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Coleção Jikan Volume 4 Histórias de Milagres

1949-10-05

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Coleção Jikan Volume 4 – Histórias de Milagres Prefácio Como sempre digo, a essência da religião está no milagre — a rigor, pode-se dizer que religião é milagre. Pois, por mais profunda que seja a teoria apresentada, se ela não for capaz de curar sequer uma doença, de nada valerá. Há quem critique as graças recebidas nesta vida, mas aí está um grande equívoco. Por mais rude que seja dizê-lo, só posso ver nisso uma teoria criada por religiões que, não possuindo tais graças, buscam desse modo valorizar-se. Quase todos os que se convertem a esta religião o fazem, pode-se dizer, movidos pelas graças recebidas nesta vida; da teoria religiosa que ela prega só tomam conhecimento depois da conversão. Daí que todos queiram saber a razão pela qual esta religião possui tantos milagres. É sobre isso que escreverei aqui, em poucas palavras. Esta religião nasceu há pouco tempo, mas o seu nascimento não foi obra de um plano meu: foi inteiramente o Kanzeon-Bosatsu quem, chegado o tempo, passou a servir-se do meu corpo — que com Ele tem innen — para dar-lhe início. É o Bodhisattva que manifesta através de mim, livre e desimpedidamente, o Poder Kannon, realizando a grande obra de salvação; natural, portanto, que os milagres ocorram. Se for possível crer no que acabo de expor, tudo deverá ser aceito sem sombra de dúvida. Na abertura deste livro publiquei vários relatos de experiências de milagres que eu mesmo vivenciei — experiências que, é claro, contribuíram para que eu próprio adquirisse uma convicção inabalável. Em seguida, selecionei e registrei parte dos inúmeros relatos recebidos dos seguidores. Kanzeon-Bosatsu e Eu Como todos desejam saber do innen entre Kanzeon-Bosatsu e mim, vou expô-lo aqui. Foi em 1919, ano que jamais esquecerei, que passei a ter fé na religião Oomoto. Por certas circunstâncias, porém, houve depois um hiato de quatro ou cinco anos. Cerca de seis meses após retomar a fé, em 1924, veio visitar-me uma pessoa que desejava ouvir falar da religião Oomoto, então em voga. No meio da conversa, essa pessoa — que trabalhava com confecção de mapas —, fitando-me o rosto, perguntou: "A religião Oomoto tem relação com Kannon-Sama?" Respondi: "Não; a religião Oomoto é xintoísta, e Kannon-Sama é um Buda, portanto não há relação." Ao que ela retrucou: "Mas, à sua direita, onde o senhor está sentado, vejo uma imagem de Kannon-Sama em tamanho natural." Isto é: naquele instante, os olhos espirituais dessa pessoa se haviam aberto. Explicarei brevemente o que são os olhos espirituais: há pessoas que, além dos cinco sentidos, possuem percepção e faculdades espirituais, capazes de ver os espíritos do mundo espiritual. Essa pessoa, ao que tudo indica, também as possuía, pois via Kannon-Sama. E prosseguiu: "Quando o senhor se levantou para ir ao banheiro, Kannon-Sama o seguiu; quando o senhor se sentou, Kannon-Sama também se sentou." Interrogada em mais detalhe, acrescentou: "Kannon-Sama está de olhos fechados, e seu rosto e corpo são exatamente como nas pinturas e esculturas." Soube depois que, sempre que essa pessoa pensava em vir à minha casa, "Kannon-Sama aparecia de repente diante de seus olhos" — o que também me pareceu estranho. Até então nunca me ocorrera ter fé em Kannon-Sama; depois do ocorrido, porém, pensei: "Deve haver algum innen entre mim e Kannon-Sama." Daí em diante, sucederam-se fatos misteriosos, um após o outro. Certa vez, um membro da religião Oomoto disse: "Vejo um redemoinho sobre a sua cabeça, e, no centro dele, Kannon-Sama; em suas costas, vejo o caractere 'dez'." Na ocasião não entendi claramente o significado; mais tarde, porém, quando sofri uma grande perseguição por causa da minha fé e caí no fundo da angústia, compreendi: tal como naquela visão, eu fora colocado no centro do redemoinho e tinha uma cruz a carregar. Pouco depois, fui possuído por divindades durante cerca de três meses. Nesse período, várias divindades e budas me possuíram; entre eles, a divindade Izunome, essência de Kannon-Sama, revelou-me a minha missão. Esclareceu diversos innen — entre eles, o de Kannon-Sama servir-se do meu corpo para realizar a grande obra de salvação da humanidade, e o de haver residido pacificamente, há 2.600 anos, na época do advento de Shakyamuni, no Monte Fudaraku, na Índia, como Kanjizai-Bosatsu, concedendo o Caminho da salvação. São assuntos do mais alto interesse, mas pretendo tratá-los quando chegar a hora. Por ora, limito-me a narrar um fato curioso a respeito do Deus Dragão Dourado, divindade guardiã de Kanzeon-Bosatsu. Foi em abril de 1929, ano que jamais esquecerei, quando eu ainda mantinha fé fervorosa na religião Oomoto. Realizava-se em Kameoka, Tanba, o Culto Especial da Primavera, evento anual da religião — creio que no dia 19 de abril. Houve uma cerimônia no Santuário Obata, cujo deus tutelar é o príncipe do Imperador Shomu, situado em Anoo, Sogabe-gun, terra natal do mestre Onisaburo Deguchi, líder da religião. Como ficava a cerca de duas léguas de Kameoka, aluguei um carro para ir à cerimônia; na hora de partir com um amigo de fé chamado "Kami-mori" (algo como um talismã), a esposa do Sr. Watari Shiga — então deputado do partido Seiyukai — acabara de chegar de Saitama e pediu para ir conosco. Pareceu-me boa oportunidade, e a levamos no mesmo carro, que então partiu. Nesse instante, senti algo de misterioso no sobrenome Shiga: "Ah, o Lago Biwa, em Omi, também é chamado de Lago Shiga — daí o nome da província de Shiga." E ocorreu-me que talvez houvesse alguma relação entre o Lago Biwa e a cerimônia daquele dia. Terminada a cerimônia, o Mestre Deguchi seguiu imediatamente de carro rumo ao Lago Biwa. Havia então, à beira do lago, um restaurante famoso cujo nome já esqueci; foi para lá que o Mestre se dirigiu — o proprietário, é claro, era seguidor da religião Oomoto. No dia seguinte, 20, ao partir de volta, o Mestre Deguchi escreveu os caracteres "Doto Oten" (Ondas Enfurecidas Alcançam os Céus), conforme vim a saber mais tarde. E, misteriosamente, no dia 21 uma grande tempestade abateu-se sobre o Lago Biwa, e quarenta e sete barcos de pesca naufragaram — incidente noticiado em todos os jornais da época. Qual foi a razão disso? Segundo a revelação divina, o Deus Dragão Dourado, divindade guardiã de Kanzeon-Bosatsu, jazia oculto no fundo do lago havia milhares de anos; ao ascender aos céus, chegado o tempo, foi avistado de longe pelo Dragão Vermelho (diz-se que o Satanás da Bíblia é um dragão vermelho), que o observava. Sabendo do aparecimento do Deus Dragão Dourado — a quem mais temia —, o Dragão Vermelho acorreu apressadamente para derrubá-lo. Travou-se então nos céus, sobre o lago, uma grande batalha, da qual o Dragão Vermelho saiu por fim derrotado, fugindo para o norte; foi essa luta que se manifestou como a tempestade. Um mês depois, por volta do meio-dia, uma grande tempestade com trovões desabou sobre a minha residência em Ota-ku, Tóquio (então Ōmori Hakkei-en). Desde esse momento, o Deus Dragão Dourado tornou-se meu deus guardião. Três anos depois, na primavera de 1932 — não me recordo do dia exato —, apareceu-me de repente um jovem desconhecido, seguidor da religião Oomoto. Disse-me: "Agora, dentro da religião Oomoto, há um grande problema por sua causa. Dizem que o senhor está fazendo os talismãs e as oferendas mais importantes da religião Oomoto e distribuindo-os aos seguidores. Isso é um grande desrespeito a Deus; é inadmissível que um simples seguidor os faça. Não podemos deixar vivo um herege como o senhor. Portanto, para o bem da organização religiosa Oomoto, vou punir um rebelde contra Deus. Se o senhor não parar, sacrificarei minha própria vida e tirarei a sua." E, dizendo isso, tirou do peito uma adaga e cravou-a no tatame. Ao encará-lo, vi que tinha o rosto e a garganta tingidos de um vermelho que não se vê em pessoas comuns, e os olhos injetados, de brilho intenso. Tive então uma intuição: "Ah, o Dragão Vermelho apossou-se deste jovem e veio para me destruir — finalmente, usando um ser humano, veio decidir a disputa contra o Dragão Dourado." "Não posso perder para Satanás", resolvi, e recusei firmemente o seu pedido. A expressão do jovem mudou no mesmo instante e, quando ia agir, prostrou-se de repente e pôs-se a gemer de agonia. Perguntei-lhe o que havia, e ele respondeu: "Estou com uma dor insuportável na barriga." "Está bem, vou curá-lo; deite-se", disse eu — e, assim que fiz Johrei, ele melhorou imediatamente. Daí em diante, sua atitude mudou por completo, tornou-se calma, e ele me pediu que fôssemos juntos à sede da religião Oomoto, em Kameoka, Quioto, para nos encontrarmos com o Mestre Deguchi. Concordei prontamente, e na manhã seguinte partimos para Kameoka — pois eu lhe dissera que o Mestre Deguchi estava ciente dos talismãs e das oferendas, e ele queria confirmá-lo. Fomos recebidos sem demora pelo Mestre Deguchi, que disse: "Nem eu mesmo posso fazer os talismãs. Só Naohi (esta senhora era a filha mais velha do Mestre Deguchi, e os seguidores a chamavam de Sama de Terceira Geração) tem permissão de Deus para fazê-los; um seguidor comum não pode fazê-los. Mas o Sr. Okada é uma pessoa especial — faça-os, então, de forma que não chamem muita atenção." Diante disso, ao jovem não restou senão calar-se, e o problema ficou resolvido, por ora. Minha Confissão Frequentemente me perguntam: "Imagina-se que o Grão-Mestre deve ter tido uma fé extremamente ardente em Kannon." A suposição já é quase um clichê — provavelmente verdadeira para a maioria dos seguidores, e mais ainda para quem está de fora. No entanto, por surpreendente que pareça, eu não tinha fé alguma em Kannon: apenas simpatizava com a figura bela e plena de Kannon-Sama e com o fato de ser venerada em todas as seitas, sem rigidez nem parcialidade. Como escrevi no início do capítulo anterior, porém, fiquei surpreso ao saber que o espírito de Kannon-Sama estava sempre ao meu lado; foi a partir desse momento que os milagres a ela relacionados começaram a ocorrer. Publicarei esses relatos aos poucos. Ao longo desse caminho, acabei descobrindo que a essência de Kannon-Sama é a divindade Izunome e que, chegado o tempo, o Kanzeon-Bosatsu — encarnado por um período para a salvação — retornará à sua posição divina original. A partir de 1926, Kannon-Sama passou a possuir-me constantemente: ensinava-me muitas coisas, dava-me ordens e dispunha do meu corpo com inteira liberdade — tudo isso unicamente para salvar todos os seres sencientes, servindo-se de mim como instrumento. Pelo que ficou exposto, não foi por eu ter fé em Kannon que me tornei o que sou hoje: é Kannon-Sama, inteiramente, quem me usa como ferramenta. Pode-se dizer, assim, que sou um substituto de Kannon-Sama. E porque quem me emprega como deseja é o mestre, Kannon-Sama, não tenho liberdade alguma; já o poder da sabedoria maravilhosa que Kannon-Sama manifesta através de mim é livre e desimpedido, e nesse aspecto a situação é outra. Em suma, tenho ao mesmo tempo menos liberdade e mais liberdade do que uma pessoa comum — estado de espírito dificílimo de explicar, que uma pessoa comum sequer consegue imaginar. Outro traço que considero peculiar em mim é este: os fundadores e santos do passado tendiam a envolver tudo em mistério, e quase não há exemplo de alguém que tenha exposto o próprio estado de espírito tão abertamente. É claro que se pode pensar que essa reserva aumenta o valor de veneração, mas não aprecio esse tipo de método — ainda que aí também possa haver uma questão de época. Afinal, hoje em dia nem mesmo Deus ou a fé são aceitos sem investigação científica; e, como a sociedade é conduzida por pessoas intelectuais, é dificílimo fazer o público em geral compreender algo misterioso e profundo. Levando esse ponto em conta, Kannon-Sama deve ter adotado um método como o meu. A esse respeito há um fato interessante. Não faz muito tempo, alguém declarou que destruiria esta organização religiosa movido por certo propósito, e lançou mão de todos os meios para isso; havia ainda quem viesse com frequência informar-me do assunto. Em todas essas ocasiões eu não conseguia conter o riso, pois aquela pessoa estava, na prática, tentando brigar com Kannon-Sama — audácia, imprudência ou tolice, não sei dizer: faltam palavras para descrevê-lo. Cheguei mesmo a dizer ao seu mensageiro: "Faça o que quiser; ficarei observando como espectador." Inúmeras pessoas também nutriram ambições ou mal-entendidos de toda ordem em relação a esta organização religiosa. Hoje isso diminuiu bastante; mas, por algum tempo, como a religião foi subitamente divulgada pela sociedade, acorreram pessoas de todo tipo, boas e más, numa confusão tão intensa que chegava a irritar — fenômeno inevitável de um período de transição. Mesmo em meio a essa balbúrdia, porém, meu coração permaneceu sempre calmo: era com profundo interesse que eu observava como Kannon-Sama resolveria cada uma daquelas situações. Outro ponto curioso é que, sobre a situação mundial, as mudanças na sociedade e o destino dos indivíduos, tudo o que é necessário me é comunicado de antemão, das mais variadas formas — coisa realmente fascinante. Publico uma parte disso, mas não posso dizer tudo abertamente: são assuntos ligados à política, a pessoas importantes do mundo, a desastres naturais, ao destino das religiões estabelecidas, entre outros, e correria o risco de suscitar toda sorte de mal-entendidos. Ainda teria muito que escrever, mas encerro por aqui este capítulo. A Singularidade da Salvação desta Religião A missão desta religião é salvar as pessoas que sofrem no Inferno, conduzindo-as ao Paraíso, e com isso transformar a própria sociedade em Paraíso. Para salvá-las desse modo, é preciso antes subir ao Paraíso e tornar-se um de seus habitantes; só então se podem elevar as massas — como quem estende uma escada do Inferno ao Paraíso e, oferecendo a mão, faz as pessoas subirem degrau por degrau. Nisso esta religião difere de todas as outras até hoje, chegando mesmo a ser o oposto delas. Como é sabido, desde os tempos antigos os religiosos contentavam-se com roupas simples e comida frugal — uma vida reduzida ao mínimo —, acumulavam práticas ascéticas e, permanecendo eles mesmos em estado infernal, tentavam salvar os seres sencientes. É usar a escada ao contrário: o salvador empurra de baixo aquele que quer salvar, quando basta imaginar o quanto empurrar de baixo é mais trabalhoso do que puxar de cima. Naquele tempo, porém, o Paraíso ainda não havia sido construído, e por isso não havia escolha — a hora ainda não chegara, e o mundo espiritual era Noite. A partir de 1931, contudo, o mundo espiritual foi pouco a pouco tornando-se Dia, e construir o Paraíso ficou mais fácil. E não é, propriamente, o ser humano quem o constrói: quem constrói é Deus, e a obra avança naturalmente com o passar do tempo; ao ser humano cabe apenas agir de acordo com a Vontade Divina. Deus projeta, supervisiona e dispõe livremente de muitos seres humanos; o meu papel, pode-se dizer sem erro, é o de supervisor de obras. Como parte disso, estamos construindo agora um modelo do Paraíso, como os senhores seguidores bem sabem. Pelo que ficou exposto, isso vale até para os terrenos: numa época inesperada, num local inesperado, aparece alguém que deseja vender, e logo penso: "Ah, Deus está dizendo para comprar este lugar" — e, sem esforço algum, reúne-se a quantia necessária. Do mesmo modo surgem, com a exatidão de um carimbo, o projetista mais adequado, o engenheiro civil e os materiais de que se precisa. Até uma única árvore de jardim: alguém a traz de repente, e há sempre um ponto onde ela se encaixa com perfeição; às vezes chegam várias, ou dezenas, de uma só vez, e chego a ficar atrapalhado — mas, lembrando que é obra de Deus, vou plantando-as em ordem enquanto observo o jardim, e todas se ajustam, sem excesso nem falta. Em cada uma dessas ocasiões compreendo muito bem que tudo é feito por Deus. Basta que eu deseje certa pedra ou certa árvore em determinado lugar, e em um ou dois dias ela chega. Se isso não é um milagre, o que é? Escrever sobre todas essas coisas