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Conversas sobre a Fé

1948-09-05

⚠️ Uso exclusivo do Goshinsho: não autorizamos a reprodução deste conteúdo sem autorização expressa. Tradução em revisão — pode conter erros.

Conversas sobre a Fé Conversas sobre a Fé — Prefácio Há cerca de trinta anos venho levando uma vida de fé, mas, ao longo desse extenso período, ela foi quase inteiramente um caminho espinhoso. Foram inúmeras as dificuldades indescritíveis — a opressão das autoridades, o sofrimento das dívidas, a luta contra as doenças, entre outras — e sinto como se tivesse experimentado toda sorte de sofrimento humano. Por outro lado, não foram poucas a proteção divina e o apoio das pessoas, de modo que posso dizer que alegrias e tristezas se fizeram presentes em partes iguais. Foi por tudo isso que, com inúmeras e preciosas experiências, pude conhecer a existência dos deuses e budas, o profundo significado da fé, o sentido da vida e da morte, entre outras coisas. Esta obra é uma coletânea do que aprendi, reunindo temas interessantes e repletos de ensinamentos. Esforcei-me para que, ao lê-la, tanto os crentes quanto os não crentes, tanto os estudiosos quanto o público em geral, possam compreendê-la; e considero-me feliz se ela contribuir, ainda que um pouco, para alcançar a tranquilidade e a paz espiritual. (Agosto de Showa 23, 1948) ────────────────────────────────── Sinceridade ────────────────────────────────── A chave para resolver todos os problemas — sejam do mundo, da nação ou do indivíduo — está na palavra "sinceridade". A pobreza da política vem da pobreza de sinceridade; a escassez de materiais, da escassez de sinceridade; a decadência da moral também é fruto da falta de sinceridade. A desordem surge onde não há sinceridade, e todos os problemas indesejáveis têm na raiz a insuficiência de sinceridade. Religião, ciência, arte: se não houver sinceridade em seu âmago, não passam de cascas vazias. Ah, sinceridade, ó sinceridade! Humanidade, a chave para a solução de todos os problemas é apenas esta: a sinceridade. ────────────────────────────────── A Fé Correta ────────────────────────────────── O grande erudito chinês Zhu Xi disse: "A dúvida é o princípio da fé." É, de fato, uma palavra perfeita. Sempre digo: "Duvide o máximo possível na fé." Existem vários tipos de fé no mundo, mas a maioria deles tende fortemente ao charlatanismo ou, quando não, tem como alvo deuses e budas inferiores, ou raposas, cães-guaxinins, tengu, dragões e assim por diante. As fés que têm como alvo os deuses corretos são verdadeiramente raras. Por isso, quando examinadas com rigor, a maioria das religiões revela algum tipo de falha. Assim, ao se converter, o mais importante é, antes de tudo, duvidar bastante — nunca se deixe prender por ideias preconcebidas. Se, depois de duvidar e questionar a fundo, você não encontrar defeito algum, então não há outra escolha senão acreditar. No entanto, há religiões que dizem, desde o início: "Se você acreditar, receberá benefícios materiais." Isso é um grande erro, porque acreditar sem reconhecer nenhum benefício material, por menor que seja, significa enganar a si mesmo. Portanto, no início, apenas toque, estude, observe com atenção e duvide o máximo possível. Se a doutrina e a teoria da fé forem racionais e irrepreensíveis, e a proteção dos deuses e budas se manifestar de forma tão evidente que milagres ocorram diariamente, então essa religião é digna de ser considerada excelente e merece a conversão. Existe também um tipo de religião que detesta profundamente que seus seguidores entrem em contato com outras religiões. Isso também está errado, porque revela que a própria religião tem falhas, ou que sua força é fraca — se fosse a religião suprema, não deveria haver nada superior a ela em nenhum outro lugar. Portanto, em vez de temer o contato com outras religiões, dever-se-ia alegrar-se com ele, pois o resultado seria o reconhecimento da superioridade da própria fé e, ao contrário do que se teme, o fortalecimento da crença. No entanto, também é preciso prestar atenção a um ponto: os casos em que ocorrem benefícios materiais e milagres consideráveis. Mesmo entre os deuses e budas corretos existem níveis superiores, médios e inferiores, assim como entre os humanos, e há diferenças de poder. Deuses e budas de segunda categoria, ou inferiores, também manifestam poder considerável, de modo que os benefícios materiais e os milagres aparecem até certo ponto — e a maioria das pessoas acaba acreditando tratar-se de deuses e budas veneráveis. Com o tempo, porém, esses deuses e budas de categoria inferior costumam ser derrotados por divindades malignas, o que pode se manifestar como vários infortúnios, levando a situações difíceis. Mas, uma vez que acreditaram, as pessoas arranjam alguma justificativa e não conseguem perceber a falta de poder de seus deuses e budas; ao contrário, interpretam isso como provação divina ou como purificação de pecados e impurezas. Se um crente sofre infortúnios como doenças ou desastres, padece por um tempo, mas depois sua condição melhora em relação a antes do infortúnio — isso é evidência de um deus ou buda superior. Após o fim da doença ou do desastre, os pecados e impurezas se reduzem na mesma medida, resultando em elevação espiritual. Em contraste, se o infortúnio for extremamente grave, prolongado, ou levar a um estado de desespero, é porque o poder daquele deus ou buda é insuficiente e ele foi derrotado por divindades malignas. No mundo, muitas vezes, apesar de todos os sacrifícios, de uma fé ardente e de orações, não se obtêm os benefícios materiais desejados; isso ocorre porque o pedido da pessoa excede o poder do deus ou buda, que, mesmo querendo conceder o benefício, não pode fazê-lo. Nesses casos, é comum ver pessoas que, mesmo suplicando com todo empenho, não são atendidas e caem no pessimismo — pensando que foram abandonadas pelos deuses e budas, duvidando de sua existência, abandonando a fé ou caindo no desespero, mergulhando ainda mais na infelicidade. Esse tipo de fé, em particular, leva a práticas como jejum, peregrinações de cem voltas, abstinência de chá e sal — o que é extremamente errado. Por mais que se realizem práticas ascéticas individuais, se em nada beneficiarem a sociedade e a humanidade, não passam de esforços inúteis. Se existem deuses e budas que se agradam de tais métodos, são, sem dúvida, deuses e budas de categoria inferior, ou então espíritos de raposas, cães-guaxinins e tengu. Se forem deuses e budas corretos, eles concederão benefícios materiais como recompensa pelos méritos apenas quando os humanos se esforçarem para promover o bem-estar da sociedade e obtiverem resultados reais. A propósito, desde os tempos antigos costuma-se dizer: "Até a cabeça de uma sardinha, se houver fé, se torna objeto de devoção." Isso é um grande erro. O alvo de toda fé deve ser o deus ou buda da mais alta categoria, porque, quanto mais elevado for o deus ou buda, mais ele concede benefícios materiais somente a orações com propósitos corretos, e, ao mesmo tempo, os humanos, ao venerá-lo e adorá-lo, recebem uma luz espiritual pura, que aos poucos lhes purifica os pecados e as impurezas. Por mais que se adore e se curve diante de uma cabeça de sardinha ou de um alvo inferior, o que se recebe de espíritos inferiores é apenas energia maligna, que polui o coração e torna a pessoa naturalmente propensa a praticar o mal. O público em geral, que desconhece essas coisas, pensa que qualquer deus ou buda é igualmente venerável e atenderá aos pedidos — o que é compreensível, afinal ninguém recebeu uma educação que permita distinguir o alto do baixo, o correto do incorreto entre os deuses e budas. Além disso, raposas, cães-guaxinins, tengu, dragões e assim por diante também têm suas hierarquias, diferenças de força e de retidão. Quando se tornam líderes, podem manifestar um poder surpreendente e conceder grandes benefícios materiais, fazendo com que os seguidores mantenham uma fé fervorosa. Na maioria dos casos, porém, os benefícios são temporários; no final, benefícios e infortúnios se alternam, e não é possível obter a glória eterna. Por tudo isso, faço esta advertência: ao buscar a fé, não se deixe iludir por benefícios materiais temporários, e tome cuidado para não errar na discriminação. ────────────────────────────────── Senso Comum ────────────────────────────────── Em primeiro lugar, a verdadeira fé deve ter como ponto central que as palavras e as ações não se desviem do senso comum. Deve-se ter cautela, sobretudo, com as fés que ostentam rituais de possessão por divindades, discursos estranhos e comportamentos excêntricos, tão comuns no mundo. Muitas pessoas tendem a considerar tais fés como veneráveis, o que se deve à falta de conhecimento espiritual — é compreensível, mas é preciso ter cuidado. Também é inadmissível uma fé dogmática, que não permite a aproximação com pessoas de fora do próprio grupo. A verdadeira fé acredita que a missão da religião é salvar toda a humanidade, sem se limitar ao próprio grupo nem incorrer em atitudes exclusivistas — isso pode ser compreendido observando-se o Japão antes do fim da guerra: ao considerar apenas os interesses de sua própria nação e ignorar os de outros países, acabou provando o amargo cálice de uma derrota devastadora. Também acredito que o objetivo final da fé é formar um ser humano completo. É claro que não se pode esperar alcançar a perfeição neste mundo; o que se pode esperar é o esforço de se aproximar, passo a passo, da perfeição — essa é a atitude correta da fé. Portanto, quanto mais se aprofunda na fé, mais a pessoa deve parecer alguém comum e simples, pois ela já mastigou e digeriu a fé. Não é fé verdadeira se as palavras e ações de alguém não forem extremamente sensatas, não agradarem a todos e não chegarem ao ponto de não se saber em que essa pessoa acredita. ────────────────────────────────── Religião e Política ────────────────────────────────── Embora a política e a religião estejam profundamente relacionadas, é estranho que, até hoje, essa relação tenha recebido tão pouca atenção. Pelo contrário: a religião não apenas evitava envolver-se na política, como também era oprimida por ela — essa foi a realidade até o fim da guerra. Esse fenômeno se observa em vários lugares ao longo da história, e não foram raros os casos em que, devido à forte perseguição, a chama da lei esteve prestes a se apagar. No entanto, mesmo que se tente construir o mundo ideal, objetivo da religião, e promover a felicidade da humanidade, esse objetivo, naturalmente, não pode ser alcançado se a política não for boa. Nesse sentido, uma boa política exige bons políticos, e um bom político precisa, imprescindivelmente, de espírito religioso. Creio que, para realizar uma sociedade ideal na era futura, é necessário, antes de tudo, incorporar a religião à política. O defeito em que os políticos mais facilmente incorrem — não sei em outros países, mas no Japão — é, provavelmente, o problema da corrupção, cuja causa se pode atribuir aos políticos materialistas, sem espírito religioso. De todo modo, o que desejamos é o surgimento de políticos religiosos; somente por meio deles poderemos esperar o progresso do destino futuro da nação. Acredito que, na construção do novo Japão, é necessário, antes de tudo, cultivar o espírito religioso nos políticos e fazer com que a política religiosa seja praticada. Hoje, basta abrir a boca para mencionar a corrupção política, a injustiça eleitoral, a corrupção dos funcionários públicos, a sonegação fiscal do povo, a decadência dos educadores — e é exatamente isso. Para purificar esta sociedade lamacenta, governantes, responsáveis e massas populares se esforçam e, como medida de prevenção ao crime, confiam apenas no poder da lei — mas isso está completamente desviado da raiz. A raiz do crime está na alma, no interior do ser humano; purificá-la é o método verdadeiramente eficaz, e creio que não há outro caminho senão a fé correta. ────────────────────────────────── Religião e Arte ────────────────────────────────── Até hoje, muitos pensam que religião e arte têm pouca relação entre si, mas acredito que isso é um grande erro. Elevar o sentimento humano, enriquecer a vida e torná-la agradável e significativa é, de fato, a missão da arte. Ao contemplar as flores da primavera, as folhas de outono, as paisagens do mar e das montanhas, uma pessoa com formação em literatura e arte experimenta, pelos próprios olhos, uma alegria indescritível. O Paraíso na Terra que idealizamos não é exagero chamar de "mundo da arte" — o chamado mundo da Verdade, do Bem e do Belo é isso, e a arte é sua manifestação real. Por que, então, ela foi tão negligenciada até hoje? Os antigos monges ilustres pintavam, eram hábeis na escultura e chegavam a projetar templos, revelando também nesse campo um talento surpreendente. Entre eles, o mais notável artista religioso foi o Príncipe Shōtoku. Ao contemplar a arquitetura do Templo Hōryū-ji, em Nara, sua obra-prima, e as pinturas e esculturas que ali se encontram, qualquer um concordará que se trata de uma beleza esplêndida — difícil imaginar que tenha sido construída há mais de mil e duzentos anos. Por outro lado, muitos santos e monges famosos que propagaram a lei vivendo com roupas e alimentos simples, em abstinência, podem ter feito com que arte e religião parecessem muito distantes uma da outra. Nesses casos, embora houvesse a Verdade e o Bem, faltava o Belo. Por essa razão, pretendo promover a arte com vigor. ────────────────────────────────── A Lição da Derrota ────────────────────────────────── O fato de o Japão ter perdido a guerra significa que o Japão foi salvo. É verdade que, por um tempo, caímos no fundo do pessimismo e, de cima a baixo, mergulhamos num estado de confusão nunca antes experimentado — isso está fresco em nossa memória. Mas foi apenas temporário; quando penso no futuro, não é hora de pessimismo, mas de grande otimismo. Gostaria de expor minha opinião a esse respeito. Em primeiro lugar, o Japão, eufórico e arrogante com as duas grandes vitórias nas guerras Sino-Japonesa e Russo-Japonesa, viu crescer, inconscientemente, uma visão nacionalista dogmática, que levou ao desprezo por outros povos e, por fim, ao início de uma guerra de agressão. Que tolice foi destruir a civilização, massacrar outros povos, sacrificar o próprio território e inúmeras vidas e transformar tudo em um deserto desolado sob os ataques aéreos inimigos! Não só isso: a fome de alimentos após a guerra, a crise habitacional, a inflação, o inferno do transporte — o povo está completamente ofegante na agonia do sofrimento, e essa é a realidade atual. Tudo tem causa e efeito. O fato de o Japão ter perdido a guerra deve ter uma causa, e ela é muito clara. É claro que, devido à ambição de uma minoria privilegiada, crimes terríveis foram cometidos, mas o resultado da derrota se deve ao fato de Deus não ter permitido que se acumulassem mais pecados. O vento divino que a maioria esperava soprou como previsto: a devolução da Manchúria, da Coreia, de Taiwan, de Ryukyu e das Ilhas Curilas foi apenas a devolução do que fora tomado à força, da propriedade alheia — o que mais seria isso senão o vento divino? A riqueza injusta não pode ser permitida para sempre; não pode existir na Terra um país divino tão conveniente. E como o Japão foi purificado pela derrota! Além disso, Deus chegou a retirar as armas para tornar impossível a prática do mal novamente, e os poucos culpados desse mal, infelizmente, não puderam escapar do severo julgamento divino. Não só isso: o povo japonês, entregue à vaidade e ao orgulho de ser uma nação de primeira classe no mundo, não se importava minimamente com as dificuldades dos demais povos da Ásia. Os privilegiados abusavam do poder para restringir a liberdade do