de pétalas. A lua da noite, tênue, filtra-se por entre os galhos entrelaçados. 548. O céu lunar exala um perfume enevoado. Nesta noite, quem me dera estar também no espírito das flores! 549. As cerejeiras florescem esparsas. A jovem árvore que flutua no céu de um azul intenso é solitária. (Era Showa 7 — 1932, 16 de março). Poema-Coroa Cerejeiras Caem 550. As cerejeiras caíram. O céu está liso e azul. Como é refrescante a folhagem nova que acabou de brotar! 551. As cerejeiras caíram. No meio do caminho que circunda o templo, as flores se acumulam, brancas como pérolas. 552. As cerejeiras caem. Apressam-se em direção às glicínias, ó primavera que passa! Os botões das espigas floridas tingem-se de púrpura. 553. As cerejeiras caíram. O dique que serpenteia longamente, num verde tênue, é o caminho ao longo do rio. 554. As cerejeiras caem. As pétalas acumuladas na margem, sopradas pelo vento, fluem com o dia. 555. As cerejeiras caíram. Ainda hoje, na água parada, flutuam as pétalas, vestígios da primavera. 556. As cerejeiras caíram. A névoa também se dissipou. De agora em diante, é o verde novo que meus olhos hão de perseguir. 557. As cerejeiras caem. Mesmo as montanhas famosas, e as pessoas que passam, tudo neste mundo de mudanças rápidas. 558. Após a queda das cerejeiras, na grama jovem da base do dique, as flores de trevo-de-jardim misturam-se e florescem. 559. As cerejeiras caíram. No céu azul que se vê através dos galhos, a luz do início do verão já brilha. 560. As cerejeiras caem. Uma pétala pousa na nuca deste eu errante. Como é nostálgica! (Era Showa 7 — 1932, 21 de abril). Vento de Primavera 561. Entregue ao vento suave, no banco do parque, os jacintos florescem. (Era Showa 7 — 1932, 12 de maio). Os Pêssegos de Futako 562. Quantos milhares de pés de pêssego existem? Quando florescem, tudo se tinge de uma só cor: o carmim. 563. Flores de pêssego. Se passo sob os galhos que se curvam sobre o caminho, adensa-se a profundidade, e é infinitamente lamentável. 564. O musgo verde no tronco do velho pessegueiro e o brilho das flores. Custa apartar o olhar. 565. A terra do pomar de pêssegos é esverdeada. Sob as flores, os campos de trigo se estendem e reluzem. 566. A cor do entardecer que se aprofunda. O carmim do pomar de pêssegos se dissolve e se torna escuridão. (Era Showa 7 — 1932, 12 de maio). Perto de Noto 567. Com um som estrondoso, a janela do trem corre sonolenta. As cadeias de montanhas, azuis, fluem para trás. 568. De ambos os lados, cercas de montanha se sucedem. No meio do verde dos arrozais e campos, os trilhos brilham. 569. O céu sobre a crista suave da montanha clareia. Parece que o mar está logo acima. 570. Ah, as flores de cerejeira que se tingem de vermelho! É a cor local que se descobre na primavera da província de Noto. 571. Nas montanhas com muitos pinheiros-anões, aqui e ali, a água da chuva se acumula, refletindo o céu límpido. 572. O bosque de cedros parece ter-se tingido de azul. Na base da montanha, a maioria das casas tem cerejeiras em flor. 573. No campo inclinado de terra escura, nascem flores brancas e vermelhas cujo nome desconheço. 574. O entardecer, com as cadeias de montanhas púrpuras a se sucederem — vejo-o partir pela janela do trem. 575. Cortando o céu vespertino, sobre a crista negra da montanha, uma única estrela da tarde parece voar. (Era Showa 7 — 1932, 25 de maio). Trem Noturno 576. Todos em silêncio, flutuando na luz fraca. Rostos, rostos, rostos completamente exaustos. 577. Uma mulher dorme profundamente. Ainda jovem. Deveria dizer-lhe algo sobre o modo feio como dorme? 578. Absorto, mergulho na composição de poemas. O estrondo a que já me acostumei é uma espécie de silêncio. 579. De cada uma das bagagens no porta-malas, que olho vagamente, vem a solidão. 580. Por um momento, a voz de um bebê mistura-se ao ruído, em choro. Uma leve sonolência me assalta. 581. As janelas estão alinhadas, totalmente negras. De vez em quando, linhas de luz que parecem vaga-lumes. 582. Um bêbado entrou. Senti um calafrio. Isso também, em algum momento, desapareceu dentro da realidade. 583. Malas, cestos, furoshiki. Entram vagarosamente em meus olhos sonolentos. 584. A fumaça roxa do meu cigarro flui sobre as cabeças das pessoas e se dissolve na luz elétrica. (Era Showa 7 — 1932, 25 de maio). Início do Outono 585. Se piso na sombra das árvores, a umidade da terra aumenta aos poucos. Aqui, esqueço o calor do sol. (Era Showa 7 — 1932, 10 de outubro). Ervas do Outono 586. Se paro diante de um pequeno grupo de hagi do outono, o vento do campo sopra em mim, fresco. 587. A flor da campânula, muito modesta, exala seu perfume na metade do meu futon. É agradável, no meu pequeno quarto. 588. Até os ombros do condutor de cavalos que sobe a passagem, os capins se estendem. Não se vê o sopé da montanha onde eles brotam. 589. Ampla e vasta, a campina onde florescem os capins. Se a percorro ao entardecer, sinto apenas solidão. 590. Na beira da varanda, se há um pequeno hagi no jardim, uma ou duas flores caem. 591. Encontro a fujibakama entre as mil ervas. Suas pequenas flores de um púrpura sombrio são encantadoras. 592. Se o vento sopra, as folhas largas da kudzu se voltam. De vez em quando, vejo suas flores púrpuras. 593. No amplo jardim banhado pelo sol, uma pequena borboleta pousa na flor da dália, que brilha intensamente. 594. Nas montanhas fundas, o outono se adensa. As flores de hagi desabrocham em profusão; lamento não haver quem as veja. 595. As várias cores das flores da dália. Não as vejo arder ao sol do outono nas minhas horas de lazer. (Era Showa 7 — 1932, 12 de outubro). O Automóvel Corre 596. Corre, corre. As linhas de luzes, muitas, muitas, fogem para trás, para trás. 597. A cidade, trêmula, choca-se contra mim. Tornando-se terrivelmente grande. (Era Showa 7 — 1932, 25 de outubro). Shinjuku 598. A intenção de dominar Ginza está dançando. A noite de Shinjuku. 599. Tonto com o cruzamento de luzes. Instintivamente, estreito meu campo de visão. 600. Ante a estranha prosperidade que se concentra apenas aqui, arregalo os olhos — ao menos uma vez. 601. O caipira também, agora, é um ianque de volta. Ainda é jovem, Shinjuku. 602. No túnel subterrâneo grotesco, o som, o som de pessoas andando em fila. Shinjuku. (Era Showa 7 — 1932, 20 de novembro). Brasas de Carvão 603. A agradável sensação tátil do braseiro de Seto, o som crepitante do carvão em brasa. 604. Conversando com o hóspede, de vez em quando cutucando o carvão. 605. Como se uma lasca de fogo fosse algo terrivelmente precioso, alimento agora o carvão. 606. Que quarto bem arrumado! Toco o braseiro quadrado de jacarandá e o sinto frio. 607. Todos animados na conversa; o fogo do grande braseiro está de um vermelho vivo. 608. A almofada onde me sentei é ridiculamente fofa; acendo, primeiro, o Shikishima. 609. O carvão que mostra o rosto por entre as cinzas brancas; eu, olhando distraidamente, à espera de alguém. (Era Showa 7 — 1932, 20 de novembro). Céu Claro de Outono 610. Radiante, é uma manhã ensolarada de céu de outono; as portas de vidro transparentes brilham todas. 611. Os capins brancos enterram até a metade a montanha de terra vermelha; bem ajustados, diante do céu de outono. 612. Refletindo o céu, também o lago está límpido. Ágil, a libélula toca a água e passa. 613. Na desordem das flores de cosmos, o sol de outono brilha intensamente; aqui é claro. 614. No alto terraço do edifício, as bandeiras tremulam; o céu está límpido. 615. Tanto os campos de arroz quanto as hortas têm as cores do outono. Os caquis estão vermelhos; uma casa de fazenda, bem próxima. (Era Showa 7 — 1932, 25 de novembro). Libélula 616. As crianças, banhando-se no sol de outono, movem-se preguiçosamente. Uma libélula pousa no canto da esteira estendida. 617. Nas flores desordenadas do áster, duas ou três libélulas pousam sempre. 618. Numa tarde fresca de outono, ando pelo campo; assustada com meus passos, a libélula foge. 619. Na ponta do remo que amarra o barco, pousa uma libélula, refletindo-se nítida na água. 620. Se olho para o céu noturno, enxames de libélulas voam cruzando-se, como mosquitos no verão. 621. O outono se aprofunda. Sobre o papel onde deslizo a caneta, caiu uma grande libélula. 622. Prendendo a respiração, aproximo-me furtivamente para pegar a libélula; seus olhos arregalados brilham ao sol. 623. É uma noite em que as libélulas se aglomeram no céu; do jardim, olho também as nuvens tingidas pelo entardecer. 624. Quando tento pegar a libélula, ela vai ligeira; quando tento de novo, ligeira foge outra vez. (Era Showa 7 — 1932, 5 de dezembro). Lua Fria 625. Sobre a ponte, a geada noturna faz um som sussurrante; no céu, a lua fria brilha gélida. 626. Penso no frio das pessoas que montam suas barracas noturnas; ao sair da cidade, faz-se uma noite de lua. 627. Entre as frestas dos barcos cobertos de esteiras, avista-se uma luz vermelha. O rio, azul-esverdeado, na noite de lua com geada. 628. Vegetação morta de inverno; geada congelada no bosque de árvores diversas. Os galhos que se cruzam brilham à luz da lua. 629. A noite no bosque de inverno morto é silenciosa; se olho para a lua fria, arrepios sobem pela gola. 630. A noite está avançada, a estrada branca de lua; de propósito, o som das minhas geta ecoa em meus ouvidos. (Era Showa 7 — 1932, 10 de dezembro). Jardim de Inverno 631. Duas ou três folhas de bordo caídas sobre as folhas do pinheiro; pela manhã, vejo-as cobertas de geada branca. 632. Se paro no jardim, pensando se há flores cortadas, a gola fica fria; o vento de inverno passa. 633. É um dia de céu de inverno claro; do lado de fora do muro, os galhos secos da cerejeira estendem-se delicados. 634. Os frutos redondos e vermelhos do nandina destacam-se; o jardim de inverno, agora, está todo seco. 635. Encontro, no meio das folhas caídas amontoadas, uma ou duas folhas vermelhas de bordo. 