não teria fim; farei aos poucos, e por ora dei apenas uma amostra. Este texto não diz que tudo é feito pelo ser humano; foi escrito para que se entenda que o ser humano é levado a agir conforme o Plano Divino. De tudo isso fica muito claro que a Vontade Divina é erguer o modelo como primeiro passo para a construção do Paraíso Terrestre. Não se trata, porém, apenas de um modelo: cada ser humano, um a um, deve tornar-se habitante do Paraíso — e chegou, de fato, o tempo em que isso é possível. Também a família se torna um Paraíso, e a pessoa passa a viver a própria vida do Paraíso; só então será possível salvar as massas que sofrem no Inferno. É por isso que sempre digo aos seguidores que se deve criar, tanto quanto possível, um ambiente de vida sem sofrimento, e que assim é a Vontade Divina — pois, enquanto não forem removidos os três sofrimentos da doença, da pobreza e do conflito, não se pode salvar verdadeiramente as pessoas. No Mundo da Noite tais coisas eram impossíveis; hoje tornaram-se possíveis, e é preciso saber disso. Já terminou o tempo do "mundo de sofrimento" (shaba) pregado por Shakyamuni. Quem compreender a verdadeira essência disso sentirá uma alegria imensa, jamais experimentada pela humanidade. Possessão por Divindades Após a Conversão O Ofudesaki tem, contudo, seus pontos fracos: a consciência do ego da fundadora nele se incorporou em boa medida, o que o tornou excessivamente autossuficiente e nacionalista, e fez exaltar a ideia — comum entre os xintoístas — de que o Japão é um país divino. Ainda assim, a maior parte das profecias já se cumpriu, e o que resta para o futuro é apenas o nascimento de um mundo ideal de paz perpétua. Fotografia Espiritual Escreverei aqui um pouco sobre Higashi Mitsuo. Esse homem entra, por vezes, em serena possessão por divindades; nessas ocasiões fecha os olhos e parece fazer a si mesmo perguntas e respostas, recebendo inspirações de quando em quando. A respeito deste episódio, disse-me: "Mestre, o Senhor Dragão Divino o está protegendo. Por quê? Porque sempre que me encontro com o Mestre, chove uma garoa fina — isso é prova de que o Dragão Divino o protege. Hoje à noite também, há pouco, começou a chover, e por isso pensei que o Dragão Divino certamente apareceria na foto, e a tirei." Eu também assenti. A Batalha de Yomotsu Hirasaka Como me perguntam de quando em quando sobre este título, explicarei brevemente. Trata-se, naturalmente, de algo que consta do Kojiki, e o que escreverei aqui são as circunstâncias em que o vivenciei de forma concreta. Há cerca de vinte anos, certo dia, fui convidado à casa de um visconde. Ele morava numa rua transversal, no ponto mais baixo, dois ou três cho além da entrada do Santuário Meiji para quem vem de Aoyama pela via de acesso ao santuário — mais ou menos a dois terços do caminho, descendo a ladeira suave dessa via. O visconde estava bastante decadente, em dificuldades financeiras, e havia iniciado pouco antes uma espécie de fé xintoísta; os seguidores eram ainda poucos, e ele parecia longe de conseguir cobrir as despesas. A divindade central de sua fé era Kunitokotachi-no-mikoto. Senti, na época, que havia ali algo de misterioso; conversamos animadamente sobre vários assuntos de fé, e prometi-lhe uma ajuda considerável. O que a intuição espiritual me revelou naquela ocasião foi que aquela casa era Yomotsu Hirasaka: "Yomotsu" significa "possuir o mundo", ou seja, o Imperador; e, como o xogunato que possuía o mundo havia ruído para ser sucedido pelo Imperador Meiji, e a via de acesso ao Santuário Meiji é uma ladeira suave (hirazaka), formou-se assim "Hirasaka do possuidor do mundo". Curiosamente, depois que nos tornamos íntimos, trocamos visitas várias vezes e acabei por convidá-lo para jantar; ele veio com a esposa e trouxe um presente realmente misterioso — um tesouro da própria família do visconde. Até aquele momento havia se interposto entre nós dois uma espécie de disputa; é uma história extremamente complexa, que omitirei aqui, mas, de qualquer forma, terminou em reconciliação, e foi por isso que o convidei. Considerando o percurso todo, do início ao fim, não posso deixar de ver nele uma pequena representação da Batalha de Yomotsu Hirasaka. E, naquela noite, fui eu quem venceu a batalha: o inimigo trouxe o referido tesouro como que a título de indenização ou tributo. Como disse acima, ao considerar o percurso todo, do início ao fim, não posso deixar de pensar que foi uma representação da Batalha de Yomotsu Hirasaka. Vários anos mais tarde, em 1938, deu-se um fato misterioso, cuja origem foi esta: em 1934 aluguei um imóvel em Hirakawa-cho, Kojimachi, e ali abri um centro de terapia popular baseado na fé. Em menos de um ano ele se desenvolveu tanto que, para me dedicar exclusivamente à religião, comprei o terreno e a casa da atual Hōzansō, em Kamino-ge, Tamagawa, que estavam à venda. Dito assim, parece que tudo corria muito bem; na verdade, porém, o vendedor pedia 100.000 ienes e eu tinha apenas 5.000 — não havia, portanto, como comprar, e no entanto eu queria muito. Quando lhe contei a verdade, descobri, curiosamente, que ele estava cheio de dívidas e queria fugir o quanto antes; mas, ao contrário de hoje, naquela época quase não apareciam compradores. Pressionado pelos cobradores, disse-me que, se eu lhe desse 10.000 ienes, mudar-se-ia imediatamente, e o restante poderia ser pago em parcelas. Peguei mais 5.000 ienes emprestados com outras pessoas — 10.000 ao todo — e me mudei em 1º de outubro de 1935. Mudei-me, mas o que veio depois foi duro: afinal, de uma compra de 100.000 ienes eu havia pago apenas 10.000. Três meses mais tarde consegui saldar a segunda parcela — mais de 20.000 ienes —, tomando emprestado em sete lugares diferentes. O terreno e a casa, porém, estavam hipotecados ao Banco de Poupança Industrial, e o vendedor não havia pago quase nenhuma das prestações anuais; guardara segredo disso, e só fui saber depois da compra. Arrependi-me da minha leviandade, mas já não havia o que fazer: o Banco de Poupança Industrial partiu então para o leilão. A dívida, com os juros, chegava a cerca de 50.000 ienes. No primeiro leilão, o banco estipulou o preço de 55.000 ienes e não apareceu licitante; no segundo, 45.000 — e eu, imaginando que o terceiro sairia ainda mais barato, deixei-me levar por certa ganância e resolvi esperar para dar meu lance na terceira rodada. Inesperadamente, porém, já na segunda, de 45.000 ienes, surgiu um licitante, e o imóvel foi arrematado. Ao receber a notificação fiquei estupefato, mas não havia mais como reverter a situação. Consultei um advogado, que me explicou haver o prazo de uma semana até a decisão do leilão e que nesse período eu poderia apresentar uma objeção — o que me devolveu uma réstia de esperança. Foi então que ocorreu um milagre. No sétimo dia, ao sair de minha casa, o advogado passou por certo lugar, onde alguém comentou: "Se o prazo para a decisão do leilão do Sr. Okada é de uma semana, não seria por volta de hoje?" O advogado percebeu na hora e disse: "Isso é grave — com certeza o prazo é hoje." Voltou às pressas ao escritório, preparou os documentos e os levou ao tribunal, mas já eram 23 horas daquela noite; se tivesse passado mais uma hora, o imóvel pertenceria para sempre à outra parte. Que hora crucial! Foi esta casa que construiu a base de nossa Doutrina; se eu tivesse falhado naquela época, o desenvolvimento de hoje não teria sido possível. O que pensei, na ocasião, foi que a quantia exigida como garantia para a objeção ao leilão era considerável, mas, milagrosamente, deu tempo — e, como eram notas de 100 ienes, e "cem" (hyaku) também se lê "momo" (pêssego), a nota de 100 ienes torna-se, assim, o fruto do pêssego. Na Batalha de Yomotsu Hirasaka, o exército divino, uma vez derrotado, recebeu de Izanagi-no-mikoto o fruto do pêssego e o atirou contra o exército demoníaco, revertendo a batalha em vitória. Deve ser esse o significado. (Nota) Nota: "Empréstimo de sete lugares" (nanatoko kari) — pedir emprestado, juntando dinheiro de vários lugares diferentes. Graças e Relatos Salva do Meio das Chamas Carmesim Keiko Yamamoto, Sede da Igreja Nihon Miroku, 945 Asahi-cho, Atami-shi, Shizuoka O relato de experiência que aqui apresento, de valor inefável, é o registro fiel do dia em que meu antigo eu ateu viu desmoronarem, num só instante, seu conhecimento superficial e sua lógica tola. Ainda hoje, no quinto ano do pós-guerra, está dolorosamente gravado em nossos corações o quanto são trágicas as consequências de pensamentos equivocados; e o terror e a repulsa que vivi durante a guerra revivem, vívidos, em minha mente. Foi no dia 9 de março, há quatro anos, o dia do grande bombardeio aéreo de Tóquio. Com a queda de centenas de bombas incendiárias, toda a área da cidade baixa, em meio à sujeira e ao caos, ardeu num instante, sem aviso, e as chamas se alastraram com violência para a casa da frente e para a do lado. Percebendo o perigo, tirei às pressas o pergaminho pendurado no tokonoma, peguei o livro do Mestre (A Terapia do Amanhã) e saí com minha família — sete pessoas — em busca de refúgio, mas o que vi lá fora me deixou estupefata. Um violento tornado, provocado pelo incêndio, levantava a poeira, enrolava as chamas e rugia, ardendo em fúria. As pessoas vagavam, chorando e gritando, levadas para não se sabe onde por um vento forte e irresistível. Em meio a essa dança de chamas, a menos de um quarteirão de casa, perdi minha mãe e minha irmã de vista; restamos eu, meu pai, minha irmã e meu irmão mais novos — quatro pessoas ao todo. Gritamos, chamando por elas, mas a ventania uivante zombava da impotência humana e não nos permitia deter nem por um instante. Para não sermos levados pelo vento, os quatro nos abraçamos com força e, ao chegar enfim ao cruzamento do centro distrital, fomos encurralados por um mar de fogo que se estendia por todo o caminho. Olhei para trás, apressada: as chamas carmesins não se aproximavam, lambendo os lábios de forma sinistra? Tanto à esquerda quanto à direita, pessoas quase sem alma, arrastadas pelo terror da morte, fugiam desorientadas, aos gritos. Era o fim. Mas, naquele instante, de repente, um "Avancem!" ecoou, desesperado, em meu coração. Obedecendo a essa ordem, encorajei os três, que hesitavam, e avancei cegamente por entre as chamas ardentes — as faces queimando de calor, a garganta seca, quase inconsciente. Foi então que, no meio do fogo — onde nenhum líquido deveria existir —, uma água fria e refrescante, como uma névoa fina, começou de repente a cair. Que milagre! Essa névoa envolveu nossos quatro corpos e nos permitiu, enfim, escapar do túnel de chamas. Naquele momento, minha gratidão era tamanha que, esquecida do incêndio que me cercava, eu corria quase em êxtase. Escapado esse primeiro perigo, teríamos avançado uns dois quarteirões quando as labaredas furiosas já se espalhavam em todas as direções, e caímos numa situação desesperadora, sem poder ir nem voltar. Ao cair nesse inferno de calor abrasador, percebi pela primeira vez que minha vida já não me pertencia. O castigo implacável reservado aos blasfemadores de Deus transformara-se num violento tornado, que se aproximava para engolir tudo, indiferente aos gritos de agonia. Estranhamente, porém, meu coração não sentia angústia alguma. Foi então que meu pai sugeriu que nos refugiássemos num prédio escolar próximo — abrigo de mais de duzentos soldados de defesa — e, por um acaso, fomos guiados até o porão, onde pudemos passar uma noite incrivelmente tranquila. Ao amanhecer, quando saímos do porão, soltamos um grito involuntário: ao redor, era um campo queimado até onde a vista alcançava. A defesa desesperada dos soldados mal conseguira escapar do incêndio furioso, e aquele fora o único lugar que permanecera intacto. Nas ruas, amontoavam-se montanhas de corpos carbonizados — cena de extrema tragédia, diante da qual qualquer um cobriria os olhos. Que milagre, que proteção divina! Incapaz de dizer palavra, com o corpo inteiro a tremer, eu sentia brotar sem limite as lágrimas de gratidão, enquanto repetia o nome de Kannon-Sama: "Kannon-Sama, Kannon-Sama". Naquela manhã, um sol laranja e sinistro ergueu-se lentamente, como um olho de maldição; o vento, ainda forte, queimava como fogo, e os destroços fumegavam. Sentindo náuseas com o cheiro de morte que subia das ruínas queimadas e estranhamente se fixava no nariz, procuramos desesperadamente por minha mãe e minha irmã, separadas de nós na saída de casa. Dividimo-nos os quatro e, enquanto as pernas aguentaram, andamos por toda parte, esgueirando-nos entre os corpos carbonizados e chamando até ficarmos roucos — sem encontrar nenhum sinal delas em lugar algum. Procuramos por duas noites e dois dias e, exaustos, depositando ali nossa última esperança, chegamos à casa de minha tia em Kanagawa; também lá não havia sinal delas. Pensando que nunca mais as veríamos neste mundo, lamentamos, já sem forças nem ânimo. Alguns dias depois, porém, soubemos que minha mãe estava viva num lugar inesperado, e nossa alegria foi verdadeiramente indescritível. Ela e minha irmã haviam sido levadas pelo vento até Hirano-cho — que se dizia ter sido o ponto mais terrível daquele grande incêndio — e, vagando numa situação desesperadora, escaparam por diversos milagres, tendo por pouco recebido permissão para continuar vivas neste mundo. Depois de uma noite de terror, a cena que viram à luz fraca do amanhecer era como um inferno de calor abrasador: em meio a dez ou vinte camadas de corpos queimados, duas vidas ainda se moviam, solitárias. No momento de alívio, já livre de uma tensão indescritível, minha mãe sentiu uma dor latejante nas duas mãos: ao olhar, viu que estavam gravemente queimadas — alguns dedos vermelhos e inchados, outros dolorosamente contraídos, e o anelar e o mindinho da mão esquerda desfeitos e grudados. Às pressas, balançou-as, alternadamente, e concentrou-se em fazer o Johrei. Meio mês depois, quando nossa família se reuniu de novo para a querida refeição noturna, os dedos de minha mãe — que contava o ocorrido com os olhos marejados de terror e de gratidão — estavam perfeitamente alinhados, sem nenhum vestígio de queimadura. Nós, que contávamos e ouvíamos essas recordações, abençoávamos cada existência que nos fora dado reviver depois de vagarmos na fronteira entre a vida e a morte, e oferecemos orações de gratidão diante de Deus. Mas devo relatar ainda mais um milagre. Foi cerca de um mês após o desastre, quando um funcionário do Ministério da Agricultura e Florestas me informou que uma pasta havia sido encontrada nos destroços queimados. Era uma pasta de couro em que meu pai guardara a caderneta de poupança, a apólice de seguro contra incêndio e outros documentos importantes, em preparação para o bombardeio; minha mãe a levava consigo naquele dia, mas em algum momento a perdeu. Naquela época, imersos apenas na alegria de ter nossas vidas poupadas, ninguém pensava mais nela. Mas, naquele grande incêndio que queimou casas e pessoas e derreteu vidro e metal como caramelo, a pasta de couro não se queimou e, ainda por cima, foi entregue em segurança em meio a toda aquela confusão — mais estranho que um sonho. Agora, quando penso com calma naquele dia, mal posso acreditar que a pessoa que se movia naquele vívido rolo de pintura do inferno seja a mesma pessoa pacífica de agora. Naquela época, recém-convertida e ainda meio incrédula, entrei em contato, naquele dia, com o coração amplo, infinito e absolutamente justo de Kannon, e prostrei-me diante d'Ele com temor e reverência. Hoje, ainda que sejamos alvo de elogios e críticas nos jornais e no rádio, tratados como uma existência peculiar, e até de calúnias de pessoas insensíveis, cada um dos membros deste grupo é uma pessoa feliz, que experimentou concretamente, neste mundo, o poder absoluto de Kannon. Por isso, não importa que ventos e ondas enfrentemos: é inegável que nossa fé se tornará cada vez mais firme, alcançando um desenvolvimento infinito. Caiu do Telhado, mas Ficou Ilesa Hisako Ono (40 anos), Associação Tenkoku Shinko, Igreja Nihon Kannon, Imacho, Mitsu-gun, Okayama Foi por volta das 11 horas da manhã do dia 9 de dezembro do ano passado. Eu queria dar aos meus