povo; os zaibatsu, movidos por ganância sem limites, conspiravam com o governo para aumentar cada vez mais sua riqueza, enganando a sociedade com obras de caridade meramente simbólicas. Mesmo havendo dois grandes partidos, eles não passavam de fantoches dos zaibatsu. Os que nada possuíam, por mais que trabalhassem, não conseguiam se alimentar; não tinham direito de expressão nem direitos civis e viviam o dia a dia como máquinas. Se, por acaso, surgisse um reformador, era imediatamente jogado na prisão. Sob tais condições, os privilegiados exaltavam a paz, entregavam-se ao prazer, ocupavam grandes mansões, possuíam vários carros, entregavam-se a toda sorte de esplendor e sequer se importavam com aqueles que choravam de fome. Um estado tão irracional não poderia durar muito, e o tempo os levou, como era de esperar, a aceitar o destino inevitável da decadência — o que é realmente lamentável. Assim como naquela época eu queria salvar os pobres, hoje sinto profundamente o desejo de salvar os decadentes e quero fazê-los conhecer o método mais adequado para isso: a fé. O primeiro passo para a salvação é que eles próprios reconheçam que a grande mudança em sua situação se deve ao justo julgamento de Deus. Saberão, então, que somente pelo arrependimento e pela entrada no caminho da fé poderão obter a verdadeira tranquilidade e paz espiritual. Estou convencido de que, por meio disso, entrarão em uma vida de maior paz e felicidade do que a que tiveram em sua era de esplendor anterior. ────────────────────────────────── A Expulsão do Mal ────────────────────────────────── O que é o mal? Dispensa dizer: são ações que ameaçam e causam sofrimento aos outros em benefício próprio, envenenando a sociedade. O dano causado por esse mal — não apenas aos indivíduos, mas à sociedade como um todo — é imenso. Não há uma única pessoa que não seja vítima do mal, em maior ou menor grau, em algum aspecto da vida. Por exemplo, para se proteger de ladrões, as janelas são feitas tão pequenas que a circulação de ar fica prejudicada; as portas são trancadas com rigor; mesmo no calor, entradas e janelas permanecem fechadas; ao sair, é preciso deixar alguém de vigia; e, se surge uma proposta tentadora, logo se desconfia de golpe — tudo precisa ser visto com olhos de suspeita. Ao ouvir boatos de roubo na vizinhança ou ler notícias no jornal, não se consegue dormir em paz; andar sozinho à noite, especialmente para mulheres e crianças, é extremamente perigoso. No trem ou no bonde, é preciso cuidado com batedores de carteira, e entre os próprios empregados há os astutos; numa loja, é preciso estar atento a furtos. Se formos enumerar, é como se estivéssemos cercados de pessoas astutas — a realidade da sociedade é que não se pode viver em paz de forma alguma. Não é só isso: quando filhos e filhas atingem certa idade, há o perigo da sedução; para as esposas, a preocupação com a diversão do marido e com as amantes; para os maridos, a ansiedade com a castidade da esposa; há também os danos imprevistos do mal nos negócios; os gastos nacionais com órgãos de prevenção ao crime, como a polícia e os tribunais, não são pequenos; em lojas e empresas, como medida de prevenção contra funcionários desonestos, constroem-se armazéns fortes, instalam-se cofres, criam-se livros, recibos e comprovantes em excesso, com selos em cada um, exigindo um grande número de pessoas só para isso. Há ainda a vigilância contra o roubo de matérias-primas em fábricas, a prevenção de fraudes na saída de produtos e no pagamento, a rejeição de produtos, a prevenção da operação-tartaruga e das greves abusivas e, ainda, a obtenção de lucros excessivos pelos capitalistas — não há nada que não tenha o mal como causa. Além disso, diz-se que o "suborno de cinco por cento" dos funcionários públicos é hoje praticamente aberto; ouvi dizer que, para entrar na escola, o sucesso ou o fracasso depende da quantia de dinheiro; diz-se que as licenças dos órgãos públicos nunca saem sem que se faça um trabalho de bastidores. Em todas as outras áreas, a justiça é extremamente rara, e a realidade é que, em toda a sociedade, parece impossível até mesmo sobreviver sem depender do mercado negro, da ilegalidade e da escuridão, como todos sabem. Vendo dessa forma, se dividirmos o mundo em bem e mal, não há como saber quantas vezes a força do mal é maior do que a do bem. Os danos, prejuízos e ansiedades causados pelo mal são tão imensos que, se enumerados, os prejuízos sofridos pelos indivíduos e pela sociedade seriam incalculáveis. É claro, portanto, que o progresso da cultura e a construção do novo Japão devem ser medidos pela quantidade de mal existente. Diante disso, penso que todos os problemas, o sucesso ou o fracasso, dependem da quantidade de bem e de mal. Nesse sentido, afirmo sem hesitar que os governantes, os educadores, os intelectuais e todos devem se dedicar a reduzir e eliminar o mal — não há outro bom método além desse. E qual é esse bom método? Não é preciso dizer: a fé correta. ────────────────────────────────── Alegrar-se com o Bem ────────────────────────────────── Parece que não são poucas as pessoas que pensam que o prazer deve ser necessariamente algo mau. Vejamos, em primeiro lugar, o chefe de família: quando a vida se torna folgada, ele sente vontade de frequentar os bairros de prazer e de manter uma amante, e a maioria parece obter o dinheiro para isso por meios ilícitos. Naturalmente, isso é uma conduta que pertence ao mal. Por causa disso, ele atravessa pontes perigosas, causa prejuízos à nação e à sociedade e, para si mesmo, acaba por perder a harmonia familiar e levar uma vida de ansiedade. Acreditando, sem perceber, que o sucesso e o prazer fossem o objetivo final da vida, ele cai no inferno terreno do mundo presente. Essas pessoas são numerosas entre a classe média e acima e, ao mesmo tempo, as massas que as veem bem-sucedidas, deslumbradas apenas com a aparência exterior, pensam: "A vida é isto" — sentem inveja e querem imitá-las. Por isso, por mais que o tempo passe, a sociedade não se torna boa. Há também o ditado de que "o honesto é um tolo", e a realidade é que aqueles que vivem seriamente ficam na base, enquanto os que fazem perigosas travessias na corda bamba progridem e levam uma vida luxuosa. Há, ainda, os ganhos extras dos funcionários públicos, os lucros ilícitos dos empregados de empresas, os rendimentos ocultos dos políticos. É de se perguntar: quantas pessoas existem hoje que não se envergonham nem do céu nem da terra? É aqui que quero ensinar a alegria do bem. Ou seja: mesmo que alguém se destaque consideravelmente na sociedade, deve evitar ao máximo frequentar os becos das flores escondidas entre os salgueiros; se houver recursos excedentes, deve gastá-los para o bem público da sociedade, ajudar os necessitados, praticar boas ações e virtudes, dedicar-se aos deuses e budas e, de vez em quando, levar a família para se divertir com filmes, teatro, espetáculos. Dessa forma, a família se reúne em harmonia, a esposa passa a respeitar e agradecer ao marido, e, quanto aos filhos, não haverá preocupação de que se tornem delinquentes. Consequentemente, não haverá instabilidade financeira nem vida desregrada, a saúde será favorecida e a longevidade poderá ser mantida — assim, é possível desfrutar cada dia com o coração sempre cheio de alegria. O famoso rico da era Meiji (1868-1912), o Sr. Kihachiro Okura, disse uma coisa interessante: "Se quiser viver muito, não faça dívidas" — porque não há sofrimento espiritual maior do que as dívidas. Eu também, tendo sofrido com dívidas por vinte anos, sinto que entendo bem isso. No entanto, entre as pessoas modernas há aquelas que fazem coisas que, se expostas, violariam a lei ou constituiriam crime de peculato; gostam de transações escusas; criam segredos que, se a esposa soubesse, causariam um grande tumulto; contraem dívidas a juros altos e vivem dias de ansiedade, sempre tremendo de medo, tentando afogar esse sofrimento no álcool. Por mais que o preço do saquê suba, ele se vende — talvez haja uma razão para isso. Nem é preciso dizer que a saúde é prejudicada e a vida se encurta, e é comum que aqueles que entraram nessa vida de lama não consigam sair facilmente. O único método para sair disso é, antes de tudo, entrar para uma religião; não creio que haja outro caminho. Escrevi acima sobre os dois caminhos, o do bem e o do mal — o das pessoas que se alegram com o mal e o das pessoas que se alegram com o bem. Caros leitores, qual dos dois escolhereis? Espero que reflitais profundamente. ────────────────────────────────── O Prazer Supremo da Fé ────────────────────────────────── Desejo falar ao mundo sobre o sabor da fé. Não há nada no mundo que não tenha sabor — dificilmente haverá algo, seja material, humano ou na própria vida, que não o tenha. Se retirarmos esse sabor da vida, ela se tornará, literalmente, insípida e árida, e a vontade de viver se perderá por completo. Portanto, não seria exagero dizer que a base do apego do ser humano à vida é o prazer proporcionado pelo sabor. Na fé também é natural que haja uma fé com sabor e uma fé sem sabor. No entanto, o mundo é uma coisa estranha: existe o que se chama de "fé pelo terror", aquela em que se temem os deuses e os budas, se está preso a preceitos e se leva uma vida extremamente restrita, sem nenhuma liberdade, sempre em estado de tremor e apreensão. A esse estado chamo de "Inferno da fé". Originalmente, o ideal da fé deve estar num estado de constante paz de espírito, onde se desfruta a vida e se está imerso em alegria. Deve-se sentir como se os pássaros, as flores, o vento e a lua, o canto de inúmeras aves, a beleza das montanhas e das águas, tudo fosse uma forma de Deus nos confortar. Deve-se agradecer profundamente pela comida, roupa e abrigo como bênçãos inestimáveis, e passar a sentir afinidade não apenas com os seres humanos, mas também com os pássaros, os animais, os insetos, os peixes, as árvores e a grama, até os mais ínfimos. Esse é o estado de êxtase religioso, e é preciso alcançar uma disposição de espírito em que, após fazer tudo o que é humanamente possível, se entregue o restante aos deuses e budas. Eu, frequentemente, quando me deparo com problemas difíceis que não consigo decidir, entrego-os a Kannon-Sama e, depois, espero o momento. E, como inúmeras experiências têm demonstrado, obtenho resultados melhores do que imaginava — pode-se dizer que nunca, nem uma vez, o resultado foi tão preocupante quanto eu temia. Além disso, quando faço vários pedidos, o resultado é sempre superior ao que esperava, o que é interessante. Há também o seguinte: quando algo ruim acontece, a princípio me preocupo; mas penso que deve ser um prenúncio de algo bom e entrego a Deus. Então descubro que aquilo era, de fato, algo ruim que precedia algo bom, e muitas vezes até acho ridículo ter me preocupado tanto, ficando verdadeiramente grato. Em suma, considero-me um homem que vive milagres. O prazer supremo da fé de que falo é exatamente isto. ────────────────────────────────── Milagre ────────────────────────────────── Milagres são inerentes à religião — não, devem sê-lo. É fato que na Igreja Kannon há muitos milagres, como os fiéis experimentam constantemente, e também é claro que, por meio deles, a fé se aprofunda e o ardor aumenta. No entanto, é lamentável que, como as religiões modernas têm poucos milagres, haja a tendência de chamar de superstição as religiões que os têm em abundância. Isso é natural e inevitável, vindo de pessoas materialistas. Afinal, o que é um milagre? Não é necessário dizer: é a ocorrência de um fato que não deveria ser possível. Por exemplo, é comum que pacientes graves, abandonados por vários médicos, se curem completamente pela fé; ou que pessoas escapem por pouco de acidentes de transporte — pessoas que deveriam ferir-se e não sofrem dano algum. Especialmente durante a guerra, o número das que escaparam de perigos como o serviço militar no exterior ou os bombardeios aéreos no país é extremamente grande. Os jornalistas que consideram os milagres religiosos como superstição são um problema, mas há nisso também um ponto compreensível. De fato, existem no mundo religiões extremamente inferiores e crenças suspeitas de possessão espiritual, e os danos que causam à sociedade não são poucos; não hesitamos em concordar com os alertas contra a superstição, para prevenir esses males. No entanto, não podemos aprovar a atitude de tratar indistintamente toda religião nova como superstição, sem examiná-la com o bisturi da ciência, sem estudá-la logicamente, negando-a dogmaticamente. Não seria essa atitude contrária à própria civilização? Gostaria de chamar a atenção para que se reconheça que a fé correta está, de fato, desempenhando um grande papel na promoção do bem-estar da sociedade humana e, ao mesmo tempo, incitar à reflexão. Se os milagres são superstição, então o Cristianismo também o seria. Por quê? Porque histórias como a de Cristo transformar água em vinho, a de encher uma jarra com quantidade suficiente para dezenas de pessoas num instante e a de abrir os olhos de cegos e fazer com que coxos andem são milagres notáveis. Eu penso: quem pode dizer que, neste planeta infinitamente longo, em que época e em que tempo não aparecerá uma religião de milagres? ────────────────────────────────── Pragmatismo ────────────────────────────────── Quando jovem, gostava de filosofia. E, entre várias teorias, a que mais me atraiu foi o pragmatismo do famoso filósofo americano William James — em tradução para o japonês, algo como "filosofia do ativismo". Segundo James, expor simplesmente teorias filosóficas não passa de uma espécie de jogo; deve-se manifestar a filosofia na ação, e é por isso que ela tem valor. Acho interessante esse aspecto totalmente realista, típico de um filósofo americano. Simpatizei com isso e, naquela época, esforcei-me para incorporar a filosofia ao meu trabalho e à minha vida cotidiana; por causa disso, não foram poucos os benefícios que recebi do pragmatismo. Posteriormente, quando passei a crer na religião, pensei que deveria estender esse ativismo filosófico também à religião — ou seja, um "ativismo religioso". Ao imaginar quão grandes seriam os benefícios de incorporar a religião em tudo, posso considerar o seguinte. Se for um político, não cometerá atos ilícitos; como fará uma política verdadeiramente voltada para o povo, sem egoísmo, receberá a confiança do povo e a administração fluirá suavemente. Se for um empresário, como administrará os negócios com sinceridade, sua credibilidade será sólida; como tratará os subordinados com amor, eles trabalharão com lealdade, alcançando um desenvolvimento estável. Se for um educador, como educará com convicção firme, receberá o respeito dos alunos e terá grande poder de influência. Se for um funcionário público ou empregado de empresa, como tem fé, obterá excelentes resultados e sua posição melhorará. Se for um artista, suas obras exalarão elevado aroma e poder espiritual, exercendo boa influência no mundo. Se for um artista performático, como a fé está no centro, terá dignidade, e o público cultivará sentimentos elevados e receberá boa influência. No entanto, não quero dizer algo rígido como um livro didático. O que digo deve fazer rir muito, alegrar muito e despertar grande interesse. Além disso, não é difícil imaginar quão grande é a contribuição para a sociedade e para a melhoria do destino de uma pessoa, seja qual for sua profissão ou situação, ao manifestar a religião na ação. Aqui, quero chamar a atenção para uma coisa. Na prática do ativismo religioso, assim como o missô não deve ter cheiro forte de missô, o cheiro de religioso do crente é digno de reprovação — isso vale especialmente para os crentes fervorosos. Há pessoas no mundo que parecem carregar a fé pendurada na ponta do nariz; aos