636. As folhas caídas a que pus fogo queimam com um estalo; as crianças, assustadas, fogem. 637. No meio das árvores ressequidas do jardim, apenas uma — a fatsia (yatsude), de folhas largas e verdes — estende seus galhos. (Era Showa 7 — 1932, 10 de dezembro). Ultimamente 638. Esmurro a intenção de querer romper a vida pacata. 639. Olhando para trás, depois de atravessar tempos difíceis: quanto mais cedo, mais prazerosas são as lembranças. 640. A solidão depois de ter convencido e subjugado aquela pessoa. 641. Quero abençoar aquela pessoa que parece carregar um coração insatisfeito. 642. Penso em mandar tudo às favas — um intelectual sem Deus. 643. A doença de um robô cura-se com máquinas; o ser humano é algo muito mais misterioso. A Noite em Ginza 644. Azul, vermelho, roxo, luz, luz, luz, vertiginosa, interseção de linhas. 645. Um jovem, como um imigrante que retorna ao país, parece muito orgulhoso. 646. A beleza artificial de uma jovem dança sob as luzes de Ginza. 647. O perfume sutil de heliotrópio; passam duas ou três pessoas que parecem dançarinas. 648. O salgueiro verde regula o sentimentalismo ansioso. 649. O jazz de luzes e sons preenche tudo e corta o espaço de Ginza. 650. O vento seco, desviando-se da Ginza noturna, choca-se contra os arranha-céus da planície de Hibiya. 651. Uma espécie de tristeza que se recebe das decorações externas dos cafés reluzentes. (Era Showa 7 — 1932, 10 de dezembro). Arvoredo de Inverno 652. O céu de inverno, as árvores secas nas margens — tudo como está. No arrozal que os reflete, a tarde é tranquila. 653. Os corvos acorrem ao bosque de inverno morto e, como se fossem sugados, desaparecem no céu noturno. 654. Com as folhas caídas, o bosque de carvalhos parece ter frio; o céu azul de inverno é claro e transparente. 655. Ando sob a sombra matinal, onde a geada range no arvoredo de inverno; a névoa cai em flocos. 656. Na estrada onde se veem, aqui e ali, árvores nuas, o som frio ecoa na carroça de carga. 657. Sem que eu perceba, o vento cortante para; a estrada alinhada de árvores nuas embranquece ao luar. 658. Duas ou três gralhas, visíveis através do arvoredo onde a neve se acumula, são negras como laca. 659. Manhã de inverno: banhando-me na fonte termal, absorto, olho a montanha com seu arvoredo seco. (Era Showa 7 — 1932, 10 de dezembro). 660. Fora do turbilhão deste mundo anormal, desejo ter o lazer de compor poemas. (Era Showa 7 — 1932, 20 de dezembro). Geada 661. Brotos de narciso de cerca de um sun (≈3 cm), dois ou três: encontrei-os nesta manhã, no meio da geada branca. (Era Showa 7 — 1932, 25 de dezembro). Crepúsculo 662. O ano se aproxima. Embora eu tente fazer as coisas, meu coração não se anima; decidi esperar o ano novo. 663. Saindo completamente da movimentada cidade de dezembro, tremo de frio enquanto espero o trem. 664. As pessoas andam apressadas; a maioria das casas está limpa e decorada com pinheiros. 665. Com o coração palpitante, esperava o Ano Novo quando criança. Será que esse sentimento ainda resta em mim, agora envelhecido? 666. Distraidamente, abrindo caminho entre a multidão, com minha esposa, pela cidade decorada de luzes e bandeiras. 667. Eu, que agora ando, transcendente, separado do agitado dezembro das pessoas. (Era Showa 7 — 1932, 30 de dezembro). Tema Imperial: O Mar pela Manhã 668. A jovem luz da renovação ilumina a planície do mar; também nesta manhã contemplei o primeiro nascer do sol. 669. Alegremente, o mar clareia; recebendo o sol, todas as montanhas à beira-mar se avermelham. 670. Como uma pedra de amolar, içando velas no mar matinal, um barco desliza e deixa uma esteira branca. 671. Balança suavemente a superfície do mar que meu barco divide; no silêncio da manhã, o som do leme rangendo. 672. Ó mar calmo da manhã, as cristas das ondas que, por acaso, se erguem brancas e logo desaparecem. 673. O largo está branco, amanheceu de todo; na enseada de Miho, de pequenas ondas, o pinhal se esvai na névoa. (Era Showa 8 — 1933, 1º de janeiro). Cantando a Nova Tóquio — Ōmori 674. Constroem-se degraus de pedra; portões de torre e templos abrem-se diante dos olhos, com uma melancolia antiga (Hommon-ji). 675. Continuando a colina, refletindo-se no lago de curvas, o barco a remo passa e deixa um rastro branco (Senzoku-ike). 676. O bosque de ameixeiras desapareceu sem deixar vestígios; felizmente, casas elegantes se alinham (Hakkei-en). 677. Aqui e ali, bosques escuros; sob o sol de inverno, brilham dois ou três telhados de telha vermelha (Magome). Shinagawa 678. A estrada antiga à beira-mar tem pouco movimento de gente; as fileiras de casas envelheceram (Samezu). 679. A estátua de pedra de Buda, com a cabeça quebrada, é patética; numa colina distante, o bosque de pinheiros vermelhos colore o céu noturno (Daibutsu). 680. A brisa do mar é fria nas faces; no meio dos apitos, as pessoas se apressam na ponte (Yatsuyama-bashi). 681. Atrás das várias cidades, será o mar? Gaivotas de inverno: suas vozes se misturam e tremem no ar da manhã (Shinagawa-machi). 682. Parecendo um santuário de origem histórica, venero os nomes das três divindades e desço após a oferenda (Santuário de Shinagawa). Toshima 683. Se serpenteio pelo caminho de árvores frondosas, de repente, os campos de arroz de Waseda transformaram-se em casas (Takada-machi). 684. A grande árvore de inverno morto é uma zelkova? Uma corda de palha está esticada — será que a deusa Kishimojin reside no salão? (Zoshigaya). 685. Lentamente, muitos bois passam; a estrada asfaltada estende-se sob o sol de inverno (Mejiro). Meguro 686. Nesta terra, as pessoas enlouqueceram, os cavalos saltaram — lembro-me disso ao passar pelo hipódromo. 687. Terrenos baldios bem cuidados, a grama seca; agora, o vento forte sopra sem cessar (novo bairro residencial). 688. Geada seca, poucos vêm visitar. Será que mesmo os deuses e budas têm suas estações? (Fudo). 689. Saindo do bosque de bambus atrás da casa recém-construída, os pardais se dispersam no céu (Himonya). Yodobashi 690. O que se ergue no céu noturno de Shinjuku será o Mitsukoshi? A luz vermelha do letreiro de neon queima. 691. Empurrado e pressionado por pessoas e sons, o lugar onde a torrente termina é a estação de Shinjuku. Takino-gawa 692. A água vermelha: as folhas de bordo cobrem o rio Takino, famoso lugar de outono desde antigamente (folhas de bordo). 693. Casas antigas; nos troncos das grandes árvores, tênues, permanecem vestígios da era Edo. 694. Nevasca de flores enlouquecendo na montanha, as pessoas em alvoroço: trago à mente a época de março (Asuka-yama). 695. O portão do templo, como antigamente, é elegante, mas o som do bonde ecoa (Tabata). 696. A bela paisagem de Tabata, elogiada pelo shogun, está agora coberta de casas; só se vê o Monte Tsukuba (Dokan-yama). Suginami 697. Altos e baixos, campos contínuos; o céu sobre o bosque de árvores diversas é claro e o vento de inverno passa (Wadahori). 698. A voz da sutra flui do salão principal resplandecente; enquanto a ouço, a luz da lamparina tremula (Sala do Fundador Horinouchi). 699. Uma vasta planície, a grama seca caída; o salão abafado de Benten reflete-se na água (Mabashi). Jōtō 700. Sunamura: os campos de cebolinha estão secos, os de nabo ainda verde-azulados — a região continua um interior rural. 701. A familiar ponte em arco também é agradável; o bosque de ameixeiras, com galhos delicados, estende-se no céu de inverno (Kameido). 702. Florestas e campos, o riacho — tudo envolto na névoa da tarde; a brisa do entardecer de outono é fria (Kasai-bashi). 703. A água do canal de drenagem é azul-esverdeada; encolhendo o pescoço, apresso-me na ponte, no crepúsculo de inverno (Arakawa). 704. Alguns barcos de pesca, vistos entre os juncos; o sol fraco de outono põe-se em silêncio (Nakagawa). Adachi 705. A chaminé da Kanebo ergue-se; na margem do rio Sumida, os juncos estão em desordem (Kane-ga-fuchi). 706. Caminhões e bondes cruzam-se nesta estrada, que os habitantes da cidade chamam de Estrada Oshu (Senju). 707. O salão do grande mestre envelheceu! As árvores secas alinham-se contra o céu, atrás do templo (Nishiarai). 708. O vento cortante uiva nas cerejeiras mortas de inverno; o Monte Tsukuba mal se avista (Dique do Arakawa). (Era Showa 8 — 1933, 10 de janeiro). Edogawa 709. Além dos arrozais, no dique já seco, a ponta de uma vela se move de leve — será o Rio Shiori? 710. O céu ao redor de Komatsugawa: a fuligem das fábricas o suja de preto. 711. A garça branca desce no arrozal de inverno e logo levanta voo; a névoa da tarde envolve em bruma a floresta distante. Ebara 712. Melancolicamente, cinco bodhisattvas estão sentados, mas ninguém olha para trás; o sol de inverno flui. 713. Daqui vejo o mar; na calmaria da tarde, muitos barcos de pesca flutuam. Katsushika 714. A água é azul, o rio muito reto; o bonde cruza a ponte de ferro e, depois, tudo fica em silêncio. 715. Passa um caminhão carregado de couve chinesa, deixando sobre o rio o longo ruído do motor. 716. Os arrozais, amplíssimos, são solitários; entre os vãos das casas avista-se o Monte Tsukuba de inverno. Ōji 717. Ao pé do dique, na foz do rio, há um templo antigo; as letras de Zenko-ji já não são nítidas. 718. Deslizando pelo dique onde brota a relva, o sol de primavera chega, enevoado, às portas da comporta. 719. Deixando na margem a grama seca, a maré sobe até esconder as vigas da ponte. Shibuya 720. As folhas de bordo da sumagreira avermelham-se sobre a areia; tranquilo é o jardim do santuário de Yoyogi. 721. O caminho de Takatsuki, um tanto escuro e coberto de musgo; ao fundo avista-se o santuário de Hachiman. (Era Showa 8 — 1933, 10 de fevereiro). Arakawa 722. Pela longa ponte sobre o Arakawa passam, rangendo, os carros carregados de daikon brancos. 723. Tento recordar o Kozuka-ga-hara de outrora, mas aquele tempo está muito distante. 