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Coleção Jikan Volume 3 Conversas sobre o Mundo Espiritual

1949-08-25

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Coleção Jikan Volume 3 — Conversas sobre o Mundo Espiritual Prefácio Esta obra registra, com o máximo rigor de que fui capaz, os fenômenos do mundo espiritual que pude investigar ao longo de mais de vinte anos. Nada nela é invenção ou exagero. Diz-se que o conhecimento e a inteligência do homem muito avançaram nos dias de hoje; esse progresso, porém, restringe-se ao âmbito da ciência material, pois no da ciência espiritual ele é de uma lentidão notável. O verdadeiro valor do progresso cultural está no avanço harmonioso de ambas — a ciência espiritual e a ciência material. Se a felicidade humana não acompanha o admirável progresso da cultura, a causa principal está justamente nesse avanço desigual: adiantou-se apenas a cultura materialista, enquanto a espiritualista ficou para trás. É nesse sentido que pretendo, por meio de um salto na cultura espiritualista, provocar um grande despertar na humanidade. Como os fenômenos espirituais são, por natureza, imperceptíveis aos cinco sentidos humanos, é dificílimo levar as pessoas a compreender que existem de fato. Ainda assim, estou convicto de que nada impede que eu alcance meu objetivo, pois não transformo o nada em existência: apenas afirmo o que já existe. Além disso, é por demais evidente que imenso princípio de felicidade se pode alcançar ao se crer nesses fenômenos espirituais. Por isso, seja qual for a fé que se pratique, sem um conhecimento profundo desses fenômenos não se obtém verdadeira tranquilidade nem paz de espírito. Cabe ponderar o seguinte: embora seja fato claro que todo ser humano, sem exceção, um dia morrerá, o que acontece após a morte permanece quase inteiramente desconhecido. Pensemos bem — mesmo vivendo muito, ninguém passará dos setenta ou oitenta anos. Se tudo terminasse aí, não seria a vida deveras efêmera? Tal impressão deve-se inteiramente ao desconhecimento da vida que continua no mundo espiritual após a morte. Se pudéssemos compreendê-lo a fundo, tanto viver quanto morrer se tornariam motivo de alegria, e poderíamos ser eternamente felizes. Foi com esse propósito que escrevi esta obra. A Existência do Mundo Espiritual Afinal, com que propósito o ser humano nasce neste mundo? É necessário, antes de tudo, reconhecê-lo. Deus criou o ser humano para construir o mundo ideal, objetivo do Plano Divino na Terra, concedendo a cada um sua respectiva missão e fazendo-o agir de acordo com Sua vontade. Se a humanidade progrediu da era primitiva até a esplêndida era cultural de hoje, e se a inteligência humana se desenvolveu como se vê, não é por outra coisa senão isso. Não apenas o ser humano, ser vivo superior, mas todos os outros seres vivos — e até mesmo as plantas, os minerais e toda a matéria que possui forma — são formados por dois elementos: espírito e corpo. Seja o que for, se o espírito se separa, perece. Aqui, porém, tratarei apenas do ser humano. Quando o corpo físico, por velhice, doença, hemorragia intensa etc., se torna incapaz de suportar o uso, o espírito o abandona, desprende-se dele, dirige-se ao mundo espiritual, torna-se habitante desse mundo e dá início à vida espiritual. Assim é para todas as raças do mundo. Sirva de exemplo a famosa obra de Sir Oliver Lodge, "A Sobrevivência Após a Morte", que fez subir o preço do papel na Inglaterra depois da Primeira Guerra Mundial. Seu conteúdo é o registro de que o filho do autor partiu para a guerra na Europa, morreu em combate na Bélgica e, do mundo espiritual, enviou ao pai inúmeras comunicações por vários meios. Na época, pessoas de várias nações disputavam sua leitura, e daí veio o súbito florescimento dos estudos sobre o mundo espiritual. Com o aumento do entusiasmo pela pesquisa, surgiram também muitos médiuns excelentes. O famoso escritor belga, o falecido Sr. Maeterlinck, autor de "O Pássaro Azul", ao tomar conhecimento da existência real dos espíritos, transformou por completo sua célebre visão do destino e entregou-se com ardor ao estudo, como estudioso do espiritualismo — fato que ninguém na área desconhece. Mais tarde veio a público a famosa obra do Dr. Ward, da França, "Exploração do Mundo Espiritual", e a pesquisa espiritual tornou-se ainda mais intensa. Quanto ao Dr. Ward, sua exploração do mundo espiritual era extremamente aprofundada: uma vez por semana, por cerca de uma hora, sentava-se em uma cadeira, entrava em estado de não-eu e dirigia-se àquele mundo. Nessa ocasião, o espírito de seu tio conduzia o espírito do Dr. Ward por todos os aspectos do mundo espiritual, instruindo-o detalhadamente sobre a verdadeira forma daquele mundo. É esse o registro. Diz-se que também os espíritos de amigos e conhecidos desempenhavam, então, vários papéis de orientação, enriquecendo o conhecimento que o Dr. Ward tinha do mundo espiritual. É bastante interessante e serve de grande referência para se conhecer a vida no mundo espiritual; espero, portanto, que os leitores o leiam ao menos uma vez. É claro que o mundo espiritual ocidental é inevitavelmente bastante diferente do japonês, mas pretendo, ao final, explicar os fenômenos espirituais no Japão e no Ocidente com vários exemplos concretos. Há cerca de dez ou vinte anos, ouvi dizer, por meio de comunicações da Inglaterra, que centenas de sociedades de pesquisa espiritual haviam surgido e estavam em atividade, e que até mesmo uma universidade espiritual fora fundada. Gostaria de saber como estão as coisas hoje, passada a grande guerra. Passo agora a explicar, pouco a pouco, os vários aspectos do mundo espiritual. (Nota) Ocidente (taisei): países ocidentais. O Mundo Espiritual e o Mundo Material Antes de tudo, quem se interessa pela religião e deseja compreendê-la a fundo precisa conhecer a relação entre o mundo espiritual e o mundo material. É que o objeto da fé religiosa são os deuses e budas, e deuses e budas são espíritos. Como não podem ser vistos a olho nu, querer apreender sua realidade apenas pela teoria é tolice igual à de procurar peixes em uma árvore. No entanto, uma vez que deuses e budas existem realmente neste mundo, negá-los é, evidentemente, impossível. E assim como é dificílimo fazer um selvagem reconhecer a existência do ar, é natural que seja difícil fazer a maioria das pessoas modernas reconhecer a existência real do espírito. Como premissa, procurarei explicar o mais profundamente possível a constituição do mundo espiritual, a vida de seus habitantes etc. Em primeiro lugar, o ser humano compõe-se de dois elementos: o corpo físico e o corpo espiritual. Quando a pessoa morre, espírito e corpo se separam, e o espírito entra de imediato no mundo espiritual, dando início à vida espiritual. No momento da separação, o espírito das pessoas extremamente boas sai pela testa; o das pessoas extremamente más, pela ponta dos pés; e o das pessoas comuns, pela região do umbigo, no centro do abdômen. No Budismo, morrer se diz "Ojo" (renascer), pois, do ponto de vista do mundo espiritual, é um nascimento; ao período anterior à morte dá-se o nome de "vida terrena". No Xintoísmo, o próprio ato se chama "Kiyu" (retorno ao oculto) ou "Tenki" (transferência) — tudo segundo um mesmo princípio. Ao se tornar habitante do mundo espiritual, a pessoa atravessa primeiro, como se diz desde os tempos antigos, o Rio dos Três Caminhos e comparece ao tribunal do Enma. Isso é um fato, e o que ouvi de muitos espíritos concorda nesse ponto. O tribunal do Enma em nada difere de um tribunal do mundo material. Terminada a travessia do Rio dos Três Caminhos, a cor da mortalha muda: é branca para aqueles com menos pecados e impurezas; em seguida, cores claras, azul, amarelo, vermelho e preto, de acordo com a gravidade dos pecados e impurezas. Apenas o roxo é a vestimenta divina. No tribunal do Enma, o deus Harai-do preside, e cada oficial do submundo conduz o interrogatório, fixando as recompensas e punições apropriadas. Nessa ocasião, as pessoas extremamente boas vão para o Paraíso ou para a Terra Pura (Gokuraku), e as extremamente más caem no Inferno. As pessoas comuns vão para um lugar chamado Mundo Intermediário — no Xintoísmo, Yachimata (encruzilhada de oito direções); no Budismo, o cruzamento dos Seis Caminhos. É para esse Mundo Intermediário que vai a maioria, e ali se pratica a disciplina. O primeiro passo para receber a disciplina é ouvir as palestras dos Ministros espirituais, que são, em geral, os Ministros de cada religião. Quem se arrepende com isso vai para o Paraíso; quem não se arrepende, para o Inferno. O período de cultivo tem como limite aproximadamente trinta anos, ao cabo dos quais se decide o destino. Falarei aqui sobre a constituição do mundo espiritual. Divide-se ele em três planos — superior, médio e inferior —, cada qual subdividido em três, o que perfaz nove sub-níveis. Ou seja, o plano superior é o Paraíso; o médio, o Mundo Intermediário; o inferior, o Inferno — e o mundo material corresponde ao Mundo Intermediário. Daí que o termo budista "cruzamento dos Seis Caminhos" signifique que se vai para os três caminhos do Paraíso e os três caminhos do Inferno, ao passo que o termo xintoísta "Yachimata" acrescenta ainda o Paraíso Supremo no topo e o Reino do Fundo da Raiz na base. Em poucas palavras, eis as características do Paraíso e do Inferno. Quanto mais se sobe rumo ao Paraíso Supremo, mais intensos se tornam a luz e o calor, e a vida transcorre quase como se estivesse nu — tanto que, nas pinturas e esculturas antigas, o Buda Supremo aparece nu. Em contraste, quanto mais se desce rumo ao Inferno Inferior, mais rarefeitos se tornam a luz e o calor, até que, no nível mais baixo, reinam a escuridão total, a ignorância e o congelamento. Ao provar esse sofrimento, nem o espírito mais perverso e cruel deixa de se arrepender. O que foi dito acima é uma explicação muito geral. Pode soar, às pessoas modernas, teoria absurda e inacreditável; mas é uma explicação que obtive ao longo de mais de vinte anos, investigando e pesquisando por meio de médiuns e de todos os outros métodos, a partir de muitos espíritos, e retendo os pontos em que concordavam. Espero, por isso, que os leitores leiam estas páginas com considerável confiança. Acredito que a teoria do inferno e do paraíso do Buda Shakyamuni e a "Divina Comédia" de Dante não são, de forma alguma, obras de ficção. Como se disse acima, a aparência do falecido permite saber, aproximadamente, para qual dos três planos irá o espírito: quem não apresenta sinal algum de agonia e conserva a tez fresca e colorida, como se estivesse vivo, vai para o Paraíso; quem tem a expressão sombria e solitária e a tez pálida ou amarelo-azulada — o estado típico dos mortos — vai para o Mundo Intermediário; e quem traz no rosto a agonia pronunciada, com a tez escura ou preto-azulada, vai, naturalmente, para o Inferno. Isso é para se obter um conhecimento básico sobre o mundo espiritual. A seguir, escreverei sobre os fenômenos espirituais que obtive através de minha experiência em várias áreas. Espíritos Ancestrais e a Preparação para o Pós-Morte Quanto ao estado da separação entre espírito e corpo no instante da morte, há um relato muito bem escrito de uma enfermeira que teve uma visão espiritual; vou registrá-lo aqui. É um exemplo ocidental — tanto no Ocidente quanto no Japão há pessoas que, ocasionalmente, conseguem ver espíritos. Esqueci os detalhes, mas lembro-me dos pontos principais, que são estes: "Certa vez, enquanto observava fixamente um paciente prestes a morrer, vi uma névoa branca como fumaça erguer-se da região de sua testa e espalhar-se lentamente no espaço. Enquanto isso, pensei que se transformava em uma grande massa irregular como nuvens de fumaça, mas logo, gradualmente, tornou-se a forma de um corpo humano. Após alguns minutos, tornou-se exatamente a figura da pessoa em vida, ergueu-se no espaço e ficou imóvel, olhando fixamente para seu próprio cadáver. Parecia querer fazer sua existência ser conhecida pelos parentes próximos que se lamentavam agarrados ao corpo, mas, como estavam em mundos diferentes, talvez tenha desistido. Após um tempo, virou-se, dirigiu-se à janela e, com extrema leveza, saiu para fora." Isso descreve com perfeição o instante da morte. O relato acima descreve o momento em que uma pessoa comum passa da vida para a morte. O mundo espiritual do Ocidente é plano; o do Oriente, tridimensional. Percebe-se isso pelo fato de o Japão ter oito milhões de deuses, santuários de grande, médio e pequeno porte, de alto, médio e baixo escalão, e classificações várias (Kanpei, Chuhei, Kensha, Gosha, Sonsha etc.), o que mostra quão hierárquico ele é. O Ocidente, em contraste, pode ser considerado como tendo uma única religião, o Cristianismo — a diferença é nítida como a que vai da longitude à latitude. Daí que o primeiro seja politeísta, e o segundo, monoteísta. Quando alguém morre, o encerramento temporário se dá, no Budismo, no período de 49 dias e, no Xintoísmo, no festival de 50 dias; é a partir desse dia que o espírito retorna ao mundo espiritual. Até lá, permanece ligado a um objeto: no Budismo, à tabuinha memorial de madeira simples (shiraki no ihai); no Xintoísmo, a um himorogi em forma de boneca feita de cânhamo. O que se deve observar aqui é que, embora seja natural que as pessoas, tomadas de tristeza, não consigam esquecer o falecido, isso merece ponderação. Por quê? Porque o que se costuma dizer — que ele "não consegue ir para onde deveria ir" ou "não consegue ascender" — decorre de que a obsessão dos familiares retém o espírito do falecido. Por