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Coleção Jikan Volume 7 Cristo, Buda e a Fé Kannon

1949-10-25

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Cristo, Buda e a Fé Kannon Série Jikan, Volume 7: "Cristianismo, Budismo e a Religião de Kannon" – Publicado em 25 de outubro de 1949 (Showa 24) Prefácio Antes de tudo, é sabido de todos que toda cultura avançou e se desenvolveu até os dias de hoje repetindo destruição e construção. É fato, igualmente, que a destruição e a construção comportam inúmeras variações – grandes, médias e pequenas. A construção do Paraíso Terrestre, que sempre proclamamos, é a maior criação e pode ser tida como obra-prima sem precedentes. Para erguer, porém, esse mundo de sonho chamado Paraíso Terrestre, é evidente que se faz necessário examinar também os alicerces laboriosamente assentados até aqui. Cabe então perguntar: quais são esses alicerces? Sem dúvida, ninguém há de discordar de que correspondem às duas grandes religiões hoje existentes, o Cristianismo e o Budismo. Expor em detalhe essas duas grandes religiões, contudo, seria matéria diversa e volumosa em excesso; e, ainda que se levasse a cabo, apenas fatigaria a mente do leitor, sem ser necessariamente essencial. Por isso este livro foi escrito da forma mais resumida possível, apenas para dar uma noção de conjunto, e pede-se ao leitor que o leia tendo em vista tal intenção. Observando a nossa Igreja à luz dessas duas grandes religiões, o Cristianismo e o Budismo, será possível compreender o importante significado de nossa Igreja e da época, e descobrir o seu verdadeiro valor. Jikan, com respeito Cristianismo, Budismo e a Religião de Kannon – Departamento de Compilação da Organização Kannon I. Introdução Embora a nossa Organização Kannon tenha surgido há pouco tempo, o número de fiéis já ultrapassa cem mil e não apenas continua a crescer cada vez mais, como também os empreendimentos religiosos concebidos para a realização de seu ideal entram pouco a pouco em fase de progresso e desenvolvimento. Isso ocorre porque tal fato corresponde às necessidades inevitáveis do mundo. As pessoas em geral tendem muitas vezes a elogiar as religiões estabelecidas quase sem crítica e, sem examinar minimamente as novas, a desprezá-las de modo geral. É algo verdadeiramente lamentável. II. A Origem do Cristianismo e seu Conceito Fundamental Acredita-se que a humanidade tenha surgido neste planeta há cerca de trezentos a quatrocentos mil anos, no início do que a geologia chama de "era aluvial". De época tão remota, é claro, não há registros escritos: só podemos inferir algo a partir dos artefatos e fósseis deixados pela humanidade. Torna-se impossível, portanto, estudar as questões de pensamento das pessoas desse tempo – a era pré-histórica. A era dos registros escritos, ou seja, a era histórica, começou há cerca de quatro a cinco mil anos; e mesmo então a civilização apenas despontava em regiões limitadas da Terra – a bacia do rio Nilo, no Egito; a região dos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia; a bacia do rio Indo, na Índia; e a bacia do rio Amarelo, na China. Em suma, os lugares onde a civilização surgiu cedo foram o continente asiático e o canto nordeste do continente africano. Entre eles, a civilização chinesa da Ásia e a civilização indiana comunicaram-se por meio do Budismo, enquanto as regiões do Egito e da Mesopotâmia mantiveram desde cedo intercâmbios culturais e políticos. Já a faixa que vai da Fenícia e da Palestina, na costa leste do Mediterrâneo, até a Ásia Menor e a região do Irã formou uma única esfera cultural, mais tarde unificada e dominada politicamente. Essa área cultural, situada a leste da Europa, recebeu o nome de Oriente – o lugar onde o sol nasce. O Egito, país que tinha na agricultura a sua vida, adorava como Deus Supremo o deus sol Rá (Amon), e o rei era tido como filho dessa divindade. Além de Rá, havia muitos outros deuses, e até os animais eram considerados deuses. Uma característica era o grande interesse pela vida depois da morte. A Mesopotâmia guardava muitas semelhanças com o Egito: praticava-se ali o chamado politeísmo e, mais tarde, tornou-se popular a astrologia, segundo a qual o movimento dos corpos celestes influenciava o destino humano. Os hebreus, que viviam nas cercanias do Mediterrâneo, sustentavam com firmeza o monoteísmo de Javé (Jeová) num mundo que cria em muitos deuses. Esse deus era, na origem, um deus da natureza que se supunha habitar o Monte Sinai; mas, em consequência da perseguição que os egípcios lhes moveram, depois que Moisés os conduziu para fora do Egito e eles se estabeleceram em Canaã (mais tarde a terra de Israel e Judá), firmou-se a fé nele como o Deus único. Moisés edificou, assim, uma nação – a dos hebreus, que a si mesmos se chamavam Israel –, tendo por núcleo a fé no deus Javé, e foi aí que o pensamento monoteísta se estabeleceu. Por volta do século II a.C., os hebreus constituíram-se em monarquia e fixaram por algum tempo a capital em Jerusalém; morto o rei Salomão, porém, dividiram-se em Israel, ao norte, e Judá, ao sul, e entraram em conflito. Israel, no entanto, foi destruído pela Assíria (722 a.C.), e Judá, pela Babilônia (586 a.C.). Mais tarde, quando a Pérsia destruiu a Babilônia, os judeus foram autorizados a reconstruir o Templo de Javé em sua pátria, Israel, e assim nasceu o Judaísmo. Os persas, diferentemente dos povos do Oriente, criam num deus da luz. Seguiam uma religião dualista, que reconhecia a oposição entre dois deuses: Ahura Mazda, o criador do bem, e Arimã, o criador das trevas e do mal. Como tinham o fogo por sagrado em seus rituais, eram também chamados adoradores do fogo. Acreditava-se que, no momento do Juízo Final, os que se aliassem a Ahura Mazda iriam para o paraíso. Pensa-se que essas duas ideias influenciaram o Judaísmo, dando nele origem aos anjos, aos demônios e ao Juízo Final. O Judaísmo foi também abalado por aqueles que se enamoraram, por certo tempo, da cultura grega. Contra isso, porém, ergueu-se uma reação nacionalista, da qual nasceram os chamados fariseus, que valorizavam leis e regulamentos minuciosos sobre as práticas religiosas e a vida cotidiana; e a religião acabou se tornando uma fé formal e ritualística. Foi nessa época que apareceu Jesus Cristo. Foi assim que o Antigo Testamento, legado pelos judeus, veio a formar com o Novo Testamento, à medida que o Cristianismo se propagava, os dois grandes cânones dessa religião, servindo por longo tempo de alimento espiritual aos europeus. Percorrido esse caminho com o olhar, torna-se clara por si mesma a razão de aí figurarem, de modo confuso, a história da criação do céu, da terra e do homem por Javé, a história do Grande Dilúvio, os Dez Mandamentos de Moisés, bem como registros históricos e as palavras dos profetas. Em seus começos, o Cristianismo era uma religião pessimista, ou de negação da realidade. Era uma religião que se afastava do mundo presente e buscava dele libertar-se, que transcendia a realidade e mirava diretamente o Paraíso futuro. Percebe-se isso no fato de que a visão da vida no Cristianismo tem sua base na chamada visão do pecado. A visão do pecado, sem dúvida, vê a vida como cheia de pecado, e "a vida é pecado" foi o pensamento mais enfatizado pelo apóstolo Paulo. Esse pensamento, ademais, foi levado ao extremo por Santo Agostinho e, desde então, tornou-se o conceito fundamental do Cristianismo. Segundo sua fé, a natureza humana não possui absolutamente nenhuma qualidade boa que permita ao homem ser salvo por Deus com os próprios esforços. Se não depender da graça especial de Deus, o homem está destinado a cair no pecado. Dizer que o pecado de Adão se transmite por toda a eternidade aos descendentes da humanidade é maneira simbólica de afirmar que a natureza humana é o pecado. O homem, assim, é total e completamente incapaz e impotente. Não tem absolutamente nenhum poder para salvar a si mesmo. Só pela consideração especial de Deus, diz-se, lhe é dado entrar no Paraíso. Entende-se, portanto, por que a confissão e a oração são tão importantes no