724. Entre encostas e ladeiras de terra vermelha, que se destacam, as casas se aglomeram nas cercanias de Nippori. Kamata 725. O torii vermelho do Santuário Anamori; no céu vasto, asas prateadas deslizam serenas. 726. Lembrando a época em que fui a Morigasaki, olho para trás e estou agora vazio. 727. O familiar Rio Rokugo, envolto na névoa da tarde, tornou-se uma paisagem de primavera. 728. Caminhando na primavera pela região de Yaguchi, no Rio Tama, o trevo e a cor da água trazem saudade. Nakano 729. Ao visitar o túmulo de Mokuami, nas folhas do pinheiro ainda brilha o orvalho da garoa. 730. Deixando a rua elegante, chega-se ao Yakushidou, envelhecido em sua forma de outrora. Itabashi 731. Belas são as montanhas ao longe; as duas pontes de ferro de Akabane destacam-se ao sol poente. 732. As algas são muitas; a água é transparente até o fundo; a luz fraca do sol incide, e tranquilo está o lago Sanpouji. 733. Seguindo o riacho Shakujii, irei visitar a primavera no jardim de Toshimaen? Mukoujima 734. Recordo a época em que, na correnteza negra do Rio Sumida, fui em busca das flores de cerejeira. 735. Perto de Mokuboji, em Mimeguri, as casas tranquilas, aqui e ali, despertam saudade. 736. O barco de travessia balança de leve no ar levemente enevoado — a primavera do aterro das cerejeiras de outrora. (Era Showa 8 — 1933, 10 de março). Noite de Inverno 737. Na rua deserta, sem nada que obstrua a vista, a lua fria desenha as fileiras de casas. (Era Showa 8 — 1933, 15 de janeiro). Dia de Neve 738. Um bloco de neve cai com um baque; o grande galho do velho pinheiro estremece por um instante. 739. Sem cessar, rodopiando e dançando, a neve cai; longamente observo o céu à beira do telhado. 740. A neve se acumula; as largas folhas da arália ficam pesadas e, com a neve amontoada, o jardim fica silencioso. 741. Uma avalanche de neve faz grande estrondo; durante a noite, a neve parece cair e acumular-se sem parar. 742. Caminho sobre a neve que cai; uma jovem mulher, a bainha da roupa graciosa, cruza comigo de repente. (Era Showa 8 — 1933, 4 de fevereiro). Início da Primavera 743. No riacho há um eco de primavera, calmo e sereno; a terra da margem absorve o sol verdadeiro. 744. Cintilando, a neve da primavera cai e desaparece no lago, sem sequer pousar nas folhas secas dos juncos. 745. O salgueiro-gato, há muito mantido em vaso: encantadores, os brotos verdes em seus ramos finos. 746. Os galhos secos entrecruzam-se sob o céu radiante — a alegria desta manhã ao ver despontarem novos brotos. 747. O verde das folhas novas do salgueiro-chorão brilha ao sol; à sombra da margem, uma mulher colhe agriões. 748. O absinto seco permanece como está; a primavera se infiltra no declive de terra do fosso. 749. Ao sol, no campo de trigo já um pouco crescido, um agricultor, sozinho, olha para o céu. (Era Showa 8 — 1933, 4 de fevereiro). Situação Mundial e o Japão 750. O fogo do fim do mundo, que há de queimar o mundo inteiro, está agora prestes a arder crepitando. 751. Chocamo-nos com uma época de emergência sem precedentes desde o Imperador Jinmu. 752. A China há de uivar, de agora em diante, alimentada que foi com tanta carne vermelha. 753. O semblante trágico do Japão, prestes a saltar sobre um inimigo dezenas de vezes maior. 754. Quem poderia afirmar que não virá o dia em que grandes esquadrilhas aéreas ameaçarão desde o céu do Japão? 755. A frase de Uchida, "tornar-se terra arrasada", está gravada no peito dos oitenta milhões e não se desprende. Nota: Uchida Kōsai, "Diplomacia da Terra Arrasada". 756. Conhecendo o presente desde há mais de dez anos — a nossa insuportável alegria. 757. Será para a paz que se gera a guerra do Armagedom? 758. De agora em diante, os mais diversos problemas levarão o Japão ao auge da excitação. (Era Showa 8 — 1933, 5 de fevereiro). Céu de Primavera 759. Céu de primavera que hesita entre a chuva e a claridade; em vão esperei o raio de sol, e o dia se foi. 760. Sob o céu que se abre perfeitamente claro, de um azul celeste, a primavera transborda no grande Musashino. 761. Deitado na grama, se olho para cima, existem apenas o céu e eu — o universo, sem o som de nada. 762. O verde das folhas novas do caquizeiro brilha ao sol, tremulando no céu límpido como uma pedra de amolar. 763. Ficar em casa é insuportável: o céu de primavera, com uma névoa na medida certa e a brisa suave. (Era Showa 8 — 1933, 8 de fevereiro). Rua de Inverno 764. Encolhendo o pescoço ao vento que varre o grande edifício, entrei no ônibus como se voasse. (Era Showa 8 — 1933, 10 de fevereiro). Dar à Luz 765. As dores de parto da terra tornam-se mais rápidas e maiores. (Era Showa 8 — 1933, 1º de março). Criança 766. Quando desço ao jardim claro, no dia ameno de primavera, a criança vem correndo e se agarra às minhas costas. 767. Cada uma alegre diante dos legumes servidos — vejo sorrindo as crianças que jantam. 768. As crianças, que saltitam na rara saída, param diante da vitrine e não se mexem. (Era Showa 8 — 1933, 1º de março). Minha Natureza 769. Evitar sobretudo aqueles com quem não me entendo: essa é a minha natureza, e às vezes a lamento. 770. Tenho a natureza fraca de quem quer evitar, à sombra das pessoas, os olhos frios que me perfuram. 771. Com os amigos queridos, aqueles em que os pensamentos se fundem, passo a noite do início da primavera em animada conversa. 772. Por trinta anos esforcei-me por corrigir minha natureza egoísta, mas não a deixo agir como quer. 773. Só aqueles que me conhecem são amigos verdadeiros; convivendo com eles, sinto-me satisfeito no presente. 774. Com esta minha natureza de tanto distanciamento das pessoas, alternam-se e brotam sentimentos de alegria e de tristeza. (Era Showa 8 — 1933, 6 de março). Intelectuais 775. Os rostos pálidos dos intelectuais voltam-se ora para a direita, ora para a esquerda. 776. Afinal, para onde foi a dialética de Marx? Para o museu? 777. Bernard Shaw é, no fim das contas, um malandro inglês. 778. Não haverá um remédio para esterilizar esse micróbio chamado ○○? 779. Tudo é recomeçar, pois a matéria-prima do emplastro já se esgotou. 780. O vermelho é úmido e infiltrante; o branco, ardente como o sol do verão. 781. A vontade do universo está prestes a sofrer uma mutação, ó intelectuais! (Era Showa 8 — 1933, 10 de março). Sistema Representativo 782. Os deputados, como soldados, são bem controlados pelo General Araki. 783. O fabricante de robôs de Hibiya, Sua Excelência o General do Exército Araki. 784. Algo como política partidária, por mais que se procure, não existe. (Era Showa 8 — 1933, 10 de março). Mundo 785. Aquele olhar de Hitler e aquele olhar de Mussolini — qual dos dois será? 786. Chiang Kai-shek pondera, pondo na balança o próprio desejo e a consciência nacional. (Era Showa 8 — 1933, 10 de março). Época das Cerejeiras 787. Sinto saudades de alguém; esta noite, lá fora, a chuva de primavera cai miúda, e o ar está morno. 788. Em silêncio, no quarto vazio, vejo as cerejeiras do vizinho, agora em plena floração. 789. As muitas flores da camélia dupla, cessada a chuva, caem cruelmente sobre a superfície da terra. 790. No céu matinal de primavera, radiante, alguns fios de nuvem pendem dos ramos do salgueiro e não se movem. 791. O vento que sopra as flores de cerejeira desabrochadas no jardim permanece no quarto onde estou. 792. O céu, nublado pelas flores, lambe o sol; o ar é abafado, e as cerejeiras estão prestes a começar a cair. 793. Vistas através do verde dos galhos do pinheiro, as flores em seu auge são incomparavelmente belas. 794. As flores de cerejeira, úmidas, retendo o orvalho da manhã; as que caem de quando em quando parecem graciosas. (Era Showa 8 — 1933, 10 de março). Lamentando o Fim do Início da Primavera 795. Ir procurar as ameixeiras em flor é frio, e passar por elas sem as ver é uma pena; hesito, e hoje também anoitece. 796. Eu era aquele que repetia ações banais, enquanto os dias iam passando. (Era Showa 8 — 1933, 12 de março). O Jardim Floresce 797. A janela redonda que desenha o bambuzal em negro: alegro-me ao ver a claridade do meio-dia. 798. Será que a luz do início da primavera brilha de leve no céu? Os galhos secos do bordo a deixam passar delicadamente. 799. Na pequena grama verde da ponte de terra, a primavera parece enfim começar a mover-se. 800. No jardim, as muitas flores brancas das margaridas: alegro-me com o dia em que desabrocham. 801. Quando brotarem os botões do salgueiro-rato que pus no vaso, vou fincá-lo à margem do lago. 802. Os ramos floridos que pendem da rosa-dourada — de quando em quando, a brisa matinal da primavera os faz balançar. (Era Showa 8 — 1933, 18 de março). Observando o Mundo 803. Algo mais irritante que uma mosca, o ○○ da cidade de Tóquio. 804. Não é por ser excelente que ○○ continua; é porque não se encontra um sucessor. 805. O fascismo virou inflação; o marxismo, deflação. (Era Showa 8 — 1933, 18 de março). Colhendo Ervas 806. Lembro-me de repente da tranquilidade daqueles dias em que saía para colher ervas com minha esposa e as crianças. (Era Showa 8 — 1933, 10 de abril). 807. Conhecendo a angústia de ansiar por alguém, fechei firmemente a porta do peito e vim até aqui. (Era Showa 8 — 1933, 10 de abril). Dia de Chuva 808. A chuva de maio fumega no céu e parece penetrar no peito através da porta de vidro. 809. As folhas da nêspera, pesadíssimas, não se balançam; hoje também chove, calma e silenciosamente. 810. Encontrei até dois pescadores; no caminho do fim da cidade não há ninguém, e a chuva cai sem parar. 811. O rio flui verde-azulado; uma jangada passa veloz por cima de uma grande rocha. 812. As árvores são todas como silhuetas; quem vem atravessando a ponte traz capa e chapéu de palha. 813. Andando pelo aterro das cerejeiras de folhas novas, as gotas de chuva, de quando em quando, soam ao bater no guarda-chuva. 