olhos de terceiros, isso causa um certo desconforto. O ideal é que não haja cheiro algum de religião, que a pessoa não se distinga de uma pessoa comum; apenas suas palavras e ações devem ser verdadeiramente admiráveis, gentis e causar boa impressão. Em suma, desejo uma fé "purificada", não uma fé "terrosa". Há até mesmo, entre certos tipos de crentes no mundo, aqueles que, de tão fervorosos, são suspeitos de doença mental. Mas são justamente esses crentes, extremamente subjetivos, que tornam o lar sombrio e não se importam nem um pouco com o incômodo que causam aos vizinhos, fazendo com que o mundo duvide de sua religião. A responsabilidade por isso recai, a meu ver, sobre os líderes, que devem prestar muita atenção. ────────────────────────────────── Não Se Irrite ────────────────────────────────── Há um famoso ditado antigo: "A paciência que se consegue ter, qualquer um tem; a paciência que não se consegue ter, essa sim é paciência." E também: "Carregue sempre o saco da paciência no pescoço; se rasgar, costure; se rasgar, costure." É exatamente isso. Frequentemente me perguntam: "Mestre, que tipo de treinamento o senhor fez para chegar onde está? Entrou nas montanhas e se banhou em cachoeiras? Jejuou? Não fez várias práticas ascéticas?" Mas eu respondo: "Nunca fiz esse tipo de treinamento. Meu treinamento consistiu em duas coisas que se sobrepuseram: 'o sofrimento das dívidas e a paciência para suportar a raiva'." Ao ouvir isso, as pessoas ficam estupefatas. Mas, como é a verdade, não há o que fazer. Acredito que Deus fez isso para me lapidar. Sobretudo, os motivos para me irritar vinham um após o outro, como se dissessem: "Aguenta isso! Aguenta isso!" Por temperamento, não gosto de me irritar; mas, curiosamente, sou levado à irritação. Certa vez, fui vítima de um grande mal-entendido e submetido a uma humilhação tão grande que não podia mais olhar nos olhos da maioria das pessoas. Minha indignação não tinha limites; eu não conseguia mais me conter. Então, como não havia outro jeito, fui convidado a ir a uma casa e, não podendo recusar, fui. Minha cabeça estava vazia e não conseguia concentrar o espírito; não havia nada a fazer, então, para me distrair, pedi uma dose de saquê e bebi. Naquela época, eu não bebia uma gota de saquê; foi uma situação excepcional. Depois de dois ou três dias, finalmente recuperei a calma. Mais tarde, porém, descobri que, por causa daquela raiva, pude escapar de um grande desastre — se não a tivesse sentido, teria sofrido um golpe fatal. Fui salvo exatamente pela raiva, e não pude deixar de me emocionar com a profunda graça de Deus. Como disse acima, Deus lapida as almas daqueles que têm uma missão importante; entre esses métodos, creio que controlar a raiva é a maior provação. Portanto, quanto mais uma pessoa se irrita, maior deve ser a missão que lhe foi dada. Nesse sentido, se alguém consegue não se abalar com qualquer raiva e permanece calmo, pode-se dizer que passou por uma etapa do treinamento. Há uma história interessante sobre isso, da era Meiji (1868-1912). Havia um homem chamado Buei Nakano, que era presidente da Câmara de Comércio da época. O Sr. Nakano nunca se irritava, não importando o que acontecesse. Alguém lhe perguntou o motivo, e o Sr. Nakano disse: "Eu nasci com um temperamento muito irritadiço. Um dia, quando fui visitar o famoso empresário da época, o Sr. Eiichi Shibusawa, ouvi da sala ao lado uma discussão entre o Sr. Shibusawa e sua esposa. Mas, quando ele soube da minha visita, abriu a porta de papel e sentou-se. Seu rosto, naquele momento, estava tão calmo como de costume, que não parecia que ele tinha acabado de discutir. Fiquei intrigado e senti algo: era o poder de controlar a raiva. Pensei: 'Foi por isso que o Sr. Shibusawa conseguiu tanto sucesso a ponto de ser chamado de grande figura do mundo empresarial. Muito bem, eu também preciso aprender a controlar minha raiva facilmente.' A partir de então, comecei a me esforçar nesse sentido, e tudo correu bem, até que alcancei a posição que tenho hoje." Quando estiver prestes a se irritar, caro leitor, pense que Deus o está lapidando. Essa é a postura de um crente. Esqueci-me de escrever sobre as dívidas. Pela minha experiência, a causa das dívidas é a pressa; a pressa leva a fazer coisas forçadas, e o forçado é a pior coisa de todas. As coisas feitas à força, ainda que tenham sucesso temporário, mais cedo ou mais tarde trarão consequências e obstáculos inesperados. Por isso, ainda que pareçam andar rápido, no final é preciso voltar atrás e refazer. Se examinarmos bem as causas da derrota do Japão na guerra, veremos que tudo estava cheio de esforços forçados. Em primeiro lugar, quando se está com pressa ou se faz algo forçado, não há folga no coração, e boas ideias não surgem; tentar fazer algo à força quando boas ideias não surgem é ainda pior. Deve-se esperar que surja uma boa ideia — ou seja, um plano do qual não haja dúvida — para então agir. É o que se chama literalmente de "reflexão profunda e ação decidida". Portanto, depois de esgotar todas as pesquisas, quando se tem a certeza absoluta de que não há erro, é inevitável contrair dívidas; mas, uma vez contraída, deve-se pagá-la o mais rápido possível, nunca a prolongando. Por natureza, as dívidas são difíceis de pagar; quando se prolongam, os juros se acumulam e o sofrimento espiritual é considerável. Isso tira a folga do coração, impede que surjam boas ideias e sabedoria, e o trabalho não tem como ir bem. As dívidas também podem ser ativas ou passivas. Contrair dívidas para o desenvolvimento do negócio é ativo; contrair dívidas para tapar buracos de prejuízos é passivo. Embora as dívidas ativas sejam consideradas inevitáveis, as passivas nunca devem ser contraídas. Quando se tem um prejuízo, deve-se abandonar o fingimento, reduzir o tamanho do negócio e esperar a oportunidade chegar. Quero ainda chamar a atenção para uma coisa: não ser ganancioso. Como diz o provérbio antigo, "a grande ganância é a não-ganância" — a causa dos prejuízos é, em oito ou nove de cada dez casos, a ganância excessiva. Muitas vezes, as pessoas trazem histórias tentadoras como "bater na bochecha com um bolinho de arroz doce", mas no mundo não existem coisas tão boas assim; deve-se desconfiar de histórias boas demais, pois as histórias pouco atraentes são, ao contrário, as que têm futuro. Vou contar minha experiência a esse respeito. Na época em que eu queria pagar as dívidas rapidamente, achava que precisava administrar ativamente os negócios religiosos e pensava "quero dinheiro, quero dinheiro", o dinheiro simplesmente não entrava. No fim, desisti, entreguei tudo a Deus e esqueci o dinheiro — foi então que o dinheiro começou a entrar de forma inesperada. Pensei que as coisas do mundo, realmente, não se entendem pela lógica. ────────────────────────────────── Práticas Ascéticas ────────────────────────────────── Desde os tempos antigos, o público em geral considera que a fé e as práticas ascéticas estão intimamente relacionadas. As práticas ascéticas têm origem no Bramanismo da Índia antiga; diz-se que, antes do surgimento de Buda Shakyamuni, a fé bramânica ocupava a maior parte dos indianos. A prática ascética de Bodhidharma, que passou nove anos em meditação diante de uma parede, também é um exemplo disso, e os Arhats são praticantes que realizaram treinamento ascético. Essa prática, como se vê em pinturas e esculturas de Arhats, consiste em segurar algo em uma das mãos, sentar-se na bifurcação de uma árvore ou, em casos extremos, cravar vários pregos no verso de uma tábua, virá-la e sentar-se em meditação sobre ela, de modo que as nádegas sejam perfuradas pelos pregos. Diz-se que há quem suporte essa dor extrema por um, dois ou até vários anos, e que, através dessa resistência, se alcança a iluminação — ou seja, torna-se um desperto. É bem conhecida a famosa história de Bodhidharma: durante uma noite de lua cheia de sua prática ascética, ao contemplar a lua, ele sentiu a luz iluminar seu interior com clareza e brilho e, naquele instante, despertou subitamente para a verdade. De qualquer forma, como ficou sentado em meditação por nove anos, suas pernas atrofiaram a ponto de não conseguir mais se levantar, o que provavelmente deu origem à lenda de que Bodhidharma não tem pernas. Diz-se que ainda hoje existem na Índia muitos praticantes ascéticos brâmanes, e que eles realizam milagres consideráveis. A meditação na floresta que o falecido Rabindranath Tagore costumava praticar e os jejuns que Mahatma Gandhi repetidamente realizava são, provavelmente, um tipo de prática ascética brâmane. Buda Shakyamuni, movido de compaixão pelas práticas ascéticas brâmanes excessivamente cruéis que eram populares na época de seu surgimento, ensinou que era possível tornar-se um desperto lendo os sutras, sem precisar de práticas ascéticas. Diz-se que o povo indiano da época, grato por esse mérito, fez de Buda Shakyamuni o objeto de sua veneração — nesse sentido, os budistas que praticam práticas ascéticas estariam, de certa forma, traindo a graça de Buda Shakyamuni. Parece que ainda hoje, no Japão, existem praticantes e religiosos que realizam práticas ascéticas ao estilo brâmane; no entanto, não posso concordar com isso, pois os fiéis da nossa Igreja Kannon podem despertar, trilhar o Caminho correto e cumprir sua vocação e missão divina sem precisar de práticas ascéticas especiais. ────────────────────────────────── Religião Maligna e Supersticiosa ────────────────────────────────── Atualmente, jornais, revistas e rádio advertem com veemência contra as religiões malignas e supersticiosas. De fato, elas não apenas surgem sem cessar desde os tempos antigos, mas hoje parecem estar no auge. Contudo, não se pode dizer que todas sejam malignas e supersticiosas, pois algumas permanecem até hoje como religiões respeitáveis. O próprio Cristianismo, hoje aclamado como a maior religião do mundo, é exemplo disso: seu fundador, Jesus Cristo, foi tratado, durante sua vida, como fundador de uma religião maligna e supersticiosa e, no final, submetido a uma punição tão severa. Ao ver sua figura dolorosa, conduzido ao local da execução com uma coroa de espinhos, e ao notar que nenhuma pessoa justa apareceu para impedi-lo, percebe-se como os homens da época o viam. Em nosso país também há exemplos claros: o exílio distante de Honen e Shinran nos tempos antigos e a severidade das perseguições que Nichiren sofreu ao propagar o Sutra de Lótus. Mais recentemente, temos o exemplo de Miki Nakayama, fundadora da Igreja Tenrikyo, detida em delegacias mais de vinte vezes e presa em várias ocasiões. Apenas Buda Shakyamuni não sofreu perseguição alguma, provavelmente por ser príncipe. Eu mesmo, ao observar as várias novas religiões que surgem hoje, não posso deixar de franzir a testa diante de sua inferioridade; penso que, se fosse autoridade, teria de tomar medidas rigorosas de controle. Crenças de possessão espiritual que incomodam a sociedade e alarmam as pessoas, cenas de loucura de inúmeros fiéis dançando e saltando, insuportáveis de ver, profecias bizarras que infundem medo, religiões que perturbam os vizinhos com barulho — tudo isso não me parece verdadeiro. Há também empresas religiosas com o único objetivo de ganhar dinheiro. Tudo isso, com o passar do tempo, um dia declinará e desaparecerá. No vasto mundo, existem religiões terríveis — um tipo de fé por intimidação. Por exemplo, dizem: "Em tal ano, mês e dia, acontecerá uma grande catástrofe; quem quiser se salvar deve entrar em tal religião, senão estará em perigo." Quando alguém que uma vez se converteu tenta se desligar, o mestre diz coisas terríveis, como "Se você se afastar desta fé, morrerá com certeza" ou "Sua família inteira morrerá", usando essas ameaças para impedir a desistência. Nenhuma dessas é uma maneira correta de agir; é um tipo de intimidação, e é um grande erro continuar na fé por medo. Originalmente, os deuses e budas são amor e compaixão; portanto, não pode haver intimidação. A verdadeira fé é querer se converter porque os deuses e budas são dignos de gratidão. Também é preciso ter cuidado com religiões que insistem no proselitismo, que vêm pregar mesmo depois de recusadas várias vezes, ou que realizam eventos por longos períodos a ponto de atrapalhar o trabalho da família. Acho que essas religiões também não são verdadeiras. ────────────────────────────────── Abstinência ────────────────────────────────── Desde os tempos antigos, considerava-se que um religioso exemplar devia levar vida de abstinência — tida até como o melhor método para compreender a verdade e polir a alma. Sou contra, porém, e explicarei a seguir de modo simples. Em primeiro lugar, todas as coisas do universo existem para o ser humano: vejam as flores da primavera, as folhas vermelhas do outono, o canto dos pássaros, o som dos insetos, as belas paisagens de montanhas e rios, o encanto das noites de lua, as fontes termais. É preciso perguntar por que existem — nem é necessário dizer: foram criadas por Deus para alegrar o ser humano; o que mais seriam? Além disso, a bela voz humana ao cantar, a dança, a literatura e as artes, evidentemente, alegram a própria pessoa e também os outros. Não só isso: na vida humana, todos os alimentos deliciosos, mas também a arquitetura, os jardins e as roupas não existem apenas por necessidade; encerram elementos para serem mais apreciados. Ao apreciar a comida e a bebida, elas se tornam nutrição e a vida é mantida; se moradia, comida e roupas tivessem apenas a finalidade da necessidade, seriam coisas extremamente insípidas. Nem é preciso dizer que ter filhos tampouco tem apenas finalidade prática. Assim, tanto a grande natureza quanto todas as coisas artificiais — já que Deus deu ao ser humano o instinto de apreciá-las — devem ser apreciadas. O ascetismo, que rejeita isso e se contenta apenas com o necessário para a sobrevivência, é uma forma de pensamento contrária à profunda graça de Deus. Olhando por outro ângulo, os privilegiados de até hoje careceram de visão altruísta; entregavam-se apenas ao prazer próprio e ao de sua família, sem considerar a sociedade e os outros, e foi rara a manifestação do pensamento de amor à humanidade, de alegrar-se junto com todos. Isso seria monopolizar a graça de Deus. Nesse sentido, também acho que os ricos deveriam abrir seus grandes jardins e expor suas obras de arte, alegrando-se com todos, pois é assim que se corresponde à vontade divina. Refletindo, os santos antigos levavam uma vida de abstinência extrema, com roupas e alimentos simples; dizem que dedicaram sua vida preciosa a uma existência como "cinquenta anos do fundador com roupas de papel". Isso iria contra a graça de Deus. É lamentável que as pessoas, sem perceber isso, ao olharem para um religioso, tendam a pensar que ele não é digno de gratidão a menos que seja abstinente. Por ser contra a abstinência, como já disse, levo uma vida igual à das pessoas comuns e acredito que isso está de acordo com a vontade divina. Portanto, o Paraíso na Terra significa um mundo onde a vida de toda a humanidade melhora e as alegrias puras, como a arte e outras, se desenvolvem grandemente. Quanto à Verdade, ao Bem e ao Belo: a Verdade é o que não é falso, o Bem é a ação correta, e o Belo é o que é belo. Na vida de abstinência, portanto, embora haja o Bem, não há a Verdade nem o Belo; pelo contrário, creio que isso pode até impedir o progresso da cultura. Deveríamos pensar que a sociedade da Índia, por se inclinar apenas para a vida espiritual, chegou a um estado de nação atrasada e culturalmente estagnada como a de hoje. Daijo e Shojo ────────────────────────────────── Daijo e Shojo ────────────────────────────────── Desde os tempos antigos, existem as palavras Daijo e Shojo. É claro que são termos budistas e são explicados com bastante detalhe no