filhos os caquis secos pendurados no telhado de minha casa e subi para pegá-los. Colhi, entre os que pendiam na face sul, a quantidade que daria às crianças e, por comodidade, resolvi passar os demais para a face norte, saindo para o telhado desse lado. Naquela manhã fazia muito frio, o gelo havia derretido e as telhas estavam molhadas; fui com cuidado, mas, dois ou três passos adiante, os pés escorregaram de repente e, no mesmo instante em que gritei "Ah!", perdi a consciência. Tive então um sonho em que uma mulher, em algum lugar, caía e, guiada por Kannon-Sama, voltava — e, sem perceber como, eu já estava de volta em casa. Depois disso, por algumas dezenas de minutos, falei coisas sem sentido. Meus pais, muito preocupados, correram imediatamente ao centro de orientação e pediram ajuda. Quando o Professor Nakatani chegou, eu já havia voltado a mim; ainda assim, depois de receber o Johrei, minha cabeça ficou completamente boa e a mente, clara. Apenas o ombro esquerdo doía um pouco, e eu não conseguia erguer o braço por completo — fora isso, nenhuma anormalidade. Caí num riacho estreito, e não sei como subi dali nem como cheguei em casa: fiz todo esse caminho sem sentidos. Por mais que pense, não consigo deixar de achar estranho — não há outra explicação senão a de que fui salva por um poder milagroso. Hoje é o nono dia, e meu braço já se ergue bem mais alto, com muito mais liberdade de movimento. Isso também é graça de Kannon-Sama, e não passo um dia sem agradecer. Deixo aqui este relato como expressão da minha gratidão. Escapando por um Fio Kobayashi Shūjirō, Presidente e Ministro da Associação Meisei, Igreja Nihon Kannon, 2-224 Shintama, Odawara-shi, Kanagawa Prostrado diante das Graças Divinas do Grão-Mestre, e sem me importar com minha própria falta de erudição e talento, apresento aqui minha experiência — lamentando não poder expressar nem um décimo milésimo dessas Graças. Em 18 de abril de 1940, recebi instruções diretamente do Grão-Mestre, em sua residência em Tamagawa (então era o tempo da Terapia de Purificação Método Okada). Desde então, eu e toda a minha família temos recebido graças incontáveis e imensas. Sem conseguir retribuir sequer um décimo milésimo delas, fui de novo agraciado com uma graça vasta e ilimitada, e só posso chorar de gratidão. Seria uma grande honra se esta minha preciosa experiência pudesse servir, de alguma forma, à obra divina de todos. Foi em 27 de março deste ano, às 6h32 da manhã: um processo de purificação na estação de Odawara. Um grande acontecimento, inimaginável para os modernos que só creem no materialismo! As pessoas apenas repetem a palavra "inexplicável". Fui solicitado a dar o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu): parti da estação de Odawara em 23 de março e, cumprida a tarefa em segurança, parti de volta em 26 de março, da estação de Tango Kannō. Foram quase quinze horas de pé, sacudido num trem lotado, com três baldeações; a isso se somavam quatro dias de privação de sono, e meu corpo estava exausto. De repente, acordei na estação de Hayakawa; pensei em me preparar para descer assim que passássemos dali e tornei a adormecer. Um solavanco — "batam" — despertou-me sobressaltado: o trem já deixava a estação de Odawara. "Isso é grave", pensei; levantei-me de repente, peguei minha bagagem e saí para o vagão. Bem naquele momento, um jovem saltou para dentro do trem — foram dois ou três segundos, e a velocidade já ia aumentando. Com a bagagem na mão esquerda e a direita segurando o corrimão, corri cinco ou seis passos junto com o trem. Ouvi então gritos vindos da plataforma, atrás de mim: "Perigo! Perigo! Solte a mão! Solte a mão!" Mas, por alguma razão, a mão que segurava não se soltava com facilidade. No instante em que consegui soltá-la, caí de bruços e, ao mesmo tempo, as duas coxas ficaram enroscadas entre o trem e a plataforma, girando uma volta e meia antes que eu me desvencilhasse. A distância entre o trem e a plataforma era de cerca de quatro ou cinco sun (aproximadamente doze a quinze centímetros) — e foi nesse vão que as duas coxas do meu corpo, de dezoito kan de peso (cerca de 67,5 kg), ficaram enroscadas e giraram uma volta e meia, até que meu corpo mudasse de direção e se desvencilhasse, para a esquerda, na parte de trás do trem. Foi, realmente, um milagre dos milagres. O trem parou bruscamente e, antes que qualquer funcionário da estação se aproximasse, ergui a parte superior do corpo e olhei para meus pés. O sapato do pé esquerdo estava rasgado da base dos dedos até o peito do pé, como se cortado por uma lâmina afiada; a parte de cima também estava rasgada cerca de três centímetros e o fecho havia saltado — um estado tão lastimável que não se podia olhar de frente! Olhando para a ponta do pé exposta pela rasgadura, pensei: "Fui pego." Apliquei uma leve pressão com os dedos, mas, por mais estranho que pareça, a meia não estava rasgada, eu não estava ferido e, claro, não sentia dor alguma. São as Graças Divinas! É a proteção divina! Ah, que grato! Naquele instante, senti corpo e alma inteiros tremerem, como se tivessem levado um choque elétrico. Levantei-me imediatamente e, ao tirar a poeira da roupa, minha mão direita tocou a parte externa da coxa direita: só então percebi o rasgo na calça. Fiquei estupefato — e, pelas imensas Graças Divinas que me permitiram escapar por um triz, nem lágrimas de gratidão me vieram, de tanta emoção. Ao voltar para casa, ajoelhei-me diante de Komyo-Nyorai e só então recuperei a consciência; lágrimas de gratidão e emoção molharam meus joelhos, sem parar. Toda a minha família, atônita, chorou comigo, e agradecemos voltados para o lugar onde se encontrava o Grão-Mestre. Na tarde daquele mesmo dia, embora soubesse que era grande falta de educação, corri com a mesma roupa até a residência de Atami, para agradecer. Komyo-Nyorai estava no meio de uma caligrafia, e ainda assim tive a honra de vê-Lo; relatei a situação ponto por ponto, e o Grão-Mestre me concedeu as graciosas palavras: "Ah, foi perigoso, não foi? Ainda bem, ainda bem." Minha emoção, naquele momento, é algo que não consigo expressar em palavras. Que sortudo eu sou! É inimaginável que alguém tão cheio de pecados e impurezas como eu tenha recebido graça tão grande. Considero-me a pessoa mais afortunada do Japão, e tenho orgulho de poder tornar isso público. Colidiu com o trem – salvo sem um único arranhão – Kazuichi Taniguchi, Associação Shin Gen Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Kubei, Okada-cho, Chita-gun, Província de Aichi Sou motorista de caminhão e recebi a Luz em agosto de 1946. No dia vinte de janeiro deste ano, a pedido de uma fábrica de Okada-cho, fui levar linhito a Nisshin-mura, no distrito de Aichi, com dois acompanhantes. Já de regresso, cerca de duas horas da tarde, esperávamos a passagem do trem ascendente na passagem de nível perto da estação de Odaka, na Linha Tōkaidō. Depois que um trem cruzou, a cancela subiu; supondo que o trem já houvesse passado, tentei atravessar os trilhos com as demais pessoas que aguardavam. Nesse mesmo instante, porém, vi a fumaça de outro trem, que se aproximava depressa, avançando com força terrível — e, à minha frente, uma pessoa puxando um carrinho de bebê. Pensei "que seja" e, tentando avançar e escapar, concentrei-me em cruzar os trilhos. Mas era tarde: nós três gritamos "Não dá!", e recebi um choque violento. A parte traseira do veículo, exceto a cabine, foi arremessada e despedaçada junto com o linhito; um grande poste telegráfico também foi quebrado pela raiz, caiu sobre a locomotiva e foi arrastado por cerca de trinta e seis metros — parece que o trem era um expresso. Diante daquela cena horrível, fiquei boquiaberto e, ao mesmo tempo, senti um arrepio percorrer minhas costas ao pensar como havíamos escapado com vida. E o carrinho de bebê? Voou para algum lugar, sem deixar vestígios — mas fiquei aliviado ao ver a pessoa ilesa entre os espectadores. Profundamente comovidos com a grandiosidade daquele salvamento de Kannon-Sama, os outros dois, que não conheciam este ensinamento, também choraram comigo. Quando conseguimos entrar no carro que veio nos buscar e voltar para casa em segurança, senti como se estivesse vagando num sonho. Prostrei-me diante de Komyo-Nyorai, entronizado em minha casa, e depois diante do Daikōmyō Nyorai do Centro de Ensino de Tsuneharu Takeuchi, agradecendo, com lágrimas de gratidão e emoção, por terem salvado minha vida, que é insubstituível. As contusões na cabeça e na cintura foram tratadas com Johrei, e já no dia seguinte pude voltar ao trabalho. O que soube depois é que o incidente se deveu inteiramente à falta de cuidado do guarda da passagem de nível. O linhito carregado em meu caminhão foi lançado a seis metros de altura e caiu dentro de uma casa à frente — mas, o mais incrível, nem um único vidro se quebrou. Ao ler a seção "Milagres" do "Conversas sobre a Fé", sinto profundamente, em meu próprio corpo, a experiência ali descrita; esta grande força e proteção divina são difíceis de expressar por escrito. Prostrado no chão, agradeço. Queimou até a beira do telhado, mas escapou de ser consumido pelo fogo Tatsu Kanaya (52), Associação Keikō Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: 3705, Ōaza Matsuyama, Matsuyama-machi, Hiki-gun, Província de Saitama Por volta de uma hora e quarenta da madrugada do dia vinte e dois de janeiro, fui acordada pela minha filha mais velha, que dormia ao meu lado, com o grito "Fogo!". Olhei instintivamente para a frente e, pela fresta de cerca de três centímetros de uma porta corrediça, vi a porta de vidro da sala de estar, voltada para a rua, completamente vermelha. Abri no mesmo instante a da sala da frente e avisei os vizinhos, em voz alta, do incêndio. Com o alvoroço, minha segunda e minha terceira filha, que dormiam no andar de baixo, também despertaram, subiram para o segundo andar e começaram a entoar norito a Komyo-Nyorai; eu e minha filha mais velha nos juntamos a elas e oramos com todo o coração. O incêndio estava, de qualquer forma, surpreendentemente perto — a apenas sete ou oito metros, numa casa de dois andares do outro lado da rua. Era um acidente no meio da noite: as pessoas ainda não se haviam reunido, e o fogo se alastrava com rapidez incrível — as chamas violentas já tinham passado ao segundo andar da casa bem em frente à minha. Os sinos de alarme dos vizinhos, desencontrados, enfim começaram a soar. Pareceu-me que se passaram apenas alguns minutos, mas, na verdade, não deve ter sido tanto assim. Eu já me resignara a que minha casa não escaparia de ser atingida pelo fogo — éramos só mulheres, e minha filha mais velha estava doente, sem condições de ajudar. Decidi entregar tudo a Komyo-Nyorai e prossegui, entoando norito e fazendo Johrei em direção ao fogo, que enfim mostrava sua força violenta: as chamas já lambiam toda a beira do telhado da minha casa, e os vidros estalavam e se partiam, um após o outro. Quando ouvi alguém, no andar de baixo, dizer "Pegou na Tomodaya" (o nome da minha casa), confesso que não pude evitar uma agitação interior. Mas, chegada a situação àquele ponto, nada mais restava a fazer: firmei-me na fé em Deus e continuei o Johrei. Foi então — e é realmente algo que não se deve dizer levianamente, por mais estranho que pareça — que o fogo que lambia a beira do telhado se afastou da minha casa, restando apenas o som dos vidros a quebrar. Com todas as portas da casa fechadas, ninguém havia ainda entrado; muita gente, porém, já sem se conter, arrombou a porta dos fundos e entrou, dizendo: "Vamos tirar as coisas importantes!" Decidi, então, deixar que levassem a bagagem; deixei minha terceira filha tomando conta das coisas, e tudo foi retirado com a ajuda de outros. O incêndio cedeu um pouco, e a bomba dos bombeiros, que chegara às pressas, começou a lançar água. Corria já a voz de que minha casa não pegaria fogo. Impressionada com o poder de Komyo-Nyorai, aprofundei ainda mais minha fé em Deus; e das três casas do outro lado da rua estreita, que se perderam, só pude sentir muita pena. Naquele meio-tempo, passaram-se apenas quarenta ou cinquenta minutos, mas tudo parecia um sonho. Com o auxílio de outros, tornamos a pôr a bagagem dentro de casa; felizmente, não perdemos nada. Ao fim de tudo, quem havia ajudado só repetia: "Foi estranho, foi estranho" — mas eu não encontrei palavras à altura para lhes dizer, porque o coração delas ainda não estava em paz. Creio, porém, que não tardará muito para que muitas dessas pessoas sejam salvas, uma após a outra, por este poder sagrado. Imaginem a alegria da minha família, que foi salva de um incêndio violento. Escapando da calamidade das águas Yasuyo Konishi, Associação Taiei Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Kashio, Ryōgen-mura, Mukō-gun, Província de Hyōgo Desde a madrugada do dia vinte e um, uma chuva torrencial acompanhada de trovões caiu durante dois dias sobre toda a província de Hyōgo. Os rios da região, geralmente de pouca água, incharam rapidamente e arrebentaram em vários pontos. Na vila de Ryōgen, onde moro, há um lago chamado Benten-ike, de cerca de um hectare; o terreno ali é de forte declive, e o lago fica num ponto relativamente alto. Turvo pela água que descia das montanhas, o Benten-ike rodopiava em redemoinhos e rugia de modo ensurdecedor. De nada valeram os esforços desesperados dos moradores, arrancados do sono pela tempestade, para conter a enxurrada: o dique acabou por ceder numa extensão de quinze metros. A cerca de cem metros da minha casa, numa baixada a uns cinquenta metros do Benten-ike, fica a casa do membro Urayama. Como me parecesse perigoso, fui ajudar na evacuação, e o primeiro cuidado foi pôr a bagagem em lugar seguro. Quando voltei correndo, já não se podia entrar na casa dele; segui então direto para a minha. A água chegara à entrada principal e não parava de subir. Prostrei-me diante de Komyo-Nyorai, orei de todo o coração e passei à varanda, onde fiz Johrei com todo o empenho. Pouco depois, por estranho que pareça, a água que alcançara a entrada recuou mansamente. Alegre, fiquei a vê-la baixar — enquanto a torrente que jorrava com força do Benten-ike, já cheio, revolvendo terra, areia e árvores em redemoinho, engolia num instante o povoado de Ryōgen-mura. Quando, passado algum tempo, as águas enfim baixaram, ouvi dizer que Ryōgen-mura fora o centro da enxurrada. Que minha casa, em meio a tudo aquilo, não tenha sofrido dano algum e tenha escapado ilesa da calamidade das águas é coisa que só posso agradecer como benefício material da graciosa Kannon-Sama. Dois dias depois, no dia vinte e três, recebi a instrução de relatar o ocorrido ao Professor Nakatani, de Wakayama, que sempre me orienta. Assim, com a alegria de haver escapado da calamidade e a gratidão pelo benefício material recebido, apresento este relato. Livre da calamidade do terremoto Kimiko Yoshizaki (25), Filial de Fukui da Associação Kōhō Kai da Igreja Kannon do Japão, Endereço: Shimokawabata, Naka-kawa-mura, Imadate-gun, Província de Fukui Em vinte e três de maio de 1947 fiz o curso de preparação para receber o Ohikari (kyoshu), e fui curada de cárie óssea. No inesquecível dia vinte e oito de junho de 1948, quando irrompeu o grande terremoto da região de Fukui, eu assistia a um filme no Teatro Internacional de Katamachi, na cidade de Fukui; colhida pelo desastre, fiquei soterrada sob o edifício. Quase todos os espectadores morreram esmagados ou queimados (segundo notícias de jornal, dos cerca de mil espectadores, apenas quinze ou dezesseis sobreviveram). Escapar por um triz, em meio a tudo aquilo, foi graça que me coube; por isso, sem me importar com a pobreza da minha escrita, registro aqui o relato da graciosa proteção divina que recebi. Eu e minha amiga estávamos sentadas nos últimos assentos. Num intervalo de cinco minutos, gritei: "Ah! Terremoto!", e, sem querer, dei dois ou três passos. No mesmo instante, as paredes e o edifício vieram abaixo com um "baque"; duas ou três pessoas à minha frente tombaram, e depois foram caindo umas após as outras. Instintivamente, juntei as mãos e clamei: "Grão-Mestre!" — e ali fiquei imóvel por cerca de cinco minutos. Foi quando um homem atrás