814. Na chuva de maio, os fios de fogo do néon se distorcem; as fileiras de casas da cidade parecem silenciosas. 815. As gotas acumuladas nas folhas dos pinheiros caem e batem na porta de vidro; a chuva parece ter parado. 816. A chuva de maio cai também hoje; as flores da paulônia tombam silenciosas, e há nisso algo de triste. (Era Showa 8 — 1933, 10 de abril). Musgo Verde 817. Fincando um ramo de salgueiro, cobri-o por fora com a terra musgosa, tal como estava. 818. Perto da sombra do bambuzal, a cor do musgo é especialmente verde e viçosa. 819. O musgo do candelabro de pedra do jardim é fofo e, em dias de chuva, fica ainda mais azulado que a água do lago. 820. No quintal dos fundos, onde ninguém pisa, veem-se até flores em meio ao raro musgo espalhado por toda parte. 821. O musgo aquático da bacia de lavar as mãos, verde-azulado sob o sol: se observado com calma, até parece ondular. (Era Showa 8 — 1933, 10 de abril). Manhã 822. Aspirando o nevoeiro denso, caminho pela estrada matinal; sobre um muro, floresce o osmanto. 823. Fresca e fria, assim ainda é a manhã de maio; o orvalho brilha no verde das folhas novas. 824. Ao abrir a porta, a lua da alvorada está no céu; a quietude em que nem o tremor das folhas se vê. 825. Ouviu-se o rangido de uma carroça; silencioso é o aspecto lá fora — ainda não amanheceu. 826. Olhando o céu onde as estrelas rareiam, encho o peito; respirar o ar puro da manhã é também vazio. (Era Showa 8 — 1933, 10 de abril). Aparência do Mundo 827. Ouço com frieza, de sobrancelhas erguidas: meu amigo não cessa de lamentar a situação do mundo. 828. Meu amigo perguntou se existe um estado que não seja nem do Daijo nem do Shojo. 829. Como chuva passageira, atravessam meu peito as palavras de quem me censura. 830. Que aquilo que se faz pensando no bem do outro venha a tornar-se prejudicial — eis o que é muito lamentável. (Era Showa 8 — 1933, 10 de abril). Borboleta 831. Uma borboleta passa esvoaçando perto de mim, até esconder-se atrás de uma flor. (Era Showa 8 — 1933, 16 de abril). Sensação Agradável 832. De volta em casa, tiro depressa a camisa encharcada de suor e volto-me para as folhas verdes. (Era Showa 8 — 1933, 10 de maio). Início do Verão 833. Fora da janela redonda, a cerca de shii está verde e viçosa; o vento atravessa meu quarto. 834. No segundo andar, onde estou sozinho, ouço as risadas altas da família, e sinto-me alegre. 835. O sol do início do verão flui sereno; agora brinco com a criança sobre a grama verde. 836. Embora às vezes sinta o pressentimento de que algo sobrenatural ataca, sozinho no quarto, leio. 837. A poeira que estava incrustada no coração foi lavada por um sono profundo: eis uma manhã radiante. 838. Quando, por acaso, acordo cedo, ofusca-me o brilho das folhas novas do ulmeiro do Japão, na cerca do jardim. (Era Showa 8 — 1933, 10 de maio). Após o Banho 839. Após o banho, de pele leve, sento-me na varanda e contemplo, absorto, as folhas verdes. 840. Minha esposa diz que engordei; estico a barriga e me olho no espelho. 841. Enquanto passo o pente pelos cabelos molhados, a brisa refrescante do jardim acaricia os longos fios. (Era Showa 8 — 1933, 10 de maio). Nagatoro 842. O barco chega agora ao remanso onde a ponta verde se arredonda; sem parar, os corvos-marinhos trazem ayu no bico. O Coração Humano 843. Quando um desejo se realiza, brota no coração, por um instante, um sentimento de solidão silenciosa. (Era Showa 8 — 1933, 13 de maio). Noite de Primavera 844. Sob as cerejeiras em flor, numa noite de lua enevoada, quem vagueia é aquela pessoa de rosto branco. (Era Showa 5 — 1930, 16 de maio). Glicínias 845. Desde que ouvi dizer que só existem no Japão, observo com atenção as flores de glicínia. Flores de Paulownia 846. As flores de paulownia desabrocham todas juntas, belas; seu roxo apaga o verde das folhas, e a cor brilha ainda mais. 847. O entardecer em que caem as flores de paulownia tem uma solidão semelhante à da queda das folhas secas no outono. 848. Nesta tarde sem vento no jardim, as flores caem em profusão: é a grande árvore de paulownia. (Era Showa 8 — 1933, 18 de maio). Lua Matutina 849. As folhas novas do caquizeiro brilham de orvalho e o ar é límpido; no céu, ainda pálida, resta a lua da manhã. 850. A névoa se dissipa e a silhueta da montanha se faz nítida; agora, a lua da manhã está prestes a desaparecer. 851. De madrugada, densa é a névoa do mar; ao erguer os olhos, vejo o vulto da lua crescente pendurado no mastro. 852. Subindo a montanha na alvorada, a lua que ora aparece, ora se esconde no topo atrai o olhar. 853. Pequena, a lua da manhã reflete-se na superfície do lago, lisa como uma pedra de amolar; na montanha, a névoa ainda permanece. (Era Showa 8 — 1933, 20 de maio). Lua Vespertina 854. Quase não parece a lua: no fim da cidade, espreita um grande círculo cor de laranja. 855. Os campos de arroz, na névoa da tarde, escureceram; a lua, silenciosa, reflete-se no riacho. 856. A cor da floresta tornou-se negra; um pouco afastada, a luz tênue da lua do segundo dia. 857. Fina, a fumaça da chaminé vagueia no céu, em torno da lua do quinto dia. 858. Algumas nuvens flutuam, o céu clareou; parece que a lua surgiu em algum lugar. (Era Showa 8 — 1933, 20 de maio). Hitler 859. Surge, pouco a pouco, no horizonte, um ídolo: Hitler. 860. A Inglaterra e a França o observam de cara feia; é uma criança mimada, Hitler. 861. Nem liga para os estudiosos — o atrevimento de Hitler. 862. Um acrobata excepcional: Adolf Hitler. (Era Showa 8 — 1933, 28 de maio). Sapo 863. Intermitentemente, os sapos coaxam; um vento leve sopra sobre os campos de arroz, e a lua vespertina é pálida. (Era Showa 8 — 1933, 12 de junho). Lua de Verão 864. Caminho pisando minha própria sombra; a lua de verão ilumina com clareza o caminho ao longo do rio. (Era Showa 8 — 1933, 16 de junho). Mulheres do Verão 865. Na rua iluminada passa uma mulher de yukata elegante; sua figura, vista de costas, de repente atrai o olhar. 866. Com as curvas do corpo realçadas pelo maiô, uma mulher se deita na areia da praia. 867. Em roupas de gaze, as mulheres, refrescantes, caminham modestas pela rua molhada do crepúsculo. 868. Na escuridão da tarde, ao caminhar sem rumo pela estrada, todas as mulheres do verão parecem belas. 869. No banco da varanda, uma mulher de pele branca abana-se com um leque redondo; seu rosto flutua na escuridão da noite. 870. Há uma mulher lavando coisas no riacho; à luz do entardecer de verão, suas canelas estão bem vermelhas. (Era Showa 8 — 1933, 19 de junho). Cravina-dos-Muros 871. No rio seco, a correnteza afina-se; admiravelmente, as cravinas-dos-muros desabrocharam. 872. Fracamente, ao longo da corrente, algumas flores de cravina desabrocham na margem do rio. Nota: "Fracamente" (do arcaico "hatsuhatsu ni") significa "levemente". 873. A luz da lua vespertina é pálida; as flores de cravina mal se veem entre as ervas orvalhadas. 874. Noite após noite, respirando as gotas de lua, será que as cravinas-dos-muros exalam seu perfume pela manhã? 875. Sem murchar, sozinha, florescendo na margem do rio, a pequena vida da flor de cravina. (Era Showa 8 — 1933, 19 de junho). Interior de Nikko 876. Liso como a superfície de uma pedra de amolar, o lago está límpido; o céu e a floresta nele se refletem nítidos. 877. Através da vegetação densa da montanha de verão, a superfície do lago cintila, brilhando em pequenas ondas. 878. Será que um dragão habita aqui? A água é escura; no vale da montanha, o vento do lago sopra, e nuvens brancas correm. 879. O som do motor ecoa; ao deslizar sobre o lago azul-escuro, uma garoa fina molha o rosto. 880. Tendo abaixo de mim o Lago Goshiki, como um arco-íris, e o Lago Chuzenji, subo ofegante até o Monte Shirane, no interior. 881. Quando a estrada da montanha chega ao fim, o Lago Chuzenji, branco e inchado, aparece entre as árvores. (Era Showa 8 — 1933, 19 de junho). Cachoeira 882. Com um rugido, erguendo fumaça branca, a água cai; meu rosto se molha com os respingos da cachoeira. 883. Erguendo-se, erguendo-se no grande céu, e desabando em avalanche — diante da grande cachoeira, fico simplesmente vazio. 884. A água da cachoeira, formando ondas brancas nas dobras da rocha, desliza com beleza, transparente entre as folhas de outono. 885. Andorinhas-das-rochas, em bandos, roçam a grande cachoeira que cai como neve espumosa. 886. Onde a corrente da cachoeira se quebra com violência, o musgo da rocha molhada recebe um tênue raio de sol. (Era Showa 8 — 1933, 19 de junho). Eu 887. Meu ser está tão distante do destino das pessoas comuns. (Era Showa 8 — 1933, 10 de julho). Chega o Verão 888. Cartazes que convidam às montanhas e ao mar veem-se até mesmo aqui, na estação: chegou o início do verão. (Era Showa 8 — 1933, 20 de julho). Glória-da-manhã 889. Diante da glória-da-manhã recém-desabrochada estou eu; a umidade da névoa toca-me a face. 890. Ao apertar com o dedo a gavinha que se ergue sobre a flor da glória-da-manhã, sinto um aroma verde. 891. Efêmera como a flor que murcha ao bater do sol, a glória-da-manhã assemelha-se ao destino das mulheres. 892. Apenas eu existo agora, diante da glória-da-manhã; que silêncio o deste céu e desta terra! 893. Colho uma glória-da-manhã de grandes pétalas e a coloco no quarto; minha esposa, então, fica em silêncio. 894. As glórias-da-manhã que desabrocham são adoráveis, mas, afinal, o verão também se impõe sobre as flores. (Era Showa 8 — 1933, 20 de julho). Verão no Templo da Montanha 895. Treme a barba branca do velho monge; voltado para o jardim do entardecer, ele apenas se mantém em silêncio. 896. O vento frio que sopra pelo antigo corredor deste templo faz as cigarras cantarem sem parar. 897. Trepadeiras desconhecidas alastram-se sobre as grandes pedras do jardim; é agradável, o jardim deste templo. 898. Silenciosamente, o velho monge e eu conversamos; o quarto escurece, e as cigarras da tarde cantam. 