budismo; mas, talvez por minha falta de conhecimento, ainda não ouvi uma explicação convincente. Vou escrever minha opinião sobre isso. Primeiramente, em poucas palavras, Shojo é a urdidura e Daijo é a trama; além disso, Shojo é emoção e Daijo é razão. Shojo discrimina o bem e o mal e é legalista, por isso é facilmente visto como bom pelo público em geral; Daijo, porém, não discrimina o bem e o mal e é liberal, por isso é difícil vê-lo como bom. Para tornar isso mais fácil de entender, darei alguns exemplos. Aqui há um ladrão. Ao tentar fazê-lo se arrepender, pelo método de Shojo, convence-se o ladrão repreendendo suas más ações. No Daijo, a pessoa entra uma vez no grupo dos ladrões e, vendo a oportunidade, diz algo como: "Fazer coisas ruins não dá muito lucro, e você vive o ano todo com medo e ansiedade, não é sem graça?", fazendo-o abandonar o mal e guiando-o para o bom caminho. Além disso, obedecer aos pais é considerado a base da piedade filial; mas, quando a pessoa estabelece um objetivo e quer realizá-lo, às vezes precisa se afastar dos pais, e eles não aprovam. Sem alternativa, ela uma vez se rebela contra os pais, sai de casa, esforça-se para alcançar seu objetivo e, após o sucesso, volta para os pais; é claro que eles se alegram com essa honra, e isso se torna uma grande piedade filial. Observando isso, o primeiro caso é a piedade filial de Shojo, e o segundo é o Caminho da piedade filial de Daijo. Ademais, o nacionalismo e o etnocentrismo também são o bem de Shojo, assim como o comunismo, baseado no amor de classe. Originalmente, as coisas chamadas de "ismos" são, em sua maioria, o bem de Shojo; por isso, chega um momento em que inevitavelmente se esgotam. A menos que se siga o amor mundial e humano de Daijo, não se pode chamar isso de verdade. O Japão ter sofrido a tristeza da derrota devido ao expansionismo foi porque era o amor nacional de Shojo e a lealdade ao imperador de Shojo. A palavra "Caminho Imperial", que era popular no Japão antigamente, era o patriotismo de Shojo — porque, mesmo que esse Caminho Imperial fosse propagado em países fora do Japão, provavelmente ninguém simpatizaria com ele. Portanto, a menos que toda a humanidade simpatize e o celebre, não se pode dizer que tem vida eterna; isso é o verdadeiro Caminho de Daijo. Originalmente, as coisas chamadas de "ismos" são limitadas; por isso, entram em atrito com outros "ismos", tornando-se causa de conflitos, que acabam se desenvolvendo em guerras e causando calamidades à humanidade. Assim, o bem de Shojo é o mal de Daijo, e o bem de Daijo é o mal de Shojo. No entanto, deve-se notar aqui que, para o público em geral, pregar o Caminho de Daijo desde o início é perigoso, pois é fácil ser mal interpretado; portanto, deve-se primeiro pregar Shojo e, depois que a pessoa obtiver um certo grau de compreensão, pregar Daijo. Em seguida, vou falar sobre Daijo e Shojo na religião. Originalmente, o budismo é Shojo, e o cristianismo é Daijo; o budismo é fogo, e o cristianismo é água. O fogo queima na urdidura, e a água flui na trama. Portanto, o budismo é estreito e profundo, isolado, e não tem expansão na trama. Por outro lado, por ser Daijo, o cristianismo espalha sua linha de ensino a todos os cantos do mundo, como a água que transborda. Curiosamente, dentro do budismo, que é Shojo, também há diferenças entre Daijo e Shojo: o Nenbutsu (Namu Amida Butsu) é Daijo e é yin, enquanto o Namu Myōhō Renge Kyō é Shojo e é yang. Daijo é o poder do outro, e Shojo é o poder próprio. Em contraste com a fé no poder do outro dos seguidores de Amida, que dizem "se apenas recitar Namu Amida Butsu, será salvo", o Sutra de Lótus, que é Shojo, diz: "Não basta apenas recitar o Myōhō Renge Kyō. Deve-se praticar austeridades difíceis e dolorosas." Dessa forma, a urdidura e a trama estavam separadas nas religiões até hoje, mas, no final, a urdidura e a trama devem se unir, ou seja, devem se tornar a forma da cruz. Nesse sentido, a atividade que se adapta ao tempo, lugar e posição, tornando-se tanto urdidura quanto trama, com mil transformações e manifestações livres, é a verdade, e essa atividade em forma de cruz é o significado essencial da prática de Kannon. Desde os tempos antigos, diz-se que Kanzeon-Bosatsu não é homem nem mulher, e sim homem e mulher; que o Sagrado Kannon é o corpo principal, manifestando-se como os seis Kannon — Senju, Juichimen, Nyoirin, Juntei, Fukūkenjaku e Batō —, que se dividem em 33 manifestações; que há nomes como Kanjizai-Bosatsu, Mujin'i-Bosatsu, Semui-Bosatsu, Mugekō-Nyorai, Kōmyō-Nyorai, Fukōzannō-Nyorai, Saishōmyō-Nyorai, entre muitos outros; e, especialmente, que ele se manifesta como Ooshin Miroku. Só por isso já se pode compreender aproximadamente sua natureza. A propósito, Amida-Nyorai é Hosshin Miroku, Shaka-Nyorai é Hōshin Miroku, e as três formas — Amida-Nyorai, Shaka-Nyorai e Kanzeon-Bosatsu como Ooshin Miroku — são veneradas como a Trindade de Amida. Pode-se dizer também que Miroku do sol é Kannon, Miroku da lua é Amida e Miroku da terra é Shaka. Deve-se notar, aqui, que há uma teoria segundo a qual o corpo principal de Kanzeon-Bosatsu é a manifestação de Amaterasu Ōmikami; mas isso é um erro: Amaterasu Ōmikami se manifesta como Dainichi-Nyorai. ────────────────────────────────── Religião e Seitas ────────────────────────────────── As religiões se dividem em várias seitas. No cristianismo, por exemplo, as principais são o catolicismo e o protestantismo, e há muitas outras, antigas e novas. No budismo, mesmo considerando apenas o Japão, as principais são a Verdadeira Terra Pura, a Terra Pura, Tendai, Shingon, Zen e Nichiren, e cada uma delas se subdivide em várias — atualmente, contam-se 58 seitas. No xintoísmo, excluído o xintoísmo de santuários, as principais do xintoísmo sectário são Taisha, Mitake, Fusō, Misogi, Tenri e Konkō, e é evidente que há 13 seitas. Em meu modo de ver, dividir-se em tantas seitas não tem sentido. Mas vejo a questão assim: a causa não estaria nos textos sagrados? Tanto a Bíblia quanto os textos budistas contêm muitos pontos contraditórios e difíceis de entender, e sua interpretação diverge de pessoa para pessoa; naturalmente, várias seitas devem ter surgido. O xintoísmo sectário, contudo, ao contrário do cristianismo e do budismo, não tem um grande fundador; formou-se com base em clássicos como o Kojiki e o Nihon Shoki, ou em doutrinas de possessão espiritual e nos ensinamentos de seus fundadores. Assim, embora a raiz seja a mesma religião, as seitas, ao se dividirem, tendem a gerar conflitos, o que, evidentemente, prejudica a missão original da religião — a educação baseada no amor à humanidade — e é extremamente lamentável. Não há dúvida de que a causa está na dificuldade de compreensão dos textos sagrados, como dito anteriormente. É claro que também se pode argumentar que, justamente por serem difíceis, eles encerram um valor de gratidão; mas, do ponto de vista de salvar toda a humanidade, julgo que o correto é torná-los tão compreensíveis quanto possível para todos. Por isso, procuro evitar ao máximo a dificuldade de compreensão e pretendo pregar o Caminho da Doutrina sob uma nova forma, para que qualquer pessoa possa entendê-lo. Pretendo ainda, aos poucos, estender-me também às áreas da política, da economia, da educação e da arte, publicando novas interpretações por meio da religião. ────────────────────────────────── Paraíso na Terra ────────────────────────────────── Que bela ressonância tem a palavra “Paraíso na Terra”. Não deve haver nada que dê tanta luz e esperança quanto esta palavra. Muitos devem pensar que algo como o Paraíso na Terra é apenas um sonho irrealizável; eu, porém, acredito firmemente em sua realização — mais que isso, reconheço que estamos nos aproximando dela. Para que foi, então, o grande rugido de leão de Cristo, o santo de Nazaré, ao dizer: “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”? Acho que Cristo, o fundador principal cujo ensinamento converteu a maior parte do mundo e alcançou a grandeza de hoje, não poderia ter dito palavras vazias, sem certeza. Então, o que seria o Paraíso na Terra? É o que todos querem saber; vou imaginá-lo e escrever. O Paraíso na Terra, em suma, é “o mundo dos felizes”: um mundo sem doenças, sem pobreza e sem conflitos, o mundo da mais elevada cultura. O grande problema de como transformar em paraíso este mundo — onde a humanidade geme em sofrimento, cheio de doença, pobreza e conflito — é a grande questão que nos é imposta. E, como a causa principal dessas três grandes calamidades é a própria doença, primeiro é preciso descobrir um método para eliminá-la por completo. A pobreza tem como causa principal a doença, além dos pensamentos equivocados, da pobreza da política e da deficiência da organização social. O pensamento que gosta de conflitos, por sua vez, tem como causa o fato de a humanidade ainda não ter conseguido livrar-se completamente do estágio da barbárie. Então, como eliminar essas três grandes calamidades? Essa é a questão fundamental, e tenho confiança em resolvê-la; vou explicar aqui o fato mais simples. À medida que as pessoas se convertem a esta Igreja e são educadas, ocorre a purificação do corpo e da mente: elas se tornam verdadeiramente saudáveis, ao mesmo tempo em que são gradualmente libertas da pobreza e passam a detestar o conflito — um mistério que surpreende a todos. Que a maioria desses fiéis se aproxima cada vez mais da felicidade a cada ano é comprovado por inúmeros fatos. Não gosto de apontar defeitos nos outros, mas permitam-me citar alguns fatos. Há pessoas que, mesmo tendo fé, gemem sob doenças incuráveis e sofrem com a pobreza, e, ainda assim, estão satisfeitas e alegres. É verdade que essas pessoas estão espiritualmente mais salvas que os incrédulos; mas apenas a alma está salva, o corpo não — ou seja, estão apenas meio salvas. Para ser verdadeiramente salvo, a alma e o corpo devem ser salvos juntos; é preciso tornar-se saudável, livrar-se da pobreza e ter uma vida imersa na alegria familiar. No entanto, todas as salvações até hoje tinham o poder de salvar o espírito, mas não o de salvar o corpo; daí, inevitavelmente, terá sido dito que “a fé deve salvar apenas o espírito”. Como exemplo, os religiosos costumam dizer: “A fé que tem como objetivo as graças recebidas nessa vida é uma fé inferior” — mas essa é uma história estranha, pois não há ninguém que não queira as graças recebidas nessa vida. Além disso, para os que se queixam do sofrimento da doença, dizem: “O ser humano deve transcender a vida e a morte” — o que também é um pouco estranho, porque, na prática, nenhum ser humano pode transcender a vida e a morte; se fosse possível, seria enganar a si mesmo. A esse respeito, contarei uma anedota do mestre zen Takuan (Sengai). Quando o mestre estava à beira da morte, as pessoas ao redor disseram: “Por favor, escreva um poema de despedida”, e lhe ofereceram papel e pincel. O mestre imediatamente pegou o pincel e escreveu: “Eu não quero morrer.” Os presentes disseram: “Um mestre famoso como o mestre Zen não escreveria algo assim; deve ser algum engano”, e novamente lhe ofereceram papel e pincel. Dizem que, desta vez, ele escreveu: “Eu absolutamente não quero morrer.” Acho a atitude desse mestre verdadeiramente admirável; em tal situação, a maioria escreveria algo como “O que é a vida e a morte?”, mas o mestre, sem afetação alguma, expressou sinceramente seu estado de espírito. Fiquei impressionado: isso é algo que um monge famoso comum jamais conseguiria fazer. Há ainda pessoas que, ao tentar salvar os outros, fazem propaganda mesmo sem terem se livrado da doença, da pobreza e do conflito. Embora a intenção seja louvável, essa não é a maneira correta de agir: o correto é que a própria pessoa, tendo sido salva e se tornado feliz, recomende a fé para tornar os outros — que ofegam numa vida infernal — tão felizes quanto ela. Assim, ao ver o estado de felicidade dessa pessoa, o outro se comove, e o efeito da propaganda é cem por cento. Eu também não teria coragem de fazer propaganda sem antes ter as condições de uma pessoa feliz. Felizmente, porém, graças à proteção dos deuses e budas, pude me tornar uma pessoa feliz e, só então, decidi pregar o ensinamento. Se o Paraíso na Terra é o mundo dos felizes, onde pessoas felizes se formam e se reúnem, o que mais seria a verdadeira forma do Paraíso na Terra? ────────────────────────────────── O que é a Igreja de Kannon? ────────────────────────────────── Esta Igreja tem por objetivo fazer surgir o Paraíso na Terra e, juntamente com o progresso da cultura material, criar e difundir a cultura religiosa. O Paraíso na Terra é o mundo sem doença, pobreza e conflito, o mundo ideal da humanidade, como detalhei no item anterior. O mundo de Miroku pregado por Shakyamuni, as palavras com que Cristo profetizou “o Reino dos Céus está próximo”, o mundo da Agricultura Justa proclamado por Nichiren, o “Mundo do Pedestal do Néctar, onde todos estão unidos”, ideal da Igreja Tenrikyo — tudo isso tem o mesmo significado do “Paraíso na Terra” que pregamos. A única diferença está na questão do “tempo”; mas esses fundadores não revelaram o “tempo”. No entanto, pude perceber que esse período está se aproximando muito. O que significa que o tempo está se aproximando? Faz pensar que se aproxima a Extinção do Budismo pregada por Shakyamuni, o fim do Dharma, o fim do mundo de Cristo, ou o tempo do Juízo Final. Se o Paraíso na Terra viesse assim, a humanidade seria verdadeiramente feliz. Mas, para que um novo mundo ideal seja construído, é preciso antes um acerto de contas com o mundo antigo — assim como, para construir uma casa nova, é necessário derrubar a casa velha e limpar o terreno. É claro que na casa velha também há coisas úteis, e estas provavelmente serão preservadas; essa seleção, naturalmente, caberá a Deus. Portanto, os seres humanos devem tornar-se aqueles que serão preservados, isto é, aqueles que serão úteis no novo mundo. Assim, poderão superar facilmente o grande momento de transição, passando no chamado teste de Deus. Explicarei agora que a fé é o único método para isso. Como foi dito acima, a qualificação para superar o grande período de transição do mundo é ser alguém capaz de viver no mundo sem doença, pobreza e conflito — isto é, literalmente, uma pessoa saudável, sem doenças; alguém que se libertou da pobreza; alguém que ama a harmonia e detesta o conflito. Se alguém possui essas três grandes qualificações, Deus não só não precisará destruí-lo, como também o tratará como pessoa apta no novo mundo que virá. Acredito que não há discrepância entre a intenção de Deus e o ideal humano. Existe, então, um método para obter essas três grandes qualificações? Esta Igreja ensina a tornar as pessoas assim qualificadas e procura intermediar a graça de Deus. A Prática da Humildade ────────────────────────────────── A Prática da Humildade ────────────────────────────────── A expressão “prática da humildade” existe desde os tempos antigos e é uma questão de importância surpreendente na vida social humana — especialmente para os fiéis. Vejo com frequência que, em grupos religiosos, os senhores que propagam a doutrina parecem carecer dessa prática. Há provérbios antigos, como “O falcão habilidoso esconde as garras” ou “A espiga de arroz, quanto mais madura, mais baixa inclina a cabeça”, todos a respeito da prática da humildade. Querer gabar-se, querer parecer grande, querer parecer sábio, querer vangloriar-se — tudo isso produz o efeito contrário. É fraqueza humana querer exibir-se assim que se começa a receber um pouco de elogio. Os que até então exerciam ocupações comuns, viviam como as pessoas comuns ou estavam na base da sociedade, ao passarem de repente a ser chamados de “senhor”, pensam: “Será que pareço tão grande assim?” No início, sentem alegria e