Cristianismo. Sustenta o Cristianismo, dessa forma, a visão da natureza humana como pecaminosa; quanto à origem desse pecado, porém, muitos estudiosos já pensaram de várias maneiras, sem que se chegasse ainda a uma teoria definitiva. Inegável é, no entanto, que o ensinamento do apóstolo Paulo se converteu no mistério do Cristianismo. Em particular, é claro que a posição dualista da contradição entre espírito e carne germinou nos ensinamentos de Paulo, para depois receber de Agostinho sua forma definitiva. Esse dualismo da contradição entre espírito e carne funda-se na convicção de que a alma e o corpo não são de modo algum compatíveis, e de que o corpo obstrui e destrói as belas e boas atividades do espírito; daí adotar a visão de que somente com a eliminação do corpo o espírito pode manifestar-se. Levada ao extremo, tal posição também haveria naturalmente de gerar aquele extremo ascetismo. Por isso, no Cristianismo primitivo, os desejos naturais do homem e a vida natural das necessidades do corpo eram tidos como pecados gravíssimos. E, para reprimir ao máximo esses desejos naturais e preparar-se para entrar na vida espiritual futura, valorizava-se a vida mais simples e pura: a vida monástica e ascética, afastada da vida real, era considerada o ideal supremo dos santos. III. O Desenvolvimento do Cristianismo e a Transformação da Qualificação Divina A tradição do Cristianismo, conforme se descreveu acima, é o ascetismo pessimista. No entanto, muito se diverge quanto ao espírito fundamental de sua doutrina. Mas é apropriado tomar por fundamento dela o ensinamento de Jesus, isto é, o espírito de amor fraternal. Jesus ensinou que o Deus único da religião hebraica — até então reconhecido principalmente como Deus de justiça e Deus severo — era um Deus de "amor e graça". Transformou por completo, em outras palavras, o caráter de Deus, com o ensinamento de que Deus é amor. Isso é algo que merece grande atenção. Os ensinamentos de amor de Cristo, ou seja, o espírito de amor fraternal, exerceram influência verdadeiramente imensa sobre o coração dos europeus. Não se houvesse desenvolvido o Cristianismo, jamais teria a civilização europeia alcançado o esplendor que hoje ostenta. Costuma-se dizer que o Cristianismo invadiu a Europa; melhor seria ver que foi a Europa de então que o absorveu e acolheu. O pensamento grego, que respeitava a vida natural e tinha uma tendência otimista, espalhava-se naquele tempo com toda a sua força pela Europa. Causa certa estranheza, em particular, que o Cristianismo pessimista e avesso ao mundo se tenha propagado dentro do Império Romano, que unificava o mundo inteiro e erguia um grande império, mostrando força ascendente como a do sol nascente. Na verdade, porém, havia uma razão muito natural para isso. Antes do aparecimento de Cristo, o pensamento grego, à medida que o Paraíso declinava, já se achava extremamente enfraquecido, e não era mais possível recordar sua antiga glória. Originalmente realista e otimista, esse pensamento perdera seu grande poder espiritual; a dúvida quanto à vida real agravava-se cada vez mais, até converter-se em aversão, e uma tendência pessimista impregnava o coração de todo o povo. Por outro lado, a religião grega era um politeísmo que tinha Zeus por Deus Supremo. Acreditava-se que esses deuses habitavam o Monte Olimpo, tinham a mesma forma que os humanos e com eles partilhavam alegrias, tristezas, prazeres e raivas. Não havia, porém, escrituras fixas como no Cristianismo, nem especialistas religiosos, e as pessoas podiam interpretar os deuses livremente. Dessa vida religiosa peculiar aos gregos nasceu a mitologia grega, de valor literário. Na Grécia, os deuses eram a fonte da literatura e o templo das artes; por isso, os poetas surgiram em abundância. Legaram à posteridade muitas obras-primas, a começar pelos poemas épicos de Homero, como a "Ilíada" e a "Odisseia", considerados os maiores poemas da humanidade. Note-se, ainda, que conceber os deuses em forma humana e reconhecer valor e beleza no corpo humano foi a causa de se terem tornado obras-primas incomparáveis as esculturas gregas. Tal pensamento, que exalta a realidade e dela se embriaga, não pode evitar cair, por vezes, na tristeza do outono e da solidão. Exemplo muito bom disso é o fato de Shakyamuni, mesmo no palácio das três estações que seu pai real lhe proporcionou e entre centenas de belas cortesãs, ter sentido cada vez mais a impermanência do mundo e a transitoriedade da vida. Foi por essa razão que, à época do aparecimento de Cristo, os gregos nutriam aversão pela vida real e, ao mesmo tempo, uma tendência pessimista e uma inclinação ao pensamento de aversão ao mundo cobriam o país inteiro. Por outro lado, o Império Romano, a despeito de sua beleza exterior, estava por dentro maduro demais e no auge da corrupção, num estado de "prazer extremo seguido de muita tristeza". Essa angústia dos cidadãos romanos, somada ao descontentamento dos escravos que eles oprimiam, converteu a grande cidade de Roma num campo de batalha de gritos e lamentos. Começou então a surgir, primeiro entre os sábios e pensadores, um clima pessimista: uns pregavam que a vida era sonho e ilusão, ou apenas uma bolha; outros ensinavam a apegar-se ao poder de Deus. Nesse ponto, pode-se dizer que estavam completas todas as condições para que o Cristianismo fosse bem-vindo. Pode-se considerar que o Cristianismo foi realmente absorvido pela Europa, guiado por essa tendência natural. Como se mencionou anteriormente, o pensamento grego que então preenchia e percorria a Europa era completamente diferente do pensamento cristão. Enquanto o helenismo tinha por objetivo principal abrir e desenvolver o conhecimento, o Cristianismo rejeitava estudiosos e sábios. E amava as pessoas de coração puro como crianças. Além disso, pregando o amor fraternal, lubrificou os sentimentos dos europeus, que eram adeptos da lei da selva. Ao clamar pela igualdade humana, pôs gelo no coração do governo romano; ao promover a fraternidade universal, surpreendeu o sonho dos que defendiam o nacionalismo. Aproximou-se assim intimamente da alma de toda a humanidade e obteve resultados notáveis na reforma do espírito. E, por fim, há que dizer: foi uma realização verdadeiramente grandiosa ter trazido a civilização europeia de hoje. No entanto, por outro lado, também é fato que o Cristianismo, ao entrar em contato com o pensamento europeu, foi refinado, harmonizado e se tornou europeu — e crê-se que também aí residia a razão do desenvolvimento do Cristianismo. Como se mencionou anteriormente, o Cristianismo purificou os sentimentos das pessoas e contribuiu imensamente para a cultura e a civilização do mundo. Cumpre apontar, no entanto, que seu conteúdo ideológico possui várias falhas que devem ser criticadas. Entre elas, das mais notáveis é o dualismo da contradição entre espírito e carne, que adquiriu forma definitiva com Paulo e Agostinho. Conforme já se mencionou, no Cristianismo acredita-se que a concupiscência e o espírito são absolutamente incompatíveis, e que, a menos que a natureza carnal seja eliminada, a vida será eternamente sombria. Pregava-se que somente pela eliminação da natureza carnal poderia o espírito manifestar-se. Dessa visão da natureza carnal como pecado nasce o pessimismo, que se torna ainda mais irrealista. No entanto, curiosamente, tal pensamento e tal ideologia se convertem em excelente agente harmonizador para o mundo do materialismo absoluto e para os que se apegam apenas à realidade. Parece manifestar-se aqui também outra razão pela qual o Cristianismo mostrou um poder de propagação notável em Roma e em toda a Europa. No entanto, tais ensinamentos extremos são, em última análise, um remédio, e nunca um alimento diário. "A quem te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e a quem te tirar a capa, não negues também a túnica." (Lucas 6:29) "Qualquer que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela." (Mateus 5:28) "Se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e lança-o de ti; e se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e