899. Silenciosa é a noite no templo da montanha; o som triste da coruja que chora se aprofunda. (Era Showa 8 — 1933, 20 de julho). Chuva de Verão 900. Há sinais de chuva de verão; todas as folhas das árvores sussurram e o vento sacode a janela. 901. As ervas de verão estão murchas; hoje também o dia se encerra sem que as nuvens se espalhem. 902. O jardim, lavado pela chuva de verão, é refrescante; o musgo nas pedras do caminho brilha verde ao sol. 903. Com esta chuva de verão que começa a cair, onde estará se abrigando o visitante de agora? 904. Quão límpido é o céu desta noite de lua vespertina! Não se pode imaginar que hoje caiu uma chuva de verão. 905. Olho o jardim em dia de chuva; as gotas nas flores de hortênsia caem em roxo. (Era Showa 8 — 1933, 20 de julho). Sol Escaldante 906. A rua asfaltada ferve ao sol; apenas a sombra do plátano é fresca, e o movimento de pessoas cessou. 907. O vendedor de peixinhos dourados descansa à sombra de uma árvore; a maior parte dos que andam pela rua se reúne aqui. 908. O brilho do sol é intenso; dezenas de milhares de metros quadrados de ervas de verão estão prestes a florescer. 909. Um caminhão passa chacoalhando; na cidade escaldante, não há sombra, e os salgueiros também não balançam. 910. No jardim seco, todas as plantas estão sem força; apenas o girassol floresce, vigoroso e solitário. (Era Showa 8 — 1933, 20 de julho). 911. Os fracos vão para o Monte Mihara; os fortes, para a Shinpeitai (Tropa dos Soldados Divinos), para morrer. 912. Não foram as estudantes que se corromperam; apenas imitaram os pais. 913. A educação moderna é injetar caracteres impressos na cabeça, em troca de dinheiro. 914. A medicina é a missão divina de ensinar que as doenças não se curam com medicamentos ou física. (Era Showa 8 — 1933, 20 de julho). Arco-Íris 915. A chuva de verão, que fazia as folhas das árvores sussurrarem, logo se transformou num belo arco-íris. Verão no Rio Tama 916. A chuva de verão trovejou, mas a água é límpida; o fundo do Rio Tama brilha ao sol. 917. Perigosos são aqueles que se opõem à luz; quando este mundo se escurece. (Era Showa 8 — 1933, 10 de agosto). Pequeno Verão Indiano 918. Mais alto que o muro de nandina, os frutos vermelhos brilham contra o céu azul. 919. O interior da montanha de Manegai arde em vermelho ao sol; os terraços já são primavera. 920. Há flores restantes no campo de chá; ao sacudir o dedo, elas caem suavemente. 921. Quão sereno é este dia de pequeno verão indiano! Os passarinhos, inquietos, saltam de galho em galho seco. 922. Atravessando os galhos secos de hortênsia, a sombra da escrevedeira-de-garganta-preta projeta-se no chão e se move. (Era Showa 8 — 1933, 20 de agosto). O Outono se Move 923. A brisa da tarde atravessa as folhas de shii e entra pela janela; a pele, recém-saída do banho, refresca-se. 924. O feijão-de-porco estremece ao vento; no correr das nuvens no céu da tarde, já se entrevê o outono. 925. O sol de verão reluz sobre as telhas; mas na sombra do beiral e na sombra das árvores, o outono já parece mover-se. 926. O calor ainda persiste, mas, em seu âmago, um sopro de outono já corre sutilmente. 927. De pé no alto da colina, com o sol poente às costas, dentro da minha sombra há um tufo de capim-colchão. 928. Se jogo água, cai uma chuva fina da densa vegetação de hagi; que a lua surja no jardim esta noite! 929. A lua é bela, o outono é aguardado; os galhos do pinheiro do meu jardim estendem-se densos no céu. (Era Showa 8 — 1933, 21 de agosto). Cigarra-da-tarde 930. Quando as cigarras-da-tarde cantam estridentes na alvorada, ouve-se alguém abrir uma porta, como a perguntar "de onde?". 931. As cigarras-da-tarde cantam sem cessar pela noite da montanha; em seu sopé, as luzes começam a surgir. 932. O som das cigarras-da-tarde se afasta; ao sopé da montanha, a estrada plana segue até a vila. 933. Na montanha dos fundos, o canto das cigarras-da-tarde; nos arrozais da esquina, o coaxar dos sapos: é a casa da minha terra natal. 934. Escuro é o bosque de carvalhos; no silêncio, ecoa o canto das cigarras-da-tarde. (Era Showa 8 — 1933, 21 de agosto). Hagi (Lespedeza) 935. Sob a luz pálida da lua vespertina, ao jogar água, os pequenos hagi junto ao jardim molham-se e brilham. 936. O muro de pedra está meio escondido; os hagi de outono, floridos e pendentes, estendem-se para fora do portão do templo. 937. Há um templo de freiras cheio de hagi; nele vislumbro, de quando em quando, o auge da estação. 938. É o primeiro outono; no pequeno jardim da nova casa, a misohagi desabrocha — e isso me alegra profundamente. 939. Na superfície da água em que se reflete o grupo de hagi, vejo flutuar algumas flores caídas. 940. Molhando as mangas no orvalho da manhã, vaguei e vaguei longamente pelo jardim de hagi. (Era Showa 8 — 1933, 21 de agosto). Eu e os Outros 941. Encontrei alguém que lamenta o mundo; enquanto falo, minha voz acaba se elevando. 942. Conhecendo as angústias daquela pessoa, nada digo e a supero, pois o tempo ainda não está maduro. 943. De pé no jardim, acalentando um sonho sereno, até o canto dos insetos se torna familiar. 944. Embora eu seja fraco, há quem compreenda meu coração sincero: este mundo é agradável. (Era Showa 8 — 1933, 21 de agosto). Incidente de 15 de Maio 945. Surgiu um bom livro-texto para a classe privilegiada: o registro do julgamento do Incidente de 15 de Maio. 946. Uma luta de quatro pontas entre a lei, a emoção, a razão e a justiça: o Incidente de 15 de Maio. (Era Showa 8 — 1933, 21 de agosto). Cigarra 947. A criança parece ter errado ao tentar pegar a cigarra; sacudindo a rede de caçar insetos, avança em ziguezague entre as árvores. (Era Showa 8 — 1933, 12 de setembro). 948. Embora eu viva para uma grande esperança, ainda assim me inquieto com pequenas coisas. (Era Showa 8 — 1933, 12 de setembro). Vento de Outono 949. O vento da noite de outono, soprando pelo vidro do carro durante o passeio, penetra no corpo. (Era Showa 8 — 1933, 16 de setembro). Outono 950. O bambu não diz se é guarda-chuva ou não; no pequeno jardim, a quietude das coisas na tarde de outono. 951. O sol de outono, filtrando-se pela porta de papel, clareia o perfil da esposa que costura as roupas. 952. O sol de outono declina oblíquo; a sombra da torre estende-se, generosa, sobre a terra. 953. O ginkgo amarelado estende um único galho e reluz, erguido diante do antigo templo. 954. As crianças estendem uma esteira sobre o gramado e, sem nenhuma outra preocupação, tecem os raios do sol de outono. 955. Ao anoitecer, aconchegado à beira da varanda, ouço o canto fino do grilo. 956. De quando em quando, um vento agita as vagens da glicínia; junto à janela, o outono se aprofunda em minha casa. 957. Na tranquila vila residencial, ultrapassando os muros de pedra, a cor das folhas das diversas árvores anuncia o outono que se aprofunda. (Era Showa 8 — 1933, 18 de setembro). Libélula Vermelha 958. Ao anoitecer, erguendo o rosto, vejo da ponta do telhado o bando de libélulas vermelhas a voar no céu. 959. Aqui também, no jardim onde as libélulas vermelhas revoam e os ásteres desabrocham em profusão. 960. Sobre os varais onde seca o arroz, as libélulas ora pousam, ora não pousam. 961. Sobre a colina, no céu para o qual ergo os olhos, as libélulas seguem, enredadas no vento da tarde. 962. Na água de outono, que se aquieta em silêncio no riacho, as libélulas passam arrastando suas sombras. (Era Showa 8 — 1933, 18 de setembro). Céu de Outono 963. A fumaça de assar o sanma (agulhão-do-Japão) vagueia sob os beirais e parece ser sugada pelo céu límpido. 964. O azul do céu, que assoma por entre as folhas do carvalho recém-colhidas, é tão refrescante nesta tarde de outono. 965. Como resplandece o céu de outono! Três ou quatro aves migratórias vão apressando as asas. 966. As nuvens de outono, sem sinal de se mover, refletem-se na superfície do lago, onde um pássaro passa a roçá-la, esfumaçado. 967. Na cozinha, ouve-se a voz alta do verdureiro; eu, deitado, contemplo o céu de outono. 968. Contendo o coração irritado, por um instante olho o céu de outono que se aquieta para além da janela. 969. Está muito límpido o céu nesta manhã; por alguma razão, também o íntimo do meu coração parece sereno. (Era Showa 8 — 1933, 18 de setembro). Caminhando por Musashino 970. Embora não seja paisagem digna de menção especial, também nos arredores de Musashino o outono se faz notar. 971. Ao pensar na lua que sobe por entre os campos de capim-colchão, sinto certa familiaridade com a planície de Musashino. 972. Se me detenho no alto da colina, o outono está no auge; entre as clareiras da floresta, avista-se o pico do Fuji. 973. De quando em quando, um bonde atravessa os arrozais e ecoa alto no céu límpido de outono. 974. Estendem-se várias sombras de pinheiros-vermelhos; ao redor da colina, crescem densos os campos de capim-colchão. (Era Showa 8 — 1933, 18 de setembro). Do Incidente de 15 de Maio 975. A sombra solitária da classe privilegiada é triste: o outono de tempos de emergência. (Era Showa 8 — 1933, 18 de setembro). Agora 976. Hitler que dança, Hitler que golpeia, Hitler que chuta. (Era Showa 8 — 1933, 18 de setembro). Cosmos 977. A chuva de outono cai sobre a profusão de flores de cosmos; a tarde no jardim é silenciosa. 978. As flores de cosmos, em plena floração, atravessam o jardim; tremem sem cessar ao vento suave. 979. Nesta manhã, o vento de outono penetra no corpo; a cor das flores de cosmos desbotou. 980. Em torno das flores de cosmos iluminadas pelo sol, vê-se um enxame de libélulas; o jardim se aclara. 981. Diante da imagem de Kannon, arranjo os cosmos e, assim, encontro tempo para me ocupar. 982. As flores de cosmos, em plena floração, assomam pela janela e, inúmeras vezes, atraem meus olhos. (Era Showa 8 — 1933, 10 de outubro). O Inverno se Aproxima 983. De madrugada, ao deixar a cama, a claridade da janela é ligeiramente fria; hoje também parece dia de chuva. 