isso, passados uns cem dias, deve-se procurar esquecer o quanto for possível. É melhor manter as fotografias por cerca de cem dias e depois removê-las temporariamente; quando se conseguir esquecer a tristeza e o apego, pode-se recolocá-las. Explicarei a seguir, em resumo, o significado do butsudan (altar doméstico budista). Seu interior é um modelo do Paraíso do Extremo Ocidente (Gokuraku Jodo), e é para lá que se convida o espírito ancestral. No Paraíso do Extremo Ocidente todas as flores desabrocham, a fragrância flutua no ar, a música soa sem cessar, a comida e a bebida são abundantes, e os espíritos vivem uma vida de alegria. Isso se reflete no mundo material ao se oferecerem flores, queimar incenso e ofertar comida e bebida. Basta tocar o sino duas vezes — sinal dirigido ao espírito ancestral no mundo espiritual — e muitos dos espíritos ancestrais que o ouvem se reúnem no butsudan num instante. Sendo dezenas ou centenas, pode-se estranhar como conseguem alinhar-se num butsudan tão pequeno; na verdade, os espíritos podem expandir-se e contrair-se livremente. Ao se reunirem num butsudan, assumem tamanho pequeno, proporcional ao local; há vários níveis, e eles se sentam ordenadamente, conforme sua hierarquia espiritual superior, média e inferior. Em resposta à reverência dos humanos, todos os espíritos também fazem uma reverência respeitosa. Na hora das refeições, os espíritos ancestrais absorvem o espírito da comida; precisam, porém, de muito pouco alimento espiritual, e pode sobrar apenas com a oferenda do butsudan. A sobra é oferecida aos espíritos famintos do Inferno, e por esse mérito os espíritos ancestrais se elevam. Deve-se, portanto, oferecer ao butsudan, tanto quanto possível e mesmo em dias comuns, as primeiras frutas da estação, as coisas raras e aquilo que se considera delicioso — e oferecê-los ali em primeiro lugar. Há um ditado antigo: "Quando se quer ser filial, os pais já se foram" — mas não é verdade; ao contrário, prestar cuidados espirituais filiais após a morte é uma grande demonstração de piedade filial. Naturalmente, os espíritos ancestrais também se alegram muito com as visitas ao túmulo e os serviços memoriais. Familiares e conhecidos devem, pois, fazer oferendas tanto quanto puderem: com isso o espírito se eleva, e o tempo para escapar do Inferno se abrevia. No mundo, costuma-se dizer que só o filho mais velho deve instalar um butsudan, e que os filhos mais novos não precisam. É um grande erro. Por quê? Se os pais estivessem vivos e apenas o filho mais velho os tratasse bem, enquanto os mais novos os tratassem com frieza ou os ignorassem, não seria isso uma grande falta de piedade filial? Nesse caso, os pais, no mundo espiritual, tentarão por vários meios fazer com que os filhos o percebam, o que pode até causar doenças — portanto, é preciso ter cuidado. Outro ponto a observar é o da mudança de religião: a troca de culto por alguma seita xintoísta ou, conforme a religião, a retirada do butsudan. Também isso é um grande erro. Mesmo em caso de conversão, o espírito ancestral não se converte de imediato à nova religião, nem o faz com facilidade — assim como, entre os vivos, a conversão de um membro da família não encontra eco imediato em todos os demais. Por isso alguns espíritos ancestrais se irritam, e pode haver várias formas de "advertência" por meio de repreensão, das quais resultam doenças e desastres. Quem ler este texto, portanto, há de encontrar aqui algo que lhe seja familiar. Escreverei agora sobre os grupos do mundo espiritual. Esse mundo, tal como o material, divide-se em grupos de várias seitas e escolas, grandes e pequenas. Há mais de cinquenta seitas budistas, treze seitas xintoístas de denominação, o xintoísmo de santuário, várias seitas cristãs etc. Como no mundo material, a vida ali é vida em grupo: depois da morte, o espírito entra no grupo a que deve pertencer, que é aquele de que era seguidor em vida. Quem não teve fé alguma em vida, porém, não tem grupo a que pertencer: torna-se sem-teto e sofre muito. Convém, pois, pertencer a um grupo confiável ainda em vida e assim preparar-se para a morte. Há uma história a respeito. Certa vez, numa reunião de pesquisa espiritual, em algum lugar, o espírito do Sr. Tokutomi Roka apossou-se de um certo médium. Para verificar a autenticidade, convidou-se a Sra. Tokutomi a avaliá-lo, e ela testemunhou tratar-se, com certeza, de seu falecido marido. Na ocasião trocaram-se várias perguntas e respostas, e o espírito do Sr. Tokutomi mostrava-se quase como se tivesse demência, com inteligência de nível infantil, o que surpreendeu os presentes. Qual seria a razão? Era que, em vida, ele negava a vida após a morte e não tinha fé. Embora fosse admirador do humanismo de Tolstói e pessoa respeitável como ser humano, aquele estado devia-se inteiramente ao fato de não acreditar na existência do mundo espiritual. Vários Aspectos Após a Morte Há vários tipos de morte, e há casos em que a pessoa se torna subitamente habitante do mundo espiritual por hemorragia cerebral, derrame, parada cardíaca, morte violenta etc. As pessoas comuns, que nada sabem, dizem que isso é até uma sorte, pois se poupam as dores da doença; é um grande erro, porém — na verdade, é uma infelicidade sem igual. Isso porque, não estando preparadas para a morte, mesmo já no mundo espiritual não pensam que morreram e acreditam continuar vivas como antes. Como não têm corpo físico, buscam desesperadamente um corpo, e para isso seguem o elo espiritual que as conecta. Como esse elo permanece ligado aos parentes de sangue mesmo depois da morte, é por ele que o espírito tenta apossar-se de um ser humano. Na tentativa, é mais fácil apossar-se de pessoas debilitadas, de mulheres com anemia pós-parto e, sobretudo, de crianças — por isso, na maioria dos casos, apossam-se de crianças. Esta é a causa da paralisia infantil verdadeira e também da epilepsia: a paralisia infantil apresenta com frequência sintomas semelhantes aos da hemorragia cerebral por essa razão, e a epilepsia manifesta os sintomas do instante da morte. Espumar pela boca, por exemplo, é sinal do espírito de um afogado; a epilepsia cujos ataques vêm à vista do fogo é de morte por queimadura; e assim por diante, manifestando-se exatamente o estado das demais mortes violentas. O mesmo se dá com os sonâmbulos, e nisso pode estar a causa de doenças mentais. Há também algo que se deve saber sobre a morte violenta. Os espíritos de todos os que morrem de forma violenta — homicídio, suicídio etc. — chamam-se espíritos presos à terra e, por algum tempo, não podem afastar-se do local da morte: normalmente, permanecem num raio de alguns ou de algumas dezenas de metros. Por sentirem solidão, querem chamar amigos; daí ser comum que, em lugares onde houve mortes por atropelamento em ferrovias, nas margens de rios onde houve afogamentos, nos galhos de árvores onde houve enforcamentos etc., os episódios se sucedam em série — é esse o princípio. Os espíritos presos à terra normalmente não conseguem afastar-se do local por trinta anos; conforme as oferendas dos familiares, porém, esse período pode encurtar-se bastante. Devem-se, portanto, prestar cuidados espirituais especialmente sinceros aos espíritos dos que morreram de forma violenta. Todos os mortos, e sobretudo os suicidas, mesmo já no mundo espiritual continuam a sofrer a agonia do instante da morte e a arrepender-se profundamente — e isso porque o mundo espiritual é uma extensão do mundo material. Por esse princípio, mesmo uma pessoa boa e admirável, se sentir dor no momento da morte, vai para o Mundo Intermediário ou para o Inferno. Quem foi solitário em vida continua solitário no mundo espiritual; quem foi desafortunado continua desafortunado. Há, contudo, casos especialmente opostos. Que quer dizer isso? Quem atormentou os outros, foi avarento ou enriqueceu por meios ilícitos, ao ir para o mundo espiritual sofre as consequências opostas de seus pecados: torna-se extremamente pobre e arrepende-se profundamente. Em contrapartida, quem, enquanto estava no mundo material, gastou sua fortuna em benefício da sociedade e do próximo, acumulando virtude, ao ir para o mundo espiritual torna-se pessoa de posses e feliz. Há ainda o seguinte: por mais admirável que alguém pareça na superfície, no mundo material, passados alguns meses ou um ano no mundo espiritual seu rosto se torna exatamente igual a seus pensamentos. Por quê? Porque o mundo espiritual é um mundo de pensamentos, e ali não há o corpo físico como obstáculo — pensamentos feios tornam-se rostos feios, e as pessoas virtuosas ganham rostos à altura de sua virtude. Percebe-se por aí que o mundo espiritual é diferente do mundo material; e percebe-se, além disso, que ele é imparcial e justo, sem parcialidade. Houve, no passado, um exemplo disso. Naquela época, eu tinha sob minhas ordens um jovem chamado Yamada. Certo dia, ele me disse: "Preciso ir a Osaka urgentemente, por favor, me dê licença." Olhei para ele: a expressão do rosto e o comportamento não eram os de sempre. Perguntei-lhe o motivo, mas as palavras saíam vagas e confusas. Resolvi investigá-lo espiritualmente — naquele tempo eu me interessava pelo estudo dos espíritos e andava imerso nisso. Primeiro fiz com que se sentasse ereto e fechasse os olhos; ao aplicar o método de investigação espiritual, ele tomou uma expressão de grande agonia e começou a contorcer-se. Às minhas perguntas, o espírito respondeu o seguinte: "Sou um amigo do Yamada, chamado fulano. Enquanto trabalhava em uma certa empresa em Osaka, o diretor executivo da empresa, acreditando nas palavras doces de uma pessoa má, me demitiu. Inconformado e sem saída, desesperado, tomei veneno e me suicidei. No entanto, pensei que, ao me suicidar, me tornaria nada. Mas, longe de me tornar nada, a agonia do instante da morte continua para sempre. Além do arrependimento por algo tão inesperado, pensei que a causa disso tudo era aquele diretor executivo. Para me vingar, pensei em fazer o Yamada matá-lo. Por isso, me apossei dele e tentei levá-lo para Osaka." Disse tudo isso entrecortadamente, em meio à agonia, e implorou-me que lhe removesse o sofrimento. Fiz então com que compreendesse sua imprudência e apliquei o método de eliminação do sofrimento. O espírito sentiu-se muito aliviado, alegrou-se, agradeceu profundamente, jurou desistir do ato violento e partiu. Na possessão espiritual acima, Yamada encontrava-se em estado de não-eu e, por isso, nada sabia do que dissera. Quando despertou e lhe contei as palavras do espírito, surpreendeu-se e, ao mesmo tempo, alegrou-se por ter sido salvo a um passo do perigo. Deve-se saber, portanto, que por maior que seja o sofrimento enfrentado o suicídio jamais deve ser cometido. O que as pessoas acham particularmente surpreendente é o amor suicida (shinju). Imaginam que, morrendo, irão para o Paraíso, sentar-se-ão sobre um lótus e viverão felizes — mas isso é um grande engano. Escreverei sobre o assunto em detalhe. No amor suicida em que o casal morre abraçado, ao chegarem ao mundo espiritual os espíritos ficam grudados um no outro e não se separam, o que lhes causa o máximo de inconveniência, além de exporem cena vergonhosa diante dos outros espíritos, do que se arrependem imensamente. Nos casos comuns de amantes suicidas, conforme os pensamentos e as ações do momento, as costas ficam grudadas nas costas, ou a barriga fica grudada nas costas, e eles perdem toda a liberdade e sofrem o máximo de inconveniência. Os espíritos que em vida mantiveram as relações sexuais mais abomináveis, as chamadas "posições invertidas", ficam grudados de cabeça para baixo: quando um está em pé, o outro fica de cabeça para baixo, num sofrimento e num incômodo inimagináveis. Nos casos de relações impuras entre monges, sacerdotes xintoístas, educadores etc., que deveriam ser exemplo para os outros, a punição é, naturalmente, mais severa do que a das pessoas comuns. (Nota) Shihyo: ser exemplo para os outros; pessoa. Paraíso e Inferno O Paraíso, como já foi dito, divide-se em três sub-níveis: o Primeiro Paraíso, o Segundo Paraíso e o Terceiro Paraíso. No Primeiro Paraíso residem os deuses supremos, que executam continuamente o Plano Divino para o governo do mundo. No Segundo Paraíso, os deuses auxiliam os do Primeiro Paraíso, cada um assumindo seu respectivo papel. No Terceiro Paraíso, muitos deuses prosseguem em suas atividades para cumprir as missões que lhes foram dadas. Como essas atividades abrangem, naturalmente, todos os aspectos do mundo, suas ações são infinitamente variadas. Os deuses do Terceiro Paraíso ascenderam do Mundo Intermediário e obtiveram qualificação divina; são os mais próximos dos humanos e também se chamam anjos. O que foi dito acima é um resumo da constituição do mundo divino. O mundo divino existiu por cerca de três mil anos até hoje, mas, durante o período de existência do Budismo, sua presença foi extremamente insignificante — a maioria dos deuses se manifestou como budas, e os que não o fizeram tornaram-se, em sua maior parte, deuses dragão, à espera do momento. Tendo o mundo budista como pano de fundo, os deuses dedicaram-se às obras de salvação. Esse período foi a Era da Noite. Com a transição para a Era do Dia, o mundo divino revive. Vem em seguida o Paraíso do Extremo Ocidente (Gokuraku Jodo), termo budista, formado dentro do mundo budista. Seu nível mais elevado corresponde ao Segundo Paraíso do mundo divino; é o Céu Tushita (Tosotsuten) da doutrina budista. Lá estão o Palácio Shibi (Shibikyu), as sete edificações do templo (Shichido Garan) e os pagodes do Tesouro Múltiplo (Tahoto). Todas as flores