gratidão; mas, com o passar dos dias, na maioria deles desperta o desejo de parecer ainda maior. Até aí, tudo bem; depois disso, porém, as coisas deixam de ser agradáveis: eles começam a causar desconforto nos outros, embora a própria pessoa dificilmente o perceba. Parece que Deus abomina profundamente o orgulho. A virtude e a prática da humildade são realmente valiosas, sobretudo na vida cultural. Em lugares com muitas pessoas, ou ao andar de trem ou bonde, empurrar os outros ou sentar-se arrogantemente em um bom assento é uma espécie de psicologia de monopólio e não é agradável. Criar uma sociedade harmoniosa e agradável é a manifestação do pensamento democrático, e isso não mudou nem um pouco desde os tempos antigos até hoje. ────────────────────────────────── Destino e Liberalismo ────────────────────────────────── Por ser frequentemente questionado sobre o destino predeterminado e o destino mutável, passarei a explicá-los. Primeiro, o destino predeterminado é algo definitivo, dado à pessoa; portanto, não pode ser mudado nem um pouco. O destino mutável, por sua vez, é livre dentro de um quadro limitado: conforme o esforço da pessoa, pode-se alcançar o nível mais alto desse quadro ou, ao contrário, cair ao nível mais baixo. O liberalismo, hoje um assunto de grande interesse, assemelha-se muito a esse destino mutável. Por quê? Porque o verdadeiro liberalismo também se restringe a um certo quadro; a liberdade ilimitada nunca pode existir. A verdadeira liberdade é limitada, isto é, finita. Portanto, ultrapassar esse quadro é violar a liberdade dos outros e tornar-se um rebelde contra a cultura; é o mesmo princípio pelo qual, ao ultrapassar o quadro do destino mutável, alguém se torna um fracassado. ────────────────────────────────── Clima e Tempo ────────────────────────────────── Farei uma interpretação espiritual acerca do clima e do tempo; contudo, para os homens modernos, acostumados à interpretação científica, talvez minha teoria seja difícil de aceitar. Ela se baseia, porém, em revelações divinas, e apresento-a com convicção. Em suma, tanto as mudanças climáticas quanto as boas ou más condições do tempo são criadas pelo ser humano. Pode parecer extremamente estranho, mas peço que ponderem sobre o que direi a seguir. Acredito que os leitores já reconheçam, em grande parte, a influência do mundo espiritual, para além do mundo material que podemos conhecer pelos cinco sentidos. Explicarei primeiro a causa das mudanças climáticas. As estações dividem-se em quatro, do frio do inverno ao calor do verão, e, originalmente, as mudanças do clima deveriam transcorrer suavemente conforme o fluxo de cada época. Às vezes, porém, ocorrem anomalias. Por quê? Exclusivamente porque os pensamentos dos seres humanos se refletem no mundo espiritual. Se os pensamentos da maioria das pessoas são corretos e amenos, o clima também se torna ameno e regular. Quando há muitas pessoas que carecem de equilíbrio — pensamentos frios, desprovidos do calor do amor —, o clima esfria mais do que deveria naquela época. Ao contrário, quando um acontecimento qualquer provoca excitação e falta de equilíbrio na paixão, o calor torna-se excessivo em relação ao clima que deveria haver. Além disso, quando abundam pensamentos de natureza maligna — insatisfação, queixas, maldições, desespero —, eles se refletem no mundo espiritual, fazendo pairar uma atmosfera sombria. Em seguida, o espírito da palavra emitido pelos seres humanos também exerce uma influência extremamente importante. As palavras pertencentes ao mal — calúnias, insatisfações, queixas, mentiras — obscurecem abundantemente o mundo espiritual. Certa vez, um religioso amigo meu conseguia ver o espírito da palavra emitido pelas pessoas. Quando alguém emitia um espírito da palavra pertencente ao mal, ele via algo como fuligem negra saindo da boca, como fumaça; no caso do espírito da palavra pertencente ao bem, via algo como uma luz branca e tênue. Essa fuligem, proveniente do espírito da palavra do mal, obscurece o mundo espiritual; quando aumenta e ultrapassa certo limite, ocorre um mecanismo natural de purificação para varrê-la e eliminá-la — exatamente o mesmo princípio de quando a poeira se acumula dentro e fora de casa e o ser humano a limpa. Chuvas torrenciais, tufões, trovões, inundações, grandes incêndios e terremotos são isso: uma forma de varrer, lavar e queimar. Essa obra é realizada por divindades encarregadas, as quatro divindades da purificação mencionadas no Xintoísmo: Ibukidonushi no Kami, Seoritsuhime no Kami, Hayakitsuhime no Kami e Hayasasurahime no Kami. Conforme seus nomes, realizam a obra de purificação mundial, e todas utilizam numerosos deuses dragões. Aqui, explicarei a respeito do Estreito de Naruto, em Awa. Como foi dito anteriormente, as impurezas acumuladas pela purificação do vento, do fogo e da água são processadas da seguinte forma: fluem por cada rio até o mar e afundam nas profundezas do fundo do mar do Estreito de Naruto. Naturalmente, por se tratar das impurezas do mundo inteiro, sua quantidade deve ser surpreendente. No entanto, o centro da Terra, como também dizem os estudiosos, é uma enorme massa de calor, o chamado calor geotérmico; portanto, as impurezas que afundam nas profundezas do fundo do mar de Naruto são continuamente queimadas por esse calor. Pode-se dizer que o Japão é o incinerador das impurezas do mundo. Se os seres humanos compreendessem esse princípio, deveriam se esforçar para eliminar ao máximo os pensamentos malignos e o espírito da palavra do mal. ────────────────────────────────── Ideologias ────────────────────────────────── É de conhecimento geral que as pessoas, tendo como motivação vários pensamentos e movimentos no mundo, os denominam “tal ideologia” e buscam alcançar seus objetivos por meio dela. No entanto, ainda que essas ideologias obtenham certo sucesso, é comum vê-las, no fim, inevitavelmente fracassar e desaparecer. Qual será a razão disso? Creio que precisamos refletir profundamente sobre o assunto. Em primeiro lugar, uma ideologia é sempre algo antagônico, pois cria oposição entre inimigo e aliado, gerando facilmente conflitos — ou seja, resulta em vitória ou derrota. Mesmo que se vença, surgirá uma nova ideologia para se opor a ela, e os conflitos não terão fim. De fato, na era moderna, várias ideologias surgem e desaparecem, desaparecem e surgem: imperialismo, absolutismo, totalitarismo, capitalismo, comunismo, socialismo, liberalismo, democracia, conservadorismo, progressismo, individualismo, ativismo, passivismo — uma lista interminável. As ideologias, originalmente, são limitadas, excludentes e dogmáticas, tendo como foco principal o benefício apenas de sua nação, classe ou grupo; portanto, criam inevitavelmente a causa dos conflitos. Nesse sentido, se desejamos a paz e a prosperidade eternas da sociedade humana, acredito que deve haver algo diferente das ideologias até hoje — algo mundial e baseado no amor à humanidade. O movimento pela nação mundial, que recentemente começou a ser defendido nos Estados Unidos, e o movimento MRA têm esse significado. Vejo-os como movimentos que visam o mesmo objetivo que o nosso: o surgimento do Paraíso na Terra. ────────────────────────────────── O Poder da Ciência ────────────────────────────────── Os homens modernos afirmam que não há problema que não possa ser resolvido pela ciência, e a consideram uma panaceia. Diante disso, quero fazer uma pergunta: será que a moral, a arte e o amor podem ser resolvidos pela ciência? Se, hipoteticamente, a ciência pudesse resolver os problemas morais, então as pessoas formadas nas mais altas instituições de ensino, que receberam a melhor educação científica, deveriam ser moralmente superiores. Vemos, porém, que não são poucos os criminosos entre elas, como os que cometem peculato e atos vergonhosos — o que demonstra que a ciência é impotente no campo moral. Em seguida, a arte, que também é surpreendente. Ao contemplar as obras dos artistas de hoje, com o avanço da ciência, e compará-las com as obras dos artistas de centenas de anos atrás, descubro que as obras daquela época, que não conheciam a ciência, são muito superiores; fico sempre admirado com isso. Aqui, o que considero mais interessante é o amor entre homem e mulher — como a ciência o interpreta? Esses três grandes problemas são, sem dúvida, questões importantes que exigem solução para a vida humana. De fato, a ciência tem prestado grandes contribuições materiais à humanidade, e desejo cada vez mais o seu desenvolvimento. No entanto, como já disse, há problemas que a ciência não pode resolver — não seria essa a função da religião? Diante disso, penso que o progresso harmonioso de ambas é que representará, no verdadeiro sentido, a elevação da cultura humana. ────────────────────────────────── Sobre os Terremotos ────────────────────────────────── Este texto foi escrito logo após o grande terremoto que atingiu a cidade de Fukui em 28 de junho de 1948, servindo de referência para expor minha teoria sobre os terremotos. Em primeiro lugar, segundo a teoria xintoísta da criação do universo, no início do cosmos a matéria era como vapor d'água ou bolhas de água. Iniciada a atividade criativa, por um processo de divisão, o que era leve tornou-se o céu e o que era pesado tornou-se a terra. No céu nasceram o sol, a lua e as estrelas; a terra tornou-se semissólida, como um mar de lama — fase conhecida como era do mar de lama, defendida pela Igreja Tenrikyo. Com o passar dos anos, a terra foi-se solidificando gradualmente; surgiram as plantas e os minerais, depois os seres vivos e, por fim, o ser humano. Desde então, continuou evoluindo até se tornar como é hoje. Como dito acima, a solidificação do mar de lama deve-se à ação endurecedora da grande natureza. À medida que endurece, o volume da Terra diminui — é a chamada contração da crosta terrestre, causa dos terremotos. Portanto, quanto mais antiga a era, maior era a contração da crosta e maiores eram os terremotos. No caso do Japão, o Mar do Japão formou-se pelo afundamento decorrente de uma grande contração da crosta. Antes disso, o Japão e a Coreia eram ligados por terra; isso se pode crer pelo fato de que ossos de elefante são encontrados em várias partes do Japão, indicando que elefantes vieram do sul, pois naquela época era impossível atravessar de barco. Há quem sustente que o Japão tem muitos terremotos por ser um país vulcânico. Discordo. Se os vulcões fossem a causa, os terremotos deveriam ocorrer com mais frequência nas regiões montanhosas; no entanto, ocorrem com frequência perto do mar. Explicarei por que ocorrem mais perto do mar. A formação do Japão é relativamente recente e, portanto, seu endurecimento é tardio. Países mais antigos têm endurecimento mais avançado, com menor contração da crosta e, por isso, menos terremotos — é claro que também existem terremotos causados por vulcões, mas não são muito grandes. Na antiguidade, a área do Japão era cerca de três vezes maior do que hoje; dois terços afundaram, restando um terço. A razão de os terremotos serem frequentes nas áreas costeiras do Mar do Japão é que o movimento de afundamento do Mar do Japão ainda continua: na zona costeira, ocorrem constantemente pequenos afundamentos que afetam a terra firme, e essa é a causa dos terremotos; por isso, os epicentros estão no fundo do mar próximo à costa. Como prova disso, há relatos de que, logo após o Grande Terremoto de Kanto, surgiram em vários lugares áreas em que o solo havia baixado mais de trinta centímetros. Além disso, segundo artigos recentes de jornal, parte do solo da região de Niigata, em Echigo, afunda ano após ano e, no ritmo atual, estará submersa em cem anos, deixando os moradores apreensivos. Por outro lado, enquanto a costa do Mar do Japão encolhe vários pés por ano, a costa do Oceano Pacífico se expande outros tantos. Considero que esses dois fatos se devem às seguintes razões: devido à contração da crosta, o fundo do mar afunda e se aprofunda ano após ano, fazendo baixar também o nível do mar. Naturalmente, o nível do mar na costa do Oceano Pacífico também baixa, o que faz surgir terra firme. A terra firme, essa, já está quase completa desde sua origem; o fundo do mar, porém, é incompleto e conserva ainda a fragilidade; por isso, seu afundamento é especialmente incessante. No entanto, o encolhimento da costa do Mar do Japão deve-se ao fato de que o afundamento supera a descida do fundo do mar, e também ao fato de que os terremotos na costa do Pacífico ocorreram primeiro. Quanto à descida do nível do mar, pode-se percebê-la claramente observando os penhascos da costa do Oceano Pacífico: naqueles que se elevam de cerca de vinte a cem pés acima do nível do mar, as marcas das ondas que os lavaram no passado aparecem nitidamente. Além disso, produz-se muito sal-gema nas planícies da China continental, porque ali havia antigamente o mar, e a grande planície surgiu com a descida do nível do mar. Segundo esse princípio, o que os estudiosos chamam de vestígios da era glacial são, na verdade, marcas de ondas; o que se encontra em montanhas altas formou-se juntamente com a elevação devida a erupções vulcânicas. Como todos sabem, a área baixa de Tóquio também era mar antigamente, e o fato de se colher alga nori na antiga Asakusa mostra que até aquela região era mar. Afirmei que a causa dos terremotos é a contração da crosta terrestre, mas há também o seguinte fenômeno: às vezes, antes da ocorrência de um terremoto, dá-se uma elevação local dentro de sua área — o que se pode chamar de prenúncio. Na contração da crosta, formam-se lacunas locais no subsolo profundo; o calor geotérmico ascendente preenche essas lacunas e se expande. Portanto, deve-se compreender o princípio de que a causa dos terremotos é a onda de afundamento do fundo do mar, que provoca o afundamento da terra firme. Após um grande terremoto, sempre ocorre um tsunami. Qual a razão? Devido ao afundamento do fundo do mar, forma-se uma depressão; a corrente oceânica flui para preenchê-la e, devido ao excesso de força, concentra-se mais água do que o necessário, transformando-se em inundação, que se torna o tsunami. Esse tsunami, porém, retorna ao normal em pouco tempo. Gostaria de chamar especialmente a atenção dos senhores estudiosos para o seguinte: até hoje, a pesquisa sobre terremotos parece ter sido feita principalmente em terra firme. No entanto, como a causa está no fundo do mar, conforme disse, ocorrem anomalias nas correntes marítimas como precursoras do afundamento do fundo do mar; espero ardentemente que, daqui em diante, se realize a pesquisa das correntes costeiras. Explicarei um pouco mais sobre o endurecimento universal. Muitas seitas xintoístas afirmam que o Japão foi o primeiro país a ser criado, mas não penso assim. Para explicar meu ponto, darei o exemplo dos minerais. Na terra firme, a ação de endurecimento faz o solo endurecer-se e transformar-se em pedra; a pedra, por sua vez, endurece e gera metais — algo que se manifesta claramente em exemplos reais. Por exemplo, a cinza vulcânica, ao se endurecer, forma o tufo; este, ao se endurecer, forma o calcário; depois surgem o quartzo porfirítico ou o pórfiro quartzítico; em seguida, a calcopirita ou a pirita; e, por fim, o ouro e a prata. A argila, por sua vez, endurece e forma a ardósia; depois, o xisto; surgem o grafite, a galena e a esfalerita; surge o estanho; e, por fim, a prata e o ouro. A terra vermelha endurece e forma a limonita; em seguida, a pirita e a magnetita. O quartzo gera o cristal de rocha. O carvão mineral e o linhito formam-se de árvores antigas que, soterradas por cinzas vulcânicas, foram carbonizadas pelo calor geotérmico. Além disso, todos os tipos de minerais surgem conforme a natureza do solo, a concentração do espírito da terra, as mudanças climáticas, a duração do tempo