lança-a de ti." (Mateus 5:29-30) Aplicar tais ensinamentos na vida cotidiana parece quase impossível. Têm eles, certamente, um efeito neutralizante contra o hedonismo extremo e a lei da selva. Na prática, no entanto, exigir de todos um ensinamento impossível de ser praticado torna o fracasso inevitável. Foi por essa razão que o Cristianismo mudou seu conteúdo ideológico, assumindo uma atitude conciliatória no mundo. Dessa forma, o Cristianismo progrediu e se desenvolveu, duplicando seu poder de propagação e influenciando amplamente o mundo. A seguir, sobre a doutrina do pecado humano: quanto à origem do pecado, há uma infinidade de debates, antigos e modernos, orientais e ocidentais, e ainda não há uma teoria definitiva. Este é um grande ponto fraco que reside no conceito fundamental do Cristianismo, não importa como se tente justificá-lo. Se o próprio ser humano, que Deus criou à sua própria imagem, fosse a personificação do pecado, não haveria como interpretar isso. "E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou." (Gênesis 1:27-28) Apesar de ter essa dificuldade em sua base, o fato de o ensinamento do "homem criado por Deus" ter feito a humanidade tomar consciência da dignidade do "ser humano" e despertado o desejo de aprimoramento, promovendo o desenvolvimento da cultura mundial, é uma prova de que a religião está exercendo plenamente seu poder sutil, e nisso há muito que aprender. Além disso, quanto ao sentimentalismo do Cristianismo, ele desempenhou o papel de chuva benéfica no mundo do materialismo absoluto e da lei da selva, e no mundo da ênfase excessiva no conhecimento e do debate interminável, elevando os sentimentos. Seu ensinamento de transformação da alma, por sua vez, despertou a consciência de possuir uma natureza divina na vida animal, hedonista e embriagada pela realidade, contribuindo enormemente para o aprimoramento da personalidade e a elevação da cultura. Como já foi dito, também aqui podemos perceber a sutileza de duas coisas de naturezas diferentes influenciarem-se mutuamente. Compreender plenamente essa função sutil da religião e buscar a felicidade da humanidade e o progresso do mundo — nisso, ao que parece, está a missão dos governantes e dos sábios. O que normalmente mais chama a atenção do público em geral, no Cristianismo, são os milagres de Jesus Cristo. Os milagres de Jesus Cristo, mesmo só os registrados na Bíblia, são muito numerosos, mas todos são incompreensíveis para a mente dos materialistas. "E eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero, sê limpo. E logo ficou limpa a sua lepra." (Mateus 8:2-3) "E, entrando Jesus em Cafarnaum, chegou junto dele um centurião, rogando-lhe, E dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, e violentamente atormentado. E Jesus lhe disse: Eu irei, e curarei... E naquela hora o criado sarou." (Mateus 8:5-7, 13) "E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada e com febre. E tocou-lhe a mão, e a febre a deixou; e ela levantou-se, e serviu-o." (Mateus 8:14-15) "E, entrando no barco... eis que se levantou no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era coberto pelas ondas... E ele, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar, e seguiu-se uma grande bonança." (Mateus 8:23-26) "Então lhe trouxeram um endemoninhado mudo. E, expulso o demônio, falou o mudo; e a multidão se maravilhou..." (Mateus 9:32-33) Dessa forma, mesmo hoje, quando os fenômenos espirituais podem ser comprovados por experimentos científicos, as pessoas ainda não investigam milagres ou mistérios. Ora, a ciência moderna, embora tenha descoberto o erro do materialismo passado e reconheça o mundo espiritual, ainda não consegue escapar da prisão da ciência material. Deve-se dizer que a natureza humana é difícil de lidar? Com essa natureza humana, há dois mil anos, as pessoas tendem a duvidar dos vários milagres realizados por Jesus Cristo, que sempre foram o centro do debate. Embora seja inútil, aqueles que possuem percepção espiritual devem ter lamentado isso desde cedo. No entanto, deve-se dizer que é encorajador que essa visão míope venha sendo gradualmente corrigida e que hoje se expanda a tendência de dedicar-se ao estudo do espírito. IV. O Cristianismo e Paulo Já tocamos um pouco no assunto de Paulo anteriormente, mas a razão de retomá-lo aqui é que sua existência está ligada ao Cristianismo de modo tão íntimo e inseparável que se diz não ser possível discutir a essência do Cristianismo sem o estudo de Paulo. Paulo era judeu, e seu nome judaico era Saulo. Tinha cidadania romana, o que se acredita resultar da lealdade de seus antepassados ao Império Romano. A cidadania romana era algo difícil de obter na época, e não se pode ignorar o fato de que ele a possuía de nascença, e que sua família estava em Tarso, grande e próspera cidade comercial do mundo da cultura greco-romana — o que trouxe significado notável para sua vida. Mesmo por suas cartas percebe-se que Paulo, feito homem na agitação da cidade, é bastante diferente de Jesus de Nazaré, que cresceu em um ambiente natural de montanhas, florestas e lagos da Galileia. Pelas metáforas de que se servia — a construção, os tribunais, a venda de escravos —, pode-se inferir o quanto o ambiente urbano lhe impregnara a mente. Natural, portanto, que os elementos gregos com que teve contato desde a infância tenham influenciado sua vida interior. Na época, exigia-se dos cidadãos romanos o cumprimento rigoroso dos deveres de observantes da lei judaica, e Paulo não foi exceção. Pelo contrário: foi dos que tanto zelo tinham que consagrou à lei a vida inteira. Estêvão criticou duramente o culto no Templo — questão central do Judaísmo — e a lei que o fundamentava, argumentando que aquele culto já havia perdido seu significado, e apontou que, ao crucificar Jesus de Nazaré, os judeus haviam pisoteado a lei. Para os fariseus, isso deve ter sido como uma facada no coração. Em particular, não podiam tolerar a atitude dos cristãos que reverenciavam Jesus de Nazaré como o Messias (Salvador), considerando-a grave blasfêmia. Ou seja, acreditavam que o Messias prometido viria como rei ou como general coroado de vitória, tal como descrito no Livro de Enoque e cantado nos Salmos de Salomão; um Messias crucificado era algo que certamente não podiam imaginar. E, finalmente, decidiram combater como inimigos os cristãos que proclamavam o Messias, tornando-se Paulo o líder dessa luta. Dessa forma, enquanto ardia a chama da perseguição, Paulo estendeu sua mão perseguidora até Damasco. "E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu; e, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?" Ele perguntou: "Quem és, Senhor?" A resposta foi: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer." Os que o acompanhavam, sem conseguir proferir palavra, ficaram atônitos, em pé; embora não vissem ninguém, ouviram claramente a voz. "E Saulo levantou-se da terra e, abrindo os olhos, não via a ninguém. E, guiando-o pela mão, levaram-no a Damasco. E esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu." (Ver Atos dos Apóstolos) Diz-se que, durante esse acontecimento surpreendente, Paulo reconheceu com nitidez a figura resplandecente de Jesus. Ele mesmo escreveu: "Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é o que resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo." (2 Coríntios) Considera-se que essa foi a orientação divina pela qual o Cristo ressurreto, que está à direita de Deus, o capturou e o fez mudar de rumo, fazendo dele um homem de absoluta submissão a Jesus Cristo, a quem antes resistia e perseguia continuamente. Para ele, isso significava: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim." (Romanos) Paulo, cheio de alegria por "o amor de Cristo nos constrange", parece ter consagrado a vida inteira a proclamar esse fato com entusiasmo quase frenético. Por isso, Paulo confessou: "Em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigos de morte, muitas vezes. Recebi dos judeus cinco vezes quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas; uma vez fui apedrejado; três