984. O coração se aperta; os insetos cantam intermitentemente; o jardim, branco, é iluminado pela lua. 985. É frio o vento de outono que sopra sobre os campos; no rio do campo reflete-se a luz da lua crescente. 986. Os dias são curtos e cedo escurece; na cozinha, ouve-se o rumor do preparo do jantar. 987. Como é clara a copa do pinheiro após a poda! O tronco brilha intensamente ao sol poente. 988. Gélido é o topo da colina onde crescem os pinheiros-vermelhos; a cor do sol poente anuncia a aproximação do inverno. 989. As folhas amareladas tremem ao vento, enquanto a cerejeira vizinha estende seus galhos no céu. (Era Showa 8 — 1933, 10 de outubro). Vento de Outono 990. Açoitada pelo vento de outono, a libélula é levada sobre o campo de milho. Canto dos Insetos 991. A melodia do canto dos insetos é triste; esqueço-me de mim e até um amor fugaz me vem à mente. Final do Outono 992. As folhas de bordo no pico do Monte Takao ainda queimam em chamas; o outono se aprofunda na planície de Musashino. (Era Showa 8 — 1933, 16 de outubro). Explorando o Outono em Musashino 993. Nas raras vezes em que saio e entro em contato com a natureza, o peito se alegra e o espírito se ilumina. 994. Mesmo em Musashino, que não tem paisagens notáveis, o outono nas proximidades do Rio Tama é agradável. 995. A cor do outono tinge a floresta de diversas árvores, mas as folhas de bordo ainda não se tingiram. 996. Há uma casa onde desabrocham dálias vermelhas; as flores, vivazes, refletem suas sombras no valado. 997. A névoa da tarde paira sobre os arrozais maduros; as paredes brancas das casas de campo escurecem. 998. Colho espigas de capim-colchão pelo caminho; quando as mãos se enchem, a estação já está próxima. 999. Contemplando ao longe as luzes da vila que cintilam no fundo da névoa da tarde, espero o bonde. (As três seguintes, no Jardim Mogusaen.) 1000. Na grama que cresce no terreno que contorna o lago de lótus e desce em declive, também já se fazia notar o outono. 1001. Ao me deter sobre a ponte que cruza o lago de lótus murcho, o sol poente ilumina friamente. 1002. Os caquis amadurecem, o céu de outono está límpido; em meu barraco de chá, murmuro uma canção. (Era Showa 8 — 1933, 18 de outubro). Conforme as Ocasiões 1003. Parece que o fim do mundo se aproxima; apenas coisas desagradáveis aumentam, e este ano também se encerra. 1004. Eu, que não posso expressar em palavras, sem ter o que fazer, simplesmente existo. 1005. Ao ver as pessoas julgadas, que caem em vão, sinto uma solidão indescritível. 1006. Minhas palavras... calo-me até que surjam aqueles que dão ouvidos a elas. 1007. Silenciosamente, contemplo o mundo; quem dera pudesse preparar-me calmamente para o tempo que virá. (Era Showa 8 — 1933, 19 de outubro). Tempos de Emergência 1008. Os partidos políticos deveriam apenas reconhecer os partidos políticos. E então, a época. 1009. A classe privilegiada como produtora no Japão em tempos de emergência. 1010. Escondendo os punhos no peito, realizam reuniões pela paz. (Era Showa 8 — 1933, 20 de outubro). Esperar 1011. Esperando a chegada do tempo do céu, eis-me aqui, deitado na cabana em Omori. Matsutake 1012. O aroma do matsutake flui para a cozinha; meu paladar se aguça cada vez mais. (Era Showa 8 — 1933, 16 de novembro). Murchidão do Inverno 1013. A lua que espreita a floresta de diversas árvores no inverno seco acompanha-me por onde quer que eu vá. 1014. Minha pequena casa tem um arrozal nos fundos; quando o vento forte sopra, as portas e janelas rangem. 1015. O vento que sopra com força faz reluzirem, brancas, as folhas do bambu-anão na encosta do morro dos fundos. 1016. O salgueiro seco no dique de inverno, exposto ao vento, balança o dia inteiro. 1017. Na planície seca, açoitado pelo vento invernal que lambe o sol, sou lastimavelmente maltratado. 1018. Quando o salgueiro seco se aquieta, começa a cair, suavemente, uma chuva fina de inverno. (Era Showa 8 — 1933, 18 de novembro). Silêncio de Inverno 1019. Aqui o silêncio chega ao seu ápice; ao meio-dia, no jardim do mosteiro, nada se move. 1020. Ao contemplar a vastidão dos arrozais de inverno, vejo mover-se, pequeno no céu, um bando de corvos. 1021. Os crisântemos do arranjo floral já se abriram em excesso; furtivas, as pétalas caem no nicho, no começo do inverno. 1022. Ao entardecer, no canto do jardim aonde chega o sol de inverno, desabrocham, sem o menor ruído, as flores da nêspera. 1023. Quando me detenho na margem, solitário está o arrozal de inverno; na água reflete-se a luz pálida da lua. (Era Showa 8 — 1933, 18 de novembro). 1024. Partidos políticos que se desdobram em desculpas, como devedores às vésperas da falência. 1025. Quem multiplica os vermelhos são os jornais, que escrevem de modo heroico. 1026. Cães no cio e damas ociosas: em que, afinal, serão tão diferentes? (Era Showa 8 — 1933, 24 de novembro). Garça Branca 1027. Negro, ergue-se o edifício; a lua de inverno, agora exatamente no zênite, brilha intensa. 1028. A garça branca desce ao pântano, esvoaçando, e traz nas asas a luz da lua. Pardal 1029. Prendendo a respiração, fito, através do vidro da porta, o pardal no galho do pinheiro do meu jardim. (Era Showa 8 — 1933, 25 de dezembro). Japão 1030. Dizem: "Reforma fundamental", "Isso e aquilo fundamental", mas na verdade é "falta de planejamento fundamental". 1031. Políticas e ideologias, ostensivamente fundamentais; superficial, porém, é o que se faz. 1032. Sombra solitária e desalentada: os mais de quatrocentos do Seiyūkai e do Minseitō. 1033. A dissolução dos partidos políticos e dos zaibatsu: quanto mais cedo, melhor; só isso já ajuda. 1034. Um terremoto invisível sacode a classe privilegiada. (Era Showa 8 — 1933, 29 de dezembro). Início da Primavera 1035. Saudável, recebo mais um Ano Novo, e a alegria que sinto é ainda mais comum. 1036. As crianças, infladas nas roupas novas, brincam na varanda ensolarada. 1037. Começo de primavera: na tarde sonolenta, ouve-se ao longe o som do jogo de peteca. (Era Showa 9 — 1934, 5 de janeiro). Minha Casa 1038. A solidão que fica quando partem os convidados da reunião: por algum tempo, contemplo o tatame. 1039. A copa do pinheiro e o céu gravam-se em meus olhos: meu quarto no segundo andar, onde já se passaram três anos. 1040. Desço do segundo andar justo ao meio-dia; de repente, vem fluindo o cheiro de peixe assado. 1041. Distraído pelo choro da criança, não consigo condensar o pensamento do poema — que frustração! 1042. Que prazer, conversar noite adentro com alguém com quem me entendo; sem que eu perceba, ela já vai alta, e ouve-se a voz do vendedor de tofu. (Era Showa 9 — 1934, 5 de janeiro). Céu Limpo de Inverno 1043. Na porta de papel renovada e clara, reflete-se, silencioso, um único galho de pinheiro. 1044. Limpidíssimo, o céu de inverno; o vento que desce do Monte Tsukuba sopra sobre Musashino o dia inteiro. 1045. Ergo os olhos: os galhos secos da floresta; e adoráveis, os passarinhos que voam de um lado para outro. 1046. A manhã está coberta de geada; os pardais do frio, o dorso levemente triste, esvoaçam e se espalham pelo pequeno jardim. 1047. O tronco do velho pinheiro, degelado da geada, é como um dragão de casca molhada; nele arde o sol da manhã. 1048. Nua, a pele da montanha é fria; o sol de inverno cai sobre a grama seca que restou, sem destino. (Era Showa 9 — 1934, 5 de janeiro). Jogo de Peteca 1049. Aprofundam-se os tempos de emergência; a primavera chega, mas não tenho ânimo para jogar peteca. (Era Showa 9 — 1934, 16 de janeiro). Narciso 1050. Seria uma pintura de Korin? A neve branca caindo, e as flores de narciso brilhando em cores vivas. (Era Showa 9 — 1934, 20 de janeiro). Início do Ano 1051. Sinto algo de luminoso neste ano; passo o início da primavera com alegria e entusiasmo. (Era Showa 9 — 1934, 29 de janeiro). Primavera 1052. Ao despertar, é agradável a sensação do acolchoado quente: já é uma primavera que nos faz sentir aconchego. 1053. O céu de inverno vai perdendo a limpidez; agora, uma leve neblina começa a alcançar os olhos. 1054. Do arranjo floral descartado, tomei por esposa um único talo — narciso no vaso. 1055. Ainda resta um pouco de neve; no canto do jardim, no dia em que o inverno termina, sinto solidão. 1056. Verdejantes e límpidas, as fileiras de plátanos; caminho pela cidade depois da chuva, onde já não há poeira. 1057. Era uma cotovia o que pairava sobre o campo de trigo; quando olho para trás, já se desfaz no céu. 1058. No céu da pequena janela ao sul, incham os botões de ameixa; e é a vê-los que tomo o café da manhã. 1059. Estreito, o rio corre longe; quero segui-lo até onde as cerejeiras fazem uma curva. 1060. Chegará, no verão, a ultrapassar a altura de um homem? Por ora, o tufo de grama nova alcança apenas a borda do barco. 1061. Apreciando o verde dos talos de fuki, detenho-me de pé no jardim onde a chuva cai serena. 1062. Pesado de orvalho, curva-se o arbusto de yamabuki de oito pétalas; é uma hora da manhã em que ainda não há sinal de vento. 1063. Molhadas pela chuva, as folhas do bambu de Kure tinham cor mais bela que a das árvores perenes. 1064. Dois camponeses; em torno dos joelhos, as espigas já cresceram — no campo de trigo, será o vento que sussurra? 1065. A olhos vistos a montanha verdeja; hoje também, desde a manhã, cai a chuva de primavera, fina e constante. 1066. Contemplo o vento a agitar as espigas do capim-colchão, e meu coração se entristece numa tarde de primavera. (Era Showa 9 — 1934, 6 de fevereiro). Diante do Outro 1067. Sempre que rio, vêm-me as lágrimas; e com esse hábito, ainda assim, foram-se acumulando os anos. 1068. Será que viverei o bastante? Sendo eu como sou agora, sinto vontade de adentrar as montanhas. (Era Showa 9 — 1934, 6 de fevereiro). A Situação do Momento 1069. Construam uma escola que eduque os diretores de escola. 