e a infiltração, pela água da chuva, dos componentes das plantas da região na terra. No entanto, o fato de não haver produção de diamante e platina, os minerais mais endurecidos, mostra que o Japão é um país de formação relativamente recente. ────────────────────────────────── A Terra Respira ────────────────────────────────── Todos sabem que os seres vivos respiram, mas, na verdade, também respiram as plantas, os minerais e todos os demais seres. Se eu disser que a Terra também respira, talvez pareça um pouco estranho, mas, com o que explicarei a seguir, vocês concordarão. Em primeiro lugar, a Terra respira uma vez por ano. O momento em que começa a expirar é a primavera; expirando gradualmente, atinge o ponto máximo no verão. O ar expirado pela Terra é quente, como o dos seres humanos, porque é a dissipação do calor geotérmico. Quando chega a primavera, ele se torna mais intenso, e todos os seres começam a crescer; as plantas são as primeiras a brotar. Todas as coisas se estendem para cima, e os seres humanos também se sentem animados. À medida que o verão avança, as plantas ficam cada vez mais exuberantes. Quando atingem o ponto máximo, a Terra começa a inspirar; então as plantas murcham, todas as coisas entram em declínio, e os seres humanos também se tornam mais calmos. Quando isso atinge o ponto máximo, é o inverno. Essa é a forma da grande natureza. O ar expirado pela Terra é a energia espiritual da terra, que a ciência chama de nitrogênio; é por isso que as plantas crescem. Esse nitrogênio sobe continuamente até a altura onde o ar existe, acumula-se e, por meio da chuva, retorna à terra — este é o fertilizante natural de nitrogênio. Nesse sentido, extrair nitrogênio do ar e usá-lo como fertilizante é um erro. De fato, temporariamente, o fertilizante nitrogenado aumenta a colheita, mas, se usado por muito tempo, o solo sofre intoxicação por nitrogênio e se torna estéril — a razão é que o excesso de nitrogênio torna a atividade do próprio solo mais lenta. Como todos sabem, o fertilizante nitrogenado foi inventado na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. É útil para aumentar temporariamente a colheita em tempos de guerra, mas, uma vez terminada a guerra, em tempos de paz, deve ser abandonado. Em seguida, quanto às manchas solares: há várias discussões desde os tempos antigos, mas isso também é um movimento respiratório do sol. Diz-se que as manchas solares aumentam a cada onze anos; quando aumentam, é o momento em que a expiração atinge o ponto máximo. Diz-se também que a luz da lua é o reflexo da luz do sol, mas é preciso saber que o sol queima devido à umidade da lua. A lua completa seu ciclo de fases em vinte e oito dias, e isso também é um movimento respiratório da lua. ────────────────────────────────── Explicação dos Dez Troncos Celestes e dos Doze Ramos Terrestres ────────────────────────────────── Sobre os Dez Troncos Celestes e os Doze Ramos Terrestres, sou frequentemente questionado; por isso, explicarei resumidamente aqui. Os Dez Troncos Celestes dividem cada um dos Cinco Elementos — Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água — em yang e yin, ou seja, irmão mais velho e irmão mais novo. O irmão mais velho é chamado de "e", e o mais novo, de "to"; por exemplo, o irmão mais velho da Madeira é "kinoue", e o mais novo, "kinoto". Desde os tempos antigos, o chamado "Hinoeuma" (ano do Cavalo de Fogo Yang), frequentemente mencionado, significa que "Hi" (Fogo), "E" (Irmão mais velho) e "Uma" (Cavalo) são yang — ou seja, três yangs se sobrepõem. Yang representa o masculino; para uma mulher, portanto, é excessivamente forte, significando que qualquer homem perderia para ela. Na era feudal, em que o poder era dado aos homens e as mulheres eram submissas, uma mulher forte seria problemática; mas, numa era como a de hoje, de igualdade de direitos entre homens e mulheres, mesmo uma esposa nascida no ano Hinoeuma não é um problema. Em seguida, os Doze Ramos Terrestres. Como o ser humano foi a última criatura viva criada pelo Criador de todas as coisas, ele contém as características, hábitos e ações de todos os animais; provavelmente, doze tipos representativos foram selecionados. Os Doze Ramos Terrestres são determinados para o ano, o mês e o dia, e isso também parece ter um significado considerável — antigamente, estudei a arte da origem celestial (Tengenjutsu). Nessa arte, o ano da concepção — até setembro do ano de nascimento, a concepção é do ano anterior; a partir de outubro, do próprio ano — é chamado de "grande roda"; o mês de nascimento, de "roda média"; e o dia de nascimento, de "roda pequena". Coletivamente, são chamados de "três rodas", e todas se encaixam nos Doze Ramos Terrestres. Por exemplo, a grande roda pode ser "Uma" (Cavalo), a roda média "Usagi" (Coelho), e a roda pequena "Hitsuji" (Carneiro), o que se mostra bastante preciso. Há ainda o "Hata", que se encaixa em outros elementos além das três rodas, caso em que geralmente se baseia na fisionomia — é interessante e também misterioso que as três rodas, o Hata etc., apareçam aproximadamente na fisionomia. Nessa arte, os Doze Ramos Terrestres recebem os nomes de Ji, Ketsu, En, Ho, Fun, Shi, Go, Ro, Kan, Da, Ren e Jitsu. Pensei que, se estudados a fundo e com longa experiência, poderiam beneficiar consideravelmente o mundo. Desde os tempos antigos existe uma arte chamada "Tokyujutsu", que aplica o método das três rodas acima — um método de cultivo que tem por objetivo corrigir os pontos ruins do caráter e os maus hábitos com os quais a pessoa nasce (para isso, usa-se a palavra "yonageru"). Hoje, parece estar bastante em declínio. Por meio da prática, a personalidade torna-se completa e harmoniosa, trazendo benefícios para a vida social, mas, pelo menos, tais práticas não são liberais. Aproveitando, falarei sobre o I Ching. O "I Ching" (Yijing), também chamado de "Zhou Yi", teria sido criado na dinastia Zhou da China, há cerca de quatro ou cinco mil anos, e compilado por Confúcio — acredito que tenha fundamentos consideráveis. Os oito trigramas — Qian, Dui, Li, Zhen, Xun, Kan, Gen e Kun — representam as atividades do destino por meio das varas de mil-folhas, e suas mudanças são julgadas pela combinação dos bastões de cálculo. Esses oito trigramas parecem ter algo em comum com as oito forças do Xintoísmo — Do, Sei, Kai, Gyo, In, Chi, Go e Bun (Otonoji, Otonobe, Uijine, Suijine, Ikugui, Tsunugui, Omotaru e Kashikone). Ou seja, são as forças que constituem o céu, a terra e todos os seres, e a fonte de toda atividade. ────────────────────────────────── Fisionomia das Casas e Orientação ────────────────────────────────── Sou frequentemente questionado sobre a geomancia das residências; por isso, escreverei um resumo. Assim como os seres humanos possuem o que se chama de fisionomia, é natural que as casas tenham também a sua geomancia. Da mesma forma que a fisionomia humana, boa ou má, tem grande relação com a sorte ou o azar, a geomancia da casa também influencia a sorte ou o azar conforme seja boa ou má. A geomancia que prego tem diferenças consideráveis em relação àquela que os adivinhos ensinam, mas devo esclarecer que não a aprendi com ninguém — ela se baseia na minha própria intuição espiritual e na minha experiência. Os geomantes comuns dão grande importância à direção do Portão do Demônio, e eu também penso da mesma forma; a diferença está apenas na minha interpretação. O Portão do Demônio, originalmente, é a direção de ushitora, ou seja, entre o leste e o norte. Por que esta direção em particular é tão importante? Porque dela flui uma energia espiritual extremamente pura — é por isso que, desde os tempos antigos, se diz que não se deve profanar o Portão do Demônio. Por exemplo, se houver banheiro, sala de banho, cozinha, entrada ou saída, a energia espiritual impura que deles emana polui a energia espiritual vinda do Portão do Demônio; como resultado, divindades malignas e espíritos do mal — causa de doenças e infortúnios — passam a agir livremente. Portanto, a energia espiritual que flui da direção de ushitora deve ser mantida o mais pura possível. Nesse sentido, se possível, o ideal seria criar um pequeno jardim na direção de ushitora e plantar nele um pinheiro macho e um pinheiro fêmea. Em seguida, o Portão do Demônio dos Fundos: naturalmente, é o oposto do Portão do Demônio, ou seja, a direção de hitsujisaru, o sudoeste. Essa é uma energia espiritual de bênção, de onde fluem os bens materiais, sendo importante para quem deseja maior riqueza e nobreza; para isso, o melhor é dispor pedras e água — por exemplo, cavando um lago, mesmo que pequeno, e arranjando pedras ao redor. Em seguida, a entrada deve estar na direção de tatsumi, ou seja, entre o leste e o sul, e o ideal é que, do portão até a entrada principal, o terreno se eleve gradualmente. De modo geral, não é muito recomendável que a casa fique no meio de uma ladeira, no sopé de uma ladeira ou num nível mais baixo que a rua; não é agradável morar por muito tempo numa casa assim. No entanto, quando se diz "lugar elevado", basta que seja relativamente alto em comparação com os arredores; não há problema se houver montanhas ou montes a uma distância considerável. Também não é bom que a entrada principal fique numa posição que, ao entrar pelo portão, seja necessário voltar; o ideal é que esteja de frente para o portão, mas ligeiramente à esquerda ou à direita. Também não é bom que, ao entrar pela entrada principal, haja uma passagem direta que atravesse a casa — isso significa que a sorte não se fixa e passa direto. O melhor é que haja dois ou três degraus de elevação até o aposento do dono da casa. Ao examinar a geomancia de uma casa, o local onde se coloca a bússola deve estar correto. No entanto, muitos geomantes tomam a casa como base e medem as direções a partir do centro dela, o que é um grande erro — originalmente, a casa existe para o ser humano, e não o ser humano para a casa. O ser humano é o principal; a casa, o acessório, pois é o dono quem decide construí-la ou demoli-la. Portanto, o centro da casa é o dono, e o local de descanso do dono — a cama — é esse centro; deve-se medir as direções tendo a cama como centro. Quanto à forma da casa, de modo geral, formas côncavas não são boas; é melhor que haja partes salientes aqui e ali. Também é boa a chamada "formação de asas de grou", em que as alas se estendem para ambos os lados a partir da entrada. Quanto ao número de tatames: dez tatames é o chamado "cômodo do fogo-água" ou "cômodo da união", sendo adequado para a sala de estar do dono; oito tatames é o "cômodo do fogo", e como o fogo é uma posição superior, também é bom para a sala de estar do dono; seis tatames e três tatames são "cômodos da água", sendo adequados para a sala de estar da esposa. De modo geral, números pares de tatames são bons; quatro tatames e meio, sete tatames e nove tatames são ruins — nesses casos, pode-se misturar áreas de assoalho para tornar o número par. Quanto ao tokonoma, o princípio é que fique à direita de quem entra, e a estante de prateleiras (chigai-dana), à esquerda; mas, dependendo da posição da entrada, não há problema se for o contrário. Em cômodos sem tokonoma, quanto mais distante da entrada, melhor; a pior disposição é quando ele fica próximo à entrada ou de costas para ela. Os cômodos de estilo ocidental não são interessantes no segundo andar; devem ser construídos no térreo, pois são usados com sapatos, tendo o mesmo significado que a rua — assim, a ordem superior-inferior se inverte. Em seguida, quanto às direções, diz-se que para cada idade uma direção é boa, mas isso não tem muito significado. Diz-se com frequência que mudar-se para a direção do Portão do Demônio é ruim, mas é o contrário — como expliquei anteriormente, o Portão do Demônio está voltado para uma energia espiritual pura, sendo extremamente bom. No entanto, há um problema: ao mudar-se para o Portão do Demônio, os negócios e as ações da pessoa devem ser corretos, porque a energia espiritual dessa direção tem um forte poder de purificação. Assim, se houver pensamentos malignos ou ações incorretas, o sofrimento da purificação virá rapidamente. Até hoje, como muitas pessoas têm pensamentos malignos e negócios incorretos, temiam isso e passaram a evitar o Portão do Demônio. ────────────────────────────────── Leste e Oeste ────────────────────────────────── Não há quem não saiba que todas as coisas entre o Céu e a Terra possuem o yin e o yang. Eu classifico esse yin e yang como longitude e latitude: o yang é a longitude, e o yin é a latitude. Vamos, a seguir, classificar essa longitude e essa latitude. Longitude — Sol, Fogo, Oriente, Espírito, Homem, Budismo, Vermelho, Montanha, Dia. Latitude — Lua, Água, Ocidente, Corpo, Mulher, Cristianismo, Branco, Mar, Noite. O acima é um resumo; vou explicá-lo. Como visto, todas as coisas possuem longitude e latitude. Por exemplo, o Oriente, sendo longitude, é a adoração aos ancestrais, valoriza a lealdade e a piedade filial, compra boas terras para os descendentes e possui um sistema de classes rigoroso. Em contraste, o Ocidente, sendo latitude, tem como base o amor conjugal, que se torna amor ao próximo e, finalmente, se desenvolve até o amor à humanidade, uma expansão infinita na latitude. Além disso, no Oriente, reconhece-se o poder absoluto do homem, e a mulher é considerada como devendo segui-lo; no Ocidente, reconhecem-se os direitos da mulher, e a igualdade de direitos entre homens e mulheres é considerada natural. Como visto, até hoje, o Oriente manteve firmemente a linha da longitude, e o Ocidente se satisfez com a linha da latitude. No entanto, um dia, essas linhas de longitude e latitude devem se cruzar, formando uma cruz. Isso significa a união da civilização espiritual do Oriente com a civilização material do Ocidente; através dessa união, toda a humanidade entrará, pela primeira vez, numa era de cultura ideal. A cruz do Cristianismo é uma sugestão disso, e a suástica do Budismo deve ter o mesmo significado. Assim, a longitude é o espírito, e a latitude é o corpo; quando se cruzam, ocorre a geração de força. A palavra "chikara" (força) tem "chi", que é sangue, que é espírito, e o sangue sobe e desce no corpo como longitude; "kara" é "kara" (casca), que é o corpo, o receptáculo do espírito. Portanto, quando o espírito, que é o sangue, se desprende, o corpo se torna vazio, por isso se chama "nakigara" (cadáver), e o corpo físico é chamado de "karada". Além disso, "hito" (pessoa), na ciência do espírito da palavra, tem "hi" como espírito e "to" como parar — assim, o espírito que para se torna "hito", e por isso se chama "pessoa". Enquanto o ser humano está vivo, ele está na vertical porque o sangue, que é a materialização do espírito (longitude), circula; quando morre, torna-se horizontal porque o espírito se desprende, restando apenas o corpo (latitude). Além disso, quando o ser humano está na vertical, está quente; quando se deita, fica frio e precisa usar cobertas noturnas — isso ocorre porque, no mundo espiritual, o Elemento Fogo sobe e desce na longitude, e o Elemento Água flui na latitude. Aqui, tenho algo a dizer sobre a forma de cruz. Até o fim da guerra, o Japão, devido ao sistema feudal, tornou-se excessivamente longitude, e o sistema de classes era muito severo; como resultado, isso se tornou causa de guerra e também causa de sofrimento para o povo em geral. Então, Deus fez com que os japoneses fossem salvos pela força da latitude, chamada democracia — para explicar de forma mais fácil, Ele introduziu o estilo americano, que é a barra da latitude, no Japão, que é a barra da longitude. Ou seja, a longitude e a latitude se cruzaram, e aqui a cultura da cruz deu seu primeiro choro. Se isso for compreendido, a derrota desta guerra deve ser motivo de alegria, e o país se tornou