desabrocham em profusão, uma fragrância rica e densa flutua no ar, e a ave Kalavinka (Karyobinga) dança no céu. Há um grande lago, onde folhas de lótus flutuam dia e noite e onde brincam tartarugas de pelo verde — diz-se que são grandes o bastante para duas pessoas montarem e que, montando nelas, pode-se ir a qualquer lugar automaticamente, segundo a vontade do espírito, com uma alegria indescritível. Há também um grande templo, onde estão muitos seguidores budistas, todos, naturalmente, de cabeça raspada, dedicados a entretenimentos semelhantes aos do mundo material: poesia, música, dança, pintura, escultura, caligrafia, Go, Shogi etc. Ocasionalmente há sermões, e isso é tido como o maior dos prazeres. Os pregadores são os fundadores de cada seita, como Honen, Shinran, Rennyo, Dengyo, Kukai, Dogen, Daruma, Nichiren etc. Esses altos monges sobem de tempos em tempos ao Palácio Shibi, encontram-se com o Buda Shakyamuni, recebem ensinamentos profundos e várias instruções. Diz-se que o local onde fica o Palácio Shibi é de um brilho ofuscante, e que mesmo os espíritos salvos no Paraíso do Extremo Ocidente não conseguem suportar olhar para ele. Abaixo do Paraíso está o Jodo (Terra Pura), presidido pelo Buda Amida, que mantém constante e estreito intercâmbio com o Buda Shakyamuni, discutindo com Ele o Plano Divino do mundo budista. Kanzeon-Bosatsu, por sua vez, como Daikōmyō Nyorai, ocupa o assento principal no Palácio Shibi e, com a assistência dos dois Nyorai, Shakyamuni e Amida, realiza atualmente atividades intensíssimas para a construção do Paraíso Terrestre. No entanto, devido à necessidade de salvação, até recentemente Ele desceu à condição de Bodhisattva, cedendo o lugar principal ao Buda Amida. Assim, num futuro próximo, para preparar o novo mundo divino que se formará com a extinção do mundo budista, cada Buda, Bodhisattva, divindade celestial, venerável, grande mestre, santo, dragão divino, raposa branca, tengu etc. vai ascendendo gradualmente à qualificação divina. Essa é a situação atual: todos prosseguem em suas atividades e estão extremamente ocupados. Vem, em seguida, o mundo do Inferno, quase o oposto do Paraíso: nele não há luz nem calor, e, quanto mais se desce, mais aumenta o grau de escuridão e de ignorância. O Inferno, como se diz desde os tempos antigos, é um mundo de sofrimentos diversos e variados. Vou tentar explicar suas linhas gerais. Listando os tipos principais, temos: a Montanha de Agulhas, o Lago de Sangue do Inferno, o Reino dos Espíritos Famintos, o Reino Animal, o Reino dos Asuras, o Reino dos Desejos Sensuais, o Inferno do Calor Abrasador, o Inferno das Serpentes, o Inferno das Formigas, o Inferno da Colmeia, entre outros. A Montanha de Agulhas, como o nome indica, é uma montanha onde estão fincadas inúmeras agulhas, e atravessá-la causa um sofrimento extremo. Esse pecado se deve a ter a pessoa monopolizado, em vida, grandes extensões de terra e florestas, sem permitir que outros as utilizassem. O Lago de Sangue do Inferno é para os espíritos que morreram por causas relacionadas ao parto, como abortos espontâneos e partos difíceis. Salvei muitos desses espíritos, e a coisa é bastante simples: quando recito o norito três vezes e rogo a Kakuriyo no Ōkami (o Grande Deus do Mundo Oculto), eles escapam imediatamente do Lago de Sangue e são salvos, com enorme regozijo. Perguntei a um espírito como era o estado do Lago de Sangue do Inferno, e ele me disse o seguinte: como o nome indica, eles ficam submersos até a raiz do pescoço num vasto lago de sangue, por muitos anos. Na superfície desse lago, que não é de água, mas de sangue, flutuam inúmeras larvas, que não param de rastejar para cima do rosto; por mais que as afastem ou as purifiquem, elas continuam subindo, e o sofrimento é insuportável. A causa disso é que, em vida, a pessoa era descrente, e suas ações e seu coração pendiam mais para o mal. O Reino dos Espíritos Famintos, como o nome indica, é um estado de fome, em que se está sempre ansioso por satisfazer o apetite. Por isso, tentam comer o espírito dos alimentos expostos em barracas e lojas, mas isso se torna um furto, um tipo de pecado. Sem alternativa, então, apossam-se de seres humanos ou de cães e gatos para tentar saciar-se. É comum haver doentes com apetite surpreendentemente voraz; isso se deve à possessão do espírito de um fantasma faminto, como descrito acima. Os espíritos que se apossam de cães e gatos, por sua vez, vão caindo aos poucos no Reino Animal — nesse caso, o espírito humano vai se dissolvendo pouco a pouco e, assim como a moeda boa é expulsa pela má, acabam por assimilar-se ao espírito do animal. Nesse sentido, desde os tempos antigos realizam-se cerimônias como o Kawasegaki (oferenda aos espíritos afogados), destinada a consagrar os espíritos dos afogados. Como esses espíritos muitas vezes não têm laços, não há quem os consagre, e eles caem no Reino dos Espíritos Famintos. Dar comida aos espíritos famintos e fazê-los ouvir sutras benéficos torna-se, assim, uma grande oferenda. A causa de se cair no Reino dos Espíritos Famintos é o pecado de ter vivido no luxo apenas para si, sem se importar com a fome dos outros, ou de ter desperdiçado alimentos. Por isso o ser humano nunca deve desperdiçar nem mesmo um único grão de arroz. O caractere de "arroz" (kome) escreve-se com os caracteres de oitenta e oito, o que significa que são necessários oitenta e oito passos de trabalho; pensando nisso, jamais se pode desperdiçá-lo. Eu mesmo me esforço para não deixar um só grão no fundo da tigela quando bebo chá depois das refeições. Os cristãos, ao fazerem as refeições, juntam as mãos e fazem uma reverência silenciosa; é realmente um bom costume. É claro que se trata de uma expressão de gratidão pela comida; o ser humano não deve esquecer a bênção dos alimentos. O Reino Animal é, evidentemente, aquele em que um espírito humano se torna animal. Isso se dá porque, em vida, seus pensamentos e suas ações se afastaram do que é humano e passaram a assemelhar-se aos dos animais. Quem faz do engano uma profissão, como as prostitutas, torna-se raposa; as que, à maneira das concubinas, vivem na indolência, entregam-se a roupas e comidas finas, lisonjeiam os homens e levam vida fácil, tornam-se gatos; os que farejam os segredos alheios e os transformam em matéria para o mal, como os chantagistas, e os espiões de guerra, que fazem o mesmo em proveito próprio, tornam-se cães (excetuam-se profissões como a de detetive, que previnem o mal para o bem da sociedade). Há no mundo quem seja de uma avareza absoluta e só se dedique a acumular dinheiro: essas pessoas tornam-se ratos. As que detestam a atividade e vivem sempre à toa, sem preocupações financeiras, tornam-se bois ou porcos — desde a antiguidade os pais repreendem os filhos dizendo que, se deitarem logo depois de comer, virarão bois; a advertência tem fundamento. Já os de temperamento violento, brutais e temidos, como os yakuza e os desordeiros, tornam-se tigres ou lobos. Os que são apenas dóceis e inúteis tornam-se coelhos; os de forte apego, cobras; os que trabalham suando somente para si mesmos, cavalos; os jovens sem vitalidade, que agem como velhos e nada realizam de significativo, ovelhas; os astutos, cheios de sabedoria manhosa, macacos; os que gostam de casos amorosos e tentam envolver-se com qualquer mulher, galos; os imprudentes, de ímpeto cego e sem reflexão, javalis; e os preguiçosos, distraídos e afeitos a zombar dos outros, tanukis ou texugos. Mesmo caindo uma vez no Reino Animal, como se viu acima, eles reencarnam graças à prática espiritual. O fato de o ser humano cair no Reino Animal, nascer de novo como humano e tornar a cair no Reino Animal, repetindo esse ciclo, é o que o budismo chama de ciclo da Transmigração da alma. Há, porém, algo que se deve saber a respeito: os bois e os cavalos, por exemplo, trabalham sofrendo maus-tratos extremos aos olhos humanos, mas é por meio dessa penitência que suas impurezas e seus pecados são eliminados, e assim obtêm a alegria da reencarnação. Outro ponto interessante é que bois e cavalos sentem uma espécie de prazer em ser maltratados, sobretudo em ser chicoteados. Como se vê, olhar para os animais com os mesmos olhos com que olhamos os homens é, na verdade, muitas vezes equivocado. Os cães de guarda que afastam ladrões, os gatos que caçam ratos, os bois, as ovelhas, os porcos e as galinhas que fornecem carne, leite e ovos também desempenham papéis importantes para os seres humanos, e por meio disso suas impurezas e seus pecados são eliminados. Também é interessante o amor entre homens e mulheres, que guarda grande relação com os espíritos de pássaros e de animais. Em geral, o amor puro e sincero envolve muitos espíritos de pássaros, de todos os tipos — desde aves pequenas, como o rouxinol e o olho-branco, até corvos, garças, patos e pavões. No amor, são esses pássaros que se apaixonam uns pelos outros, de modo que os seres humanos servem meramente de instrumento para o amor deles; nesse caso, a humanidade também perde um pouco de sua dignidade. O amor entre espíritos de raposas, por sua vez, é igualmente muito comum, mas quase sempre se trata de um amor ilícito. Há também os tanukis, cujo interesse principal, porém, é mais a luxúria do que o amor: os chamados "demônios da luxúria" são desse tipo. Já as filhas do dragão, que são a reencarnação dos dragões divinos, gostam do amor espiritual, mas são indiferentes ao aspecto carnal, chegando a sentir aversão por ele; a maioria dos casos de frigidez vem daí. Por isso odeiam o casamento, não dão ouvidos a conversas sobre casar-se e, quando um acordo de casamento está prestes a concretizar-se, uma das partes adoece ou até morre. Isso se deve à reencarnação de uma filha do dragão ou à possessão por um dragão divino. É comum no mundo vermos mulheres chamadas de "fulana" que permanecem solteiras e ganham fama social; a maioria dessas mulheres de tipo heroico são filhas do dragão, e raramente há também espíritos de tengu. Com o exposto acima, acredito ter descrito de forma geral a constituição do mundo espiritual, a vida no mundo espiritual e os vários tipos de espíritos. A seguir, escreverei sobre minhas experiências pessoais. (Nota) Karyobinga (sânscrito kalavinka): ave imaginária que se diz existir no Paraíso. Diz-se que seu canto é maravilhoso, como a voz de Buda. O Espírito de Hirokichi Foi no início da minha carreira, quando eu procurava conciliar a pesquisa espiritual com a experimentação da cura de doenças. Tratava-se de uma moça de dezenove anos, com tuberculose pulmonar em estágio terminal. Depois de dois tratamentos já se observava um pequeno efeito, e estávamos na terceira vez. Assim que comecei o tratamento, a mãe da moça, a Sra. M (por volta dos cinquenta anos), que observava ao lado, levantou-se de repente e ficou de cócoras, com uma expressão terrível e um ímpeto de quem vai atacar, e disse: "Seu... Seu... Você, que estava prestes a matar a garota que eu queria matar, apareceu do nada e a salvou, hein? Estou tão furioso que não aguento, vou fazer você passar por uma situação horrível." A voz era, sem dúvida, masculina, e fiquei surpreso. Disse-lhe: "Afinal, quem é você? Por favor, acalme-se." Acalmei-o, e ele, de má vontade, sentou-se e disse: Ele: "Sou um homem chamado Hirokichi." Eu: "Afinal, qual é a sua relação com este corpo?" Ele: "Sou o irmão mais novo do ancestral de quatro gerações atrás desta casa, e me chamo Hirokichi." Eu: "Então, por que você se apossou desta moça e tentou matá-la?" Ele: "Eu fugi de casa e morri, sou um espírito sem laços, e ninguém cuida de mim. Por isso, para que cuidassem de mim, tentei chamar a atenção dessas pessoas desta casa, causando doenças e várias outras coisas, mas ninguém percebeu. Fiquei tão irritado que não aguentei, e resolvi matar esta moça. Assim, eles perceberiam." Eu: "Mas você saiu do Inferno, não saiu?" Ele: "Sim, estive no Inferno por muito tempo, mas já estou farto do Inferno, quero que me consagrem." Eu: "Mas, se você matar esta moça, cairá num Inferno ainda pior do que antes. Você está ciente disso?" Ao ouvir isso, ele pareceu um pouco surpreso e disse: Ele: "Isso é verdade?" Eu: "Não é apenas verdade; eu faço o trabalho de Deus. Nunca posso mentir. E certamente o consagrarei." Depois de muito insistir, ele acabou concordando, e passamos a cooperar na cura da doença da moça. Seus modos e sua linguagem eram os de um autêntico Edokko (nativo de Tóquio), homem de bom caráter — devia ter sido um comerciante comum do final do período Edo. Durante a possessão divina, a Sra. M permanecia em estado de não-eu, sem qualquer consciência própria: uma médium verdadeiramente ideal. Dali em diante, a doença da moça caminhou bem para a cura, mas um dia a Sra. M procurou-me de repente. "Desde dois ou três dias atrás, sinto como se algum espírito estivesse se apossando de mim; gostaria que o senhor investigasse." Realizei, então, imediatamente o método de investigação espiritual. Mal a senhora se sentou ereta e fechou os olhos, recitei o norito. Ela caiu em estado de não-eu, e perguntei: Eu: "Quem é você?" M: "Eu sou um deus." Eu: "Que deus é?" M: "Sou um deus que expulsa os demônios, mas não posso dizer meu nome." Pensei comigo: (Já ouvira dizer que, entre os deuses, há os verdadeiros e os falsos, e que era preciso ter cautela; talvez este fosse um deus falso. Não podia deixar-me enganar.) E, de sobreaviso, perguntei: Eu: "Para que o senhor veio?" M: "A moça que você está tratando está sendo alvo de um demônio agora; vim lhe ensinar como expulsar esse demônio." Eu: "Como devo fazer?" M: "Pela manhã e à noite, espalhe sal em