de mim puxou meu pé e gritou: "Ah! Tem um buraco bem na sua frente! Saia por aí rapidamente!" Olhei para frente: havia mesmo um pequeno buraco. Em desespero, ergui as tábuas e as telhas e consegui enfim sair. Aliviada, examinei o corpo e vi que tinha apenas um pequeno arranhão na mão. Ali mesmo agradeci de todo o coração: "Grão-Mestre, muito obrigada pela proteção divina." Olhei ao redor: o prédio estava completamente destruído. Certamente minha casa também estaria em ruínas, pensei, resignada, enquanto caminhava para lá. Quando ouvi alguém que voltava de Sabae para Fukui dizer: "Shimokawabata? Não deve ter sobrado nada", minha visão escureceu de verdade — até hoje não sei por onde nem como andei. Mas, ao chegar, encontrei todos os meus familiares a salvo pela proteção divina, e a própria casa de pé — não é incrível? Naquele momento, voltei-me para a fotografia do Grão-Mestre que ficava na casa do Mestre Yamada, de Mizuochi, e agradeci em lágrimas: "Grão-Mestre, muito obrigada pela proteção divina." Sempre que me lembro daquele tempo, agradeço do fundo do coração a preciosidade da proteção divina, e desejo continuar a servir, cada vez mais, como seguidora. O milagre do acidente de trânsito Atropelado por um carro, sem um único arranhão Kōkichi Takeuchi, Ministro Assistente, Associação Chōsei Kai da Igreja Kannon do Japão, Endereço: Yoshidajima-mura, Ashigarakami-gun, Província de Kanagawa Foi em meados de abril do ano retrasado (1944). Num domingo, fui ajudar meu tio na lavoura e saí para mandar trocar a ferradura do cavalo. No meio de uma estrada provincial larga, um caminhão que vinha em alta velocidade por trás espantou o cavalo de súbito; ao tentar acalmá-lo, caí na estrada junto com ele. No instante seguinte, antes que eu pensasse sequer "Ah!", colidi com o caminhão — não sei se o carro me atingiu depois da queda, ou se caí por já ter sido atropelado. Meu flanco caído serviu de calço ao veículo, que parou. Mesmo assim, eu não tinha um único arranhão, e o cavalo também se salvou: da queda, restou-lhe apenas uma pequena escoriação na pele do lombo. Meu tio, que passava por ali, contou ter pensado que eu e o cavalo tivéssemos sido atropelados; mais tarde, o próprio motorista do caminhão disse: "Na hora, pensei que tivesse atropelado uma pessoa e um cavalo. Foi estranho o carro ter parado." Eu, caído, o motorista e todos os que assistiram à cena julgamos que eu havia sido atropelado — e era mesmo para eu ter sido, por inteiro. Ter sido salvo de modo tão estranho é realmente um milagre: é, verdadeiramente, a proteção divina de Kannon-Sama. Tudo se deu no décimo sexto dia depois de eu ter feito o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) e me tornado seguidor. Foi esse fato que fez de mim, dali em diante, um devoto fervoroso de Kannon-Sama. Hoje, ainda que com forças limitadas, trabalho para que se realize quanto antes o mundo sem doença, pobreza e conflito, ideal do Grão-Mestre. A estranheza da pesca Masano Maeda (25), Ministra Responsável de Unidade Religiosa, Associação Wakō Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Nakasu, Toyohama-cho, Chita-gun, Província de Aichi "Se não fosse o salvamento de Kannon, eu agora estaria sofrendo em um pântano sem fundo." Este hino de louvor do Grão-Mestre não me sai da lembrança; sobe ao peito e se desfaz em lágrimas de alegria. Olho para trás: minha mãe padecia do estômago e dos intestinos, e por cerca de um ano e meio eu a levei ao hospital, cumprindo à risca as ordens do diretor, sem desviar um centímetro — tanto que parentes e conhecidos riam do meu zelo. O resultado, porém, foi um enfraquecimento profundo; a aflição dos familiares era ainda maior que a da própria doente, e a casa ia ficando mais sombria a cada dia. Foi então que, apresentada pelo Mestre Okazaki, procurei o Mestre Watanabe, em Chukyo, em agosto de 1944. Recebido o poder, minha família de oito pessoas tornou-se uma família feliz, banhada pela Luz, como se tivesse ressuscitado. Meu pai é pescador desde menino, e no ano passado teve a melhor pescaria de toda a sua vida. De meados para o fim de outubro chega, todos os anos, a melhor estação para a pesca com anzol; de manhã e de tarde, fazíamos nosso pedido a Kannon-Sama e saíamos para o mar. Certo dia, a maré da manhã não deu peixe, e julguei que voltaríamos de mãos vazias — mas, na volta, fomos agraciados, como sempre, com uma grande quantidade, estranhamente farta. A volta era sempre tarde, às vezes às seis ou sete horas; em casa, esperávamos ansiosos. Quando ele chegava com a carga pesada, meu pai e meu irmão mais novo abriam o cesto de peixes, sorrindo e repetindo "Poder Kannon, Poder Kannon". E nós, surpresos: era uma pescaria extraordinária, como se tivesse sido feita com rede. Naquela noite, depois de agradecermos a Kannon-Sama, meu pai contou como fora a grande pescaria do dia. Pela manhã, saíra um pouco mais tarde que os outros; cinco ou seis barcos das outras famílias já haviam rumado para outros pontos, dizendo: "No lugar de sempre, os tubarões estão roubando os peixes, não dá para pescar." Meu irmão mais novo também queria ir atrás deles, mas meu pai seguiu para o lugar de sempre, deserto, e lançou o anzol. Pescados dois ou três peixes, meu irmão gritou: "Ah, foi roubado por um tubarão!", e no mesmo instante fez Johrei em direção ao mar. Dali em diante, nenhum peixe voltou a ser roubado: pescaram aqui, pescaram acolá, e a cada ponto novo os peixes picavam de um jeito interessante — era um verdadeiro alvoroço, com uma abundância estranha. Nos cinco ou seis barcos vizinhos, os tubarões não davam trégua, e por mais que os pescadores se deslocassem nada conseguiam; meu pai, num lugar onde os tubarões apareciam e onde normalmente não se deveria pescar nada, foi agraciado com uma quantidade de peixes inesperadamente grande, e os outros só o olhavam, boquiabertos. Contam que alguns chegavam a se aproximar: "Perto do Sr. Nizō, os peixes são bem pescados." Meu pai então lhes disse: "Realmente, Kannon-Sama nos cura das doenças e nos dá muitos peixes para pescar — não há nada mais gracioso do que isso." É, realmente, uma história que ainda hoje me faz sentir a manifestação do Poder Kannon, cuja grandeza não me canso de admirar. Houve dias em que meu pai pescou cerca de setenta e cinco quilos (vinte kan), enquanto os demais não passavam de dezenove a vinte e dois quilos (cinco ou seis kan). Verdadeiramente, a família que antes vivia na sombra pode hoje passar os dias entre sorrisos. Sinto apenas uma gratidão que as palavras não alcançam, e minhas lágrimas são só de alegria. Daqui em diante, todos nós, dentro de nossas limitações, nos dedicaremos ainda mais ao serviço. Muito obrigado. Johrei em um forno de telhas de barro – obteve resultados excelentes, sem produtos fora de classe Hiroko Hosono (23), Associação Seirei Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Yamato-mura, Ibi-gun, Província de Gifu Olhando para trás: em agosto de 1946, minha mãe, tomada por uma cólica estomacal, sofria diante de mim — e foi salva ali, sob meus olhos. Impressionada com a grandeza desse poder, e desejando salvar o maior número possível de pessoas mergulhadas no fundo da angústia, fiz em setembro o curso de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) e me converti. Há mais de vinte anos minha família vive da fabricação de telhas de barro; ainda assim, telhas de boa qualidade só saíam duas ou três vezes por ano. Depois de ouvir o Professor falar sobre o Johrei, em janeiro deste ano fiz Johrei no forno de telhas pela primeira vez: reverenciei Kannon-Sama e, em completo desprendimento do ego, dirigi o Johrei ao forno. Naquele mesmo dia a queima estava em curso; como a boca do forno só seria aberta e as telhas retiradas no quarto dia, acordei mais cedo que o habitual ao longo desses quatro dias para fazer Johrei. No quarto dia, já não conseguia mais ficar parada e corri até o forno — meus pais o abriam com toda a concentração. E então, o que aconteceu? Num forno com capacidade para mil telhas, o resultado anterior era, em média, seiscentas telhas de primeira qualidade, trezentas de segunda e cem fora de classe. Para minha surpresa, fui agraciada com um benefício material esplêndido: setecentas de primeira qualidade, duzentas e noventa de segunda e apenas quatro fora de classe. Na segunda queima, não houve uma única telha fora de classe. Diante de tamanha estranheza e de tamanha graça, fiquei simplesmente maravilhada e agradecida. Hoje toda a minha família se tornou seguidora e vive uma vida de alegria; tendo recebido benefício material tão grande, vendo as telhas a um preço acessível a todos, para repartir essa alegria. Contei o ocorrido também aos outros fabricantes da mesma vila, louvando as Graças Divinas de Kannon-Sama, e passamos os dias em gratidão e júbilo. O benefício material dos produtos florestais – Sucesso na produção de 38 fardos de carvão, mesmo sendo um amador – Tsukumo Ono (52), Associação Kii Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Yokokawa, Aza, Kawaragimura, Nankaiibu-gun, Província de Ōita Desde que me converti, em dezembro de 1947, tenho recebido inúmeras proteções divinas que nunca se louvam o bastante. Entre elas, gostaria de relatar um fato que vivenciei — apenas uma amostra da proteção divina nos produtos florestais. Primeiro, sobre a produção de carvão. Meu forno tem dois metros e quarenta centímetros de profundidade por dois metros e setenta de largura. A lenha para carvão mede um metro e sessenta e cinco centímetros, quando grande, e um metro e vinte, quando pequena; a quantidade necessária de madeira verde (em geral carvalho e outras madeiras duras) é de 420 a 430 kan (cerca de 1.575 a 1.612 kg). No início deste ano, como estávamos sem carvão para uso próprio, alguém sugeriu que queimássemos algumas fornadas. Fui ao forno depois de muito tempo e o encontrei bastante danificado, abandonado que estava havia dez anos. Terminei o reparo, mas, pensando bem, não tinha muita confiança na produção de carvão — ainda mais com um forno velho. Lembrando-me sempre, porém, das palavras do Professor Ōnishi, da Sede, e do Presidente da Filial, Sr. Kokurin, de "agir com simplicidade e confiança", coloquei a madeira necessária no forno e, pela boca dele, fiz Johrei com simplicidade. Fornos velhos costumam acender com dificuldade; este acendeu sem problema algum. Enquanto eu estava no forno, apareceu um produtor de carvão experiente da vila, conhecido como "Kogorō, o queimador de carvão", que disse que seria um grande feito se eu conseguisse ao menos vinte fardos de produto (na produção de carvão, o resultado de duas queimadas em forno frio é medido em fardos). Qual não foi minha surpresa: produzi trinta e oito fardos. Em seguida, como o benefício material era grande demais, queimei mais duas ou três fornadas, e todas renderam de quatro a cinco fardos a mais por forno. Mesmo sendo um amador, fiquei tão impressionado com a proteção divina, por ter conseguido produzir uma quantidade tão grande, que nem sei como expressá-lo. Os primeiros trinta e oito fardos foram imediatamente enviados à cooperativa agrícola local. A todos os senhores que se dedicam à produção de carvão em todo o país, digo com convicção: se um experiente fizesse isso, os resultados seriam ainda mais esplêndidos — a grande quantidade e a qualidade absoluta do produto são fatos que até eu, completamente leigo neste ofício, posso atestar. Em seguida, gostaria de relatar o cultivo de shiitake. As toras que usei foram derrubadas em quinze de março de 1946; no dia vinte do mesmo mês, recebi da associação de shiitake as "cavilhas" (pequenas estacas de madeira de cerca de três centímetros, com cultura de micélio de shiitake). Fiz Johrei nas toras, que tinham de um metro e vinte a um metro e cinquenta de comprimento, e depois as enterrei (plantei). O costume é embeber as toras na água dos vales das montanhas, mas eu não fiz isso: em janeiro de 1947, coloquei-as, já com as cavilhas enterradas, num bosque de cedros e, de vez em quando, ao passar perto delas, fazia Johrei. No outono do ano passado, só o produto seco chegou a um kan e quinhentos monme (cerca de 5,6 kg) — o triplo dos quinhentos monme (cerca de 1,9 kg) que é o máximo normal. Foi realmente algo esplêndido. O que quero enfatizar aqui é que, ao dispensar a imersão das toras em água, poupamos muito trabalho e, ainda assim, a qualidade e a quantidade do produto superaram decididamente as do cultivo comum. Sinto-me cada vez mais grato e comovido com o benefício material de Kannon-Sama. O salvamento da doença e da pobreza – Agora uma vida de gratidão e luz – Shinako Ishizu (36), Associação Shinmei Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Nishi Take 1378, Satō-chō, Hamamatsu-shi, Província de Shizuoka Sou mãe de quatro filhos. Desde cerca de 1943 sofria de reumatismo; a cada verão a dor mudava de lugar — o peito, as mãos, os pés. No ano passado também, a partir do final de junho, meu joelho esquerdo inchou, e o sofrimento era indescritível. Não faltaram tratamentos: médicos, moxabustão, eletricidade, acupuntura. Mas, mesmo quando havia alguma melhora, bastava voltar a usar a perna para a dor retornar; nada conseguia fazer por mim mesma, e perdi por completo a confiança. Meu marido morreu em batalha no norte da China, em 1944. Somos hoje uma família de seis pessoas: eu, meus quatro filhos e minha avó, de setenta e oito anos. Sem confiança no próprio corpo, com uma responsabilidade pesada nos ombros e perseguida pela lida diária, não sabia como viver e me perdi de vez; meu humor estava sempre irritado, e as crianças pioravam cada vez mais. Ah! Pensava que aquilo não podia continuar, e nada conseguia fazer — quanto mais me angustiava, mais autodestrutivo se tornava meu coração. Foi no final de setembro, já no declínio do verão, que ouvi de uma vizinha falar desta Kannon-Sama. Pedi a ela, e logo a Mestra Take Miura, de Aioi-chō, Hamamatsu-shi, veio me visitar; daquele dia em diante, passei a receber seus cuidados. Minhas pernas, que não davam um passo, melhoravam dia após dia e, em menos de sete dias, eu já caminhava perfeitamente até a casa da Mestra, a uns quinhentos ou seiscentos metros de distância. Senti como se um inverno longo, escuro e frio tivesse ido embora de uma vez, dando lugar a uma primavera quente. A cada visita diária ouvia várias histórias preciosas; e, quando eu mesma passava por uma purificação, pedia à Mestra que fizesse Johrei. Recentemente, e de modo estranho, o negócio da família — a fabricação de doces — também ficou muito movimentado. Tanto a saúde, minha e de toda a família, quanto os negócios: tudo é benefício material do poder de Kannon-Sama, e vivo cada dia em gratidão. Nas obrigações matinais e noturnas para com os antepassados, toda a família entoa palavras de louvor, e me esforço para, o quanto antes, receber e entronizar Komyo-Nyorai em casa. Aguardo ansiosamente o dia em que poderei visitar o Grão-Mestre, que me concedeu este poder estranho e precioso, para agradecer-lhe. Por fim, prostro-me em gratidão por este benefício material indescritivelmente grande. Até mesmo coisas assim Kiyo Yoshimura (40), Associação Kōhō Kai da Igreja Kannon do Japão, Endereço: 2-chome, Yoshizuka-machi, Fukuoka Permitam-me relatar uma história de proteção divina. Eu atravessava uma purificação severa na cabeça, sem conseguir dormir nem de dia nem de noite, e sofria tanto que até o ruído das geta de alguém caminhando ao longe ressoava dentro dela. Foi algo realmente imerecido, mas, no dia 6 de janeiro, pedi a proteção divina e recebi uma salvação milagrosa; com a alegria da saúde recuperada, expresso aqui minha gratidão. Naquela época minha fraqueza ainda era intensa; ainda assim, desejava ardentemente visitar Tosu, e consegui completar a visita em segurança. Naquela noite — deve ter sido travessura de criança —, o cofre não abria. Meu marido me ordenou: "A senha do cofre não está certa; abra você." Respondi "Sim", mas minha cabeça não estava clara e, por mais que girasse a senha, não conseguia abrir de jeito nenhum. Meu marido me apressava; eu sabia que era algo imerecido, mas, por um momento, concentrei minha vontade com todo o empenho e, girando