vezes sofri naufrágio; uma noite e um dia passei no abismo; em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalho e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas exteriores, o que sobre mim pesa cada dia é o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me abrase?" (2 Coríntios) E isso se deu antes de sua prisão em Cesareia e em Roma, demonstrando eloquentemente que nem mesmo tais sofrimentos conseguiram quebrar o coração de ferro de Paulo. Além disso, há a respeito de Paulo algo digno de nota. Quando o cristianismo começou a propagar-se além de fronteiras e povos, surgiram questões como estas: seria o cristianismo um cristianismo dentro do judaísmo, ou algo que a ele se opunha? E ainda: estaria a fé dentro da lei, coexistindo com ela, ou seria uma fé que à lei se opunha? Pedro e João, por exemplo, não tomaram posição clara a respeito. Nesse momento, Paulo defendeu a posição única da fé cristã, esclarecendo que a salvação não vem pela lei, mas somente pela fé em Cristo Jesus. Esse ponto não pode ser esquecido quando se fala de Paulo. Além desse ponto, outro aspecto importante do significado de Paulo é que, contra o misticismo e a piedade panteísta das religiões helenísticas (pan-helênicas), ele manteve firme a crença em um Deus único. Paulo sustenta que Deus é o Criador, ser transcendente que não se pode confundir com o mundo criado. Mesmo na época em que Paulo viveu, a crença em um Deus único nesse sentido não era desconhecida de gregos e romanos, entre outras razões pela propaganda do judaísmo. No entanto, pode-se dizer que predominava ainda, entre o povo em geral, a visão grega de um deus panteísta. O panteísmo que essas pessoas abraçavam tinha por Deus o próprio mundo, que se move dentro de leis belas e ordenadamente determinadas. Também consideravam o Logos a essência que assim ordena o mundo — essência verdadeira e onipresente em todas as coisas, da qual o ser humano traz em si a semente. Portanto, viam a libertação na contemplação e no desenvolvimento desse Logos interior. Em contraste, a visão de Paulo sobre o Deus único criador situava-se em posição inteiramente oposta. Ele via entre o mundo criado e Deus, o Criador, uma relação de dimensões diferentes, que não deveriam ser confundidas. Para Paulo, o mundo não era Deus. Havia uma linha divisória essencial entre Deus e o mundo; ou seja, para Paulo, os acontecimentos do mundo eram antes história. O mundo existe onde atua a santa vontade de Deus, o transcendente. Em outras palavras, o Deus de Paulo era um Deus que "dará a vida eterna aos que, com perseverança em fazer o bem, procuram glória, honra e incorrupção; mas aos que são contenciosos e não obedecem à verdade, mas obedecem à injustiça, dará ira e indignação." (Romanos) Paralelamente a essa visão de Deus criador — Deus justo —, Paulo enfatiza a visão do pecado humano. E, como já foi dito anteriormente, isso se tornou um grande problema fundamental do cristianismo. V. O Nascimento de Buda e o Desenvolvimento do Budismo Ou seja, a relação entre o bramanismo e Buda era extremamente semelhante à que havia entre o judaísmo e Jesus. Também o judaísmo era uma fé ligada aos clãs de sangue dos judeus: religião de caráter racial e exclusivista. O bramanismo, como o judaísmo, por ser religião racial, só podia ser reverenciado por aqueles em cujas veias corria o sangue ariano indiano. Portanto, acreditava-se que não podia ser propagado fora da Índia ariana, e ninguém via necessidade de propagá-lo. VI. A Era do Budismo Shojo Primitivo A era do budismo Shojo primitivo, geograficamente falando, correspondia à região central da Índia propriamente dita, sem ultrapassar a bacia do rio Ganges, onde o budismo surgiu pela primeira vez. Temporalmente, refere-se ao período de cerca de quatrocentos a quinhentos anos após o nascimento de Buda em Kapilavastu e o início de sua pregação — ou seja, a era em que a religião chamada de budismo Shojo pelos budistas posteriores, como budismo da era primitiva, predominava principalmente no interior da Índia. Há também quem se refira a um período de cerca de seiscentos anos, do século V ou IV a.C. ao primeiro século d.C. Cerca de trezentos anos após a morte de Buda, veio a era do famoso rei Ashoka; até então, o alcance da propagação do budismo não havia ultrapassado a bacia do rio Ganges. No entanto, foi na era do rei Ashoka que o budismo conheceu desenvolvimento muito grande. Até então, após a morte de Buda, os monges em geral haviam-se dividido em duas facções, a liberal e a conservadora, que se opunham mutuamente. O budismo Shojo é também chamado de budismo sectário ou budismo monástico. Ou seja, destina-se aos que abandonam o lar e se libertam dos laços do mundo de sofrimento para dedicar-se exclusivamente à prática do budismo. Portanto, seu método de prática busca seguir exaustivamente o próprio método de iluminação que Buda alcançou. A pessoa reflete sobre por que há de ser atormentada, no presente, por vários sofrimentos e dificuldades, investiga-lhes a razão e a causa, e descobre por si mesma o caminho para remover essa causa. E nisso — em buscar descobrir por si mesmo o estado de nirvana — está a característica fundamental do budismo Shojo. Consequentemente, torna-se necessário explicar coisas complicadas como as Quatro Nobres Verdades, a lei dos doze innen ou os Trinta e Sete Fatores da Iluminação. Como resultado de o rei Ashoka ter-se convertido ao budismo e muito se esforçado em sua propagação, o budismo se espalhou dentro e fora da Índia. No entanto, após a queda da dinastia Maurya, no início do primeiro século a.C., em consequência da perseguição movida pela dinastia Shunga, o budismo foi expulso da região central da Índia, seu local de origem. E dali ele desapareceu por completo. E apenas o budismo que havia sido propagado nos pontos sul e norte, para onde o rei Ashoka enviara missionários para pregar, continuou a florescer. Ou seja, o que se espalhou para o sul manteve sua posição por vários séculos, sob a proteção da dinastia Andhra; e o que entrou no norte permaneceu centrado em Gandhara e Caxemira. VII. A Era de Ouro do Budismo Daijo VII. A Era de Ouro do Budismo Daijo O budismo Daijo é uma religião nova, surgida após cerca de seiscentos anos da era do budismo Shojo primitivo e em oposição ao budismo anterior. O nome "Daijo" foi cunhado pelos próprios adeptos dessa nova religião. Geograficamente, esse budismo Daijo nasceu no território dos Yueh-chih, que tinha por centros Cabul e Gandhara, fora da fronteira noroeste da Índia. De lá se espalhou: de um lado, de volta para o sudeste da Índia; de outro, entrou no noroeste da Ásia Central, alcançou, mais a oeste, a Pérsia e, a leste, toda a China, cobrindo assim quase todo o Leste Asiático. O budismo anterior desenvolvera-se principalmente apenas dentro do território indiano. Dessa era em diante, porém, passou a desenvolver-se e a propagar-se principalmente fora das fronteiras da Índia. Ou seja, o budismo "indiano" tornou-se o budismo de "toda a Ásia". No tempo, corresponde ao reinado do rei Kanishka, que surgiu no século II d.C. — e Kanishka era descendente dos Yueh-chih. O chamado budismo Daijo, a nova religião nascida nesse período, fez novos progressos, atingiu seu auge e estendeu-se até os séculos VII e VIII. Esse budismo Daijo é também chamado budismo leigo e, ao contrário do que em geral se pensa, não brotou do budismo Shojo de modo suave e incondicional: já desde o início havia entre os dois um fosso claro. Em primeiro lugar, no budismo Daijo percebe-se que são tratados pensamentos e crenças de que não havia nem sombra no budismo Shojo — o pensamento da "vacuidade de todos os fenômenos", por exemplo, ou os "inúmeros Budas dos três tempos e das dez direções". Em segundo lugar, esse budismo leigo busca alcançar o mesmo estado dos praticantes ascetas enquanto se dedica às ocupações cotidianas e complexas de sustentar a si mesmo, à esposa e aos filhos. Daí, portanto, uma grande diferença de preceitos de prática em relação ao budismo Shojo e monástico, e daí o aparecimento de métodos de prática como