direção ao nordeste (ushitora) e recite o norito." Perguntei outras coisas, mas ele não entrou no assunto; disse apenas: "Já lhe informei o suficiente", e se foi. A Sra. M despertou e, surpresa, perguntou-me: M: "O senhor viu, Mestre?" Eu: "O quê? Não vi nada de especial", respondi. Então a senhora contou: "No início, quando o senhor recitou o norito, ouvi um som terrível, como um 'whoosh', vindo de trás, e de repente alguém se sentou ao meu lado. Olhando, vi que era uma figura muito grande, sentada, com a cabeça alcançando o batente da porta. O rosto não estava claro, mas tinha cabelos negros caídos para trás, uma faixa na cabeça, e sua vestimenta era feita de folhas finamente trançadas, que brilhavam em cinco cores, muito bonita. Logo em seguida, senti que ele se apossou de mim, e não me lembro de mais nada." Pensei que este devia ser um deus verdadeiro. Investiguei depois e descobri que era o deus Kunitokotachi-no-mikoto. Dois ou três dias após esse incidente, a Sra. M veio visitar-me outra vez. "Sinto que algo vai se apossar de mim de novo; gostaria que o senhor investigasse", disse ela. Iniciei imediatamente a investigação espiritual, mas desta vez tudo foi completamente diferente da anterior. Perguntei: "Quem é você?" Ele respondeu: "Sou um familiar do Doryo Gongen de Odawara." Perguntei: "Por que se apossou dela?" Ele disse: "Quero pedir desculpas." Perguntei: "Qual é a razão?" "Na verdade, esta senhora é devota do Doryo Gongen, mas, como a filha dela foi salva pelo poder do Deus Feroz, fiquei irritado e pensei em atrapalhar. No entanto, fui descoberto e não tenho desculpas." Assim que terminou de falar, a senhora caiu de lado. De olhos fechados, respirava ofegante e gemia; passados uns cinco minutos, porém, abriu os olhos e disse: "Ah, que susto! Primeiro, uma coisa preta entrou no meu corpo, e então alguém veio e bateu na coisa preta com algo como um chicote, e a coisa preta fugiu." Pensei: "Então este era o demônio contra o qual o deus de dois ou três dias atrás me alertou." Dali em diante, a doença da moça melhorou dia após dia, até que ela se recuperou por completo. Consagrei, então, o espírito de Hirokichi. Antes disso, certa vez, o espírito de Hirokichi se apossara da senhora e dissera: "Graças a você, ultimamente estou numa parte mais elevada do Inferno, e me sinto muito mais aliviado", agradecendo calorosamente. Em seguida, disse: "Tenho um pedido. É que todas as manhãs, gostaria que colocassem três grãos de arroz cozido no canto da pia da cozinha da minha casa, num pequeno copo de saquê." Perguntei-lhe o motivo, e ele respondeu: "No mundo espiritual, três grãos de arroz por dia são suficientes. Além disso, ainda estou numa posição em que não posso ir além da cozinha." Algum tempo depois, ele disse: "Consegui chegar até a parte de baixo da escada." Naquela época, em minha casa, os deuses eram consagrados no segundo andar. Mais tarde, disse: "Consegui chegar até o cômodo ao lado do quarto dos deuses." Então eu disse: "Já está bom", e o consagrei. Dois ou três dias depois, enquanto eu trabalhava no escritório, algo se apossou de mim — uma sensação de alegria, como se lágrimas estivessem prestes a transbordar. Fui imediatamente a uma sala vazia e interroguei o espírito possessor: era o espírito de Hirokichi. Ele disse: "Vim hoje para agradecer. O senhor deve entender bem como estou feliz." E acrescentou: "Tenho outro pedido." Perguntei: "O quê?" Ele disse: "É que, desde que fui consagrado, estou realmente muito bem, e quero permanecer nesta situação para sempre. Estou farto do mundo terreno. No mundo terreno, é preciso trabalhar para comer, há muito sofrimento, e é realmente detestável. Por favor, peça a Deus para que eu não nasça novamente no mundo terreno." Dito isso, agradeceu calorosamente e foi embora. Casos assim mostram que morrer não é de todo ruim e que ir para o mundo espiritual também tem seu lado bom. E, no mundo espiritual, a cortesia é exata: os espíritos socorridos nunca deixam de vir agradecer. Às vezes agradecem também com coisas materiais, servindo-se das mãos das pessoas — é comum recebermos de lugares inesperados justamente aquilo que desejávamos; é disso que se trata. A Sra. M era uma médium ideal e me rendeu colheitas nada pequenas. Houve também um caso assim. Certa vez, um espírito de bebê se apossou dela: emitia exatamente o choro de uma criança de colo, e os movimentos eram os mesmos. Perguntei-lhe várias coisas, mas, sendo um bebê, não sabia falar. Sem alternativa, disse-lhe: "Escreva com caracteres." Então, com o polegar, ele escreveu em hiragana sobre o tatame. Foi assim que soube que "nasci, mas logo fui enrolado numa esteira, jogado no rio e morri afogado. Até hoje, fiquei sem laços, então quero que me consagrem." Quando concordei, ele partiu alegremente. Os caracteres acima devem ter sido traçados por alguém do mundo espiritual, segurando a mão do bebê. De outra vez, interroguei repetidamente um espírito possessor, mas ele não abria a boca. Depois de tentar vários métodos, descobri afinal: era o espírito de um pinheiro. Na véspera, o dono da casa, funcionário público de certo ministério, havia cortado um galho de um pinheiro do jardim de lá e o trouxera para oferecer aos deuses. Era o espírito que habitava aquele pinheiro. Seu pedido foi: "Cavem um buraco no chão que não seja pisado por pessoas, enterrem-me e recitem o norito." Fiz exatamente como ele pediu. A Boneca Assombrada Entre os casos que tratei, há uma história interessante: a da chamada "boneca assombrada". Certa vez, um amigo meu veio procurar-me e disse: "Há uma boneca que se transforma, e estou com problemas; quero que o senhor resolva." Movido pela curiosidade, resolvi ir de todo modo. Naquela época, eu morava em Tóquio e ardia de entusiasmo pela pesquisa espiritual. Parti imediatamente com meu amigo. O local ficava em algum ponto de Fukagawa, e me conduziram a um cômodo no segundo andar da casa. À minha frente, vi uma boneca Okame em tamanho natural — obra realmente magnífica, provavelmente saída das mãos de um mestre artesão de primeira linha. Parecia ser do período médio de Edo: trajava um junihitoe (quimono de doze camadas) e estava numa pose de dança, com uma das mãos segurando um leque chukei (leque cerimonial). Segundo a família: "Todas as noites, quando a cidade está silenciosa e todos dormem, vê-se um rosto sorrindo maliciosamente através dos ossos do leque, e então a boneca começa a andar, vai até o quarto do dono da casa, monta em sua barriga e aperta seu pescoço. Por essa razão, os donos mudam repetidamente." Ao ouvir essa história, meu interesse chegou ao auge. Sentei-me de imediato, ereto, diante da boneca Okame, fechei os olhos, recitei o Norito, pedi o auxílio divino e orei para que o espírito possessor da boneca se apossasse de mim. De repente, pareceu-me que ele o fez, e fui tomado por um sentimento de tristeza, quase a ponto de chorar. Saí no mesmo instante daquela casa, voltei para a minha e, na manhã seguinte, chamei a Sra. M. Ordenei, então, ao espírito da boneca, que estava possesso em mim desde a noite anterior: "Aposse-se da senhora à sua frente e conte a razão e o propósito de sua transformação." No mesmo instante, o espírito se apossou da médium, e o que ele disse foi o seguinte: "Eu era uma cortesã em uma casa de cortesãs em Quioto, há cerca de quarenta anos. Tornei-me amante do dono da casa, e quando a esposa dele descobriu, ela ficou muito furiosa e começou a me maltratar. Se fosse só isso, ainda iria, mas até o próprio dono começou a me perseguir. Cheia de rancor, suicidei-me atirando-me num rio. A boneca era um presente de um cliente; eu a estimava muito. Uma vez no Inferno, eu praticava, mas não aguentei mais. Para vingar meu rancor, escapei do Inferno e fui à antiga casa de cortesãs, mas o dono e sua esposa já haviam morrido. Sem ter como desabafar aquele rancor, em vez disso, comecei a atormentar o dono que se tornara o possuidor da boneca, com quem eu não tinha nenhuma relação, para saciar meu rancor." Isso pode parecer estranho às pessoas do mundo material: pelo senso comum, na falta do alvo da vingança, o natural seria desistir. Transferir o rancor para outra pessoa é ilógico; mas, como este caso mostra, o caráter dos espíritos é diferente do das pessoas do mundo material, e disso tive experiência muitas vezes. É que, uma vez criado apego por algo, o espírito não reconsidera e tem o hábito de seguir numa única direção. A história continua: "Meu nome verdadeiro é Arai Saku. Em vida, fui uma devota fervorosa do Tsumagoi Inari de Quioto. Para realizar minha vingança, implorei a ajuda de uma raposa, e o irmão mais novo daquele Inari e sua amante, uma raposa fêmea, prometeram cooperar e me ajudar. Descobriu-se, então, que a transformação da boneca era obra desses dois espíritos de raposa." Sempre que o espírito de Arai Saku ia se apossar dela, a Sra. M o via antes. Dizia: "A Saku acabou de chegar." Quando eu perguntava: "Com que aparência?", respondia: "Com muitos grampos de tartaruga no cabelo, vestindo um uchikake (quimono de cerimônia), e sentou-se ao lado." Houve também um caso assim. Contei essa história a um amigo espiritual, e ele disse: "Gostaria de investigar também uma vez." Reunimos, então, cerca de dez pessoas e fizemos algo como uma reunião de estudos psíquicos. Na ocasião, enquanto realizava com a Sra. M o método de investigação espiritual, o amigo disse algo insultuoso; o espírito da raposa ficou furioso e retrucou: "Não me menospreze, seu tolo! Mesmo assim, fui uma cortesã famosa em Gion, em Quioto, chamada de 'fulana de tal loja'. Vou mostrar a você minha elegância daquela época." E, dizendo isso, levantou-se de repente, ergueu a barra do quimono, fez poses graciosas e andou de um lado para o outro pela sala. Eu disse: "Já chega, entendi, sente-se." Fi-la sentar-se e despertar. Perguntei à Sra. M: "O que você viu?" Ela respondeu: "Não vi nada." Ao despertar, disse-me: "Agora há duas raposas aqui; o senhor as vê, Mestre?" Respondi: "Não vejo, mas que tipo de raposas são?" Ela disse: "Uma é amarela e a outra é branca, do tamanho de uma raposa real, e estão sentadas aqui." E logo acrescentou: "Ah, as raposas acabaram de entrar na boneca." Perguntei: "Em que parte da boneca?" Respondeu: "No centro da barriga, sentadas direitinho, olhando para cá e rindo." Pensei comigo mesmo como são realmente misteriosas as ações dos espíritos. Separei, então, o espírito da raposa do espírito de Saku, fiz a raposa voltar ao seu antigo ninho e me empenhei em salvar Saku, levando-a ao Paraíso, o que afinal consegui. Anotarei aqui alguns pontos desse período que podem servir de referência. Certa vez, diante da Sra. M, disse em voz baixa: "Saku, por favor, aposse-se dela." As mãos da Sra. M, unidas em prece, tremeram de leve — sinal de que o espírito havia entrado. Depois de várias perguntas e respostas, ao despertar, ela disse: "Quando Saku veio hoje, estava vestindo um uchikake, com muitos grampos de tartaruga no cabelo, numa aparência de cortesã, e a vi claramente." Houve também um caso assim. Enquanto eu dialogava com Saku, sua linguagem tornou-se vulgar e sua atitude mudou; perguntei, então: "Quem é?" Respondeu: "Sou uma raposa." Eu disse: "Você não tem utilidade aqui; retire-se e deixe Saku entrar." Voltou, então, a ser o espírito de Saku, e assim se alternavam as possessões, ora da humana, ora da raposa. Nesse ínterim, a raposa disse que "voltaria para Quioto" e, como atendi de bom grado aos seus pedidos, acabou partindo satisfeita. Consagrei o espírito de Saku no altar budista de minha casa, onde ainda está consagrado. Foi assim que se resolveu o problema da boneca assombrada. Em seguida, a moça que adoecera por causa da possessão do espírito de Hirokichi, mencionado anteriormente, chegou a melhorar, mas cerca de um ano depois acabou falecendo. Cerca de um mês após sua morte, ocorreu algo estranho. O irmão mais velho da moça, grande bebedor, estava um dia sentado em seu quarto quando viu, a alguns shaku de distância (cerca de 1 metro), algo como uma fumaça roxa que descia lentamente, de forma nebulosa. Sobre essa fumaça roxa havia algo como uma figura humana. Olhando bem, era a irmã falecida, vestindo algo como um junihitoe, de beleza extraordinária, a fisionomia sublime como a de um anjo celestial pintado num quadro. No mesmo instante, a moça abriu a boca e disse: "Vim pedir que você pare de beber, meu irmão." Ao terminar de falar, subiu lentamente e desapareceu. Isso se repetiu mais uma vez depois, e houve ainda uma terceira. Nessa ocasião, como de costume, desceu uma nuvem púrpura e sobre ela apareceu uma escada vermelha; a irmã, atravessando-a calmamente, disse: "Hoje vim pela última vez para recomendar que pare de beber; a permissão de Deus é apenas desta vez." E depois disso não houve mais tais ocorrências. Esse irmão não tinha, normalmente, fé religiosa alguma nem, é claro, qualquer conhecimento espiritual. Não poderia haver, portanto, consciência latente, o que torna o caso confiável e, a meu ver, de grande valor como material espiritual. A propósito, a moça foi, evidentemente, salva para o Paraíso. Como eu estava no início de minha vida de fé, agradeci a espessa graça de Deus por ter conseguido salvar, em tão pouco tempo, uma jovem com tuberculose pulmonar para o Paraíso. (Nota) Chukei: um leque usado em cerimônias. As hastes principais são curvadas para fora na ponta, e a ponta do leque fechado fica entreaberta. O Espírito da Raposa e a Velha Senhora Vou registrar uma das obras-primas entre minhas muitas experiências. Tratava-se de uma velha senhora de mais de cinquenta anos, possuída por vinte