a senha outra vez, ela se abriu suavemente. Verdadeiramente, até para uma coisa dessas recebi uma proteção divina imensa, e só com lágrimas de alegria pude expressar minha gratidão a Kannon-Sama. Sem me importar com a caligrafia desordenada, e transbordando de alegria, relato aqui um pouco dessa proteção divina. O benefício material de um objeto roubado ter aparecido Hana Arai (38), Associação Yūkō Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Midori-cho 1, Ashikaga-shi, Tochigi Em 24 de maio de 1948, chovia. Numa fábrica de tingimento de lã, de repente, no meio da noite, um cachorro latiu com estridência; os moradores acordaram, mas não notaram nada de anormal e, ainda preocupados, tornaram a se deitar. Pela manhã, descobriu-se que um ladrão havia entrado na fábrica. "Então foi naquela hora da noite passada que ele entrou", lamentaram todos. Ao inspecionar o local, viram tudo revirado: vários quilos de fios de seda haviam sido roubados, e havia fios estendidos pela estrada, a partir da fábrica vizinha. Embora julgasse que já era tudo inútil, roguei de imediato a Komyo-Nyorai, entronizado em minha casa, que nos salvasse deste desastre. Algumas horas depois, a polícia telefonou com a notícia do ladrão — até então havia muitos roubos de fios de algodão na região, e nunca, em ocasião alguma, eles haviam sido recuperados. Fui imediatamente à delegacia e, diante do oficial responsável, os fios de seda, que totalizavam 17 kan, foram todos devolvidos às minhas mãos. Além disso, quando encontrei o ladrão e conversei com ele — um coreano —, ele me disse: "Até agora entrei em várias outras casas, mas a sua era estranhamente assustadora de entrar. E, se alguém da casa saísse, eu pretendia matá-lo; por isso estava com um punhal" — e fiquei surpresa. Pensei: "O que teria acontecido se eu tivesse notado e saído naquela hora? Alguém teria sido morto ou ferido." Foi uma graça repetida e, tomada apenas de gratidão, fui imediatamente à sede em Tamagawa para agradecer. O Coração de Kannon e o coração de ladrão Shizue Yamanishi, Igreja Miroku do Japão, Endereço: 7392, Mejima-ku, Saeki-gun, Ōita Foi logo depois de ouvir que a igreja se tornara uma organização religiosa — por volta de setembro de 1947, creio eu. Certa manhã, ao acordar, encontrei notas de 220 ou 230 ienes espalhadas sobre o zabuton, ao lado do braseiro. Estranhei, mas supus que meu marido houvesse esquecido ali o troco de alguma compra e, sem dar maior importância ao caso, guardei o dinheiro. Pouco depois, ele me pediu dinheiro para comprar cigarros; ao abrir a gaveta da cômoda, dei pela falta de cerca de 2.900 ienes que certamente deveriam estar guardados ali. Perguntei-lhe a respeito, e ele disse não saber de nada. Insisti: "E o dinheiro de 220 ou 230 ienes que estava no zabuton esta manhã, era seu?" Disso tampouco sabia. Concluí, então, que talvez o dinheiro tivesse sido roubado. Naquela época ainda não havíamos entronizado a caligrafia sagrada; roguei, por isso, com todo o empenho, à Kannon-Sama do centro de ensino, pedi desculpas pela minha própria falta de cuidado e não voltei a pensar no assunto. Três dias depois, vi pegadas de pés descalços na escada. "Que estranho, o que será isso? Será outro roubo?", pensei. Ao verificar, encontrei 1.500 ienes em cima de uma estante de livros, sobre a mesa — creio que a pessoa, de consciência pesada, não conseguiu ficar com o dinheiro e veio devolvê-lo. Nunca senti tão vivamente os benefícios materiais de Kannon-Sama como naquela hora. Meu marido, igualmente espantado com fato tão estranho, tornou-se membro no mesmo instante, entronizou o Ohikari e, desde então, passou a colaborar de modo especial. Cerca de dois meses depois, por volta de fevereiro, o senhor nos disse que, se aplicássemos energia espiritual, a pesca seria farta. Naquela época meu marido gostava de pescar e trazia para casa cerca de um kan de peixe todas as noites. Contei-lhe essa história, e ele objetou: "Por mais que seja algo precioso, não é possível que se coloque energia espiritual e os peixes peguem." Repliquei: "No entanto, foi o senhor quem disse isso, então não deve haver engano — de qualquer forma, vamos tentar." Fizemos uma oferenda para a pesca, purificamos o barco e, enquanto aplicávamos energia espiritual em direção ao mar, com todo o empenho, pegamos um grande linguado de 1 kan e 300 monme, mais 2 kan de tainha, enguias e vários outros peixes — só naquela noite, 5 kan. Foi algo tão precioso e imerecido que, no dia seguinte, levamos os peixes ao centro de ensino para agradecer sem demora. Dias de gratidão Kono Shishido (47), Centro de Ensino de Isobe, Associação Shin'ai Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Kamishinden, Ujiie-machi, Shioya-gun, Tochigi Aconteceu no dia 22 de maio passado, data do festival esportivo da Escola Primária de Ujiie. Enquanto o Sr. Yoshinari Tadakichi, de Ujiie-machi, Oaza Nakayoshi, estava na escola para entregar a marmita, um ladrão invadiu-lhe a casa e levou cerca de 20 peças de roupa. De volta para casa, ao descobrir o ocorrido, o Sr. Yoshinari, atônito, correu à polícia para registrar a ocorrência. Sua esposa, entretanto — que conhecia a preciosidade de Komyo-Nyorai desde que recebera a entronização na casa da Sra. Shishido Kono —, tratou logo de fazer uma prece. Os Yoshinari viviam, por força da época, em aperto tal que nem podiam comprar um quimono para a criança, e o roubo foi um golpe muito duro. Ao saber disso, a Sra. Shishido, para confiar no poder da sabedoria maravilhosa de Kannon-Sama, recitou a Oração Zengen-Sandji com todo o seu empenho. Na noite do dia seguinte chegou ao Sr. Yoshinari a notificação de que um policial em patrulha encontrara dois grandes furoshiki escondidos na vegetação da plataforma da Estação de Yaita. Sem pensar em mais nada, ele foi ao local e conferiu: tudo era seu e, além do mais, o que julgava serem cerca de 20 peças eram quase 40. Alegre como um louco, veio ao centro de ensino junto com a Sra. Shishido para agradecer. Todos se emocionaram com este grande benefício material de Kannon-Sama e, dali em diante, passaram a viver dias de gratidão ainda maior. A carroça que voltou Seiichi Watanabe, Igreja Kannon do Japão, Igreja Tengoku, Endereço: Yunoki, Fuji-machi, Shizuoka Entronizamos Komyo-Nyorai, e dos seis membros da família minha avó, meu irmão mais novo e outras quatro pessoas receberam o Ohikari. Em 16 de agosto de 1948, minha avó — que sempre ficava de guarda — se achava hospedada na casa de um parente, para o festival de Suijin-Sama; foi durante essa ausência que ocorreu o incidente. Por volta da meia-noite a carroça ainda estava lá, disso não há dúvida; por volta das 4h30 da manhã do dia 17, porém, demos por sua falta: fora roubada. Procuramos para o lado oeste e nada encontramos. Já pensava em desistir, achando natural que objeto roubado não reapareça, quando minha esposa sugeriu que buscássemos também para o leste. Criei ânimo e, avançando devagar, vi marcas nítidas de carroça no chão macio da nova estrada Tokaido, recém-construída. Segui por cerca de 15 cho, até a estrada Fujinomiya Kaido, onde a trilha por fim se perdeu. Naquele momento lembrei-me, de súbito, de um amigo meu, Suzuki Fusakichi, que morava nas proximidades. Contei-lhe o caso, e ele respondeu: "Isso deve ter sido uma mulher" — o que me surpreendeu. Pedi detalhes e soube que, na noite do dia 16, Suzuki se hospedara na casa de um parente e que, por volta das 3h30 da manhã, ao chegar à passagem de nível da Linha Minobu, ainda no escuro, vira uma mulher que vinha puxando uma carroça. Supondo que ela fosse a uma plantação na montanha, perguntou-lhe: "Cedo, hein? Vai para o caminho da montanha?" Ela não respondeu. Achou-a estranha, mas seguiu adiante sem lhe dar maior atenção. Ao passar, ouviu uma "batida" e, voltando-se, viu que a roda da carroça havia prendido nos trilhos, e que a mulher empurrava e puxava, tentando soltá-la. Pensou consigo: "Não é possível que uma carroça que andava em linha reta na estrada fique presa nos trilhos." Continuou a observá-la e viu que, mantendo a mesma direção, ela entrou no jardim de uma casa chamada Okumura; achou estranho que naquela casa — onde moravam quatro ou cinco famílias de jogadores e gente de outros tipos — houvesse movimento a essa hora da madrugada, mas voltou para casa e, como ainda era cedo, tornou a dormir. Foi então que eu cheguei. Fui imediatamente ao jardim da frente daquela casa: a carroça não estava lá, mas as marcas de entrada e de saída eram bem visíveis. Não podia, contudo, invadir a casa sem mais. Pedi ajuda a um vereador chamado Tamura e, primeiro, procurei os vizinhos, os Makino, para apurar a situação. Soube que quem havia puxado a carroça para fora, por volta das 5 horas, era uma mulher chamada Oishi Kume (cerca de 50 anos), espécie de concubina de Okumura. Interpelada, a esposa de Okumura insistia: "Ela não veio, não sei de nada." Mas o marido, ao lado, disse: "Ela veio. Sou tolo, não sei bem as horas, mas ela pegou 150 ienes daqui e foi para a casa de um parente em Omiya. Vou telefonar imediatamente." Telefonou e, algum tempo depois, voltou pedindo com muita insistência que resolvêssemos o assunto em particular, sem tornar público. Garantiu que, mesmo que o objeto tivesse ido parar em mãos de terceiros, ele o recuperaria; e, desculpando-se repetidas vezes, saiu com uma criança de uns 13 anos, dizendo que iria buscá-la. Pouco depois, por estranho que pareça, Oishi Kume — que deveria estar em Fujinomiya — voltou de repente e, como se fosse desabar, adormeceu ali mesmo. Indagando, descobri que era viciada em morfina: sem a injeção, dava-lhe vontade de roubar o que fosse, dos outros ou seu, sem distinção; com a injeção, tomava-a uma sensação agradável e dormia. O marido de Okumura também era viciado em morfina. Pouco depois ela acordou e, interrogada, disse que a carroça estava na casa de seus pais, em Gokenya. Pus a mulher na bicicleta, fui buscá-la e a recuperei no mesmo instante. O pai e o filho que tinham ido a Fujinomiya, no entanto, cometeram outro roubo naquele mesmo dia, e foi grande o alvoroço em torno dos ladrões de pai e filho — ouvi dizer que o caso chegou a sair no jornal. Oishi Kume, por sua vez, passou aquela noite em sua própria casa, seguiu depois para a casa de Okumura e, na manhã seguinte, roubou do marido de Okumura tudo o que pôde e desapareceu. Em apenas dois dias recebemos proteção divina tão grande, e vimos com tanta clareza a recompensa e o castigo dados ao bem e ao mal, que só nos resta agradecer — não há palavras para expressar nossa gratidão. Salvo de um roubo por um triz Takejirō Hasegawa, Igreja Miroku do Japão, Endereço: Aza Ogawa, Notogawa-cho, Kanzaki-gun, Shiga Em 24 de outubro de 1948, a caminho de casa de uma viagem de negócios a Wakayama-shi, parei num cliente em Izumi-Omiya, na Linha Nankai. Por volta das 10 horas da manhã embarquei na estação e, cerca de 40 minutos depois, na Estação Shichido, recebi um milagre tremendo; fiquei realmente surpreso, e é a verdade desse fato que desejo relatar. Levava na pasta, naquele dia, documentos importantes e a quantia preciosa de 12.000 ienes, além de outros pertences pessoais. Por serem os itens mais importantes que trazia comigo, segurava-os na mão; como pesassem um pouco, acabei por acomodá-los na prateleira, sem tirar deles os olhos. Falaram mais alto, porém, o cansaço dos dois ou três dias anteriores e a falta de sono da véspera: quando o trem parou na Estação Shichido, acho que fechei os olhos por uns vinte segundos. Assim que o trem partiu, uma senhora sentada à minha frente me alertou: "A pasta que estava na prateleira não é a sua?" Olhei: minha pasta preciosa já não estava lá. Num sobressalto, levantei-me e pulei do trem em movimento, caindo no chão; ergui-me no mesmo instante e percorri a plataforma inteira, sem encontrá-la. Naquele instante tive a intuição de que o criminoso havia fugido, e minha visão escureceu. Nesse momento o trem parou bruscamente, e o condutor veio ao meu encontro: "O criminoso é este homem. Vou trazer sua pasta; espere dentro deste trem." Pude vê-lo recolhê-la dos trilhos, a cerca de cinquenta metros de distância. Já com ela em mãos, segui até a parada seguinte, Suminoe; ali o condutor deixou a mim e ao ladrão aos cuidados do chefe da estação, e o trem partiu. Juntei as mãos em oração e agradeci à senhora que me avisara. Chefe e criminoso discutiram longamente, mas, como eu já havia recuperado o que era meu e não presenciara o furto, não quis levar a acusação adiante. Alegrei-me com os benefícios materiais de Komyo-Nyorai, contei o ocorrido às pessoas ao redor e segui para Namba — eram 10h05 da manhã. Ao desembarcar em Namba, fui sem demora agradecer ao condutor; o criminoso ainda discutia, mas, graças ao que eu dissera em seu favor, parece que o liberaram sem maiores consequências. Por volta das 4 horas da tarde cheguei são e salvo à Estação Notogawa, e contei a todos a preciosidade de Nyorai-Sama. O que mais me impressionou foi isto: ao pular do trem, machuquei levemente o pulso esquerdo, mas nem cheguei a sangrar, e a dor foi pequena. A porta automática, que normalmente está sempre fechada, estava um pouco aberta; o trem parou; o condutor agiu com rapidez; a senhora me avisou a tempo. Bastaria que qualquer uma dessas coisas tivesse acontecido um segundo mais tarde para que eu perdesse esta oportunidade. Sinto profundamente que este milagre foi algo que recebi de Deus-Sama. A força da rebeldia em vão Yasujirō Ono (30), Ministro Responsável de Unidade Religiosa, Associação Seirei Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Kume-cho, Sakaide-shi, Kagawa As tristes notícias da derrota do Japão, nossa pátria, e da rendição incondicional trouxeram consigo a miséria de então, tão diferente da vida de antes — e para trás ficavam os resquícios de onze anos de vida colonial: éramos como cordeiros perseguidos por dragões e tigres, sofrendo violência, saques, sequestros e inúmeras outras tragédias indescritíveis. Tudo isso experimentei em meu próprio corpo, enquanto, passo a passo, retornava à pátria. Em meio à amargura dessa repatriação, eu pensava: "Deus existe? Buda existe? Por que tenho que sofrer tanto? Que se dane Deus e Buda." Com a derrota na guerra, minha fé, sem que eu percebesse, desapareceu de uma vez para um lugar distante; e a morte de meu filho amado, durante a repatriação, endureceu ainda mais o meu coração. Cheguei enfim à saudosa terra natal, mas de minha casa, destruída pela guerra, restavam apenas ruínas e as pedras da fundação. Meu estado de espírito, naquela época, era tal que só de imaginá-lo já é demais. Por esse tempo, meu irmão mais velho havia se convertido à Organização Kannon e, todos os dias, me explicava os ensinamentos; às vezes chegava a levar-me à força ao Centro de Ensino de Shimizu, onde eu ouvia as palestras do senhor e recebia Johrei. Mas, para mim, que não reconhecia a existência de Deus nem de Buda, qualquer palavra de ouro era como vento nos ouvidos de um cavalo. Sentia-me mal por meu irmão e minha irmã, que me explicavam tudo com tanta gentileza; ainda assim respondia que a fé era livre — e, quanto mais gentileza recebia, mais erguia a voz em argumentos contrários. Por força das circunstâncias, contudo, mudamo-nos para o local atual em Shikoku, e ali, seguindo o conselho do senhor, minha esposa fez o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu), em junho de 1946. Já em Shikoku, ela fez Johrei nas espinhas de uma certa senhora; longe de sarar, as espinhas infeccionaram ainda mais, e a senhora acabou ficando com raiva. Aproveitei a ocasião para gritar com minha esposa: "O objetivo do Johrei é alegrar as pessoas; mas, se é para piorar e irritá-las, a gentileza se torna um desserviço. Pare com isso, não importa o que meu irmão e minha irmã digam." De fé ainda superficial, e convencida de que a obediência ao marido vinha antes de tudo, ela guardou a luz no baú. Dali em diante, por dois anos inteiros, minha esposa e eu dormimos um sono profundo de fé. Meu irmão e minha irmã nos mandavam cartas de incentivo — "E o Johrei? Vamos, esforcem-se." —, mas nenhuma teve resposta: descartávamos todas com um sorriso amargo. Foi justamente em abril