as "Seis Perfeições" — todos princípios novos, exclusivos do budismo Daijo. Dessa forma, é perfeitamente natural que várias novidades tenham surgido também nos pequenos rituais religiosos realizados como atividades diárias. No budismo Shojo, por exemplo, quase não se faziam imagens de Buda nem se copiavam escrituras; no budismo Daijo, ao contrário, fazer imagens de Buda e copiar escrituras era tido como a principal ação meritória. Assim, os pensamentos, as crenças, os preceitos de prática e a etiqueta próprios do budismo Daijo foram pregados ou acrescentados à parte, inteiramente separados dos do budismo Shojo e monástico. Portanto, é certo que não se tratava de uma simples revisão comum. Quanto ao motivo direto do surgimento desse budismo Daijo, embora certamente tenha sido pregado por algumas pessoas como um movimento de pensamento voltado à reforma do budismo antigo, por outro lado pode-se pensar que o budismo Daijo, o budismo leigo, nasceu como religião nova ao incorporar tanto a cultura local peculiar que antes existia na região quanto as culturas grega, romana e persa, entre outras, trazidas de outros países. Como se disse acima, foi na era do rei Kanishka, em meados do século II, que esse budismo Daijo, o budismo leigo, floresceu e se popularizou. E, quanto ao fato de a cultura dessa época ter refluído para o interior da Índia, pode-se comprová-lo plenamente tanto por meio de documentos quanto por vestígios arqueológicos. Historicamente, do ponto de vista documental, entre o fim do século II e o século III d.C. surgiu no sul da Índia o Bodhisattva Nagarjuna, a quem se reconhece a difusão do Budismo Daijo: pregou a conhecida doutrina do Caminho do Meio e proclamou a teoria de que "todos os fenômenos são vazios". Antes disso, o Budismo Daijo nascido na região de Gandhara já entrara na China através da Ásia Central. E, dessas duas linhagens, a do sul e a do norte, a do norte é, sem dúvida, a principal. Por volta do século VI da era cristã, contudo, a distribuição do Budismo Daijo por essas duas linhagens, a sulista e a nortista, começou a mudar por completo. Ou seja, o Budismo Daijo da linhagem sulista, que primeiro refluíra para o interior da Índia, foi gradualmente ganhando força e acabou por fazer com que o budismo fosse restaurado na Índia central, outrora devastada — o que, por sua vez, veio a exercer uma influência significativa sobre o Budismo Daijo propagado mais tarde para o norte. A razão disso foi o desenvolvimento do transporte marítimo, que abriu uma rota de comunicação direta entre a Índia e a China. À medida que o tráfego por via marítima se tornava mais frequente, a China, que antes dependia da passagem pela região das Terras Ocidentais, passou a poder incorporar diretamente a cultura budista da Índia. E, daí em diante, a rota de intercâmbio cultural que antes tinha o continente por intermediário foi gradualmente perdendo movimento e se distanciando. Sobretudo depois que a cultura da dinastia Tang se desenvolveu, a situação inverteu-se por completo em relação ao que fora antes, a ponto de a própria cultura da dinastia Tang invadir a região das Terras Ocidentais da China. De modo geral, o Budismo Daijo passou por várias vicissitudes e transformações até desenvolver-se. Observando-se a Índia, a China e o Japão, porém, pode-se considerar que seu período de maturação — o que apresentou a era de ouro — atingiu o auge no século VII da era cristã, que abrange a época do rei Harsha na Índia, a do imperador Gaozong na China, o início do período de unificação de Silla na Coreia e a era Tenpyo no Japão. VIII. Após o Surgimento do Budismo Esotérico Quando o desenvolvimento do Budismo Daijo já atingira o auge e, ultrapassado depressa o período de apogeu, começava a declinar ligeiramente, surgiu aquilo que, resumindo todo o budismo anterior e levando em consideração as crenças do bramanismo externo, foi novamente organizado e também proposto: é o chamado Budismo Esotérico, posterior ao século VII da era cristã. O Budismo Esotérico floresceu depois da restauração do Budismo Daijo na Índia, sucedendo ao budismo que chegara ao seu período de maturação: um budismo novo, de origem puramente indiana. Embora sua época de surgimento seja um pouco posterior, ele nasceu e se desenvolveu, tal como o florescimento do Budismo Daijo em geral, sem relação alguma com o budismo das regiões das Terras Ocidentais ou da China. O Budismo Esotérico puro, que tem por base os dois grandes sutras — o "Mahavairocana" e o "Vajrasekhara" —, foi criado depois do fim do século VII. Acredita-se que seus principais proponentes e autores tenham sido, provavelmente, estudiosos de primeira linha que estavam em Nalanda ou na região de Radha. Esse Budismo Esotérico sintetizou o Budismo Daijo anterior e levou-o um passo adiante; e, embora não se possa atribuir tudo apenas à influência externa, há quem diga que ele floresceu por influência do bramanismo. Esse Budismo Esotérico apresenta um sabor novo, jamais visto nas eras anteriores, e acredita-se que ele resida, aproximadamente, nos pontos seguintes. Primeiramente, no aspecto da organização externa, invoca e convida todos os deuses do mundo, internos e externos. Em segundo lugar, para simbolizar os votos originais e o poder virtuoso dos Budas e Bodhisattvas, passou a manifestar formas incomuns — múltiplas cabeças, múltiplos braços, múltiplas pernas —, bem como transformações que exibem semblantes de comando e ira. Além disso, o Budismo Esotérico deu um passo adiante quanto à construção de estátuas de Buda, à ereção de templos e à cópia de sutras, que eram consideradas no Budismo Daijo as principais boas ações, fazendo delas a base fundamental do ensinamento. Começaram a ser feitos mandalas de várias divindades, a começar pelo grande mandala do sul; e até mesmo nos comentários dos sutras isso foi abreviado, passando a transmitir-se por meio de imagens. Esse ensinamento tornou-se gradualmente próspero desde a época em que os mestres Tripitaka Subhakarasimha e Vajrabodhi vieram sucessivamente para a Índia; e, por volta do início da era Tianbao, quando o mestre Tripitaka Amoghavajra e outros cruzaram novamente para a Índia, parece que tanto a ilha do Ceilão como o continente indiano já haviam expandido consideravelmente sua frente de expansão religiosa. Posteriormente, esse ensinamento continuou a difundir-se amplamente. E, tão logo surgiu na Índia, o Budismo Esotérico foi imediatamente transmitido à China e, de lá, prontamente propagado ao Japão. Desta forma, o único lugar que guardou a tradição antiga com a mais fiel das transmissões — como quem verte a água de um vaso em outro — e que ainda hoje, passados mil anos, mantém fortemente essa transmissão, é apenas o Japão. Várias são as razões do declínio do budismo indiano. Pode ter sido por haver ele perdido a verdadeira essência e caído na superstição. Pode ter contado também o aparecimento, no bramanismo, de um grande renovador como Shankara, que rejeitou os budistas. Além disso, houve, nos séculos XII e XIII, a invasão islâmica da Índia, que perseguiu os budistas e destruiu templos. Assim, o Budismo Esotérico e o budismo geral da Índia transferiram-se para o Butão, o Nepal e o Tibete, ao passo que o Budismo Shojo passou a existir apenas disperso na Birmânia, no Ceilão, no Sião etc. E agora a verdadeira vida do budismo pulsa, ao contrário, apenas neste distante Japão. IX. Uma Breve Visão do Pensamento Budista O budismo parece ser tanto teísta quanto ateu; e também tanto panteísta quanto politeísta. O que os vários sutras ensinam é extremamente diversificado, e não podemos deixar de nos sentir perdidos sobre a qual deles nos ater. É claro, no entanto, que o budismo não reconhece um deus criador no sentido em que o cristianismo o ensina, nem um deus soberano que governe o destino dos seres vivos, nem um deus juiz que julgue o bem e o mal deles. Neste ponto, acredito que se pode traçar uma linha nítida de diferença em relação ao cristianismo. A ideia de que "todos os fenômenos são desprovidos de um eu" é um pensamento firme e inabalável, que percorre todo