1070. A moda da conversão ideológica — e depois? Os ricos se tornam pobres? 1071. Sobre a cratera em erupção, serenamente, a grande união dos partidos políticos. 1072. Os jornalistas, agora, sem saber o que fazer com as novas ideias. 1073. Cercado pela artilharia sinistra da União Soviética, o festival da monarquia de Manchúria é ingênuo. (Era Showa 9 — 1934, 6 de fevereiro). Rouxinol 1074. Algo se moveu de repente na sombra do bambuzal — se for um rouxinol, queria ouvir seu primeiro canto. (Era Showa 9 — 1934, 16 de fevereiro). Fim de Século 1075. O mundo tornou-se o do fim dos tempos; em meus olhos, que veem friamente, reflete-se vívido. Sol de Inverno 1076. Alegra-me o tempo que continua a clarear; hoje também me aqueço na varanda ensolarada. (Era Showa 9 — 1934, 16 de fevereiro). Salgueiro 1077. Refrescante, o cheiro das folhas novas do salgueiro; de um lado, o caminho segue por campos de arroz. (Era Showa 9 — 1934, 16 de março). Cerejeiras Noturnas 1078. Sob o luar, deslumbrado pelas flores, vagueio esta noite, com saudade, ao lado de minha esposa. 1079. Cerejeiras em flor na cerca de uma casa desabitada; ao olhá-las, sinto certa solidão. 1080. Vagando entre as flores, sem me misturar aos que vêm apreciá-las; será essa a minha natureza? Assim cheguei a esta idade. 1081. Ouve-se alguém quebrar um galho de cerejeira; na noite de primavera, sob a lua enevoada, não se vê o ladrão. 1082. Fugindo à multidão do dia, vim ver as cerejeiras noturnas; a noite de lua está bela. 1083. Sopra o vento do rio; na margem, caídas e roladas, as pétalas de cerejeira se amontoam. 1084. Preocupado com as nuvens de chuva, quero ainda assim, alegremente, ver as flores à vontade esta noite. 1085. Chegada a tarde, o vento enfim se levanta; no dique de grama verde, as flores se acumulam, brancas, brancas. (Era Showa 9 — 1934, 2 de março). Calma Primaveril 1086. As crianças saíram para colher plantas: nenhum som. A tarde tranquila, o silêncio do quarto. 1087. Sereno, o céu primaveril através da porta de vidro; e eis-me aqui, diante dos galhos do pinheiro. 1088. No céu que se abriu, que frescor o dos brotos! Converso com um hóspede, e meus olhos se desviam. 1089. Em meio ao sol primaveril que se põe, solitária, uma borboleta ainda vagueia pelo campo. 1090. Passa uma mulher com um ramo de prímulas: veio pelo caminho do campo em busca da primavera. 1091. Os corvos ultrapassam as nuvens que se erguem no crepúsculo; brilham-lhes as asas. (Era Showa 9 — 1934, 6 de março). Pomba 1092. De vez em quando, uma pomba vem bailar em meu jardim, junto aos jacintos em flor. 1093. Quando jogo água, anima-se e vem bicar; observo a pomba, e o coração se me ilumina. 1094. Caíram as flores de yamabuki; no jardim sob a chuva fina, a pomba caminha, passo a passo, com os pés vermelhos. (Era Showa 9 — 1934, 6 de março). Alvorada Primaveril 1095. No shoji que suavemente clareia, projeta-se uma sombra; num galho que brota, move-se um passarinho. (Era Showa 9 — 1934, 16 de março). Pensando 1096. A luz da aurora enche-me o peito e chama lágrimas que não sei de onde vêm. 1097. Quando jorra a grande esperança, até o céu e a terra parecem me pertencer — que estranho. 1098. Comparo-me ao pássaro que, solto, dança e voa pelo céu sem fim, e fico a contemplar-me. 1099. Pensei de repente na obra do Dragão Divino, que corre livremente acima das nuvens. 1100. Na escuridão negra como a noite, desce uma luz; talvez se espalhe até os confins da terra (Era Showa 9 — 1934, 16 de abril). Abril de 1934 1101. Lento, o dia de primavera; e o gabinete também prolonga a sua vida. 1102. Três anciãos de mais de oitenta anos manobram tranquilamente a política; e o mundo está em estado de emergência. 1103. As classes privilegiadas são os grandes jornais e, ainda, os ricos. 1104. Afinal, desapareceu do Japão uma personalidade digna de ser ministro da Educação. 1105. Os ricos não sabem o que fazer com o dinheiro; os vagabundos não sabem o que fazer com o corpo. (Não incluído na coletânea completa). 1106. O Ministro da Justiça fulano, puro e íntegro, vive assustado. (Era Showa 9 — 1934, 16 de abril). Caminho da Montanha na Primavera 1107. É agradável o caminho da montanha na época em que os brotos despontam; alegre, sigo sozinho. Esperança 1108. Pensando no futuro brilhante, não consigo dormir; passo a noite entre a alegria e a dor. Andorinha 1109. Ao erguer os olhos para a grande cascata, noto, no caminho do olhar, andorinhas-das-rochas que voam como mosquitos. (Era Showa 9 — 1934, 16 de abril). Fonte Termal 1110. Na névoa da fonte, tênue é a luz; sozinho, na quietude da noite, permaneço na água da fonte termal da montanha. (Era Showa 9 — 1934, 10 de maio). Cidade de Maio 1111. Que claridade, a cidade de maio! Nas janelas dos automóveis brilha a luz das folhas novas. (Era Showa 9 — 1934, 16 de maio). Nesta Época 1112. Sinto como se quisesse perdoar tudo — tão límpido está o céu da manhã de maio. 1113. Digo "dinheiro, etc." e o afasto de mim; e, no entanto, não há intervalo — existe em mim um eu que deseja intensamente. 1114. Há quem me sirva com todo o empenho — que mundo confiável! 1115. Ao despertar, que distância entre o sonho que acabo de ver e este agora. 1116. Há uma mulher que fala de desilusões amorosas: rosto alongado, sobrancelhas finas. 1117. Aquietou-se a estranheza da mudança recente; hoje, voltei ao coração de sempre. (Mudando-me para Kojimachi). (Era Showa 9 — 1934, 16 de maio). Verde 1118. A cor de verdete que se espalha pelo céu de junho é o entrelaçar profundo das folhas verdes. 1119. Começa a brotar o suor; recebendo nas costas o vento que se filtra pela mata, vejo com os olhos os campos verdes. 1120. Há uma colina onde penso em construir casa e morar; de frente, vê-se também o cume do Fuji. 1121. Brilham ao sol os brotos do campo de amoreiras; alegre, brinca um pardal-de-sobrancelha-branca. 1122. A fileira de pinheiros projeta sua sombra; banhados no sol da tarde, os potros vão se distanciando. 1123. No céu azul, sobre o portão do santuário envelhecido, as flores de paulownia desabrocham sem artifício. (Era Showa 9 — 1934, 1º de junho). Folhas Verdes 1124. Raramente, ao sair, a visão penetra nos olhos: a cor profunda das folhas novas e verdes. (Era Showa 9 — 1934, 10 de junho). Dinheiro 1125. Ter de preocupar-se com dinheiro mesmo para servir aos outros; que mundo triste! (Era Showa 9 — 1934, 10 de junho). Pescaria 1126. Enchendo o peito do ar do mar, passei o dia todo a pescar gobis no largo de Odaiba. (Era Showa 9 — 1934, 10 de julho). Coração 1127. Ouço alguém dizer que é agradável quebrar coisas; e eu, que não consigo entender esse coração. 1128. Pensava em pedir dinheiro emprestado, e acabou não sendo preciso; que alegria indescritível. 1129. A impaciência de esperar que as flores desabrochem; há momentos em que sou assim. 1130. Que silêncio, depois que se foram muitos convidados; ergo os olhos, distraído, para a fumaça do cigarro. 1131. Com os dedos pegajosos do pêssego que comi, tomo a caneta-tinteiro com cuidado. 1132. Meu coração caprichoso veio parar em Shinjuku, à noite; minha esposa também está comigo. 1133. Ouço histórias de amores alheios, e soam como mentiras; será que envelheci? 1134. De repente, meu coração escureceu: a história de uma criança que morreu por causa de uma injeção. 1135. Pensando em curar todos os pacientes deste hospital, percorro o longo corredor. 1136. A satisfação de ter matado um mosquito; será que todos sentem o mesmo? (Era Showa 9 — 1934, 23 de julho). 1137. Quando algo pequeno começa, as pessoas de pouca coragem caem de ponta-cabeça. (Era Showa 9 — 1934, 10 de agosto). Feira 1138. Deixando atrás de mim a voz de um mendigo que diz algo, misturo-me às luzes da feira. (Não incluído na coletânea completa). (Era Showa 9 — 1934, 16 de agosto). Aproxima-se o Outono 1139. Aproxima-se o outono; e brota com ímpeto o coração que quer trabalhar. (Era Showa 9 — 1934, 10 de setembro). Paraíso 1140. Se não conhecesse o Caminho do Paraíso, estaria eu agora a chorar, desabado diante da amargura do mundo. (Era Showa 9 — 1934, 10 de setembro). Outono no Parque 1141. Como se não soubessem do outono no parque, a maioria das pessoas se reúne para praticar esportes. (Era Showa 9 — 1934, 16 de setembro). Sol de Outono 1142. O vaso de crisântemos na varanda parece frio; tênue e fraco, incide o sol de outono. (Era Showa 9 — 1934, 10 de outubro). Fora do Mundo 1143. Todas as coisas detestáveis do mundo ficam a milhares de léguas; pintei Kannon. Outono na Cidade 1144. Sopra suave o vento fresco pela cidade de outono; agita-se a barra da saia de sarja — que sensação agradável! (Era Showa 9 — 1934, 16 de outubro). O Outono Avança 1145. Deitado, a olhar o teto, outubro; verde, o gafanhoto na placa. 1146. Arranjei crisântemos o bastante; na manhã em que cessa a longa chuva, é radiante a luz do sol no shoji. 1147. A manhã em que penso nas crianças que, de coração apertado, estão no auge da estação do inverno que se aproxima. 1148. O miado do gato ecoa no silêncio da noite; incomoda os ouvidos de quem lê no outono. 1149. Não há dia em que eu não veja no jornal artigos sobre o cansaço das vilas rurais; meu peito pesa. (Era Showa 9 — 1934, 26 de outubro). Contemplando a Mim Mesmo 1150. Alegrias maiores que as dos outros, tristezas maiores que as dos outros; será este o meu destino? 1151. Descubro em mim um eu que ouve as palavras de quem me calunia como se fossem assunto alheio. 1152. É triste ver quem pense que, mentindo, se atravessa facilmente este mundo. 1153. Viver alegremente neste mundo em que dominam os corruptos; não será grande esta felicidade? 1154. Nestes dias, houve alguém que passou, acampado em meu peito: uma pessoa querida. 1155. Quando digo que as cirurgias e coisas afins são o auge da barbárie, aquele intelectual franze a testa. 