do ano passado, quando voltei para o festival da terra natal, que a conversa sobre a igreja veio à tona, como era de esperar; fui forçado a ouvir a palestra do senhor Shimizu e a comparecer ao centro de ensino. Depois de muitas perguntas e respostas, e pensando que era o que meu irmão queria, lá compareci com minha esposa, de má vontade, e ouvi o que ele tinha a dizer. Mas comigo mesmo pensava: "Se é possível resolver doenças e todos os tipos de problemas da sociedade apenas balançando as mãos, então médicos e remédios são desnecessários. Se Deus e Buda existem, por que temos que sofrer tanto desde a repatriação?" No caminho de volta, olhei para o vasto céu, suspirei, resmunguei que havia perdido em vão um dia precioso das minhas férias, e voltei para casa. Meu irmão, então, propôs: "Que tal irmos a Shikoku uma vez? Vou mostrar a vocês os benefícios materiais diante dos seus olhos; quero que fiquem sob meus cuidados por um tempo." Respondi com um "hum", mostrando fraqueza; mas, vindo o pedido de meu irmão, de quem estávamos recebendo ajuda, acabei concordando a contragosto. Meu filho tinha, por esses dias, uma ou duas espinhas na cabeça; depois do Johrei, em dois ou três dias elas se espalharam por toda a cabeça, a diarreia piorou e não paravam de sair remelas e secreções nasais. Vendo aquilo, pensei: "Por mais que seja Johrei, isso é insuportável." Corri à farmácia, comprei remédio e tentei fazê-lo tomar às escondidas de meu irmão; minha esposa objetou: "Isso não é justo com meu irmão." Daí vieram discussões de casal, várias vezes. Eu via, porém, a figura de meu irmão: havia abandonado o próprio emprego para salvar as pessoas do mundo, viera até Shikoku, onde não conhecia ninguém, e ali se esforçava dia após dia, andando duas ou três ri em busca de doentes, entre dificuldades fora do comum. E via, com meus próprios olhos, a figura de uma moça que, após oito anos de sofrimento, havia desistido deste mundo ainda viva, e a de senhoras que, desenganadas pelo médico, já haviam feito testamento — todas melhorando a cada dia e enchendo-se de esperança. Diante de fatos milagrosos tão numerosos que não caberiam numa lista, meu coração, que era como uma fortaleza, enfim despertou lá do fundo. Sentindo agora, profundamente, meus atos e pensamentos passados, pedi desculpas a Kannon-Sama por ter sido realmente imperdoável. Meu irmão deve ter ficado com raiva de mim; ainda assim, não me abandonou até o fim: sacrificou a própria vida para me mostrar os fatos e me guiar. Só posso curvar a cabeça diante de seu amor. Convertido no primeiro curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) em Sakaide, há dez meses, recebi desde então a orientação amorosa do senhor Watanabe, do senhor Shimizu e de muitos outros senhores, e tive a honra de visitar o Grão-Mestre cinco vezes. Há pouco recebi ainda a graça do Daikōmyō Nyorai, e minha alegria é verdadeiramente indescritível. Penso que devo estabelecer o primeiro núcleo na província de Kagawa o mais rápido possível e, com a ajuda de muitos colaboradores, venho avançando em meu serviço. Agora, salvo das trevas para a luz, não encontro palavras para expressar minha gratidão. Quantas vezes ultrapassei a linha da morte Teruko Nihongi (41), Presidente da Associação Nihon Kai da Igreja Kannon do Japão, Endereço: Wakamatsu-cho 58, Yokosuka-shi, Kanagawa Jamais esquecerei a primavera dos meus dezenove anos. No dia 15 de março, pisei em falso no terceiro degrau da escada do segundo andar e caí — foi esse o motivo de tudo. Desde então tornei-me paciente de cárie óssea na coluna vertebral. Durante longos dezesseis anos, dia e noite pensando em como voltar a ser uma pessoa saudável, sofri dores intensas e angústia mental; ainda hoje me arrepio ao relembrar aquela época. Nos primeiros três anos a dor foi relativamente pequena, e fiquei internada seis meses. Depois da alta, seguindo sempre os conselhos dos médicos, ia a qualquer fonte termal que dissessem ser boa para a cárie óssea e me dedicava aos mais variados tratamentos. Foi nessa rotina que, a partir do quarto ano, meus joelhos passaram a ceder de repente quando eu andava na rua; bastava tropeçar numa pedrinha para que o impacto se espalhasse pelo corpo inteiro, numa dor tão forte que me faltava o ar. Caminhar foi ficando cada vez mais difícil, o corpo todo amolecia, e eu passava deitada a maior parte do tempo. Fiz um gesso e, entregue inteiramente aos médicos, não havia um dia sem injeções e remédios. No Ano Novo em que completei vinte anos, porém, a cintura começou a doer na noite do dia 1º; na manhã do dia 2, ao acordar, ela estava completamente imóvel, e fiquei apavorada. Chamei um médico no mesmo instante e me deixei examinar, mas não havia outro tratamento além de injeções. Passava os dias num desamparo absoluto quando, no décimo, consegui enfim me sentar no futon. Ao ser massageada nas costas por minha irmã mais nova, surpreendi-me: o osso da coluna, que até então não era tão saliente, estava cerca de 3 bu mais alto. Foi assim que soube que me tornara corcunda. A partir daí compreendi que não podia confiar apenas na medicina e passei a buscar terapias populares por toda parte: eletricidade, digitopuntura, agulhas, moxabustão, medicamentos da medicina chinesa. Todos os dias, a primeira coisa que eu fazia com o jornal era percorrer a seção de anúncios; se aparecia um remédio para cárie óssea, eu os pedia todos. Os médicos me ordenavam repouso absoluto, mas bastava alguém dizer que havia um bom hospital ou tratamento em algum lugar para que eu fosse até lá de carro, não importava a distância, com grande esforço, para ser examinada. Na volta, invariavelmente, vinha a decepção — e isso se repetiu inúmeras vezes. Ansiosa demais por me tornar saudável, perdia-me atrás de uma coisa e de outra, e meus pais, meus irmãos e os conhecidos me aconselhavam: "Não se perca tanto." Foi assim muitas vezes; de qualquer forma, eu estava numa posição em que podia fazer minhas vontades, e trazia comigo o sentimento de que, se existisse Deus ou Buda neste mundo, um dia eu certamente encontraria um milagre e seria salva. Tinha a firme convicção de que, até encontrar a verdadeira coisa, aceitaria tudo. Tive, é claro, várias crenças ao longo do caminho, mas não recebi nenhum benefício material. Se perguntarem o quanto eu andava perdida naquela época, basta dizer que as pessoas que vinham me visitar perguntavam com frequência: "Há algum bom remédio ou terapia novamente?" E assim, entre angústias, os dias voavam como flechas, e a doença piorava cada vez mais. Em meados de fevereiro, quando eu tinha trinta e dois anos, contraí pneumonia aguda e pielonefrite e, de repente, caí em estado grave, chegando ao extremo da fraqueza. Quando me tiraram do futon e me puseram numa maca, tanto eu quanto as pessoas ao redor pensamos: "Desta vez, não passarei mais pela porta desta casa com vida." Senti uma solidão insuportável. Depois da internação, fiquei cinco dias inconsciente; a alegria de meus pais e irmãos ao me ver recobrar a consciência foi indescritível. No entanto, por cerca de um mês quase ninguém veio me visitar, o que me pareceu estranho. Um dia, ouvi alguém dizer no corredor: "Ainda está proibida a visita?" Surpresa, pedi que retirassem a placa de proibição imediatamente. Mas, depois disso, parece que entrei em estado de perigo mais três vezes. Mais tarde ouvi, do diretor e do vice-diretor do hospital: "Às vezes há pacientes que se curam milagrosamente, mas é a primeira vez que uma paciente como a senhora se salva." Ficaram admirados — isso, porém, foi história que só vim a saber depois. Parece que o médico havia dito claramente a meus pais e irmãos: "Mesmo que pareça ter melhorado, é temporário, não vai durar muito." De qualquer forma, no quinto mês forcei minha alta e voltei para casa com uma enfermeira. Após dois meses de tratamento em casa, a ajuda da enfermeira foi interrompida temporariamente, e eu fiquei feliz — mas a alegria durou pouco. Cerca de vinte dias depois, numa noite, levantei-me para ir ao banheiro e, ao tentar andar, senti um "estalo" na cintura. Agarrei-me a uma cadeira que estava ali, mas não consegui chegar ao banheiro nem voltar para o futon, que ficava a um passo de distância — não havia nada que eu pudesse fazer. Bastava mover um pouco a perna para que a dor se espalhasse por todos os nervos, uma dor aguda que atingia todo o sistema nervoso; ninguém mais podia me tocar. Levei mais de duas horas até conseguir, enfim, me deitar na cama. O sofrimento a partir de então é algo que não se pode exprimir em palavras. O médico assistente, é claro, e qualquer outro médico que se chamasse não podiam sequer me examinar, muito menos me tocar; se eu mesma movesse um dedo, a dor corria por todos os nervos como uma corrente elétrica e, a cada vez, eu sofria tanto que minha respiração parava. Nem os médicos conseguiam lidar com aquilo. Fui então abandonada por tudo e por todos, e caí, afinal, num estado de desespero literal. Pela atitude de minha família, soube com clareza que o médico já me havia desenganado. "Será que minha vida vai acabar aos trinta e dois anos?", pensei, e meu futuro escureceu por completo. No entanto, a vida humana, por mais frágil que pareça, também é forte, e eu não consegui morrer. Dia e noite, sem ter como escapar de um sofrimento indescritível, eu era mais amarga e mais escura do que a própria morte. A coisa mais dolorosa, no meio do sofrimento, era não poder rir. As pessoas que vinham me visitar, com a intenção de me consolar, contavam várias histórias interessantes do mundo para me fazer rir; eu sempre pedia, nessas horas, que não fizessem isso, mas de vez em quando me deixava levar pela conversa e tentava rir — e aí era um problema enorme: mesmo um riso pequeno atingia todos os nervos, e a dor aguda me fazia sofrer a ponto de parar a respiração. Acho que ninguém além de mim é capaz de imaginar esse sofrimento. Esse estado durou quatro anos. Eu era, verdadeiramente, um cadáver vivo — e esse cadáver era um amontoado de sofrimento. Meus pais, meus irmãos, os conhecidos e, provavelmente, todas as pessoas que eu conhecia achavam estranho que eu ainda estivesse viva; sem que eu percebesse, o caso virou assunto na cidade. Diziam que eu devia ter um coração especial e diferente, e chegaram a me apelidar de "senhora coração forte". De qualquer forma, eu era tida como uma paciente misteriosa. Chegou o momento em que eu mesma pensei que não havia mais jeito, e a notícia de que desta vez era definitivamente o fim se espalhou entre todos os parentes. Era o verão dos meus trinta e cinco anos, o décimo sexto ano desde o início da doença — ou seja, agosto de 1942. Já resignada a tudo, eu esperava a chegada da morte. No dia 27 daquele mês, uma tia, parente distante, veio visitar-me com um conselho: "Há uma boa terapia de digitopuntura. Que tal tentar o tratamento uma vez?" Àquela altura, porém, eu já experimentara todos os tipos de terapia de digitopuntura, sem nenhum efeito. Nunca dissera não ao conselho de quem quer que fosse; agora, tendo desistido de tudo, recusei pela primeira vez, com firmeza. No dia seguinte, aquela tia voltou e insistiu: "Meu neto (então com vinte e dois anos, universitário) ia ser operado de cárie óssea nas costelas, mas, com duas sessões de tratamento, o inchaço diminuiu e ele se curou sem precisar de cirurgia. Pense que está sendo enganada mais uma vez, e tente." Diante de tanta insistência, acabei não conseguindo recusar e decidi fazer o tratamento — pretendendo, porém, dispensá-lo depois de uma ou duas sessões. Naquela mesma noite, ela trouxe o Sr. Hayashi. Eu me submetia àquilo apenas por obrigação para com quem havia recomendado; mas, depois de o Sr. Hayashi tratar por cerca de trinta minutos, ele disse: "Tente virar de lado" — e a surpresa foi grande. Meu corpo, que sentia uma dor terrível ao menor movimento, moveu-se com receio e conseguiu deitar de lado sentindo apenas uma dor leve. "Ah, que milagre! Será que é um sonho?", pensei. Durante aqueles longos anos de vida no leito, eu sempre desejei poder deitar de lado, nem que fosse por um momento, e nunca conseguira; agora, com um simples tratamento de apenas trinta minutos, virava-me de lado milagrosamente. Ao mesmo tempo que me espantava, intuí que aquela não era uma terapia de digitopuntura comum. Quando o Sr. Hayashi foi embora, tamanha era minha alegria que, sem perceber, sentei-me na cama para agradecer-lhe. Minha irmã, que estava ao lado, e a empregada se surpreenderam e disseram: "Ah, você sentou!" Foi então que percebi que estava sentada, e me surpreendi pela segunda vez. A pessoa que havia trazido o Sr. Hayashi também ficou muito contente e foi embora; mas, quando tentei me deitar novamente, a dor voltou com força, causando-me grande sofrimento, e não consegui mais virar de lado. Ainda assim, como a dor havia passado durante o tratamento, resolvi me deixar enganar mais uma vez. Ao receber a segunda sessão de tratamento, percebi que, mesmo movendo o corpo, não sentia tanta dor quanto na véspera. Cada vez mais intrigada, perguntei ao Sr. Hayashi: "Este tratamento não é apenas força humana; há alguma outra força agindo, não é?" Ele fez uma expressão de leve surpresa e, batendo no peito esquerdo, disse: "Na verdade, está aqui" — sorriu e foi embora. Aquilo me deixou extremamente intrigada: o Sr. Hayashi se despedira dizendo algo como se houvesse algum artifício no coração. Ao receber a terceira sessão de tratamento, eu disse: "Sr. Hayashi, no meu estado grave, não devo mais melhorar, mas, pelo menos, se eu pudesse, antes de morrer, ficar de pé e ir ao banheiro, nem que fosse por dez dias, não sei como seria feliz." Com uma expressão séria, ele respondeu: "Não é só o banheiro; dependendo da sua determinação, com certeza voltará a ter um corpo saudável como antes." Fiquei surpresa. Durante os dezesseis anos anteriores, sempre que eu perguntava aos médicos — e também aos praticantes de terapias populares — "O senhor pode me curar?", a resposta era invariavelmente algo como "Já houve casos de cura, então vamos tentar." Nunca imaginei que fosse realmente me curar; mas as palavras firmes do Sr. Hayashi, "Você vai se curar", ressoaram forte em meu peito. Ao mesmo tempo, perguntei: "Sr. Hayashi, por favor, me diga claramente: esta terapia não é uma simples digitopuntura. Acho que é obra de um espírito poderoso, seja de um deus ou de um buda." Ele olhou para os muitos livros religiosos ao lado do meu travesseiro e disse: "Só quem tem inclinação religiosa entende rápido." E então ouvi: "Na verdade, é o poder de Kannon-Sama que está curando, não o meu poder." Naquele instante, senti como se um clarão rompesse diante dos meus olhos. Ah, aquela alegria que eu nunca havia sentido antes! Eu vagara sem cessar na escuridão e no desespero, e me encontrava à beira da morte; foi justamente ali que vislumbrei um fio de luz. Tomada por completo por um júbilo sem medida, supliquei: "Acreditarei em suas palavras e me agarrarei a Kannon-Sama com toda a minha alma. Seguirei suas instruções — por favor, guie-me." A partir de então melhorei dia após dia, como se descascasse uma fina camada de papel. Cerca de vinte dias após o início do tratamento, comecei a conseguir me apoiar e realizei, enfim, o sonho de longa data de ir ao banheiro, ainda que me segurando em algo. A emoção daquele momento é algo que jamais poderei exprimir por palavras ou pela escrita; não pude deixar de me maravilhar com a grandeza dos benefícios materiais de Kannon-Sama. No dia 28 de outubro, o Sr. Shibui (atual presidente da Igreja Miroku do Japão) veio entronizar Kannon-Sama no segundo andar, e eu também pude subir e fazer a reverência. Ao ver pela primeira vez a imagem de Kannon-Sama pintada pessoalmente pelo Grão-Mestre, tomou-me uma gratidão tão imensa que as lágrimas não paravam de cair; senti que a expressão "emoções infinitas" havia sido criada para aquele momento. Naquela ocasião, fiz uma promessa enorme: no dia 10 do mês seguinte (10 de novembro), iria à casa do Sr. Shibui, em Yodobashi, Tóquio, para fazer o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu). Como havia prometido, decidi com firmeza que iria acontecesse o que acontecesse e, enquanto