o budismo. É um fato bem conhecido que debates entre o cristianismo e o budismo ocorreram com frequência no passado, e parece que, em todos eles, as diferenças fundamentais foram discutidas com base no ponto acima. De acordo com o Dr. Takakusu Junjirō, no budismo o ser humano não é criado por Deus, mas cria a si mesmo e, em cooperação com os outros, cria o mundo, pelo poder imortal do carma que nasce de sua própria vontade. O destino humano também não é governado por Deus, mas é autogovernado, aquilo que se chama de "colheita do que se plantou". Além disso, o princípio da retribuição causal, segundo o qual causas boas geram efeitos bons e causas más geram efeitos maus, é uma lei natural, e não um julgamento de Deus. Quanto ao Buda, ele é, em última análise, o resultado do aperfeiçoamento da personalidade: um estágio de personalidade alcançado após uma progressão gradual através de discípulos ouvintes, pratyekabuddhas, arhats e bodhisattvas. Parece que não se reconhece a existência de um ser separado, chamado Buda, além do aperfeiçoamento humano. Segundo o mesmo Dr. Takakusu, no budismo a razão e a sabedoria são coisas inteiramente distintas, vistas como os dois aspectos da atividade humana. A natureza possui leis naturais que lhe são inerentes, e somos forçados a agir sob essas leis. E, no mundo da razão, o ser humano é apenas uma categoria de animal, de forma alguma o senhor da criação. No entanto, agimos no mundo da sabedoria. A sabedoria é o centro do mundo da individualidade, e tampouco o mundo da sabedoria pode agir separado das leis naturais. Contudo, no mundo da sabedoria, temos liberdade. No mundo da razão, não podemos libertar-nos das limitações de tempo, espaço e causalidade. No mundo da sabedoria, porém, podemos transcendê-las, pensar livremente e meditar. Por meio desses pensamentos ou ideias, o ser humano é capaz de transformar em liberdade a falta de liberdade da natureza. É aqui, explica ele, que o ser humano tem a qualificação para ser o senhor da criação. Usando nossa sabedoria como um espelho, projetamos nela a razão. Se projetarmos as plantas, tornamo-nos botânicos; se projetarmos a astronomia, astrônomos; se projetarmos a razão da vida, tornamo-nos uma visão da vida; se projetarmos a razão do universo, uma visão do universo. Dessa forma, todo o mundo da razão é incorporado ao mundo da sabedoria, e o mundo da razão e o mundo da sabedoria tornam-se uma só coisa. A isso se chama "união da razão e da sabedoria" ou "não-dualidade da razão e da sabedoria". Quem atinge este estágio é chamado de posição de Buda, e também é louvado como o Iluminado. Este é o ápice do caminho ascendente, o estágio supremo da atividade intelectual humana. Quando a sabedoria atinge este estágio, entra-se então no caminho descendente, tornando-se uma atividade de compaixão que, com a própria atividade da sabedoria, visa promover a atividade da sabedoria dos outros. Ou seja, entra-se no âmbito da atividade emocional e volitiva. Isso é "iluminar os outros", e diz-se que, sem que a iluminação dos outros a acompanhe, não se pode falar em verdadeira auto-iluminação. O Dr. Inoue Tetsujirō concorda, em linhas gerais, com a tese do Dr. Takakusu, e defende que a ela se devem acrescentar o princípio do não-eu e o princípio da não-alma. Quanto ao "Dharma", tem ele vários significados, incluindo o de realidade ou princípio. Na filosofia do Budismo Daijo, fala-se em "verdadeira forma", "natureza do Dharma", "natureza de Buda", "assim como", "unicidade" e ainda "tal como", mas todos se referem ao "Dharma" como princípio. O Dr. Takakusu diz que princípio é um "meio", mas que, em filosofia, a isso se chama princípio. O "Dharma" como princípio é eterno e infinito, e transcende o tempo e o espaço. Shakyamuni o incorporou e tornou-se Buda. Quer seja um Buda do passado, quer um Buda do futuro, quer qualquer Buda, desde que seja um Buda há de ter necessariamente incorporado este "Dharma" como princípio. Embora como fenômeno humano (homo phaenomenon) sejam diferentes, como realidade humana (homo noumenon) devem ser vistos como um só. O Buda como realidade humana existe também dentro de nós, pessoas comuns. Ou seja, é o "Dharma" como princípio encontrado interiormente. No confucionismo, Confúcio tornou-se um sábio porque incorporou o Caminho; e pode-se considerar que as divindades do xintoísmo são aquelas que praticaram o Caminho de Kamunagara (Vontade Divina). Diz-se que, do ponto de vista filosófico, isso é o mesmo que o Buda ter se tornado Buda. A teoria do Dr. Inoue é mais positiva que a do Dr. Takakusu, mas fica a impressão de que a explicação sobre o chamado "princípio" ainda é insuficiente. E, além disso, como já se mencionou, o pensamento budista é extremamente complexo e diversificado, não sendo tarefa fácil defini-lo. Mesmo na teoria sobre a divindade principal há uma grande variedade: uns têm Shakyamuni como divindade principal, outros Amida, outros ainda Mahavairocana etc. Além disso, há conflitos incessantes em torno de questões de heresia, como os que ocorrem entre as várias universidades de Ryukoku e Otani, e também entre as escolas Jodo e Shinshu. Há até mesmo quem tente explicar o "Buda Inconcebível" do "Shoshin Ge" como se fosse idêntico ao Deus pregado pelo cristianismo. Em suma, o budismo primitivo não reconhecia um objeto de adoração, parecendo situar-se numa posição ateísta. Ou seja, após sua iluminação, Shakyamuni ensinou a seus discípulos: "Eu, através da continuidade causal, libertei-me do mundo do carma que gira e transmigra, e obtive o fruto da iluminação. Se vocês também fizerem o mesmo, obterão o fruto da iluminação." Dessa forma, ensinou o caminho para obter o fruto da iluminação pela prática autossuficiente, fundada na razão e na sabedoria. No entanto, quando os discípulos tentaram obter o fruto da iluminação seguindo esse ensinamento, perceberam que era difícil de praticar. E, gradualmente, tornou-se mais forte a tendência a refugiar-se no Tathagata e a buscar o fruto da iluminação por meio de sua orientação. E, finalmente, a confiança no Shakyamuni humano transformou-se, levando-os a pensar que o Shakyamuni humano era a reencarnação de um Buda primordial do passado. Foi aqui que surgiu a crença no Buda primordial, e acredita-se que esse Buda primordial era tanto Amida Buda quanto Mahavairocana. E, com a crença em Amida, desenvolveu-se a fé no poder do outro, que se deve ter por completa quando veio a ser a escola Jodo e, especialmente, a escola Shinshu. Ou seja, pode-se considerar que o budismo filosófico e autossuficiente se transformou num budismo baseado no poder do outro. Em outras palavras, o budismo que colocava a sabedoria em primeiro lugar e ensinava que a libertação se alcançava por meio dela fez, com o tempo, que o "assim como" se tornasse o Tathagata, o Buda, e também a crença em Amida, culminando finalmente na exaltação do coração de compaixão. E a concretização desse coração de compaixão atingiu seu ápice quando se tornou o Kanzeon-Bosatsu. Entre os muitos Budas e Bodhisattvas, não há nenhum que seja tão amado, respeitado e venerado pelo povo em geral quanto este Kanzeon-Bosatsu. Em nosso país também, através de todas as escolas e seitas budistas, apenas este Bodhisattva é venerado sem distinção, e é também amplamente venerado por pessoas que não são budistas. O fato de o budismo se ter difundido amplamente entre os povos orientais, penetrado no coração das pessoas, tornado-se pensamento oriental e formado a cultura oriental deve-se, em grande parte, a este grande coração de compaixão. O falecido Dr. Maeda Eun dividiu o budismo em duas grandes categorias — filosofia e religião — e afirmou que todas as escolas, exceto a Jodo, não são religião. Isso significa que o budismo se transformou de algo intelectual em algo emocional, e interpreto que ele defendia que a salvação pelo poder do outro, ou seja, a especulação filosófica sem o grande coração de compaixão, não se torna religião. Esteja ou não correta a tese do Dr. Maeda Eun, é um fato incontestável que a grande maioria dos fiéis budistas ama, anseia e deposita