1156. Reprimindo a raiva, o fogo do segundo charuto se acendeu sem que eu percebesse. 1157. A frustração de não conseguir ordenar os pensamentos; quem está diante de mim me observa. (Era Showa 9 — 1934, 26 de outubro). Corvos do Crepúsculo 1158. Na luz do crepúsculo passam os corvos em bandos; encerra-se o dia. (Era Showa 9 — 1934, 10 de novembro). 1159. Estou na claridade do coração que pensa naqueles que me servem com todo o empenho. (Era Showa 9 — 1934, 10 de novembro). Vendaval de Outono 1160. Os corvos em bando, soprados e soprados pelo vento de outono, desapareceram no céu da tarde. (Era Showa 9 — 1934, 10 de dezembro). Noite Fria 1161. A carta que escrevo ainda não termina; a noite avança, e o calor do braseiro está a ponto de findar. (Era Showa 9 — 1934, 16 de dezembro). Sonho 1162. O desejo que julguei fantasia, eis que se manifesta em forma verdadeira; há muito abraço este sonho. (Era Showa 9 — 1934, 16 de dezembro). Primavera Ainda Não Chegou 1163. O salgueiro seco de inverno não se agita; na margem do fosso, só os automóveis vão e vêm, em vão. 1164. As folhas do nandim, queimadas pela geada, passaram a ser uma das coisas que iluminam o jardim de inverno. 1165. O som do tambor do primeiro dia do cavalo chega-me em fragmentos, misturado ao vento invernal. 1166. Comprei um vaso de ume vermelho e coloquei-o na borda da varanda; sob o sol que incide, insinua-se a primavera. 1167. De onde terá vindo? Um corvo surgiu e passou, sem pousar em lugar algum. 1168. O musgo nos galhos do pinheiro arranjado no tokonoma faz lembrar as trilhas das montanhas profundas; que tarde silenciosa. (Era Showa 10 — 1935, 10 de janeiro). Eu 1169. Como tudo muda depressa! Meu destino — em menos de um mês, veio a ser assim. 1170. Ainda existirá a fraqueza de não poder dizer o que penso? Hesito em falar com aquele subordinado. 1171. Salvo, contemplo o perfil dele que se alegra; algo me aperta o peito. 1172. Como é lastimável a figura dele, a falar da extração em minas de ouro. 1173. Que agradável o calor dentro do futon; a três shaku de distância, brilha a luz da manhã. 1174. Teu hábito de não dizer que o branco é branco; não te sentirás solitário? Teu coração está sempre... 1175. Cercado de pessoas com quem não posso abrir o coração, nas noites de inverno estou no aconchego de conversarmos juntos. (Era Showa 10 — 1935, 10 de janeiro). Caminho do Homem 1176. Quando se pisa o Caminho do Homem, é fácil; se não é fácil, é porque não se pisa o Caminho do Homem. (Era Showa 10 — 1935, 10 de janeiro). Lua de Inverno 1177. No fundo do grande céu, nítida, brilha a lua de inverno; vários fios elétricos reluzem de geada. 1178. Negro como um espectro, sob o céu da lua fria, ergue-se um grande edifício. 1179. Era uma noite em que o vento uivava ao passar; branca, a lua fria; negro, o Monte Ouchi. 1180. Será assim também o fundo do oceano? A luz da lua flutua sobre a floresta seca de inverno. 1181. O que se vê como um disco de prata serão as colinas de geada? A lua ilumina agora Musashino. 1182. Tingidas de uma cor opaca, sob a luz da lua das noites de inverno, dormem as cidades. (Era Showa 10 — 1935, 10 de fevereiro). 1183. Tinha ele o hábito de falar com os ombros tensos; agora, aquele homem é como uma mulher. Primavera Chega 1184. Será que a primavera começa primeiro no coração das pessoas? Sopra, no entanto, o mesmo vento frio de ontem. (Era Showa 10 — 1935, 10 de fevereiro). Mulher 1185. Mulher, por mais que te embelezes com a maquiagem, não te sentirás solitária se te faltar o sorriso? 1186. O sorriso é a vida da mulher — assim pensei sempre, ao encontrar uma mulher. 1187. Havia uma mulher, jovem e bela, que voltou para o interior — o que terá sido feito dela agora? 1188. Tinha o hábito de olhar as pessoas de soslaio; será esse o tipo de mulher que se perde a si mesma? (Era Showa 10 — 1935, 18 de fevereiro). Depois da Chuva 1189. O verde renovado, realçado pela chuva, brilha, molhado, nas encostas do vale. 1190. Sob os raios radiantes do sol, a planície de grama, depois da chuva, ferve num verde límpido. 1191. As pontas das gramas, ainda carregadas de orvalho, brilham; os sulcos da terra depois da chuva continuam a murmurar. 1192. Oh, como é familiar o verde-claro das folhas novas do salgueiro, pendendo sobre o lago numa manhã tranquila! 1193. É dia de chuva fina e constante; ao abrir a janela, chega suave o perfume do jasmim-do-imperador. 1194. Era um dia em que vinham muitos visitantes, queixando-se da chuva que não parava; as cerejeiras começavam a florescer. 1195. Lembrando com saudade as luzes que se embaçam no crepúsculo chuvoso e nebuloso, sigo pela cidade em primavera. 1196. Enquanto observo as gotas trêmulas nos fios elétricos, também me entedio nestes dias de chuva de primavera. (Era Showa 10 — 1935, 11 de março). Água de Primavera 1197. O pescador, fitando a boia, não se move; o pequeno rio de primavera, como se nem corresse. (Era Showa 10 — 1935, 16 de março). Luz Radiante 1198. O espírito da palavra de quem habita na luz radiante tem ressonância muito agradável. (Era Showa 10 — 1935, 25 de março). Poemas do Cotidiano (I) 1199. Cada pensamento avança; e é nessa alegria que eu vivo. 1200. Era da minha natureza gostar da agitação; houve quem me elogiasse por isso. 1201. Não que seja amor, mas há uma mulher que desejo ver mais uma vez. 1202. Há pessoas que vêm alegres, dizendo terem sido salvas por mim; meu mundo é luminoso. 1203. Foram-se todos os visitantes; num momento de sossego, também é prazeroso o hábito de fumar um cigarro. 1204. De vez em quando, distraio-me com o bonsai de maçã-de-sapé, de bela ramagem, e trato dele. 1205. No tokonoma, vejo a cerejeira e a kerria arranjadas; ao menos, sinto saudade da primavera. 1206. Colheram e trouxeram-me brotos de yomena e cavalinha; com o aroma do campo e verdadeira fartura, desfruto o jantar. (Era Showa 10 — 1935, 10 de abril). Ele 1207. Acho sempre graça naquele homem que, mesmo tendo esposa, se faz de imortal. 1208. Embora fizesse beicinho por qualquer coisinha, era alguém que eu não conseguia odiar. 1209. Diante da serenidade do rosto dele, que me enfrenta, esmagaram-se as coisas que eu ia dizer. 1210. De uma forma ou de outra, este mundo é luminoso; vejo o semblante satisfeito de cada um ao meu redor. 1211. Neste mundo de hoje, haverá outro lugar onde pessoas assim se reúnam tanto? (Era Showa 10 — 1935, 10 de abril). Nova Residência 1212. Recém-mudado, ainda não me habituei ao quarto; mesmo assim, sinto prazer em examiná-lo por toda parte. 1213. Quando há visitas, lamento a passagem do tempo; quando não há, sinto uma solidão oculta — será este o coração humano? 1214. Há muitas coisas a fazer — manuscritos, pinturas; vindo para esta casa, hei de realizá-las. 1215. Examinando o quarto da modesta nova residência, lembro-me da juventude, quando montei a primeira casa. 1216. Até alugar uma casa inteira é fácil para mim, que levo vida tão simples. (Era Showa 10 — 1935, 10 de abril). 1217. Aluguei uma casa modesta; para me dedicar à pintura e à poesia, mudei-me hoje. (Era Showa 10 — 1935, 12 de abril). Novos Brotos 1218. Brilham, molhados de orvalho, os novos brotos de todas as árvores; como é revigorante o passeio matinal! (Era Showa 10 — 1935, 12 de abril). Sol de Primavera 1219. No fundo da névoa arroxeada, a montanha de cerejeiras, recebendo o sol opaco, permanece imóvel. (Era Showa 10 — 1935, 16 de abril). Céu de Junho 1220. No terraço da loja de departamentos, ergo os olhos para o céu de junho; que refrescante, a brisa. 1221. Os ramos do salgueiro-verde na margem do fosso não se movem; longos, pendentes, refletem-se no céu. 1222. Como é raro o perfume da grama verde! Nestes dias, eu, morador da capital, saí para o campo. 1223. Que agradável, a brisa perfumada! Ao sair de manhã, vívidos estão os plátanos da rua. 1224. Neste entardecer não faz calor; de roupa de sarja, vagueei pela margem do fosso. (Era Showa 10 — 1935, 15 de junho). Poemas do Cotidiano (II) 1225. O dia inteiro, um único cartão-postal rompeu não sei que inquietação do coração. 1226. Fitando o rosto dele, que tenta esquivar-se com palavras, entristeci-me. 1227. Comprei uma cadeira de vime nova e, como criança, sentei-me nela várias vezes. 1228. De vez em quando penso: "Quem dera ter dezenas de bilhões de ouro!"; que engraçado de minha parte. 1229. A preocupação de fazer com que todos os que vêm voltem satisfeitos; que solidão a minha. 1230. Com a sensação de que a alegria está prestes a chegar, o coração saltita — e mais um dia passa. (Era Showa 10 — 1935, 15 de junho). Rio Tama 1231. A corrente do Rio Tama é branca; as colinas de verde novo, infinitas, unem-se ao céu. 1232. As cravinas-dos-rios, entre as pedras, tremendo ao vento incerto, são belas de ver. 1233. A sombra da ponte, longa e ampla; o vento de junho sobre o Rio Tama é um tanto quente. 1234. Rio Tama! Vários gabiões, molhados, brilham; o vento de junho sopra sobre as águas. 1235. Dois pescadores, com varas ao ombro, cruzam-se; a correnteza do rio sob a chuva é rápida. 1236. Minha esposa diz: "Quem dera construir uma casa no alto da colina que se estende logo abaixo do Rio Tama e morar lá." 1237. Os juncos novos crescem viçosos; na margem do pequeno pântano de águas límpidas, paro por um instante. 1238. Entre os campos verdes do início do verão, destaca-se a melancolia dos cebolinhos murchos. 1239. Parado na ponte, olho o rio lá embaixo; em suas águas de um azul profundo, será que os ayus dançam? (Era Showa 10 — 1935, 18 de julho). "Montanhas e Águas" — Total de 1239 poemas registrados.

💬 Contribua com a tradução

Encontrou algo estranho ou que pode ser melhorado? Selecione o trecho no texto (ou escreva abaixo) e envie sua observação. A equipe Goshinsho analisará cada indicação. Para enviar, será necessário fazer login.