ou trinta espíritos de raposa, que a atormentavam constantemente de várias maneiras. Por isso, ela se hospedou em minha casa para receber tratamento espiritual. Durante cerca de cinco ou seis meses, essa velha senhora entendia o que as raposas falavam e, ao mesmo tempo, as palavras delas saíam de sua boca exatamente como eram. Um dia, ela disse: "Mestre, as raposas disseram: 'Hoje vamos matar essa velha, pode esperar. Vamos parar o coração dela agora.' Então, elas entraram debaixo do meu coração e estão remexendo tudo. Está doendo tanto que parece que vou parar de respirar e morrer logo. Antes disso, quero ver minha família; por favor, chame-os." Disse isso em pleno sofrimento. Assustado, liguei imediatamente e os chamei. O marido da velha senhora e mais cinco ou seis membros da família a rodearam, e desenrolou-se uma cena de lamento, como se ela estivesse prestes a morrer. Com o correr das horas, porém, a dor foi diminuindo, e depois de duas ou três horas ela voltou completamente ao normal. A família, aliviada, foi embora — e fomos enganados redondamente. Situações semelhantes ocorreram mais duas ou três vezes, mas eu, já escaldado, não me deixei enganar de novo. Certa tarde, a velha senhora disse: "Mestre, esta manhã as raposas disseram: 'Hoje vamos parar a urina dessa velha.' E desde então, não consigo urinar." Fiz, então, a Irradiação Espiritual na região da bexiga, e logo a urina saiu, voltando tudo ao normal. Outro dia, ela contou: "Ultimamente, durante as refeições, as raposas dizem: 'Não vamos mais deixar você comer.' Então, a comida fica presa na altura do peito e não desce de jeito nenhum." Eu disse: "Então, coma comigo." Sentamo-nos à mesa e comemos juntos. De fato, ela avisou: "Agora as raposas estão dizendo que não vão me deixar comer. Ah, a comida não passa mais." Imediatamente, coloquei espírito no arroz e fiz a Emissão Espiritual na região do esôfago dela, e ela pôde comer no mesmo instante. Depois disso, não houve mais tais ocorrências. Durante o tratamento, ao apalpar com a ponta dos dedos a base do pescoço, as axilas e outros pontos, eu encontrava vários caroços do tamanho de grãos de feijão. Aplicava a Emissão Espiritual, com a ponta dos dedos, em cada um deles, e cada caroço era um espírito de raposa. A cada vez, o espírito soltava um grito e, pela boca da velha senhora, dizia: "Ah, droga, fui descoberto! Ah, que dor, que sofrimento! Me ajude! Estou saindo agora, estou saindo agora." Assim, um a um, iam saindo. Deviam ser uns vinte ou trinta. Certa manhã, bem cedo, a velha senhora avançava pelo corredor rumo ao meu quarto, com o rosto transtornado. Minha família me acordou e me alertou. Levantei-me de um salto: com um olhar estranho, ela mantinha uma das mãos às costas, como se escondesse alguma coisa, e se aproximava de mim lentamente. Avancei sobre ela e agarrei a mão oculta. Segurava um cachimbo. "O que você vai fazer?", perguntei. "Vim bater no senhor", ela respondeu. Levei-a de volta ao quarto, quase carregada, sentei-a e apliquei a Emissão Espiritual na direção de sua testa. Ali devia haver muitos espíritos de raposa, pois gritaram todos em uníssono: "Ah, é o fim! É o fim! Fujam todos, fujam! Ah, não aguento! Que dor! Que sofrimento!" Contive o riso e, após algumas dezenas de minutos de tratamento, ela voltou ao normal. Outro dia, a velha senhora me perguntou: "Mestre, eu tenho cabeça?" Toquei-lhe a cabeça e respondi: "Claro que tem, não está aí?" Ela explicou: "É que o demônio da raposa disse: 'Hoje vou derreter a cabeça da velha', e estou muito preocupada." Desde então, passou a andar sempre com um espelho de mão, fitando a própria cabeça refletida. Ao lhe perguntar o motivo, disse: "Estou preocupada que a raposa derreta minha cabeça, não consigo largar o espelho." "Isso é um absurdo", eu lhe dizia; mas, por mais que falasse, ela não acreditava, e eu ficava perplexo. Fora esses sintomas, em nada mais ela se distinguia das outras pessoas — não era, evidentemente, uma doente mental. Por isso eu costumava dizer-lhe: "A senhora é uma louca lúcida." Qual seria, então, a causa daquilo? Em vida passada, essa velha senhora fora algo como a dona de um bordel, que ganhava dinheiro explorando muitas mulheres jovens. Como essas jovens tinham por ofício enganar os clientes, agindo como raposas, caíram, no mundo espiritual, no reino animal, tornando-se espíritos de raposa. E, uma vez que a causa estava nela, passaram a odiá-la e acabaram por possuí-la, atormentando-a em vingança. Nesse sentido, as profissões deste mundo — a prostituta sendo raposa, a gueixa sendo gato — conduzem a destinos correspondentes. Por isso, o ser humano não deve, de forma alguma, praticar atos indignos de um ser humano. Espíritos Possessores Grotescos Este foi um fenômeno de possessão espiritual extremamente grotesco e interessante. Deve ter sido por volta do 8º ano da Era Showa (1933). Na ocasião, um homem de quarenta e dois anos esteve internado em tratamento num hospital psiquiátrico de Sendai; como não houvesse efeito algum, foi consultar-se no Hospital Keio, em Tóquio. Seus sintomas eram variadíssimos e grotescos. O mais notável era uma febre altíssima, jamais vista em pessoas comuns: posto o termômetro, a temperatura subia num instante até o máximo de quarenta e três graus. Isso ainda passaria, não fosse o termômetro quebrar com frequência, o que deixou o hospital psiquiátrico realmente perplexo. Era, claro, uma febre ultra-alta, acima de quarenta e três graus. No Hospital Keio, aplicaram-lhe de início três injeções de antitérmico, sem o menor efeito. Julgaram perigoso insistir e suspenderam as injeções. Ele desistiu então do tratamento médico e, à procura de outra terapia, ouviu falar de mim e veio me visitar. Sentou-se à minha frente — um homem grande, de cerca de 1,75 m de altura — e começou a ter calafrios terríveis. Tremor tão violento eu nunca tinha visto. Pensei: "Então é essa a febre que quebra o termômetro." Passei imediatamente para trás dele e, quase o abraçando, irradiei o espírito de todo o meu corpo em sua direção. O efeito apareceu de pronto: em cerca de cinco minutos o tremor cessou por completo e a febre baixou a um nível leve. Ele ficou radiante, como quem encontra luz na escuridão, e implorou que eu o deixasse ficar em minha casa. Pelas várias histórias que contava, percebi que seria um ótimo interlocutor para pesquisas espirituais; aceitei prontamente e fiz como ele pedia. Os fenômenos espirituais que se seguiram foram de um interesse verdadeiramente grotesco. Às vezes ele caía em estado de não-eu e gritava que a cabeça doía muito. Bastava eu fazer a Emissão Espiritual para que, em cerca de dez minutos, voltasse ao normal. Interrogado, contou que outrora gostava de caçar e que um dia atirou numa raposa. Ao se aproximar, viu que ela ainda estava viva; de repente, o animal se ergueu e veio em sua direção. Ele virou a arma, levantou a coronha e desferiu-lhe um golpe na testa, matando-a na hora. Era o espírito dessa raposa que o possuía e que, durante a possessão, além da dor de cabeça, lhe provocava sintomas psicóticos. Nesse mesmo estado de não-eu, gritava também repetidamente: "Tirem a árvore! Tirem a árvore!" Perguntei o que aquilo significava. Contou que trabalhara como lenhador em Hokkaido. Certa vez, ao derrubar uma árvore grande, havia alguém deitado numa depressão do terreno, bem embaixo dela, e essa pessoa desmaiou; sabendo ou não do ocorrido, ele desceu a montanha assim mesmo. O desmaiado tornou a si mais tarde, mas, com o corpo ferido, não conseguiu empurrar a árvore e morreu. Era a possessão do espírito dessa pessoa. De vez em quando, possuía-o também o espírito de um urso que ele havia matado. Sob essa possessão, sentia uma vontade enorme de comer; certa vez, devorou onze arenques de uma só vez. Havia ainda dois espíritos de cobra a possuí-lo — de cobras que também havia matado. Uma alojava-se em seu abdômen e, de tempos em tempos, provocava dores como de mordida. A outra enrolava-se em seu pescoço, apertando-lhe a garganta, tentando sufocá-lo. Sempre que isso acontecia, eu fazia a Irradiação Espiritual e ele se curava no mesmo instante. Por fim — embora isso já não fosse de ordem espiritual —, ele desenvolveu um edema generalizado e às vezes caía no corredor. Homem grande por natureza, e ainda por cima edemaciado, ficava enorme, de modo que muitas vezes três homens mal conseguiam arrastá-lo até o quarto. Nessa época, seus testículos incharam como pequenas lanternas e saíam para fora do yukata, sem que houvesse como escondê-los, o que lhe rendia muitas zombarias. Depois disso, recuperou-se por completo e tornou-se uma pessoa saudável. Vários Aspectos dos Espíritos Possessores Naquela época, havia um jovem chamado Koyama, de uns trinta anos, também ele um médium de excelente qualidade. Grande bebedor, quando embriagado ficava como um alienado mental, sem nenhum discernimento, e percorria os bares da vizinhança bebendo sem ter um centavo. Cabia sempre ao pai remediar a confusão. Foi para pedir que eu curasse esse mau hábito que ele veio me procurar. O interessante é que com esse homem ocorreram vários fenômenos de possessão espiritual, que me forneceram valiosos dados espirituais. Selecionarei aqui alguns dos mais curiosos. Um dia, o espírito que o possuía era o de um dono de bar da vizinhança, morto alguns meses antes. Devia gostar muito de sumô, pois, ao tomá-lo, esticava os cotovelos, batia os pés e se gabava: "Vamos, quem quer vir? Não há ninguém que possa me vencer!" O estudante que morava em minha casa irritou-se e partiu para cima dele, mas foi arremessado longe no mesmo instante e quebrou a articulação do cotovelo, que levou mais de um ano para sarar. Houve uma vez em que três homens fortes, com muito esforço, mal conseguiram contê-lo. Outro dia, possuiu-o um espírito que parecia o de um velho. Interrogado, disse: "Sou o tio deste corpo. Sou um camponês da província de Saitama. Gosto tanto de saquê que não aguento, por isso estou possuindo este corpo para beber." E pedia saquê. Perguntei: "Se eu lhe der saquê, você sai deste corpo?" Ele respondeu: "Então, me dê um copo bem grande. Se fizer isso, saio imediatamente." Atendi-o, e ele pediu: "Mais um copo." Atendi de novo, e ele: "Mais um." Ao todo, bebeu três copos e deixou o corpo. Quando esse espírito o possuiu pela primeira vez, ele correu os olhos pelo quarto com uma expressão estranha. Perguntei-lhe o que havia, e ele disse: "Onde é isto aqui?" Respondi: "É a minha residência, em Omori, Tóquio." Ao que observou: "É bem diferente do outro mundo onde estou." E acrescentou: "Quero fumar um cigarro." Ofereci-lhe um cigarro enrolado, mas ele recusou: "Esse cigarro não presta. Quero fumar no cachimbo." Atendi-o, e ele se ergueu devagar, com um porte exatamente de velho. Foi até a varanda, contemplou o jardim e pôs-se a fumar o cachimbo com prazer. Perguntei: "No outro mundo, há cigarros?" Respondeu: "Não há cigarros nem dinheiro, então não posso fumar. Por isso, entro no corpo dos humanos e fumo." Pensei comigo: "Entendo..." Mal o velho saiu, outro ser pareceu possuí-lo, agora com atitude extremamente modesta. Ao meu chamado, disse: "Sou a filha do dono da tabacaria da vizinhança, me chamo fulana. Morri há cerca de dois meses. Como gostava do Take-chan (esse é o apelido do homem), vim esta noite." Perguntei: "Há algo que você queira?" Ela disse: "Estou com muita sede, gostaria de um copo d'água." Observei: "Você, que é uma alma recém-falecida, deve receber água todos os dias, não?" Respondeu: "Sim, recebo, mas não consigo beber." Estranhando, insisti na pergunta, e ela explicou: "A pessoa que me oferece água não tem a intenção de me fazer beber. Ela o faz apenas por obrigação, sem sentimento. Por isso, a água oferecida com esse pensamento não pode ser bebida." Compreendi então que "o mundo espiritual é o mundo dos pensamentos". De nada adianta, portanto, oferecer comida e bebida no altar — seja por meio de uma empregada, seja por nós mesmos — se for por mera formalidade. Quando dei de beber ao espírito dela, bebeu três copos com muito prazer. Psicose de Alteração de Personalidade De modo geral, os loucos são todos degenerados; este, porém, era um caso raro. Tratava-se de um homem de quarenta e poucos anos, que veio a mim cerca de cinco ou seis anos depois do início da doença. Nem sua atitude nem seu modo de falar diferiam dos de uma pessoa comum: era impossível tomá-lo por um doente mental. O que ele dizia, contudo, era isto: "Dentro da minha barriga está um deus chamado fulano. O que esse deus diz é: 'Vou fazer você praticar o treinamento até o fim, então você deve suportar qualquer sofrimento. Primeiro, não vou deixar você ter dinheiro. Vou jogá-lo no fundo da pobreza, então prepare-se.'" Originalmente, ele era o chefe de uma grande loja de carvão, mas, com a recessão, mudou de ramo e, após anos de infortúnio, adoeceu. No início da doença, passou vários meses quase de cama, com o corpo todo rígido: exceto para ir ao banheiro e comer, não conseguia movê-lo, como se estivesse amarrado ao leito. Nessa época, o deus em sua barriga lhe dizia: "Você precisa ficar deitado para o treinamento. Sou eu quem está fazendo isso." Cerca de um ano depois, seu corpo foi aos poucos se libertando e ele pôde sair. Nada fazia, porém, por vontade própria: movia-se apenas sob as ordens do deus. Quando este dizia: "Hoje vá a tal lugar", lá ia ele, mas seus pés não o levavam a nenhum outro sítio — em outras palavras, não passava de um fantoche do deus. Por causa disso, embora tivesse algumas economias, foi caindo pouco a pouco em dificuldades financeiras, até que sua família mal se sustentava