sua fé no coração de compaixão de Buda. De qualquer forma, é desnecessário dizer o quanto o budismo contribuiu para a cultura oriental. Não houvesse o florescimento do budismo no Oriente, seria impossível que tanto o pensamento oriental quanto a cultura oriental apresentassem o esplêndido aspecto que hoje têm. Acredito que ninguém discorda disso. X. A Religião do Mestre Okada Jikan O Mestre Okada Jikan vê o universo como um organismo vivo. A essa vida universal ele chama espírito universal e, percebendo nele o amor universal, enfatiza o princípio do amor maior em primeiro lugar — ou seja, o princípio do coração de compaixão em primeiro lugar. O fato de o Mestre depositar fé absoluta no Kanzeon-Bosatsu deve-se a perceber ele que esse Kanzeon-Bosatsu, de grande compaixão, é uma emanação do grande amor universal. E, como tanto o mundo material quanto o mundo espiritual nasceram desse universo, para o Mestre a vida universal é, em si, Deus. Ao mesmo tempo, Deus é também o criador de todas as coisas. Como se mencionou anteriormente, o povo hebreu, de onde se originou o cristianismo, acreditava na existência de um Deus pessoal, único e invisível. E era um povo dotado de capacidade especial para conduzir toda a moral e toda a política com base nessa convicção religiosa. Consequentemente, o Deus Jeová, objeto de fé desse povo, era também um Deus de justiça — justiça no sentido de que cada um recebe a recompensa correspondente às suas ações, boas ou más. Era, pois, um Deus que concedia felicidade aos bons e punia rigorosamente os maus, um Deus de recompensa e castigo certos. Daí parecer que o Deus Jeová era tido como um Deus muito severo. No entanto, quando Jesus surgiu e pregou que Deus é amor, a natureza daquele severo Deus Jeová transformou-se na de um Deus de amor e graça, um Deus de grande coração de compaixão. Além disso, o budismo, que pregava a união da razão e da sabedoria, ou o princípio da sabedoria em primeiro lugar, acabou, pela dificuldade de praticar essa disciplina, transformando-se em anseio de salvação pelo poder do outro e também em crença em Amida, o Buda da compaixão. Em suma, tanto o cristianismo quanto o budismo vieram a ter por base o Deus do grande amor = o Buda da grande compaixão. E esse grande amor = grande compaixão penetrou no coração das pessoas, edificou a civilização e a cultura do Oriente, do Ocidente e do Sul e passou a apresentar a bela paisagem de hoje. Esse grande fato é um ponto importante, que requer reflexão profunda e atenta. Diante dos fatos acima, não podemos deixar de pensar que o amor é o foco da vida firmemente inerente ao ser humano. É precisamente porque o coração de amor lhe é firmemente inerente que sentimos empatia pelo Deus do grande amor ou pelo Buda da grande compaixão, e é aí que nasce uma fé firme e inabalável. Por isso, provavelmente não se voltam os olhos para as dúvidas sobre os princípios filosóficos contidos na Bíblia ou nos textos budistas, nem sobre as circunstâncias de sua origem e desenvolvimento. Considerando, por outro lado, o coração de amor firmemente inerente ao "eu", que é um microcosmo, pode-se saber que a essência da vida universal é o grande amor universal. No entanto, a ciência moderna, por acaso, derrubou o antigo materialismo e descobriu algo que não é matéria — algo inteiramente espiritual, sem massa alguma, algo espiritual, algo puro, a que os cientistas chamam elétron. E confirmou que a relação de atração mútua entre eles é uma forma que percorre com constância desde as grandes organizações, como os corpos celestes, até as pequenas, como a estrutura do cabelo. Os cientistas chamam isso de força de afinidade; o Mestre Okada Jikan, porém, diz perceber aí o amor fundamental do universo, ou seja, o grande amor. Portanto, a visão do universo do Mestre assenta em fundamentos científicos. É extremamente lógica e também filosófica. É aqui que podemos ver, pela primeira vez, o ponto de convergência entre ciência, filosofia e religião. Além disso, o Mestre vê, na estrutura do átomo explicada pela ciência moderna, uma figura de atividade e aperfeiçoamento incessantes, e a toma como a natureza humana. Vê que o ser humano existe para trabalhar e está destinado a progredir, e nisso estabelece sua visão da vida. Desde os tempos antigos, dois métodos têm sido empregados para apreender a realidade fundamental do universo. Um deles a considera uma existência objetiva e afirma que podemos reconhecê-la por meio de uma inspiração especial; exemplo disso é a antiga interpretação do cristianismo, que afirma reconhecer um Deus "Ele" em oposição ao "eu". O outro afirma que a realidade fundamental existe dentro de nossa própria mente e que, se explorarmos a fonte de nós mesmos, poderemos testemunhá-la ali. É a forma de pensar dos chamados místicos, e a ela pertencem, em geral, as doutrinas do Budismo Daijo. Ou seja, no Budismo Daijo a realidade é buscada subjetivamente dentro da própria mente e é interpretada como o vazio do estado sem discriminação, onde todo pensamento e toda distinção são eliminados. No entanto, ambos não diferem no objetivo de reconhecer uma realidade que transcende a percepção. Um e outro, contudo, permanecem presos à teoria psicológica que prevalece no mundo da percepção, acabando por tomar por verdade o isolamento da consciência humana, ou seja, a subjetividade. De um lado, estabelece-se como realidade o "Ele" objetivo, em relação à mente subjetiva; do outro, coloca-se a realidade dentro da mente subjetiva do "eu", e é a partir daí que se a investiga. Para o Mestre Jikan, a essência da consciência é uma realidade universal e igual, que se estende por ambos os mundos, o subjetivo e o objetivo, e é o princípio fundamental que manifesta todos os fenômenos. Essa visão do Mestre está de acordo com a opinião dos pesquisadores psíquicos atuais. Ou seja, não se busca a realidade como um "Ele" objetivo em oposição ao "eu" subjetivo, nem se a busca dentro do "eu" subjetivo; transcendendo as distinções do mundo da percepção — "eu" e "outro", "ele" e "isto" —, desenvolve-se a consciência do universo e do Dharma que abrange sujeito e objeto, ou seja, o espírito universal, e considera-se que nosso eu é uno e não-dual com o universo. Esta é a visão da realidade do Mestre. Portanto, o Mestre rejeita a teoria, comum entre os estudiosos budistas em geral, de que o mundo místico, e os Budas e Bodhisattvas que ali estão, seriam, em última análise, projeções das ideias subjetivas humanas no mundo objetivo. E afirma que os Budas, os Bodhisattvas e também os vários deuses existem objetivamente. Consequentemente, o Kanzeon-Bosatsu, em quem o Mestre Jikan deposita sua fé, é por ele reconhecido como existindo firmemente no mundo espiritual. O difícil problema subjacente ao cristianismo é a solução da pecaminosidade humana; o ponto difícil do budismo é o problema da origem da ignorância. Desde os tempos antigos esses problemas têm sido discutidos de várias maneiras, mas ainda não foram resolvidos. Há estudiosos budistas que propõem uma nova teoria: a de que a ignorância, no budismo, surge do impulso vital, sendo, portanto, resultado inevitável dele; isso, porém, exige em última análise o rompimento dos laços do corpo. Consequentemente, do ponto de vista budista, resulta inevitavelmente na rejeição dos instintos humanos. É um pensamento que percorre o budismo em geral, exceto as escolas Jodo e Shinshu. Nas escolas de salvação pelo poder do outro, como a Jodo Shinshu, tudo se entrega à grande compaixão salvadora de Amida, e acredita-se que basta recitar o Nembutsu. Para o Mestre Jikan, porém, se alguém tomar consciência do grande amor, que é a vida universal, retornar à sua forma original, penetrar por si mesmo no grande amor e levar uma vida de grande ação amorosa, então, ainda que o corpo habite no mundo da percepção, a mente pode comunicar-se com o mundo místico de infinita glória — e é aí que se pode exercer o poder místico, ensina ele. Afirma ainda que, quando se penetra no grande amor, que é a forma original de si mesmo, não há pecado nem ignorância: o corpo e a mente são