suplicava a Kannon-Sama com devoção, comecei milagrosamente a andar sozinha, um passo, dois passos. Finalmente, no dia da promessa, acompanhada por minha irmã, fui até lá — meu coração doía, a dor de cabeça era intensa, a visão estava turva; dizem que minha aparência, na época, era como a de um fantasma. Mesmo assim, durante três dias fui de Yokosuka e, a partir do quarto dia, já sem conseguir fazer o trajeto, passei a ir de uma hospedaria. Ao completar a semana do curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu), minha alegria foi indescritível — minha irmã também fez o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) junto comigo. A partir daquele dia, agarrei-me exclusivamente a Kannon-Sama, recebendo proteção divina e benefícios materiais. Passaram-se sete anos, e inúmeros foram os favores recebidos até os dias de hoje. Olhando para trás: fui desenganada pelo médico várias vezes, eu mesma me resignei com a morte iminente e, sendo literalmente um cadáver vivo, recebi de novo um corpo saudável graças à grande compaixão da venerável Kannon-Sama. A felicidade de poder agora viajar a qualquer lugar distante em missão de pregação é tal que, por mais que eu agradeça, não chega nem a um décimo milésimo da graça recebida. Com toda a sinceridade, entoo o hino de louvor: "Que alegria, minha alma reviveu, E ainda me foi permitida a arte de curar." Chorando de emoção diante da infinita e grande compaixão de Kannon-Sama, dedico-me todos os dias, com gratidão, a transmitir ao maior número possível de pessoas a alegria da minha própria salvação, empregando minhas humildes forças no Caminho da pregação. A cárie óssea se cura — Um poder que supera a medicina moderna Sayoko Ishizaki (33), Associação Kinrin Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Yokaichi-Shinbo, Oshino-mura, Ishikawa-gun, Ishikawa Grão-Mestre, recebo uma proteção divina imensa e ilimitada, e minhas lágrimas de gratidão não cessam. Trêmula da gratidão e da emoção que me transbordam, relato como recebi essa proteção divina e ofereço aqui meus mais profundos agradecimentos. Aos dezenove anos, em setembro, fui acometida por cárie óssea e, dia após dia, atormentada por um corpo doente, vivia em trevas. Por fim, aos vinte e cinco anos, fiquei acamada. Daí em diante, tentei tudo o que me diziam ser bom: hospitais (fiz gesso três vezes), digitopuntura, moxabustão, técnicas de imposição de energia (kiai-jutsu), osteopatia — nada surtiu o menor efeito. No início, a cárie óssea atingia apenas a coluna torácica, mas depois alcançou também a cervical e a lombar, e os problemas se multiplicavam por várias partes do corpo; meu corpo definhava, e perdi as forças para me levantar. Mesmo sabendo que era uma doença incurável, com o único pensamento de me curar de alguma forma, lutei contra ela com todo o esforço e toda a paciência de que fui capaz. No outono dos meus vinte e nove anos, minha energia vital finalmente se esvaiu e desisti, achando que não havia mais esperança de recuperação. Haverá algo mais trágico para um ser humano do que resignar-se a uma doença incurável? Caí então no desespero e na autodestruição; os dias se sucediam em meio à agonia e à angústia, e prosseguia uma vida de escuridão e ignorância. Tamanho era o sofrimento que, em segredo, pensei muitas vezes no caminho da morte. Certo dia, porém, minha irmã mais velha me falou da graça do Johrei. Como tudo o que eu havia tentado até então fracassara, não consegui acreditar de forma alguma; seria mais uma inutilidade, como as anteriores, pensei, e não me animei. Minha irmã, contudo, insistiu tanto que acabei recebendo o Johrei. Graças a Deus, a dor diminuiu e, aos poucos, comecei a conseguir me levantar. Foi então que ouvi do Mestre Hayashi a causa fundamental da doença: "A doença é um processo fisiológico natural para promover a saúde, e uma grande bênção de Deus" — além de outras explicações gentis. A ansiedade e o medo da doença, que não me largavam um instante sequer, desapareceram, e, daquele dia em diante, passei a me levantar. Desde então, meu coração se iluminou, minha mente se acalmou, meu apetite aumentou e, recebendo o Johrei dos mestres que me orientavam com sinceridade, melhorei rapidamente. E não foi apenas a doença: minha alma também reviveu... Que alegria! Que graça imensurável é esta? Agora estou sendo cuidada na casa do Mestre Nakata, onde recebo seu Johrei sincero e melhoro dia após dia, chegando ao presente repleta de esperança radiante. Olhando para o passado, aquilo era de fato o sofrimento do Inferno neste mundo. Este corpo, para o qual todos, inclusive eu, só enxergavam a "morte", foi salvo pelas mãos da grande compaixão... A que poderia comparar esta alegria? Ah, quando penso naquela época e a considero ao lado do presente em que fui salva, as lágrimas correm sem parar e a caneta treme. Apenas soluçando com lágrimas de emoção, prostro-me diante de Daikōmyō Nyorai. Ah, o poder miraculoso e a inteligência maravilhosa... Que esplêndida força de salvação! A cárie óssea, tida pela medicina moderna por doença incurável, está sendo curada mesmo com o abandono do repouso — o único tratamento da medicina —, simplesmente pela radiação espiritual divina do poder miraculoso de Kannon. E não é só a cárie óssea: vi com meus próprios olhos doenças consideradas incuráveis pela medicina serem curadas com tamanha simplicidade. Por meio desta grande alegria, compreendi que a "felicidade" — o maior e último objetivo que a humanidade almeja há milhares de anos — pode ser recebida ao entrar-se nesta religião. Ah, não posso deixar de louvar o surgimento desta grande religião. Diante da graça do Grão-Mestre, apenas soluço com lágrimas de gratidão. Meu único desejo é que, o quanto antes, pela arte da cura, todos os sofrimentos sejam resolvidos em sua raiz e se possa mergulhar na alegria; que eu possa transmitir isso ao maior número possível de pessoas e ajudar, assim, na construção de um mundo sem doença, pobreza e conflito. Dia após dia, esse desejo arde com mais força. Lamento não poder exprimir nem um décimo milésimo da gratidão que transborda em meu peito, mas aqui encerro minha caneta. Curada de cárie óssea após seis anos Mutsu Masuda, Filial Nikkō da Igreja Kannon do Japão, Igreja Tengoku, Endereço: Ōshinshima, Takasu-mura, Shida-gun, Shizuoka Sofri por muito tempo de cárie óssea na coluna vertebral. Nos últimos seis anos, fui consultada por muitos médicos e, por fim, fiz um colete ortopédico na Cruz Vermelha de Shizuoka, que usei por quatro anos e dois meses. Em 11 de novembro do ano passado, tive uma pneumonia como complicação. Na manhã do dia 6, e por volta das 10 horas do dia 7, tive uma grande hemorragia nasal; a respiração também se tornou muito difícil, e fui imediatamente ao médico. Fui diagnosticada em estado muito grave, e me foi ordenado repouso absoluto. A tristeza da minha família era indescritível. Sabendo que a morte se aproximava, eu, incapaz de me mover, debatia-me numa agitação enlouquecedora, sem saber o que fazer com as lágrimas que brotavam sem parar. Minha mãe, com o coração partido, disse-me de repente, na manhã do dia 10: "Já faz três dias que não consigo engolir arroz. Por que você não se agarra a Kannon-Sama?" Assim, na tarde do dia 11, ela foi pedir ajuda à casa de Sone Jukichi. Oh, que orientação divina! No dia seguinte, dia 12, haveria o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) em Ozu-mura. Minha mãe voltou com uma alegria como se a primavera tivesse chegado de repente. A partir do dia 12, recebi o Johrei do Sr. Sone duas vezes ao dia, de manhã e à noite, enquanto ela saía cedo para a reunião do curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu), rezando para que eu fosse salva o mais depressa possível. Três dias depois, no dia 14, consegui tirar o colete ortopédico que julgava jamais poder deixar em toda a minha vida. Diante de tal alegria, de tal contentamento, todos nós, unidos, choramos soluçando diante da majestade de Kannon-Sama. Completei em segurança os três dias do curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) e, a partir do dia 15, recebi o Johrei dia e noite. O Sr. Sone também vinha com empenho, e a febre, que não baixava dos 39 graus, começou a ceder por volta do dia 19. No dia 25, recebi a imagem de Byōbu Kannon (Kannon do biombo) e, na cerimônia em sufrágio dos antepassados, pude fazer a reverência junto com toda a minha família. Verdadeiramente, foi esta força grandiosa que salvou minha família: fui salva da beira da morte, o colete ortopédico foi removido, e fui salva sem receber medicamento algum. Esta graça é mais alta que as montanhas e mais profunda que o mar; estou tão emocionada que me faltam palavras de agradecimento. Agradeço profundamente por ter podido receber esta força grandiosa, graças à proteção divina do Grão-Mestre e à orientação do Mestre Higuchi. Depois disso, meu corpo se recuperou bem. No dia 18 de dezembro, fui com minha mãe à casa do Sr. Sone para agradecer e fazer uma reverência à Imagem da Luz Divina. Senti o corpo pesado, calafrios e dores no peito e, achando que fosse uma recaída da pneumonia, voltei para casa. Fui até o altar doméstico, concentrei com devoção minha vontade em Kannon-Sama, recitei sete vezes a Oração Zengen-Sandji e me deitei, pedindo à minha mãe que me fizesse o Johrei. Na noite do dia 22, sonhei que estava recebendo Johrei de Kannon-Sama — uma proteção divina verdadeiramente temível. A partir do dia 24 de dezembro, fiz com meu irmão o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) com o Mestre Higuchi. No dia 26 de janeiro, meu irmão mais novo também se converteu, e nosso lar transborda com a alegria da primavera. Em fevereiro, entronizamos também a Imagem da Luz Divina. Agarrada a esta força bendita, estou decidida a me dedicar com empenho ao Caminho da salvação e a convidar para o radiante Caminho da felicidade o maior número possível de pessoas que sofram como eu sofri no passado. Doença mental completamente curada — Um ex-combatente que recuperou a vida Hideo Inoue (28), Associação Hakkō Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Hōjō-cho, Onsen-gun, Ehime Fui desmobilizado em junho de 1947 (Showa 22). Depois de cerca de três anos e meio nos trópicos, voltei com o corpo debilitado e os cabelos ralos; já em casa, não tinha ânimo para nada e deixava os dias passarem. A insônia persistia, o apetite não vinha, a cabeça vivia nebulosa, e eu arrastava as horas num humor sempre azedo. A cabeça pesava cada vez mais, o julgamento perdia a precisão, não conseguia pensar e sentia que, dia após dia, minha mente ia se afastando de mim. Às vezes caminhava sozinho até a praia; outras, sem conseguir dormir, ficava sentado no meio da noite, olhando a lua e sofrendo. Cheguei a pensar: "Já não sirvo para nada; é melhor morrer." Até que um dia, enquanto ajudava no negócio da família, a cabeça ficou insuportável e tive uma congestão; daí em diante, era como se eu não compreendesse mais o que via ao redor. Não conseguia permanecer sentado no mesmo lugar, rodava pela casa e, quando saía, apenas ia e voltava pela mesma rua. Sentia a mente à beira da loucura. Disse aos meus pais: "Vou enlouquecer hoje ou amanhã; façam alguma coisa rápido." Naquela noite vomitei, meu estado de espírito era péssimo e eu me debatia em agonia. Meus pais, aflitos, me deram remédios, que não surtiram efeito algum. Achei que melhoraria se fosse a um hospital psiquiátrico, e meus pais me acompanharam para a internação. Lá disseram que eu não tinha anormalidade mental, mas sofria de uma doença em que o pensamento não se organizava. Acabei sendo posto sozinho num quarto para doentes mentais de grau leve, com esta advertência: "Até melhorar, você não pode sair deste quarto de jeito nenhum, nem conversar. Pode ficar deitado na cama ou, no máximo, olhar pela janela." Segui as instruções, mas, quando ficava sozinho, a dor e a ansiedade aguçavam ainda mais meus nervos, até se tornarem insuportáveis; várias vezes saí correndo do quarto até o posto dos enfermeiros. No fim, disseram que eu não me recuperaria se saísse do quarto, fecharam a porta, trancaram-me e mandaram que eu suportasse. Suportei a dor e passei um mês assim. Nesse período, tomei medicação por cerca de quinze dias e, nos quinze seguintes, fiz eletroterapia; por causa da insônia, meu corpo estava extremamente debilitado, e nada melhorava. A hora da eletroterapia era especialmente terrível — quando a corrente passava, eu perdia os sentidos e ficava horas inteiramente inconsciente. Acabei decidindo ter alta. De volta em casa, os vizinhos se preocupavam comigo, mas eu tinha aversão a conversar: dizia uma palavra e saía correndo. Minha conversa repetia a mesma coisa várias vezes; eu já era um doente mental. Foi então que minha mãe me contou que em Hōjō-cho havia um senhor chamado Mestre Koda, que curava qualquer doença, e disse que eu deveria ir pedir ajuda naquele mesmo dia. Fui imediatamente receber o Johrei do Mestre Koda. Naquela época, mesmo andando, eu me sentia como dentro de um sonho, mal compreendendo o que me diziam. No quinto dia, depois de receber o Johrei e voltar para casa, senti como se algo na nuca tivesse desabado, à maneira de um deslizamento de terra; ao mesmo tempo, a cabeça, até então pesada, ficou muito mais leve, e meu julgamento se tornou mais claro. Quando contei isso ao Mestre, ele disse que as toxinas acumuladas na cabeça haviam se dissolvido e descido, e que por isso eu me sentia melhor. Dali em diante, continuei com empenho. Minha urina ficou turva, e vieram secreção nasal, expectoração, diarreia e assim por diante, com melhora dia após dia. Um mês e meio depois, já conseguia fazer trabalhos até então totalmente impossíveis. Recebi purificações uma após a outra, eliminando muito catarro e secreção nasal, e a diarreia se prolongou por cerca de quatro meses, sendo diária e mais intensa durante um mês. Terminada a purificação, o apetite aumentou, passei a dormir profundamente, a cabeça ficou clara e o corpo, forte. Eu estava prestes a encerrar minha vida como um doente mental, mas fui salvo pela força bendita de Kannon-Sama. Esta alegria é algo que jamais poderei expressar em palavras ou por escrito. Fiz o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) e, para poder ajudar na obra de Kannon-Sama e retribuir nem que seja um décimo milésimo da graça recebida, pedi ao Mestre Koda e estou ajudando. Creio que há no mundo muitas pessoas sofrendo de doenças como a minha; rezo para que se agarrem a Kannon-Sama e recebam o Johrei o quanto antes. Em minha casa, meu pai teve uma doença respiratória tão grave que cheguei a pensar que não sobreviveria, mas recebemos a graça; meu irmão mais novo também sofria de problemas na cabeça e, com a orientação do Mestre Koda, está recebendo a graça. A segunda purificação de meu pai igualmente terminou, e hoje ele está saudável e se dedica ao trabalho de casa. Toda a família fez o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) e entronizou Komyo-Nyorai. Desde minha doença, nossa casa vivia sombria; com a orientação do Mestre Koda, tornou-se um lar iluminado, e passamos dias de gratidão. Salva da paralisia infantil Ryō Haraki, Igreja Kannon do Japão, Igreja Tengoku, Endereço: Ikaumi, Fujieda-cho, Shida-gun, Shizuoka Sou uma mãe que se converteu em julho de 1947 (Showa 22) e que, enquanto esperava o retorno do marido da guerra, orava pelo crescimento dos meus dois filhos, passando dias de gratidão. Tomo agora esta caneta inábil para relatar como meu filho foi salvo da paralisia infantil. No ano passado, logo depois de retiradas as decorações de Ano Novo, por volta do meio-dia do dia 9, ouvi de repente um grito na rua: "Rápido, rápido!" Corri para fora e vi meu filho mais velho, Takashi (nove anos), mole, sendo carregado pelo vizinho. Quase desmaiei de choque. Chamei imediatamente a Sra. Mori, fiel fervorosa da vizinhança, e pedi também que o Mestre Ikegaya viesse do centro de ensino. Até o anoitecer, o menino teve duas convulsões, com os olhos revirados e a boca cerrada; por mais que o chamássemos, nada adiantava. Até a noite do segundo dia sua condição oscilava e eu, temendo o que seria daquele filho tão transformado, continuei a concentrar minha vontade. Perto do amanhecer do terceiro dia, ele começou a falar e chamava sem parar: "Mamãe, mamãe!" Eu lhe acariciava o rosto e, com a boca junto ao seu ouvido, dizia: "Mamãe está aqui, está junto com o Takashi", mas, por mais que eu repetisse, ele não entendia. Meu filho, que não via nem ouvia, chamava pela mãe em plena solidão e chorava; era uma visão dolorosa, e meu peito parecia prestes a se partir. Nesse momento, meu tio, que viera nos visitar, disse: "É porque você ama o Takashi que estou falando. 