com o trabalho extra da esposa e o dos filhos em fábricas. Com o tempo, a doença melhorou um pouco e ele voltou a trabalhar na loja de carvão de seu antigo patrão. É daí em diante que a história fica interessante. Um amigo seu, funcionário de uma empresa, queria coque, e ele o ajudou a consegui-lo. Muito agradecido, o amigo convidou-o a um restaurante e o tratou bem; na ocasião, deu-lhe um envelope com dinheiro em sinal de gratidão. Quando ele viu, estava escrito "quinhentos ienes". Pobre como era, ficou feliz e já ia pegar o envelope quando, naquele instante, o deus em sua barriga o fez dizer exatamente o contrário do que queria: "Não foi para receber agradecimentos que me esforcei. Fazer isso não é uma grande falta de respeito? Vocês estão me subestimando demais." Surpreso, o amigo pediu muitas desculpas e recolheu o envelope. Ele ficou decepcionadíssimo, mas não havia o que fazer. Depois, ao tentar divertir-se com uma gueixa em outra sala, o corpo inteiro enrijeceu e ele não conseguiu dizer uma palavra sequer. Em seguida foi ao banheiro e, mal saiu, caiu de repente na varanda. Disse-lhe o deus: "Você queria dinheiro e queria brincar com a gueixa, então fiz isso como punição." Um dia, seu patrão lhe disse: "Seu desempenho é bom, então vou aumentar seu salário e promovê-lo a gerente." Ele ficou muito feliz, mas, no momento em que ia aceitar, o deus outra vez o fez dizer o oposto: "Não estou nem aí para salário. Recuso o aumento. Também recuso o cargo de gerente." Achando aquilo estranho, o patrão retirou a oferta. Em outra ocasião, conversava ele sobre assuntos mundanos com a filha do patrão, moça de vinte e poucos anos, quando o deus, de repente, o fez dizer algo impensável: "Moça, quer beijar comigo?" Ele mesmo se assustou com o que saiu de sua boca. A moça, claro, também ficou chocada e fugiu do quarto. Por causa dessas coisas, acabou demitido da loja. Depois disso, tentou arranjar emprego por meio de agências e de conhecidos; mal conseguia um, porém, sempre dizia algo que irritava ou desagradava a outra parte. Desistiu, então, de procurar trabalho e acabou trancado em casa. Sem saber de nada, os vizinhos diziam à sua esposa: "O seu marido parece não fazer nada, gostaríamos que ele fosse membro da associação do bairro." Mas o deus dizia: "Isso não pode." Se desobedecesse, sofria o castigo de ter o corpo todo enrijecido; nada podia fazer, portanto, e passava o dia inteiro vagando. Quando reclamava com o deus, este respondia: "Você precisa sofrer mais com a pobreza." Assim, foi ficando cada vez mais pobre. Pelo que se disse acima, era difícil considerá-lo um doente mental a julgar pelos sintomas: pensava e tinha senso comum como qualquer pessoa normal; apenas não conseguia agir nem falar segundo a própria vontade. A causa disso é, provavelmente, que a pessoa a quem ele fez sofrer profundamente numa vida passada se vinga dele, agora renascido. Recentemente, restabeleceu-se por completo e veio à minha casa agradecer. Sonhos e Espíritos Malignos Certo dia de abril do 7º ano da Era Showa (1932), por volta das três da tarde, recebi um telefonema. Pediram que eu fosse imediatamente, e para lá me dirigi. Era uma família bastante abastada, cuja senhora eu curara de uma doença grave pouco tempo antes. Ao encontrar-se comigo, ela abriu a boca e disse: "Na verdade, há pouco, enquanto cochilava, tive um sonho estranho. Uma coisa preta, como um ser humano, me disse com palavras fortes: 'Você não deve se aproximar de Okada. Se você se aproximar dele, ele vai tomar toda a sua fortuna, então se afaste dele agora.' Eu disse: 'Não, não posso fazer isso. Ele me curou de uma doença que me atormentava há mais de dez anos, então não posso me afastar dele de forma alguma.' A sombra preta ficou furiosa e disse: 'Está bem, então vou fazer isso com você.' E apertou meu pescoço. Assustada, acordei. O surpreendente é que, quando apertou meu pescoço, ele apertou com tanta força com as unhas que, mesmo depois de acordada, a marca das unhas ainda dói." Quando olhei, para meu espanto, havia marcas de unhas bem visíveis, vermelhas e inchadas. Não é estranho que algo apertado em sonho cause ferimento real no corpo? Isso significa que o espírito agiu como se fosse o corpo — e eu estremeci. Há mais um exemplo semelhante a este. Certa manhã, bem cedo, recebi um telefonema pedindo que eu fosse imediatamente, e corri para aquela casa. Encontrei a filha da casa, moça de cerca de vinte anos, de cama. Eu a havia deixado saudável, pois era muito fraca. Ao indagar, a história também era estranha. Disse a moça: "Tive um sonho de madrugada. Era um certo jovem que eu conhecia superficialmente e que morreu há alguns meses. No sonho, esse jovem, de repente, apontou uma pistola para mim e atirou. Acordei. Então, estranhamente, meu corpo inteiro ficou dormente e não conseguia me mexer. Além disso, sinto como se uma bala estivesse dentro do meu coração, e tenho a sensação de uma grande hemorragia. Por favor, olhe meu peito." Olhei, mas nada havia. Apliquei imediatamente o tratamento espiritual e retirei do coração o espírito da bala. Ela melhorou bastante, embora não se curasse por completo. Disse-lhe que sararia com o tempo e fui embora. Como às cinco da tarde haveria uma cerimônia em minha casa, recomendei-lhe: "Se melhorar, venha." Felizmente, por volta das cinco ela chegou para a cerimônia como se estivesse normal, e fiquei aliviado. Ambos os casos acima foram, evidentemente, interferências de divindades malignas: o primeiro, para afastá-la de mim; o segundo, para impedi-la de participar da cerimônia. Espíritos de Pessoas Vivas Houve também o caso seguinte. Falei a certo universitário sobre o mundo espiritual, mas ele não acreditou e disse: "Então, investigue se há algum espírito me possuindo." Iniciei de imediato o método de investigação espiritual. Logo ele caiu em estado de não-eu e começou a falar com atitude de mulher jovem. O espírito possessor era o de uma mulher de um bar de bebidas no Parque Asakusa, que se apaixonara por esse universitário, que a visitava de vez em quando, e o possuía como espírito de pessoa viva. O pedido do espírito era: "Este homem não vem me ver nem um pouco. Estou morrendo de vontade de vê-lo, então quero que você diga a ele para vir." Embora se tratasse de um espírito de pessoa viva, coube-me levar o recado ao homem por quem ela estava apaixonada — trabalho, de fato, bem árduo. Ao despertar, ele estava com uma expressão estranha. Perguntei: "Como foi?" Respondeu: "Caí em estado de não-eu? Não sei de nada." Contei-lhe então sobre a mulher, e ele, surpreso e envergonhado, coçou a cabeça e reconheceu com respeito a existência do espírito. Investiguei, em seguida, espiritualmente uma jovem gueixa de certo lugar. Apareceu então o espírito de um homem. Fiz-lhe várias perguntas e descobri o seguinte: aquele espírito de pessoa viva era o dono de uma loja de açúcar. Disse ele: "Eu tinha um encontro marcado com esta gueixa esta noite, mas surgiu um compromisso inadiável e não poderei encontrá-la. Por favor, diga a ela que nos encontraremos amanhã à noite." As palavras e a atitude eram exatamente as de um homem de quarenta ou cinquenta anos; não havia dúvida. Quando lhe contei o caso, ela se surpreendeu: nada sabia do que dissera enquanto estava em estado de não-eu e, pelo meu relato, confirmou que o encontro estava de fato marcado como o espírito havia dito. Uma moça de cerca de vinte anos, filha de uma família, veio queixar-se a mim: "Ultimamente, parece que estou com depressão. A vida está sem graça e estou sofrendo." Eu lhe disse: "Você parece tão saudável e é mais bonita que a média, isso não faz sentido. Deve haver uma causa muito forte." Depois de várias perguntas, descobri afinal. Um jovem da vizinhança estava apaixonado por ela e, "por meio de cartas e vários outros meios, tentava fazer com que eu o aceitasse, mas eu não gosto dele e o recusei várias vezes. No entanto, ele vive vindo perto da minha casa, e estou com tanto medo que mal saio." Informei-a de que "o espírito vivo desse homem está possuindo-a". Ela compreendeu e, a partir daí, foi melhorando aos poucos até curar-se por completo — pois, ao entender que não era doença, ficou aliviada. Já é muito difícil fazer o homem moderno reconhecer a existência dos espíritos de pessoas falecidas; no caso dos espíritos de pessoas vivas, é ainda mais. Como se trata de fato inquestionável, porém, peço que leiam com essa disposição. Há ainda vários exemplos de espíritos de pessoas vivas, mas creio que esses três casos bastam, e por isso omito os demais. Os espíritos de pessoas vivas ligam-se, em sua maioria, a relações amorosas entre homens e mulheres; e a depressão da moça acima ocorreu porque os pensamentos pessimistas do rapaz, nascidos da rejeição amorosa, refletiam-se diretamente nela através do elo espiritual. Como dito acima, o espírito de uma pessoa viva reflete os pensamentos da outra pessoa. Quando, ao contrário, ambos se amam, os elos espirituais se entrelaçam e produzem uma sensação de grande prazer. É esse prazer que contribui enormemente para que o amor entre homem e mulher se torne uma relação difícil de separar. A possessão por espírito de pessoa falecida causa calafrios; a possessão por espírito de pessoa viva causa uma sensação de calor. Espíritos de pessoas vivas tão inofensivos quanto esses não constituem grande problema; existem, porém, espíritos de pessoas vivas aterrorizantes: são os casos de esposas legítimas e amantes, ou de triângulos amorosos, em que duas mulheres disputam um homem. O ciúme se converte em espírito de pessoa viva, e esse espírito luta. Em geral, vence a esposa — e a razão é que é natural que o lado certo vença. Nesse caso, sob o peso da obsessão da esposa, a amante adoece, morre, ou arranja um amante e foge, acabando por se separar do marido. O espírito de pessoa viva de um ser humano não chega a ser tão grave; temível mesmo é o espírito de pessoa viva do kudagitsune (raposa de tubo). Antigamente chamava-se a isso izuna-tsukai (usuário de izuna), recurso de que se serviam mulheres ascetas, as quais aceitavam encomendas de quem quisesse vingar um rancor. O kudagitsune é pouco menor que um melão, coberto de pelagem branca e macia, muito leve e fofo. Seu espírito obedece bem às ordens humanas e, quando comandado, executa qualquer maldade. Diz-se que, desde tempos antigos, esses izuna-tsukai são comuns na região de Kansai, e que ali não se deve casar com um deles: basta uma pequena ofensa para que se vinguem. Há ainda muitos espíritos de pessoas vivas de raposas: nos santuários Inari ou nos campos habita apenas o corpo, enquanto quem age é o espírito de pessoa viva. Continuação do Mundo do Inferno Escreverei a seguir, de forma resumida, sobre os demais mundos do inferno. O Reino dos Asuras é um sofrimento a que se dá o nome de "queimar os asuras" — a angústia, por exemplo, de perder uma luta e atormentar-se com o desejo de desforra, ou a aflição de não conseguir satisfazer os próprios desejos. Esses sofrimentos interiores, que já existiam em vida, prosseguem, e a pessoa cai no Reino dos Asuras. Tanto no mundo material quanto no mundo espiritual, tais pessoas são salvas com relativa rapidez pela fé. O Reino da Luxúria é, como o nome diz, aquele em que a pessoa se torna um fantasma faminto de luxúria. No caso dos homens, caem aqui, por esse pecado, os que tratam muitas mulheres como objetos de prazer, não se importam em violar a castidade e levam muitas delas à infelicidade; por isso, no inferno, são atormentados pelos bandos de mulheres que em vida foram enganadas e maltratadas. É um sofrimento terrível, e ninguém, seja quem for, deixa de se arrepender. E não é sofrimento leve, pois se há de expiar o número de mulheres prejudicadas em vida e a quantidade de pecado. Por isso os homens deste mundo devem ter muito cuidado com os atos que, pelo próprio prazer, levam as mulheres à infelicidade. É claro que os pecados mencionados acima são mais comuns entre os homens; raramente, porém, também há mulheres que, por prazer ou desejo próprio, vendem a castidade, cometem adultério ou atormentam os homens com a indiferença. Essas igualmente caem no Reino da Luxúria e sofrem. O Inferno do Calor Abrasador é aquele para onde se cai por pecados como o incêndio criminoso, ou por provocar grandes incêndios por descuido, sacrificando muitas vidas e propriedades. O Inferno das Serpentes é onde se reúnem serpentes incontáveis, e o sofrimento é indescritível. Esse pecado nasce de prejudicar muitas pessoas por causa da própria ganância — presidentes de grandes empresas e de bancos que, por cobiça, cometem irregularidades e causam prejuízo a muita gente; políticos que, com sua má política, levam o povo a sofrimentos extremos; ou o rancor das vítimas contra os instigadores de guerras. Esses rancores transformam-se em serpentes e se vingam. O Inferno das Formigas corresponde ao pecado de matar seres vivos — matar sem motivo insetos, pássaros, pequenos animais e assim por diante; eles se transformam em formigas e atormentam. Há uma história a respeito. Segundo o relato de uma testemunha ocular, certa vez uma cobra estava enrolada numa árvore. Enquanto a observavam, vieram alguns pardais e começaram a bicá-la, até que a cobra caiu da árvore e morreu. Deixaram-na ali mesmo e, passados alguns dias, o corpo inteiro se transformara em incontáveis formigas. Elas subiram em bando pelo tronco e atacaram os filhotes de pardal, ainda incapazes de voar, que estavam no ninho. Todos morreram, e disse-se que aquilo mostrava quão terrível é a obsessão de uma cobra. O Inferno da Colmeia é o sofrimento de ser picado por