envolvidos por uma grande luz e, banhando-se no grande amor, resta apenas uma vida de gratidão e êxtase. Portanto, no ensinamento do Mestre Jikan, a meditação sentada e as práticas de extinção das paixões são desnecessárias. Mais ainda, ele rejeita como absurda a ideia de que o eu seja um amontoado de pecados. Pelo contrário, percebe que o eu é algo que fluiu da vida universal, ou seja, do grande amor — em outras palavras, de Deus. Ensina que encher o coração de compaixão e levar uma vida de ações de compaixão é a prática do Bodhisattva, e é o estado de permanência, felicidade, verdadeiro eu e pureza, e que a felicidade virá mesmo sem ser convidada. Consequentemente, para o Mestre, ideias como a do pecado fundamental ou a da ignorância fundamental são apontadas como grande erro. Embora provenha do amor universal, o ser humano, por estar envolto num yutai (corpo astral) ou num corpo físico, fica preso à visão da individualidade e se dedica a protegê-la. E as noções de distinção — "eu" e "outro", "ele" e "isto" — tendem a prevalecer, acabando por manifestar-se como o chamado pecado, que é procurar o próprio benefício ainda que às custas dos outros. Se alguém conhecer a Deus, perceber o grande amor de Deus e perceber que tanto o eu quanto o outro provêm da mesma raiz desse grande amor, tal pecado também se dissipará. Ensina o Mestre que o pecado é, em última análise, apenas um fenômeno no caminho do aperfeiçoamento, e o mesmo vale para a ignorância, que não é uma existência fundamental. Por isso, em seu ensinamento não existem os pontos difíceis fundamentais que o cristianismo e o budismo possuem. XI. A Visão do Mundo Pós-Morte da Religião Kannon O Cristianismo ensina que quem crê em Jesus Cristo, banhado pela graça da salvação mediante a expiação por seu sangue, pode entrar no paraíso após a morte, e que quem não crê nele há de entrar no reino dos mortos. Também no Budismo existe a doutrina do paraíso e do inferno: quem se apega a Buda recebe essa salvação e pode ir ao paraíso; quem não o faz cai no inferno. Até então, tais doutrinas eram tratadas com desdém pelos intelectuais em geral, como teorias absurdas e sem fundamento. Mas, surpreendentemente, o desenvolvimento da ciência espiritual comprovou a existência do mundo pós-morte. Provou-se, ainda, que nele há categorias e estágios — o mundo dos espíritos (yūkai), o mundo espiritual (reikai) e o mundo divino (shinkai) — e que cada um, conforme a pureza ou a impureza dos pensamentos que teve em vida e conforme o bem ou o mal de seus atos, entra depois da morte no estágio correspondente. Ou seja, quem foi extremamente perverso e injusto em vida decai, após a morte, para o mundo das trevas, a camada mais inferior do mundo espiritual (yūkai), e ali sofre intensamente; enquanto seus pensamentos não se tornarem puros e corretos, permanecerá nesse lugar, sem poder evoluir. Por outro lado, inúmeras comunicações confiáveis do mundo espiritual deram a saber que as pessoas de boas ações não passam por esse sofrimento após a morte, e sua evolução é mais fácil. A visão do mundo pós-morte do Mestre Jikan é extremamente concreta (consulte sua obra "Reikai Sōdan" [Conversas sobre o Mundo Espiritual]). Ele afirma, além disso, que no mundo espiritual existem inúmeros espíritos que não é possível conhecer neste mundo fenomênico, ou seja, na Terra onde agora vivemos. Seres como o tengu ou o dragão, por exemplo, tidos em nosso mundo por meras lendas ou produtos da imaginação, existem de fato no mundo espiritual. Isso está de acordo com as teorias dos pesquisadores do mundo espiritual, que denominam esses seres "espíritos da natureza" (shizenrei) e os distinguem dos "espíritos que retornaram" (kiyūrei) — almas que viveram uma vez no mundo material e, após a morte, entraram no mundo espiritual. O Mestre afirma também que, entre os espíritos da natureza, existem espíritos elevados que podem ser chamados de deuses, que devem ser venerados como budas e adorados como bodhisattvas. Fala ainda da existência de espíritos de animais não humanos, e diz que o mundo espiritual (yūkai) é como "um barco onde convivem Wu e Yue" (pessoas de origens diversas). Esses espíritos inferiores frequentemente se apossam dos seres humanos: é a esse fenômeno que se refere o que popularmente se chama de possessão por divindades (kamigakari) ou de médiuns (miko). Entre eles, acrescenta, há alguns que fazem coisas astutas; o espírito da raposa (kitsune) é um dos mais hábeis, e às vezes leva a pessoa possuída a proferir previsões ou profecias simples, ou ainda a manifestar palavras e ações que surpreendem os outros. As pessoas comuns, por vezes iludidas por isso, chamam o possuído de deus, e o próprio possuído, orgulhoso, passa a se autodenominar um grande deus. Existem religiões novas desse tipo, adverte ele. Em suma, cegas para tais fatos, as pessoas comuns confundem o jade com a pedra comum e, ao ouvir falar de uma nova religião, não sabem senão desprezá-la como coisa inferior. O Mestre Jikan não apenas recebe as mensagens espirituais (reigen) de Kanzeon-Bosatsu, a divindade suprema, como também manifesta diversos poderes espirituais milagrosos, a começar pela cura de doenças. Mais ainda: vem manifestando grandes capacidades — pensamentos elevados e sublimes, uma visão artística maravilhosa — que dificilmente outros conseguem acompanhar; e isso é fato notório. XII. Conclusão Assim, como o ser humano dá primazia à percepção, também todas as ciências começam pelo estudo do mundo perceptível. A filosofia da Grécia antiga, que partiu da filosofia natural, é bom exemplo disso: os filósofos naturais daquela era tomavam o mundo perceptível pelo único universo, e a história da filosofia prova que procuraram extrair dele leis mecânicas para, com elas, explicar o universo inteiro. O Doutor em Letras, Sr. Hayashiya Tomojirō, em sua obra "Estudos sobre o Budismo e a História do Budismo", diz o seguinte: "No método de treino espiritual para os que deixam o lar (shukke shugyō-hō), a ênfase principal está em fazer com que, submetendo-se ao treino prescrito, observem a verdadeira forma deste mundo e da vida, e, a partir dessa observação, vejam claramente que todos os cinco agregados são vazios e, para realizar o nirvana nesta vida, não podem obtê-lo sem depender das ações de grande compaixão (daihi-gyō), fazendo com que se deem conta disso por si mesmos... O método de treino espiritual para os que ficam em casa (zaike shugyō-hō), ao contrário, visa fazer com que, no processo de imitar as ações de grande compaixão por meio da prática da caridade (fuse-gyō), naturalmente apreendam a verdadeira forma do mundo e da vida, etc... Diz ainda: Os sutras do Daijo (Mahayana) são, originalmente, direcionados aos que ficam em casa... Aqueles que desejam praticar o treino espiritual pelo Budismo Daijo precisam apenas praticar a caridade. Se assim fizerem, no processo em que a caridade se torna uma ação de grande compaixão, naturalmente obterão a sabedoria da prajna (hannya no chi), e assim, obtendo a sabedoria da prajna, etc..." É extremamente estimulante o ponto em que ele proclama com clareza quão importante é a prática da compaixão (jihi-gyō). E merece atenção o fato de que mesmo a imitação dessa prática seja considerada um innen para se obter a sabedoria do Buda. Diante disso, compreende-se a razão pela qual o Mestre Jikan, agradecendo à grande compaixão de Deus, ensina cada um a retornar ao coração de compaixão, a falar boas palavras e a se esforçar na prática da compaixão. E se o Mestre, enquanto ele próprio avança na construção do Paraíso Terrestre, deseja a participação dos fiéis, é porque conhece perfeitamente a eficácia de se acumular o mérito da prática da compaixão. Série Jikan, Volume 7 Cristianismo, Budismo e a Religião de Kannon Publicado em 25 de outubro do ano 24 da Era Showa (1949) Formato B6, 69 páginas Compilado pelo Departamento de Compilação da Organização Kannon do Japão Editor: Nishiyama Shunnosuke Editor-chefe: Igarashi Kazuo Editora: Nijusseiki Shuppan Insatsu Goshigaisha

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