verdadeiramente digno de gratidão. Portanto, penso que os japoneses devem ter essa consciência, aguardar o futuro com expectativa e se tornar um país admirável, respeitado pelo mundo. Desde os tempos antigos, existe a expressão "Deus e Buda têm a mesma raiz". Vou tentar interpretar isso. Um discípulo perguntou ao Buda Shakyamuni: "Gostaria que o senhor expressasse o Dharma em uma única palavra." Shakyamuni respondeu prontamente: "Se o Dharma for expresso em uma única palavra, é a Talidade." A Talidade é a "lua da Talidade", ou seja, a luz da noite; a Índia, nos tempos antigos, também era chamada de "País da Lua". Um dia, Shakyamuni estava com uma aparência que não suportava a melancolia, e um de seus discípulos, preocupado, perguntou-lhe o motivo. Shakyamuni disse: "Na verdade, fiquei desapontado ao saber que este Dharma, que preguei com tanto esforço, um dia chegará a se extinguir." Diz-se que depois disso ele pregou o Sutra da Extinção do Dharma e, em seguida, o Sutra do Advento e da Realização de Maitreya. Além disso, Shakyamuni disse: "Aos setenta e dois anos, tornei-me Kenshinjitsu (Inteligência da Percepção Verdadeira). Portanto, os sutras que preguei até hoje não são completos; mas os que pregarei daqui em diante são a verdade e não contêm erro algum." Diz-se que o que ele pregou a partir de então foram os vinte e oito capítulos do Sutra de Lótus, sendo o vigésimo quinto o Capítulo da Porta Universal de Kannon. O mestre Nichiren, sabendo disso, considerou o Sutra de Lótus como a essência do Dharma Budista e, com ardente fé, dedicou-se à sua propagação. Em seguida, há uma história interessante sobre o corpo principal de Kanzeon-Bosatsu. Até hoje, apenas o Bodhisattva era mantido como Buda secreto, envolto em grande mistério. Mas, de acordo com minha pesquisa, o Bodhisattva é uma certa divindade do Japão que, sofrendo perseguição de divindades malignas e com sua vida em perigo, viu-se obrigada a fugir do Japão para a Índia. Lá, no topo de uma montanha chamada Monte Potalaka, perto do mar ao sul da Índia, construiu um templo e pregou sob o nome de "Grande Sábio do Mar do Sul" ou "Kanjizai-Bosatsu". O Sutra Avatamsaka diz: "Há uma montanha chamada Potalaka no sul. Lá reside Kanjizai-Bosatsu. Na ocasião, o jovem Sudhana viajou e subiu ao topo da montanha, visitou o Bodhisattva e pôde encontrá-lo. O local era coberto por árvores frondosas, com fontes e áreas úmidas aqui e ali. No centro, sobre um macio leito de grama, num trono de diamante, Kanjizai-Bosatsu estava sentado em posição de lótus, sendo venerado por muitos santos e pregando o Sutra da Grande Compaixão." E continua: "Naquela ocasião, havia como assistentes as Vinte e Oito Divisões, incluindo Daibenzaiten, Daibontenno, Taishakuten'no, Konjiki Kujaku-ō, Bishamonten, Ashura-ō, além dos dois irmãos Nārāyaṇa Kongō e Vajrapāṇi Kongō (que são os Reis Nio), entre outros devas." Acredita-se que o jovem Sudhana seja o Buda Shakyamuni. O fato de o Bodhisattva ser japonês pode ser inferido por ter cabelos negros caindo sobre os ombros, seu rosto ser do tipo japonês, e seu corpo principal ser uma estátua de ouro de um sol e oito bu — o Japão é chamado desde os tempos antigos de "país do ouro". Além disso, pela coroa, colar, pulseiras etc., pode-se deduzir que era uma pessoa de alta linhagem, e o fato de estar envolto em um turbante e vestes brancas é interpretado como uma vestimenta de disfarce durante a fuga. Por outro lado, o Buda Shakyamuni e o Buda Amida (cujo nome original era Bodhisattva Hōzō) têm cabelos crespos, o que se acredita ser devido ao seu nascimento na Índia. A propósito, o Bodhisattva Hōzō encontrou-se com Shakyamuni e prometeu: "Eu criarei uma Terra Pura no Ocidente. Portanto, de agora em diante, dentre seus discípulos, aqueles que se tornarem Budas, por favor, enviem-nos para esta Terra Pura. Assim, farei com que os Budas habitem por muito tempo na Terra Pura da Luz Silenciosa." "Luz Silenciosa" significa luz silenciosa, portanto deve ser uma boa terra iluminada pela luz da lua. Dessa forma, o Buda Mahavairocana é a Deusa Amaterasu Ōmikami, o Buda Shakyamuni é a deusa Wakahimegimi-no-mikoto (Shakyamuni disse: "Eu sou uma mulher que mudou de sexo"), e o Buda Amida é Tsukuyomi-no-mikoto — cada divindade se manifestou como Buda para salvar o mundo. Há uma lenda de que os cinco filhos homens e três filhas mulheres mencionados nos textos divinos se tornaram os Oito Grandes Reis Dragões e foram selados por Shakyamuni; transformaram-se em deuses dragões para aguardar a vinda do mundo de Miroku. A maioria das outras divindades também se manifestou como Budas. Como visto acima, o período em que as divindades se manifestaram como Budas foi o Mundo da Noite; ao mesmo tempo em que se torna o Mundo do Dia, elas retornam à sua natureza divina original. Na Índia, berço do Dharma Budista, com uma população de trezentos e cinquenta milhões, os seguidores do Budismo hoje são cerca de trezentas e cinquenta mil pessoas, e ainda assim a tendência é diminuir a cada ano. Isso mostra que a Extinção do Budismo se manifesta claramente na Índia, e a profecia de Shakyamuni se concretizou plenamente. Portanto, acredito que a vinda do mundo de Miroku após a Extinção do Budismo também deve se concretizar. ────────────────────────────────── Deus Existe? ────────────────────────────────── Esta questão tem sido debatida desde os tempos antigos até hoje, sem solução. Primeiramente, escreverei sobre minha própria experiência a respeito. Até os trinta e dois ou trinta e três anos, eu era um ateu extremo; nunca havia feito uma reverência, mesmo ao passar em frente a um santuário xintoísta. A razão é a seguinte: o que se chama de corpo divino nos santuários é uma pequena caixa de madeira com telhado e portas, chamada de "palácio divino", e dentro dela há apenas um espelho de metal, uma pedra ou um pedaço de papel com caracteres escritos. Ajoelhar-se diante disso não tem nenhum significado, não é? Por isso, decidi que ajoelhar-se diante disso não passava de superstição. Naquela época, eu me interessava por filosofia e simpatizava com as teorias do filósofo alemão Eucken, que estava na moda. Entre elas, havia algo assim: originalmente, o ser humano tem o instinto de não poder deixar de adorar algo. Os selvagens criam alguma forma com madeira ou pedra, erguem-na e se satisfazem em adorá-la; os civilizados fazem algo mais elevado — após a morte de um grande homem, idolatram seu espírito e o adoram. Nessa ocasião, oferecem oferendas e flores, mas estas são sempre voltadas para o adorador; se fosse para oferecer a Deus, não deveriam ser voltadas para Deus? O fato de não fazerem isso mostra que é apenas para a própria satisfação. Por essas razões, eu era um ateu extremo. Quando reflito sobre o meu eu daquela época, sinto medo até hoje; por isso, mesmo hoje, quando ouço a conversa de ateus, posso entendê-los bem. No meio disso, fui forçado a uma grande reviravolta no meu destino: o grande fracasso nos negócios e, ao mesmo tempo, a morte de minha esposa. Perdi a fortuna que construí com muito esforço ao longo de muitos anos, e ainda fiquei com grandes dívidas, caindo no fundo do pessimismo. Nesses momentos, o caminho que todos seguem é o da fé — "em aperto, clama a Deus". Eu também fui forçado a buscar a fé e pesquisei várias religiões, mas não encontrei nada que me atraísse muito. No entanto, entre elas, a religião Oomoto, que estava na moda na época, me atraiu, e acabei me convertendo, tornando-me gradualmente um seguidor fervoroso. No entanto, meu caráter desconfiado não me permitiu me entregar de corpo e alma, mas o ateísmo, de alguma forma, se dissolveu, porque realmente soube que Deus existe neste mundo. Deixarei esse assunto para a próxima seção, mas naquela época minha vida era uma sucessão de milagres — quanto mais eu duvidava, mais milagres apareciam, forçando-me a dissolver minhas dúvidas. Por mais que pensasse, não conseguia entender pela lógica: Deus existe. Assim, mesmo um teimoso ateu foi forçado a curvar a cabeça diante de Deus. Mas não foi só isso. Fui claramente informado, de certa forma, sobre minha grande missão ao nascer neste mundo. Por fim, também tive de tomar uma grande decisão: abandonar tudo e me dedicar à fé — não, à grande obra sagrada da salvação da humanidade — e assim cheguei aos dias de hoje. ────────────────────────────────── Sobre a Visão de Deus ────────────────────────────────── Não esquecerei. Foi logo depois que comecei a estudar religiões. Uma moça de vinte anos, de família de classe média, devido a uma doença pulmonar, vinha se tratando há vários anos, mas não se curava, e fui solicitado a ajudar. Naquela época, eu era seguidor da religião Oomoto e realizei uma terapia espiritual pelo método Chinkon Kishin. Por meio de técnicas espirituais, durante duas ou três semanas, ela melhorou muito. A causa da doença era a seguinte: o irmão do chefe da família, quatro gerações atrás, desapareceu sem deixar vestígios e acabou morrendo ao relento. Naturalmente, não houve quem o cultuasse, e ele se tornou uma alma desamparada, caindo no Inferno. Incapaz de suportar o sofrimento do Inferno e desejando ser cultuado formalmente, fez com que a criança ficasse gravemente doente para chamar a atenção; mas, como não perceberam, pensou: "Não há outra escolha a não ser matá-la", e então se apossou da moça para tirar-lhe a vida. A razão pela qual entendi essa situação foi a seguinte. Era a terceira vez que realizava a terapia espiritual na moça. A mãe, sentada ao lado dela, levantou-se de repente com uma expressão terrível e tentou agarrar-me; ao mesmo tempo, com palavras violentas, disse: "Você, seu desgraçado, ajudou esta moça que eu estava tentando matar! Estou tão furioso que não aguento, vou acabar com você!" Fiquei surpreso, pois, embora já tivesse ouvido falar de fenômenos de possessão espiritual, era a primeira vez que me deparava com um na prática. Eu disse: "Calma, calma, sente-se." Então, ela se sentou docilmente. "Afinal, quem é o senhor?", perguntei. A partir daí, começou um diálogo entre nós dois, e foi assim que soube das circunstâncias acima. Então eu disse: "Tirar a vida de uma pessoa, se for bem-sucedido, por esse pecado, você terá que cair num Inferno terrível." No início, ela duvidou, mas, como expliquei várias coisas, gradualmente se convenceu e jurou cooperar para curar a doença da moça. A mulher, a mãe, tinha cerca de cinquenta anos e era a médium ideal, pois, quando o espírito a possuía, ficava completamente sem ego, sem nenhuma consciência própria. Originalmente, a qualificação para ser médium é tanto melhor quanto menos consciência própria houver, mas casos assim são extremamente raros — geralmente, a pessoa fica em estado de semiconsciência, e a consciência própria atrapalha. No entanto, quando a doença, que havia melhorado, mostrou tendência a regredir um pouco, um dia a mãe veio me visitar: "Desde dois ou três dias atrás, parece que algum espírito está me possuindo de vez em quando. Gostaria que o senhor investigasse." Então, apliquei imediatamente o método Chinkon Kishin. Ela se sentou ereta, com os olhos fechados e as mãos em prece. Recitei o Norito e, assim que terminei, ela começou a falar. Suas mãos, unidas em prece, começaram a tremer levemente, e a respiração ficou um pouco ofegante — esse é o estado normal do fenômeno de possessão por divindades. O diálogo na ocasião foi o seguinte: Eu: "Quem é o senhor?" Ela: "Este aqui é um deus." Eu: "Que deus é o senhor?" Ela: "Sou o deus encarregado de expulsar os demônios." Eu: "Com que propósito o senhor se manifestou?" Ela: "Recentemente, um demônio está atrapalhando a filha deste corpo, que o senhor está tratando. Vim ensinar um método para impedi-lo." Eu: "Então, qual é o método?" Ela: "Todas as manhãs, espalhe sal na direção de ushitora e recite o Norito da Grande Purificação." Eu: "Muito obrigado. Mas, qual é o seu nome?" Ela: "Agora não posso dizer." Eu: "Há várias coisas que gostaria de perguntar." Ela: "Vim para ensinar a arte da purificação ao senhor, portanto não posso falar de outras coisas. Então, voltarei imediatamente." Dito isso, ela partiu imediatamente. Ao mesmo tempo, ela abriu os olhos e disse: "Ah, que susto!" Eu: "Do que o senhor se assustou?" Ela: "No início, quando o senhor começou a recitar o Norito, ouvi um som terrível de "whoosh" vindo de trás de mim. Então, alguém se sentou ao meu lado. Olhei e vi uma figura humana muito grande, com cabelos negros soltos e uma faixa na cabeça como se fosse de pano branco. Olhando bem, suas roupas eram como se fossem tecidas com folhas de árvores, e essas roupas de folhas brilhavam em cinco cores, deslumbrantes, uma beleza ofuscante. Sua estatura era muito grande, e mesmo sentado, sua cabeça tocava a verga da porta. Essa pessoa entrou em meu corpo e, ao mesmo tempo, perdi a consciência." Na verdade, quando ele disse "sou um deus" no início, fiquei em alerta, pois já tinha ouvido que existem deuses falsos. Mas, por meio desse relato, soube que não era um deus falso, e sim um deus verdadeiro. Posteriormente, descobri que esse deus era Kunitokotachi-no-mikoto, e que aquela era sua forma como deus da guerra — um deus antigo de posição mais elevada, cultuado em vários lugares. Depois disso, esse deus me mostrou vários milagres, manifestou-se em mim, ensinou-me várias coisas e concedeu-me sua proteção inúmeras vezes. ────────────────────────────────── Protestantes e Católicos ────────────────────────────────── Tenho algo a dizer sobre o Cristianismo: a diferença de opinião entre o movimento de "igreja livre" dos protestantes e o "eclesiasticismo" dos católicos. O movimento de igreja livre, como o nome indica, defende que "a igreja não é necessária; deve-se avançar apenas com a Bíblia". Em contraste, o eclesiasticismo afirma que "após a ascensão de Cristo, a igreja foi formada primeiro, e a Bíblia foi publicada depois, portanto a igreja é importante". Gostaria de expor minha opinião sobre qual delas está certa ou errada. Ambas têm suas razões, mas tentarei interpretá-las do ponto de vista espiritual. No mundo espiritual, de acordo com a lei da unidade do espírito e do corpo, o princípio é a união do espírito e da matéria: quando o espírito busca realizar algum propósito, às vezes precisa utilizar a matéria. Por exemplo, para invocar deuses e budas e receber suas Graças Divinas, deve-se construir uma igreja, santuário ou templo num terreno o mais puro possível, instalar um altar, um objeto de culto ou uma imagem budista, oferecer incenso e flores, alimentos e saquê sagrados, e orar com reverência. Dessa forma, os nobres deuses e budas descerão ou ali se estabelecerão; e, em caso de emergência, não importa onde ou quando se ore, num instante o espírito do deus ou buda se aproximará e concederá sua proteção. No entanto, como os protestantes oram para o espaço sem a mediação da matéria, embora sua sinceridade certamente alcance o espírito divino e haja alguma proteção, essa proteção será, conforme a lógica correspondente, inevitavelmente mais fraca. Sobre isso, explicarei a relação entre o espírito e a matéria. No mundo espiritual, os espíritos dos deuses e budas — e também os espíritos humanos e os espíritos animais — todos se manifestam ou se apossam de algum tipo de matéria. Por exemplo, Cristo se manifesta na cruz; os vários deuses e budas, em caracteres escritos, espelhos, pinturas e esculturas; os espíritos humanos frequentemente se apossam de caracteres escritos; os espíritos animais se apossam do corpo humano, de caracteres escritos, de objetos com forma de raposa — no caso de Inari — e de talismãs; o Deus Dragão se apossa de caracteres escritos, de objetos com forma de serpente e de pedras. Nesses casos, os espíritos elevados dos deuses e budas estão relacionados à personalidade de seu criador, e é por isso que, desde os