inúmeras abelhas; sirva de exemplo a história seguinte. Eu tinha uma discípula que era cabeleireira; certa vez, uma amiga dela ficou possuída por um espírito e, ao chamarem determinado mestre religioso para uma investigação espiritual, descobriu-se o seguinte: uma gueixa, cliente estimada dessa amiga, havia morrido e caído no Inferno da Colmeia, onde sofria, e por isso a possuiu para pedir socorro. A mulher que serviu de médium era, na época, seguidora de certa religião, e foi a ela que recorreu. Segundo o relato do espírito, colocavam-na numa cabana do tamanho de uma pessoa, e ali dentro centenas de abelhas atacavam-lhe o corpo inteiro, sem escolher lugar. Incapaz de suportar a dor, pedia socorro. Esse pecado era o de, como gueixa, haver atormentado muitos homens; muitas esposas, depois de entrarem no mundo espiritual, transformaram-se em abelhas por ciúme e se vingaram. No Inferno, como diz a lenda, há demônios vermelhos e azuis que servem de carcereiros e que, empunhando barras de ferro com espinhos, golpeiam os espíritos que violam as regras ou se rebelam. Diz-se que isso dói mais do que ser golpeado quando se tem corpo físico. Por quê? Porque no corpo físico os nervos são envolvidos pela pele e pela carne, ao passo que, sendo-se apenas espírito, o golpe atinge os nervos diretamente, o que é realmente insuportável. Muitos espíritos do Inferno costumam dizer também que, por mais doloroso que seja, não podem cometer suicídio, e isso é um problema — de fato, como já estão mortos, não há como morrer de novo. Nesse ponto, o mundo espiritual é complicado. Diz-se ainda que os mortos, quando transitam pelo Inferno, andam em carros de fogo. Os espíritos do Inferno vão-se elevando aos poucos por suas próprias penitências ou pelas oferendas de seus descendentes; estes, portanto, não devem negligenciá-las. Certa vez, quando salvei e pacifiquei um espírito, ele logo se apossou de mim e disse: "Vim hoje para agradecer e fazer um pedido. Graças a você, fui salvo e levado ao Paraíso, e estou tão feliz que não consigo conter. O senhor deve compreender bem meu sentimento de alegria." De fato, assim que o espírito se apossou de mim, senti brotar dentro de mim uma alegria indescritível. Em seguida veio o pedido: "Por favor, peça a Deus para que eu não nasça novamente como ser humano." Achei estranho que dissesse tal coisa e perguntei o motivo. Ele respondeu: "No Paraíso, não há preocupações com a vida, é realmente um mundo de alegria. Em contraste, neste mundo, por mais que se trabalhe, nem mesmo se consegue comer como se deseja, e estou farto disso." Vendo isso, parece que ir para o mundo espiritual não é de todo ruim, e até morrer se torna algo desejável. Para tanto, porém, é preciso acumular boas ações enquanto se está vivo e criar as qualificações para ir ao Paraíso. Escreverei a seguir um resumo sobre o estado de outros espíritos, além dos espíritos humanos. Reino dos Tengu Como existências especiais no mundo espiritual, há o reino dos tengu e o reino dos deuses dragão, que descreverei a seguir. O reino dos tengu situa-se no mundo espiritual das regiões montanhosas de cada lugar, e cabe aos tengu proteger cada montanha. Esse reino também possui três classes: superior, média e inferior. A divindade principal é Sarutahiko-no-Mikoto, que reside no Monte Kurama. Existem dois tipos de tengu: o tengu humano e o tengu pássaro. O tengu humano é o espírito de seres humanos que, no mundo material, foram estudiosos, literatos, advogados, educadores, sacerdotes xintoístas, monges budistas e, antigamente, samurais, e que, após a morte, entram no reino dos tengu. O tengu pássaro é o espírito de pássaros — todos os pássaros, depois de mortos, entram no reino dos tengu e atuam sob as ordens dos tengu humanos. Entre os tengu pássaros, as aves de rapina, como águias e falcões, exercem poder imenso mesmo no reino dos tengu. Certa vez investiguei a possessão de uma senhora pela divindade principal do Santuário Doryo Gongen, em Odawara: era uma águia gigante de milhares de anos atrás. Segundo o que disse, a águia se lamentava: "No passado, atuei grandemente, mas recentemente machuquei minhas asas e não consigo agir como gostaria." O tengu corvo é, naturalmente, o espírito dos corvos. No reino dos tengu, eles se dedicam sobretudo a atividades divinas e são tidos como uma classe especialmente sagrada. Os chamados tengu de folhas são espíritos de pássaros pequenos, que atuam como mensageiros, transmitindo comunicações e ordens. Desde os tempos antigos diz-se que os tengu têm narizes altos, e em pinturas e máscaras eles aparecem com narizes altíssimos — o que é verdade. Também são representados de rosto vermelho, porque gostam de saquê. Quanto à vida dos tengu, a atividade que mais apreciam é travar debates, pois vencer uma disputa lhes eleva a posição. Consequentemente, os que no mundo material trabalham como deputados, advogados e coisas semelhantes são reencarnações de tengu ou pessoas por eles possuídas. Depois dos debates, o que mais apreciam são os jogos de Go e Shogi. Certa vez aprendi com um tengu o Shogi do reino dos tengu, bastante diferente do Shogi do mundo material. Gostam igualmente de caligrafia, pintura e poesia, mas, acima de tudo, beber saquê é seu prazer supremo. A língua do reino dos tengu é muito diferente da língua do mundo material: nela dominam os sons "sa", "shi", "su", "se", "so", e a comunicação se faz pelas variações de tom e de duração desses sons. Observando um tengu falar, vê-se que ele move os lábios ao máximo, afina a ponta da língua, quase não emite som e agita vigorosamente os lábios superior e inferior para comunicar suas intenções — coisa interessante de se ver. Também o voo dos tengu pelo ar é peculiar. Às vezes eles raptam crianças e as levam para longe voando. O famoso voo de Tora-kichi, na obra-prima de Hirata Atsutane, "A História de Tora-kichi", é extremamente extraordinário, e os feitos do tengu Sanshakubo do Santuário Akiba são também registros interessantes. Os tengu gostam de possuir pessoas e se orgulham de assustá-las. Os feitos de Ushiwakamaru, que humilhou Benkei na ponte Gojo e, depois, já como Yoshitsune, saltou de navio em navio como um pássaro em voo na Batalha de Dan-no-ura, devem-se todos à possessão por tengu. Provavelmente, durante seu treinamento no Monte Kurama, Sarutahiko-no-Mikoto lhe concedeu um tengu excelente como espírito guardião. Também se devem à possessão por tengu as técnicas que artistas marciais, recolhendo-se às montanhas, adquirem como resultado de seu treinamento — o "salto do tengu", por exemplo —, e a agilidade de Miyamoto Musashi em seus movimentos. Frequentes são igualmente as histórias de ascetas que se isolam nas montanhas, praticam austeridades severas — jejum, banhos de água gelada — e adquirem vários poderes espirituais, como poderes sobrenaturais ou capacidade de cura. Isso também ocorre porque os tengu os possuem. Esses tengu têm uma espécie de ambição: desejam servir-se do ser humano como fantoche para obter fama ou bens materiais no mundo material e prosperar grandemente. Como, porém, não é possessão divina no verdadeiro sentido, embora por algum tempo manifestem poder considerável e sejam proclamados pela sociedade, com o tempo esse poder diminui e eles voltam ao estado original. Ademais, quando os seres humanos estão debilitados física e mentalmente por jejuns ou doenças, os espíritos se apossam deles com mais facilidade. Há também exemplos de pessoas completamente analfabetas que, possuídas de súbito por divindades, escrevem poesia ou caligrafia com grande habilidade. Isso também é possessão por tengu. Escreverei sobre minha experiência com o espírito de um tengu. Certa vez subi o Monte Mitsumine, na província de Musashi, e passei a noite num templo no alto da montanha. Na manhã seguinte, durante a recitação do norito, um espírito se apossou de mim. Ao interrogá-lo, disse-me ser um espírito que havia entrado no reino dos tengu cerca de duzentos anos antes e que fora sacerdote do Santuário Miho, na província de Suruga. Perguntei-lhe por que se apossara de mim; respondeu que desejava ouvir-me ler o Ofudesaki de certa religião, obra que eu então lia com afinco. Li para ele tudo o que pude e, passados uns seis meses, ele manifestou profunda gratidão e retornou à sua montanha. O tengu tem por índole ser cheio de lógica, propenso à arrogância; detesta posições inferiores, gosta de estar acima dos outros, insiste em levar adiante o que diz e prefere falar a ouvir. Já os possuídos por tengu pássaro manifestam as características das aves: boca pontiaguda, voz monótona como o canto dos pássaros, natureza flexível e aversão a conflitos, o que os torna queridos pelas pessoas. Há também quem sonhe com frequência que está voando; são pessoas possuídas por tengu pássaro. Reino dos Deuses Dragão As pessoas modernas provavelmente têm a existência do reino dos deuses dragão por teoria absurda e infundada, mas ele existe de fato. Escreverei primeiro sobre minha experiência a esse respeito, no início de meus estudos sobre religião e espíritos. Certo dia, enquanto praticava concentração espiritual, entrei subitamente num estado estranho. Era como se, ao abrir bem a boca, ela se rasgasse até as orelhas; meus olhos brilhavam intensamente, sentia dois chifres erguendo-se em minha testa, e de mim saía naturalmente um rugido terrível, como o de uma fera. Assustado, e como já ouvira falar de possessão espiritual, pensei: "É isso." Imaginei que esse espírito fosse algo como um tigre, um leopardo ou um leão, mas esses animais não têm chifres — logo, não era. Consultei então uma pessoa que era uma espécie de líder e mentor na época, e ele me disse que se tratava, sem dúvida, do espírito de um deus dragão. Naquele tempo, eu pensava não saber se algo como um deus dragão realmente existia; ao ouvir aquilo, porém, achei que fazia sentido. Durante a possessão divina, sentia também os ossos da parte superior da coluna erguendo-se, o que é igualmente uma característica dos dragões. Isso aconteceu várias vezes. Em meio a esses episódios, algo diferente de mim começou a falar dentro do meu corpo: era o espírito do dragão, que agradeceu por, ao me possuir, ter conseguido falar a língua humana, e contou várias histórias. Segundo ele, "Sou o espírito guardião de Konohana-Sakuya-Hime-no-Mikoto, que reside no Monte Fuji, e sou o Kuzuryu Gongen, que reside no Palácio de Kusushi." Anos depois, tentei escalar o Monte Fuji pela primeira vez. Até então, pensava que o Palácio de Kusushi, de que ouvira falar pelo deus dragão, ficasse no sopé da montanha, e ali o procurei, sem encontrá-lo. Por fim, subi ao topo do Monte Fuji. À direita da entrada do cume havia um grande santuário; olhei e nele estava escrito "Santuário Kusushi". "Ah, é isto!", pensei, e compreendi que as palavras do deus dragão não eram falsas. Há vários mistérios em torno desse deus dragão, mas pretendo publicá-los em outra obra. Foi por esse caminho que pude conhecer, pela primeira vez, a existência dos deuses dragão. Ponderando vários pontos, compreendi que, no início da formação desta Terra, foram inúmeros grupos de deuses dragão que solidificaram e compactaram o solo frágil, semelhante a um mar de lama. Depois de perderem seus corpos, os deuses dragão continuam ativos até hoje, com seus espíritos, em todos os aspectos, dos fenômenos astronômicos à sociedade humana. Foram eles que solidificaram esta Terra. A era seguinte foi a dos mamutes, defendida pelos cientistas, quando provavelmente manadas de elefantes gigantes correram pela Terra e a solidificaram. Os ossos de dinossauros ocasionalmente descobertos hoje no interior da Manchúria são, penso eu, os últimos dragões. Há, além disso, muitas variedades de dragões. Listando os principais, temos: Dragão Celestial, Dragão Dourado, Dragão Prateado, Dragão Chifrudo, Dragão Branco, Dragão Terrestre, Dragão da Montanha, Dragão Marinho, Dragão da Água, Dragão de Fogo, Dragão Vermelho, Dragão Amarelo, Dragão Azul, Dragão Negro, Dragão da Madeira etc. Segundo a lenda, o espírito guardião de Kanzeon-Bosatsu é o Dragão Dourado — daí o templo de Kannon-Sama, em Asakusa, chamar-se Kinryuzan Senso-ji. O Dragão Branco é também chamado de Benzaiten. Quanto ao Dragão Vermelho, como há na Bíblia a passagem "Satanás é um dragão vermelho", deve ser esse. O Dragão Amarelo e o Dragão Azul são dragões chineses. O Dragão Negro é o rei dos mares. O Dragão da Madeira é o dragão que possui árvores. Afinal, por que necessidade existem os deuses dragão? Eles são designados pela divindade que governa, cada um com sua responsabilidade, e conduzem suas atividades incessantemente conforme essa designação. Entre elas estão os fenômenos astronômicos — vento, chuva, trovão e relâmpago —, administrados pelos respectivos deuses dragão sob o comando das quatro divindades de Harai-do, sendo sua principal função o processo de purificação entre o Céu e a Terra. Oceanos, lagos, pântanos e rios de uma determinada área, e mesmo lagos, lagoas e poços de menor escala, são igualmente habitados e protegidos por deuses dragão de grande, médio e pequeno porte. Por isso, quando se aterram lagos, lagoas, poços etc., é sabido que calamidades misteriosas ocorrem uma após a outra. A natureza dos deuses dragão é muito irritadiça. Quando seu lar é completamente destruído, eles se enfurecem ao extremo — e isso serve para alertar os homens e obter moradia substituta. Portanto, desde o início, ainda que pequena, basta dar-lhes uma habitação em substituição e realizar o procedimento de transferência. Como os deuses dragão não podem viver sem água, pode-se colocar água num pequeno lago