'Kannon-Sama, Kannon-Sama', Kannon-Sama é bom, mas é melhor pensar bem. Chame um médico rápido. Você não acha que, se ele morrer sem ver um médico enquanto o pai está fora, será imperdoável?" Fiquei sem saber o que fazer, mas naquele instante decidi me agarrar a Kannon-Sama; pensei que chegaria a hora em que ele certamente entenderia e resolvi tentar mais uma vez. Respondi: "Entendo bem a preocupação do tio, mas vou me agarrar a Kannon-Sama até o fim. Mesmo que esta criança morra, se for purificada e partir, será minha realização." Ele se levantou com palavras ásperas: "Se a mãe de sangue pensa assim, então não há o que fazer." Desesperada, concentrei minha vontade: "Por favor, Kannon-Sama, salve-o. Pelo menos a visão ou a audição, um dos dois, salve-o o mais rápido possível." Aos poucos, ele começou a responder ao que eu dizia. A alegria daquele momento foi indescritível; meu coração transbordava de gratidão. Pouco depois, começou a enxergar, e até um sorriso lhe apareceu no rosto; à tarde, comeu uma maçã. O lado esquerdo do corpo, porém, ainda não respondia. O Mestre Ikegaya me advertiu que eu precisava me tornar membro efetivo o quanto antes e salvar os antepassados. Pensei: "É verdade. Vou me agarrar com mais seriedade." Na manhã do quarto dia, pedi ao Mestre Ikegaya que fosse ao centro de ensino cuidar dos trâmites. Cerca de uma hora depois, de repente, os braços e as pernas do meu filho começaram a se mover; fiquei tão surpresa que me perguntei se era um sonho. Os presentes também diziam que aquilo parecia mentira e comentavam o caso, admirados, quando o Mestre Ikegaya chegou trazendo Kannon-Sama. Ao ouvir sua explicação, descobrimos que a hora em que ele concluíra os trâmites de membro efetivo no centro de ensino e recebera Kannon-Sama era exatamente a mesma em que os membros do meu filho se haviam libertado. Ficamos ainda mais surpresos. Entronizamos a imagem de imediato e, quando nos sentamos diante do altar para agradecer mais uma vez, meu peito estava tão cheio que não consegui dizer nada, apenas repetia: "Muito obrigada, muito obrigada." No quinto dia, ele já queria sair para brincar, o que me preocupou, mas consegui, naquele dia, mantê-lo brincando dentro de casa. A partir do sexto dia, brincou com as crianças da vizinhança e, no nono, ao ver meu filho indo para a escola, pensei: "Será que esta é a criança que, há quatro ou cinco dias, estava doente, sem saber se viveria ou morreria?" Parecia mesmo um sonho. Meu tio, que tanto se opusera, ficou completamente surpreso com o fato e fez, sem demora, o curso (aula) de preparação para receber o Ohikari (kyoshu). Hoje todos nós vivemos juntos uma vida de fé tranquila. Ao ver meu filho, que saudou o Ano Novo deste ano com saúde, lembro-me de sua figura lastimável de um ano atrás, e minhas emoções são infinitas. Não tenho palavras para agradecer ao Grão-Mestre, ao Mestre Nakajima e ao Mestre Higuchi; sinto-me incapaz e envergonhada por não conseguir expressar meu coração. De agora em diante, não há outro caminho senão salvar o maior número possível de pessoas neste bendito Caminho e retribuir nem que seja um décimo milésimo da graça recebida. É o que sempre tenho em mente. Pelo poder divino, um morto revive Chieko Takayanagi, Organização Kannon do Japão, Igreja Tengoku, Endereço: Tsuboi-Shinden, Shinohara-mura, Hamana-gun, Shizuoka Há no mundo muita gente que prossegue seus dias em ansiedade e angústia, em meio à doença, à pobreza e ao conflito; a nós, porém, foi dado sermos guiados ao bendito e venerável Caminho de Deus. Recebemos luz para o futuro, vivemos com grande esperança e só temos gratidão pela honra de receber proteção divina dia e noite. Desta vez, mais uma vez recebemos o poder de Komyo-Nyorai e um grande milagre, que humildemente relatamos. No dia 22 de dezembro do ano passado, por volta das 7 horas da manhã, eu trabalhava no campo em frente de casa quando, distraidamente, notei uma aglomeração de pessoas na Estrada Tōkai. Curiosa com o que teria acontecido, aproximei-me: havia um homem caído, em estado de morte, e cerca de quarenta ou cinquenta pessoas se apinhavam ao redor, agitadas. Ao ver aquilo, esqueci-me de mim mesma, abri caminho entre a multidão e entrei. Primeiro tomei-lhe a mão esquerda para verificar o pulso, mas não senti pulsação alguma; as articulações dos membros estavam rígidas e o corpo, frio — em tudo o estado de um cadáver. Compreendi então que, certamente, aquele homem nos fora dado, a mim e a meu marido, para que a existência do sublime Deus e Seu poder absoluto se manifestassem diante daquele público, onde havia muitos ateus. Enquanto eu soluçava de gratidão pela compaixão de Kannon-Sama, suplicando que nos concedesse Seu poder sublime, meu marido começou a entoar a Oração Zengen-Sandji, e eu continuei a realizar o Johrei. Do meio da multidão houve então até quem gritasse em alta voz: "O que estão fazendo com um morto? São um casal de tolos e loucos." A essa altura, os presentes já passavam de cem, e ali estavam também funcionários da prefeitura e da polícia. Sem nenhuma inquietação, porém, agarrados ao poder absoluto de Deus, prosseguimos com o Johrei. Foi quando, ao entoarmos pela quarta vez a Oração Zengen-Sandji e a Graça do Poder Kannon, aquele jovem soltou um gemido, e a respiração lhe voltou, aos poucos, ao normal. Imaginem a nossa alegria — o que ia em nossos corações naquele instante! A sublimidade do poder, a gratidão, o júbilo: tudo nos encheu o peito de uma só vez, e não conseguíamos dizer palavra; apenas as lágrimas de gratidão brotavam sem cessar. Em quinze minutos ele se recuperou por completo, a ponto de começar a contar sua história de vida. Descobrimos, então, que era um jovem cego de vinte anos, natural de Quioto. Tendo-nos sido permitido manifestar o grande poder diante dos ateus, tanto as pessoas da vila quanto os funcionários da prefeitura parecem ter refletido profundamente. Agraciada com tão grande virtude divina, apresento este relato com reverência. Uma doença rara em dez mil pessoas – a doença de Richard é curada Goichi Asano, Associação Senshin Kai da Igreja Miroku do Japão, Endereço: Shinmachi 2-chome, Ōgaki-shi, Gifu Por volta de outubro de 1937, eu sofria de dores lombares. O médico diagnosticou nevralgia e, durante seis meses, tratei-me com injeções; a dor, porém, não passava, e o sofrimento só aumentava. Desisti: abandonei o tratamento médico e entreguei-me à natureza — e então melhorei um pouco. Em julho de 1939, fui convocado e enviado para o norte da China, mas, por causa da dor lombar, continuei a receber injeções, sem conseguir cumprir o serviço como um homem normal, e assim passei um ano. Quando fui dispensado da convocação e voltei para casa, ainda passei um ano sem conseguir realizar plenamente os trabalhos domésticos. Depois, fui convocado outra vez e, após cerca de meio mês de treinamento intenso, a doença reapareceu. O diagnóstico já não foi de nevralgia, mas de "doença de Richard", e fui internado. Passei dois meses na filial do Campo de Treinamento de Nagoia, onde me deram aspirina e um tônico estomacal como medicamentos; a dor lombar, no entanto, não me abandonava. Recebi alta e fui dispensado da convocação, mas não podia trabalhar. Em verdadeiros apuros, consultei vários médicos; todos disseram que não havia cura — era uma doença que ocorria em uma em mil, ou uma em dez mil pessoas. Fui convocado duas vezes por requisição de trabalho, mas fui reprovado por causa do histórico da "doença de Richard"; quando o exército me convocou, também fui reprovado no exame de saúde pelo mesmo motivo. Senti como se tivesse recebido uma sentença de morte. Foi então que, em julho de 1946, a mão misericordiosa de Kannon-Sama me salvou. O Mestre Kawabata Hiroshige, atual presidente da Sociedade Devota, já pregava na cidade de Ogaki naquela época. Ouvi dizer que, agitando as mãos, era possível resolver a doença, a pobreza e o conflito. Opus-me veementemente, mas, seguindo as instruções do mestre, recebi Johrei e acabei por me converter. Quando comecei a ministrar Johrei em outras pessoas, elas ficaram muito felizes. Após a conversão, apliquei Johrei num doente de apendicite a quem o médico dissera: "É tarde demais, a cirurgia é impossível." Em pouco tempo ele se curou sem dificuldade, cheio de alegria; senti profundamente que aquilo não era obra humana. Desde então continuei a me dedicar ao Johrei e, sob a calorosa orientação do Mestre Watanabe e do Mestre Kawabata, cheguei ao dia de hoje. Minha antiga dor lombar, sem que eu percebesse como nem quando, ficou completamente esquecida, e fui agraciado com uma vida radiante e luminosa. Tudo isso se deve à grande compaixão de Kannon-Sama, e só me resta chorar lágrimas de gratidão. Agora, olhando para o passado, vejo que a "doença de Richard", que os medicamentos não puderam resolver, foi sem dúvida uma provação dada por Kannon-Sama; e sinto apenas gratidão. Como ensina o Grão-Mestre: "O homem bom é aquele que acredita no invisível; o homem mau é aquele que não acredita no invisível." Por me haver sido permitido acreditar no invisível, a alegria que hoje sinto não cabe em palavras nem na escrita, e minha família também se tornou muito feliz. Empenhar-me neste serviço sublime não é outra coisa senão desejar que o maior número possível de pessoas no mundo compreenda a obra de salvação da humanidade. Profunda gratidão pelos ensinamentos – salva de "convulsões" sem diagnóstico Take Uchiyama, Filial Futamata da Associação Taisei Kai da Igreja Kannon do Japão, Endereço: Akasa-mura, Hamana-gun, Shizuoka Ontem e hoje, minha irmã mais nova queixou-se de dor de cabeça e, mal chegava da escola, deitava-se. Assim foi por cinco dias, uma semana. Fim de maio: ainda que se diga ser época de resfriados, é a melhor estação do ano — o que teria acontecido? Por volta do dia 10, ela já não enxergava com o olho esquerdo; no dia seguinte, sentia opressão no peito. Por mais que a levássemos ao médico da vila, ele não dava um diagnóstico claro, e o corpo dela piorava a cada dia. Estudiosa e teimosa, no último ano do ensino fundamental, minha irmã não queria faltar à escola. Não aguentando mais ver aquilo, pensei em trocar de médico. Forcei-a a ficar, quando já estava de saída para a escola, e a levei ao Sanatório Nacional Tenryuso. Como era uma paciente cuja doença não tinha nome, examinaram-na médicos especialistas em clínica geral, cirurgia e todas as áreas, mas nenhum soube nomear o mal. A causa parecia estar num pequeno descuido: ao brincar de pular elástico na escola, ela teria caído e batido com o lado do corpo. Durante cerca de meio mês não houve grandes mudanças; depois de vinte dias, de um mês, chegou àquele estado. Sem nenhum diagnóstico do Tenryuso, voltamos para casa com o rosto tomado de ansiedade. A doente também estava muito abatida. Deitamo-la e, mal havia passado uma hora, ela começou a ter fortes convulsões. Éramos uma família de agricultores e, no fim de maio, época da colheita do trigo, todos estavam nos campos; sozinha a cuidar dela e sem saber o que fazer, chamei os vizinhos e pedi que corressem atrás do médico e dos remédios. De um dia para o outro, as convulsões só aumentavam de frequência; além disso, a respiração, já difícil, tornou-se ofegante, a ponto de parecer que ela expiraria a qualquer momento. Minha mãe e eu, a seu lado, nos sentíamos desamparadas. Nesse meio-tempo, metade do corpo ficou dormente; eu lhe massageava braços e pernas sem parar, e a dor de cabeça era intensa. Chamávamos um médico e outro, e às vezes aplicávamos quatorze ou quinze injeções de uma só vez. O alívio, porém, era passageiro: duas ou três horas depois, ela voltava a se queixar de dores pelo corpo — manhã, tarde e noite, por uma semana, dez dias, vinte dias. Naquele junho quente, em plena luz do dia, fechávamos o quarto, cobríamos a doente com dois ou três futons grossos de inverno e dormíamos abraçados a ela. A febre oscilava em torno de 38 graus, mas as mãos e os pés estavam frios. Com as convulsões contínuas, ela perdia a consciência e, por fim, começava a delirar. Quando voltava a si, sentia-se muito só e, mesmo nos momentos de bom humor, não se conformava se não estivesse enrolada conosco no mesmo futon. Passado cerca de um mês, e chamados sete ou oito médicos de toda espécie, não víamos grande efeito. Num dia em que as convulsões não paravam, parentes se reuniram na sala ao lado e atacavam os médicos, dizendo: "Não haverá um médico melhor para esta doente que sofre tanto?" Como nos últimos tempos o cérebro parecia estar sendo afetado, cogitavam, em grande agitação, levá-la a um hospital psiquiátrico ou chamar de longe um bom médico. A doente continuava com uma respiração fraca, como a de um inseto. Na verdade, sofríamos mais do que ela própria; padecia tanto que, se fosse possível, teríamos querido dividir com ela aquela dor. Já inteiramente resignados, depois de muita hesitação, pisamos no caminho de uma certa fé. Neste mundo, porém, existem pessoas más que se dizem seguidoras de alguma religião; fomos enganados por um seguidor de certa seita, que usou espíritos de raposa e nos fez passar por momentos terríveis. Certo dia, a mãe do Mestre Ichikawa, da Filial Futamata da Organização Kannon, veio visitar-nos e, pela primeira vez, nos ensinou o que era esta Igreja Kannon; dali em diante, passou a vir todos os dias, sem se importar com chuva ou vento. No início, não conseguíamos romper com o médico e, sem nenhuma compreensão do que era a Igreja Kannon, tampouco conseguíamos parar de todo com os remédios. Passaram-se alguns dias de angústia. Eis, no entanto, que depois de cinco dias, de uma semana, as convulsões foram diminuindo de frequência e se tornando mais leves a cada dia. Havíamos sido lançados ao fundo do desespero, imaginando com que olhos tristes meus pais e irmãos veriam aquilo — se ela seria uma deficiente mental ou teria lepra para o resto da vida. Depois de receber esta luz, seu apetite aumentou dia após dia, e as convulsões tornaram-se quase inexistentes. A doente, contudo, que passara tanto tempo de cama, esquecera-se de como se levantar. Do fim de maio, passando por junho, julho e agosto, as férias de verão terminaram e, enfim, começou o segundo semestre. O ser humano é criatura estranha: parece que algumas pessoas insultavam cruelmente uma doente tão grave. Para que ela recuperasse a energia de antes e pudesse voltar à escola o quanto antes, fizemos o curso de preparação para receber o Ohikari (kyoshu) e começamos a dar Johrei de manhã e à noite. Por três longos meses, de julho a setembro, a mãe do Mestre Ichikawa continuou a nos visitar sem jamais mostrar má cara; era uma figura diante da qual sentíamos vontade de juntar as mãos e adorá-la. No início, tivemos dificuldade em tirar a doente da cama; depois de repreendê-la e acalmá-la, ela finalmente se levantou. E, ao sair da cama, inesperadamente ganhou energia — desta vez, ao contrário, não queria mais deitar-se. Aquela menina de treze anos, com seu corte de cabelo bonitinho, entoando aquele norito de manhã e à noite, parecia outra pessoa. Diante daquela figura cheia de vida, o passado ficou esquecido e a casa toda se iluminou. Hoje, até mesmo uma criança de cinco anos junta as mãos e ora a Deus. Eu, que experimentei no próprio corpo os preciosos ensinamentos da Igreja Kannon, sinto vontade de gritar bem alto para os ateus. Série Jikan, Volume 4 Histórias de Milagres (reintitulado de "Okagebanashi") Publicado em 5 de outubro do ano 24 da Era Showa (1949) Formato B6, 78 páginas, preço 50 ienes Autor: Okada Jikan Editor: Nishiyama Shunnosuke Editora: Nijusseiki Shuppan Insatsu Goshigaisha

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