ou em algo como um jarro; mesmo depois de se tornarem espíritos, sentem calor no ventre, e por isso desejam muito a água. O fato de os seres humanos se transformarem em deuses dragão após a morte, como já foi dito, deve-se ao apego; estes, pela prática no mundo espiritual, tornam a nascer como seres humanos. O famoso caso de Sugawara no Michizane é um exemplo disso: depois da morte, por apego à vingança contra Fujiwara no Tokihira e outros caluniadores que o haviam atormentado em vida, ele se tornou um Dragão de Fogo. Valendo-se de raios e fogo, feriu e matou um após o outro, chegando a fazer cair um raio sobre o Palácio Shishinden e a ameaçar com seu desastre o próprio Imperador — razão pela qual foi prontamente consagrado como divindade. É o atual Santuário Tenmangu. Desde então, nada mais aconteceu. São histórias famosas na história, e a ciência provavelmente não consegue lidar com elas. Vem em seguida uma história que vai do período Meiji (1868-1912) ao Taisho (1912-1926): no terreno do atual Ministério das Finanças, em Kasumigaseki, havia o túmulo de Taira no Masakado. Como ninguém percebeu isso, calamidades misteriosas ocorreram uma após a outra com as pessoas ligadas ao Ministério. Depois de várias investigações, suspeitou-se que a causa fosse o espírito de Masakado. Realizou-se uma grande cerimônia e, desde então, nada mais aconteceu. Também isso foi maldição do espírito de Masakado, que se tornara um deus dragão. E não apenas os deuses dragão: todos os espíritos desejam muito cerimônias e oferendas. Por quê? Porque isso lhes alivia o apego e lhes eleva a posição no mundo espiritual. Os deuses dragão têm, em geral, a forma que se vê em pinturas e esculturas, mas alguns têm chifres e outros não. Os de alto nível são extremamente grandes, e alguns chegam a vários ri de altura, ou mesmo a dezenas de ri. Os famosos Oito Grandes Reis Dragão são, segundo o Kojiki, oito: cinco deuses e três deusas. Conta a lenda que o Buda Shakyamuni os confinou no oceano e lhes ordenou que esperassem até certa época. Pela minha análise, essa época é o momento em que o Mundo da Noite se transforma no Mundo do Dia. A propósito, os Oito Grandes Reis Dragão estão atualmente reencarnados como seres humanos e atuam na construção do Mundo da Luz. Desde os tempos antigos diz-se que o treinamento dos deuses dragão dura mil anos no mar, mil anos na montanha e mil anos na vila — o que parece ter considerável fundamento. Esse período, porém, também é encurtado pelas oferendas e boas ações das pessoas envolvidas. Quando os deuses dragão completam o treinamento, ascendem ao céu; nessa ocasião chamam nuvens, provocam tempestades e, no chamado "tornado", levantam a uma altura considerável a água do mar ou dos lagos e sobem ao céu. Muitas pessoas no mundo já viram isso. A esse respeito, ouvi uma história de um discípulo meu. Certa vez, uma cobra de verdade, não um espírito, estava enroscada num pinheiro. Enquanto ele a observava atentamente, a cobra subiu aos poucos até o topo da árvore, soltou-se dela e dançou no ar. No instante seguinte, subiu cada vez mais alto, até desaparecer de vista. Como se tratava de uma cobra real, acho o caso interessante e, ao mesmo tempo, parece uma história ora impossível, ora possível. As pessoas que são reencarnações de deuses dragão podem ser identificadas pela aparência. O tipo dragão tem maçãs do rosto altas, testa angular, veias azuis salientes nas têmporas, olhos quase sempre fundos e queixo igualmente anguloso; outra característica é o desejo frequente de beber água. Sua natureza é de alto orgulho, detestam curvar-se aos outros e são cheios de ambição, razão pela qual muitos progridem na vida. Observando-se com atenção o tipo dragão, a sensação de um dragão se manifesta com clareza, de modo que qualquer pessoa atenta o identifica com facilidade. (Nota) Maçãs do rosto (kankotsu): os ossos na parte superior das bochechas, um de cada lado, diagonalmente abaixo dos olhos. Ossos da face. Espíritos de Divindades, Espíritos de Budas e Espíritos Humanos Escreverei aqui sobre os vários aspectos do mundo dos deuses e do mundo dos budas no Japão. Os espíritos de divindades, antes de mais nada, são tanto mais gigantescos quanto mais elevados, e têm a mesma forma dos seres humanos — diferem apenas conforme sua posição. Em geral usam vestes formais, com coroa e cinto. As divindades de mais alto escalão trajam sobreveste roxa com calças inferiores vermelhas, e a coroa tem fitas pendentes; os padrões são sobretudo de flores e pássaros, nuvens e dragões, de todos os tipos. As de nível médio usam sobreveste verde-bambu, calças inferiores escarlates e coroa sem fitas. As de nível inferior usam sobreveste branca e calças inferiores brancas, e a coroa é do tipo eboshi. As deusas usam algo como um junihitoe, de beleza infinita. Isso, no entanto, é para ocasiões formais; no dia a dia, vestem-se de vários modos, conforme seus pensamentos. Quanto às moradias, no Japão são de madeira de cipreste, construídas no estilo dos santuários. Nas salas de estar pendem cortinas de bambu. Para chegar à residência de uma grande divindade, sobem-se vários degraus e atravessam-se várias salas ao longo de uma longa varanda; os vassalos vão pela varanda lateral. Do lado de fora da varanda há uma balaustrada. Tudo tem uma aparência refrescante. O jardim é amplo e, além de árvores e plantas, tem arranjos de pedras e água — simples e belo. Os espíritos de budas, nas residências dos fundadores e patriarcas, dispõem de belos assentos elevados em grandes templos capazes de acomodar centenas ou milhares de pessoas. Usam mantos brilhantes e, de quando em quando, pregam sermões. Todos os espíritos que vão para o mundo dos budas rapam naturalmente a cabeça, homens e mulheres, e se distraem sem cessar com poesia, música instrumental, Go, Shogi, dança e coisas assim. Quando saem, encontram um grande lago coberto de folhas de lótus flutuantes, grandes o bastante para duas pessoas, e podem ir em qualquer direção que desejarem. O Paraíso e a Terra Pura diferem um pouco entre si: o Paraíso é iluminado por uma luz branca, mas sua área é estreita e o número de espíritos de budas, pequeno; a Terra Pura, em contraste, tem uma luz suave e dourada. Se o Paraíso é como a manhã, a Terra Pura corresponde à luz do entardecer — chama-se Terra Pura da Luz Silenciosa, e é exatamente assim. Quando os espíritos de divindades e budas se transferem para outro lugar, tornam-se redondos como uma esfera e se movem reflexivamente pelo espaço, a uma velocidade incrível. Quanto mais elevado o espírito, ademais, mais forte é a luz e mais veloz o movimento — por isso não são visíveis aos olhos humanos. Os espíritos humanos, porém, têm luz tênue, de um branco acinzentado e nebuloso, e velocidade lenta; por isso são visíveis aos olhos humanos, e é a eles que chamamos "hitodama" (bola de fogo). Todos os espíritos podem expandir-se e contrair-se livremente, a ponto de entrar e sair até pelo buraco de uma agulha, e quanto mais baixo o espírito, menor ele é. Os espíritos do Inferno, por exemplo, costumam ter de cinco a seis sun a um shaku de altura. Já vi várias vezes fotografias de espíritos humanos de pé junto ao ombro de alguém. Camadas do Mundo Espiritual A constituição do mundo espiritual, como já foi dito, tem três grandes planos — Paraíso, Mundo Intermediário e Inferno —, divididos em nove sub-níveis. Cada sub-nível divide-se, por sua vez, em vinte camadas, o que dá sessenta camadas por plano; três vezes seis, dezoito, ou seja, um total de cento e oitenta camadas. Chamo-as de Camadas do Mundo Espiritual. Acima delas reside o Deus Supremo, o governante do universo. Acho interessante que o caractere "shu" (senhor), de "Shushin" (Deus Supremo), se componha de três linhas horizontais atravessadas por uma linha vertical, com um ponto acima. Explicarei agora, em detalhe, a relação entre os seres humanos e os espíritos. Há o espírito, que tem a mesma forma do corpo humano; no centro dele está o coração, e no centro do coração, a alma — três estágios, portanto, ou melhor, três camadas: grande, média e pequena. Essa alma é o que foi dado por Deus, e é a própria consciência. Sua origem, que se pode chamar de lar ou local de registro, pertence a uma das cento e oitenta camadas mencionadas acima; a isso chamo de alma oculta. Essa alma oculta e a alma atual do ser humano estão ligadas por um elo espiritual. Os pensamentos e as ações do ser humano são transmitidos sem cessar à alma oculta, que se comunica com Deus, e as ordens de Deus chegam ao ser humano por meio da alma oculta e do elo espiritual. Veja-se este exemplo: quando os seres humanos fazem toda sorte de planos e projetos e se empenham em alcançar seus objetivos, mas as coisas não saem como esperavam, tomam um rumo inesperado ou esbarram num destino imprevisto, a maioria das pessoas, ao refletir com profundidade, já deve ter experimentado a sensação de que há sobre elas algum governante invisível a manipulá-las. Esse governante é a vontade de Deus transmitida pela alma oculta. Por isso, quando se age contra a Vontade Divina, quanto mais esforço se faz, mais contraproducente ele se torna. Os seres humanos devem, então, refletir sempre com profundidade sobre se seus próprios pensamentos estão ou não de acordo com a Vontade Divina. Se houver, nesse caso, desejos egoístas e pensamentos malignos, eles interferirão na transmissão da Vontade Divina; assim, ainda que pareça bom por algum tempo, no fim o fracasso será inevitável. Por essa razão, ao fazer qualquer plano, deve-se examinar a si mesmo com cuidado e considerar a fundo se o objetivo é bom e se será útil à sociedade e à humanidade. Algo interessante, aqui, é que, quando alguém falha ou cai em dificuldades por não estar de acordo com a Vontade Divina, em razão de pensamentos malignos, essa própria dificuldade reduz o pecado que é a causa do pensamento maligno. A alma, como resultado, é polida, e passa então a se alinhar com a Vontade Divina, o que leva ao sucesso. É comum, no mundo, o exemplo de pessoas que falham uma vez e depois têm sucesso — e sobretudo o de pessoas que se tornam grandes sucessos quanto mais falham. Isso se deve à razão exposta acima. Colocar o registro da alma numa camada mais elevada das Camadas do Mundo Espiritual é, portanto, como se disse acima, o único método para se tornar uma pessoa de sorte. A posição da alma, originalmente, não é fixa: ela sobe e desce sem cessar. Por quê? Porque quanto mais leve, mais sobe, e quanto mais pesada, mais desce. E qual é a causa dessa leveza e desse peso? A bondade ou a maldade das ações humanas. Quem pratica boas ações e acumula virtudes vê diminuírem os pecados e as impurezas, e a alma se torna mais leve; quem pratica más ações e acumula pecados vê aumentarem os pecados e as impurezas, e a alma se torna mais pesada. Desde os tempos antigos se diz "o fardo dos pecados". Os pensamentos, as palavras e as ações, bons ou maus, são, portanto, comunicados diretamente a Deus através do elo espiritual. Quem compreende essa verdade não pode deixar de se tornar uma pessoa virtuosa. Como se disse anteriormente, os seres humanos têm, por ordem de Deus, seu destino determinado — e até mesmo a vida e a morte. Por isso o caractere "inochi" (vida) é o mesmo caractere "mei" de "meirei" (ordem): a morte é a dissolução da ordem de Deus. Ela ocorre porque a pessoa está causando danos ao mundo ou não tem valor para viver. Enquanto o ser humano não for amado por Deus e não se tornar útil à sociedade, de modo que sua ordem não seja dissolvida, não poderá, portanto, esperar longevidade e felicidade. Quanto mais alto se vai nas Camadas do Mundo Espiritual, menos existem sofrimentos como doença, pobreza e conflito. Ali se recebe saúde vibrante e roupas, comida e moradia abundantes e belas, e se vive uma vida de alegria; a felicidade da alma oculta que ali reside é transmitida diretamente, pelo elo espiritual, ao ser humano do mundo material, tornando-o feliz. A alma oculta que ocupa posição inferior nas Camadas do Mundo Espiritual, por outro lado, reflete-se no ser humano através do elo espiritual, e essa pessoa, sempre ofegante numa vida infernal, termina seus dias na infelicidade. Há no mundo quem se preocupe com a orientação e a forma das casas. Aqueles que ocupam posição superior nas Camadas do Mundo Espiritual, ao se mudarem ou construírem, mudam-se naturalmente para boas orientações e boas formas de casa. Os que ocupam posição inferior, ao contrário, por mais que se esforcem, acabarão se mudando para más orientações e más formas de casa. No casamento vale o mesmo princípio, tanto para os bons quanto para os maus casamentos. Como isso se baseia no princípio da unidade entre o espírito e o corpo, é impossível a qualquer ser humano resistir a essa força absoluta. Direi, aqui, uma palavra sobre o destino predeterminado e o destino mutável. O destino predeterminado é o que se determina desde o nascimento; ele se limita a um dos três planos das Camadas do Mundo Espiritual — superior, médio ou inferior — e dele é impossível sair. O destino mutável, porém, depende do esforço para ocupar a posição mais alta ou mais baixa dentro desse círculo do destino predeterminado. Assim, enquanto o destino predeterminado é imutável, o destino mutável admite certo grau de liberdade. Os seres humanos devem, portanto, acumular sempre boas virtudes, reduzir seus pecados e impurezas e fazer com que sua alma oculta habite posição mais elevada nas Camadas do Mundo Espiritual. Deve-se saber que não há outro caminho senão este para se tornar uma pessoa feliz.

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