tempos antigos, as pinturas e esculturas de monges famosos, sábios e artistas renomados eram consideradas tesouros. Há também casos como este: quando um espírito estrangeiro vem para o Japão, não pode atravessar o espaço apenas como espírito, porque o alcance do trânsito dos espíritos é limitado de acordo com sua hierarquia; assim, sem alternativa, ele se apossa de algo material. Ouvi de uma pessoa que teve uma visão espiritual que, por exemplo, o espírito do comunismo, vindo apossado dos escritos de Marx, tem sua imagem alinhada nas paredes dos auditórios das universidades. Dizem também que os espíritos da República da China vêm apossados de vários tipos de objetos, e que os espíritos japoneses também viajam para o exterior apossados de objetos. Quanto aos espíritos dos deuses e budas, quanto mais elevados, maior é o alcance de seu trânsito; os mais elevados e nobres estendem seu alcance por toda a Terra. Pelo princípio acima, compreender-se-á o erro daquela teoria da idolatria. ────────────────────────────────── Não Ultrapasse a Ordem ────────────────────────────────── Desde os tempos antigos, existe a expressão "Deus é ordem". Isso é algo importante, que se aplica a tudo e que se deve ter em mente. Observando o movimento de todos os fenômenos da natureza, percebe-se que tudo funciona em perfeita ordem. Quanto às quatro estações, do inverno vem a primavera, depois o verão, depois o outono; as ameixeiras florescem, as cerejeiras florescem, as glicínias florescem, as íris florescem; ano após ano, a geração, a transformação e a nutrição se realizam sem desordem — dessa forma, a grande natureza nos ensina a ordem. Se o ser humano não souber o que é a ordem e for indiferente a ela, as coisas não andarão bem, surgirão obstáculos com frequência e será fácil cair na confusão. No entanto, até hoje, a maioria dos seres humanos não dá importância à ordem; mas, como não havia quem a ensinasse, não havia como ser diferente. Escreverei um resumo da ordem que o público em geral precisa conhecer. Primeiramente, o que se deve saber sobre a ordem é que todos os fenômenos do mundo material são uma transcrição do mundo espiritual e, ao mesmo tempo, os fenômenos do mundo material também se refletem no mundo espiritual. A ordem é o Caminho e a Lei; portanto, violar a ordem significa desviar-se do Caminho, transgredir a Lei e não estar de acordo com a etiqueta — no budismo, há a expressão "Caminho, Lei, Etiqueta", que provavelmente se refere a isso. Mesmo na vida cotidiana dos seres humanos há uma ordem a ser seguida, com diferenças naturais nas ações dos membros da família. Por exemplo, ao sentar-se em um cômodo, o lugar de honra é o tokonoma; em um cômodo sem tokonoma, o lugar mais distante da entrada é o assento de honra. A lei é que o pai se senta perto do assento de honra; depois, a mãe; em seguida, o filho mais velho, a filha mais velha, o segundo filho, a segunda filha, e assim por diante — se assim for, a conversa fluirá harmoniosamente. Por mais democrático que seja, não há como funcionar bem se a lei for violada. Suponhamos, por exemplo, uma ponte onde só uma pessoa pode passar de cada vez: se várias pessoas tentarem atravessá-la ao mesmo tempo, haverá confusão e elas cairão no rio; é inevitável que se atravesse uma a uma, em ordem. Aí surge a necessidade da ordem. Além disso, quando chega uma visita, há uma ordem natural para a cadeira ou o assento a ser ocupado entre o visitante e o anfitrião, seja num primeiro encontro, entre amigos ou conhecidos, entre superior e subordinado. As saudações também devem adequar-se à ocasião e variam conforme a pessoa; com atenção a isso, tudo correrá bem e não se causará desconforto. Em relação a mulheres, idosos e crianças, há igualmente diferenças de atitude e de conversa — o essencial é ter como princípio básico causar a melhor impressão possível ao outro. Há ainda famílias que fazem os filhos e empregados dormirem no segundo ou terceiro andar, enquanto o casal principal dorme no térreo; isso também está errado, e em tais famílias os filhos e empregados tornam-se desobedientes. Quando a esposa dorme no lugar de honra e o marido no lugar inferior, a esposa deixa de ser dócil. Do mesmo modo, ao consagrar deuses e budas, se forem consagrados no térreo e os humanos dormirem no segundo andar, a posição dos deuses e budas fica inferior à dos humanos; assim, não apenas eles não podem exercer plenamente seu poder de proteção, mas, ao contrário, é uma grande falta de respeito para com eles, sendo melhor não os consagrar. O mesmo se aplica ao altar budista — os descendentes estarem acima dos ancestrais é uma falta de respeito extremamente grave, porque os fenômenos do mundo material se refletem no mundo espiritual, e a harmonia entre os dois mundos é rompida. Este princípio também se aplica à nação e à sociedade, mas o mais grave é a luta entre capitalistas e trabalhadores no mundo industrial. Particularmente, a coisa mais inadmissível é a questão do controle da produção; dificilmente haverá uma ação que viole tanto a ordem. Consideremos uma indústria: para administrá-la e desenvolvê-la, a ordem deve ser seguida corretamente em todos os aspectos. Ou seja, o presidente controla tudo, os diretores participam das decisões estratégicas da gestão, os técnicos se dedicam à sua especialidade técnica, os trabalhadores se esforçam em seu próprio campo; se o todo se unir e se solidificar em uma estrutura piramidal, o negócio certamente prosperará. No entanto, o controle da produção inverte a pirâmide e, por isso, está fadado ao colapso. Por este princípio, na luta entre capitalistas e trabalhadores, o resultado é que tanto os trabalhadores quanto os capitalistas caem — é uma história realmente tola. Portanto, é imprescindível que ambos os lados cheguem a um acordo, não perturbem a ordem e administrem tendo a harmonia como princípio básico; fora disso, não há como obter a felicidade de ambos. Acredito que eliminar a palavra desagradável "luta" do mundo industrial é o primeiro passo para a prosperidade. No entanto, como antes, a exploração da classe trabalhadora pelos capitalistas e a gestão excessivamente egoísta tornaram-se a causa do surgimento do comunismo; hoje, como reação à reação, o comunismo foi longe demais, a indústria definhou e a produção se enfraqueceu. Espero, portanto, que as pessoas despertem para isso o mais rápido possível, que manifestem até o fim o espírito de ajuda mútua e se esforcem na construção de um novo Japão. Este é o significado do que digo: "Corrijam a ordem." Durante a guerra, na época do gabinete Tojo, o Primeiro-Ministro Tojo pregou a "liderança na linha de frente do presidente" e ele próprio se colocou na vanguarda e atuou, mas não há erro maior do que esse. Desde os tempos antigos, administrar um negócio é chamado de "conduzir o Plano Divino", expressão que significa fazer girar uma roda. Ou seja, o líder corresponde ao eixo da roda; quanto melhor a roda gira, mais o eixo permanece imóvel. Ademais, a roda gira em menor escala perto do eixo e em maior escala na parte externa; se o eixo balança, é claro que a rotação da roda piora. Considerando o princípio acima, chega-se a isto: quanto mais perto do eixo, menor o número de pessoas que assumem a responsabilidade; gradualmente, de forma centrífuga, o número aumenta; e no pneu mais externo, que entra em contato com a estrada, o trabalho se torna mais intenso. Com isso, pode-se compreender o que é a ordem. Portanto, todos os que são líderes devem se recolher para os bastidores, usar apenas o cérebro e agitar o leque de comando; assim, o negócio se desenvolverá. Álcool e Religião ────────────────────────────────── Álcool e Religião ────────────────────────────────── Parece que não é muito conhecido que o consumo de álcool e a religião têm uma grande relação. Explicarei isso. Deixando de lado o consumo moderado de álcool, o vício em bebida alcoólica tem uma causa espiritual: no ventre dos grandes bebedores residem espíritos de tengu, tanuki e, raramente, também do Deus Dragão, e são esses espíritos que apreciam o álcool. Os espíritos no ventre absorvem o espírito do álcool, e por isso a quantidade de álcool consumida se reduz a uma fração. No mundo, diz-se com frequência que não se pode beber um shō de água, mas pode-se beber um shō de saquê; isso se deve ao Caminho Perfeito acima, sendo exatamente como se houvesse uma esponja no ventre absorvendo o líquido. Quando ficam embriagados e querem usar a lógica, provocam discussões e se tornam arrogantes: é o espírito do tengu. Quando a embriaguez os deixa de bom humor, rindo muito e com sono, é o espírito do tanuki. Já o Deus Dragão, embriagado, tem o olhar fixo e o hábito de se agarrar obstinadamente às pessoas. Grosso modo, são esses três tipos, e pode-se percebê-los bem observando a fisionomia: a aparência de tengu, o rosto de tanuki; o Deus Dragão, como se vê em pinturas e esculturas, também nos humanos, tem olhos fundos e brilhantes, maçãs do rosto salientes, testa angular e é de tipo magro. Há também o chamado "delírio alcoólico": quando embriagados, perdem o senso comum e agem de forma violenta, como psicopatas. Isso ocorre, na maioria dos casos, porque um espírito de pessoa falecida se apossa deles; como o tecido cerebral foi destruído pelo grande consumo de álcool em vida, espíritos animais se apossam dele. Nos casos graves, manifestam violência e causam problemas às pessoas ao redor. O vício em bebida alcoólica como o descrito acima deve ser absolutamente corrigido. Como todos sabem, é uma perda para o próprio indivíduo e para a sociedade e, naturalmente, faz também com que a esposa e os familiares sofram constantemente; a família perde a harmonia e, no final, é fácil cair em um destino infeliz. Por mais que o próprio grande bebedor se esforce para se corrigir, não surte efeito, porque, como mencionado anteriormente, a causa é o hóspede invisível que reside em seu ventre. É natural que a correção desse vício só possa ser alcançada por métodos espirituais, ou seja, pela religião. No entanto, parece que não se encontram muitas religiões com tal poder; uma ou outra pode tê-lo, mas promove a abstinência pelo esforço pessoal, e o esforço pessoal é acompanhado de sofrimento, não sendo agradável. É um grande autoelogio, mas em nossa Organização Kannon não se incentiva nem um pouco a moderação ou a abstinência do álcool — a regra é que, se quiser beber, pode beber livremente. Assim, os bebedores ficam contentes no início, mas, com o passar do tempo, dizem que o saquê foi ficando sem gosto, que ficam bêbados com pouco e que, no final, já não conseguem beber além da quantidade normal. Há inúmeras pessoas assim em nossa Igreja. Qual seria a razão? É porque os espíritos em seu ventre, recebendo constantemente a luz de Kannon-Sama, se contraem, e a quantidade de álcool que bebem diminui na mesma proporção. Por este Caminho Perfeito, qualquer que seja a religião, se houver o brilho da luz, seus seguidores deixarão de ter grandes bebedores. ────────────────────────────────── Sobre os Sonhos ────────────────────────────────── Sou frequentemente questionado por pessoas sobre sonhos; falarei sobre isso aqui. Dificilmente haverá alguém que, tendo nascido humano, nunca tenha sonhado. No entanto, mesmo falando apenas em "sonhos", há vários tipos. Numa enumeração aproximada, há sonhos divinos, sonhos espirituais, sonhos comuns, sonhos verdadeiros, sonhos inversos. Sonhos divinos são mensagens dos deuses; sonhos espirituais são avisos do espírito guardião; sonhos comuns são aqueles que qualquer pessoa vê com frequência, sem importância. Sonhos verdadeiros, como o nome diz, são aqueles em que o sonho se manifesta na realidade; sonhos inversos são o oposto. Originalmente, a palavra "sonho" (yume) é uma contração de "mundo obscuro" (yami), e o espírito da pessoa, durante o sono, se desprende e vai para o mundo obscuro. Nessa ocasião, a consciência latente e as coisas que se deseja constantemente manifestam-se sob várias formas, de maneira contínua e sem nexo — isso é uma criação do ser humano. Os sonhos divinos são exclusivos dos crentes; o espírito divino em que se crê, por alguma necessidade, dá uma mensagem através do sonho. Os sonhos espirituais são aqueles em que o espírito guardião avisa através do sonho; portanto, na maioria dos casos, são criações do espírito guardião, muitas vezes alegóricas ou metafóricas, exigindo interpretação. Como afirmei anteriormente, o mundo material é uma transcrição do mundo espiritual, e vários fenômenos ocorrem primeiro no mundo espiritual; portanto, o espírito guardião, que está no mundo espiritual, já os conhece de antemão e utiliza o meio acima. Diz-se com frequência que "o instinto avisa" — é o aviso do espírito guardião. Quando o espírito se desprende para o mundo obscuro, ele e o corpo físico permanecem ligados por um elo espiritual; ao acordar, retorna ao corpo físico num instante. ────────────────────────────────── Ga (Ego) e Apego ────────────────────────────────── Há um ponto que merece atenção: a ideia de que, se dormimos profundamente, não sonhamos — isso está errado. É verdade que, quando se está muito cansado, não se sonha; mas sonha-se com o sono leve. Não há razão alguma para preocupação, pois, ainda que o sono seja leve, sonhar é prova de que se trata de um sono verdadeiro. Eu mesmo, às vezes, sinto um pouco de sono enquanto converso com alguém e tenho um sonho de um ou dois minutos; também já sonhei segurando a alça de um trem, mas não há problema algum. As pessoas se inquietam, achando que quem sonha tem a cabeça fraca, mas isso não é verdade de forma alguma. Quando jovem, eu mesmo não sonhava muito; no entanto, creio que, naquela época, minha cabeça era, ao contrário, mais fraca. Observando as pessoas em geral, todos trazem no caráter o ga (ego) e o apego; eles são como irmãos. Ao examinar qualquer problema complicado, descobre-se que quase não há questão de difícil solução que não seja atormentada por esse ga e esse apego. Um político, por exemplo, por se apegar ao cargo, deveria renunciar no momento mais oportuno, mas acaba perdendo o timing e morre na sarjeta; isso também se deve ao ga e ao apego. Empresários, por sua vez, por se apegarem ao dinheiro e ao lucro, acabam, ao contrário, atraindo a antipatia de seus parceiros comerciais e perdendo a fluidez dos negócios; embora pareça lucrativo a curto prazo, muitas vezes torna-se prejudicial a longo prazo. Também nas relações entre homens e mulheres, quem se apega costuma ser rejeitado, e o fato de o apego excessivo gerar problemas é um exemplo comum. Além disso, o ga provoca sofrimento aos outros e a si mesmo, sendo causa de disputas; qualquer um, refletindo sobre o passado, certamente concordará. Nesse sentido, o objetivo principal da fé é remover o ga e o apego. Desde que tomei conhecimento disso, tenho me esforçado para abandoná-los tanto quanto possível; como resultado, em primeiro lugar, o sofrimento do meu próprio coração foi aliviado e tudo tem tido bons resultados. Em certa religião, há a expressão: "Não tenha preocupações antecipadas nem preocupações passadas" — palavras sábias. E o maior objetivo da prática no mundo espiritual é remover o apego; à medida que o apego é removido, a posição se eleva. Sobre isso, há o seguinte: no mundo espiritual, em geral, é quase inexistente que marido e mulher coabitem. Isso ocorre porque a posição espiritual do marido e da esposa é diferente; a coabitação só é permitida quando se tornam habitantes do Paraíso ou da Terra Pura. No entanto, aqueles que praticaram até certo ponto podem ser autorizados, mas ainda assim por um período temporário. Nesse caso, pedem permissão ao deus supervisor daquele mundo; mas, ainda que se encontrem, não lhes é absolutamente permitido abraçar-se por saudade. Se surgir o menor pensamento impuro, o corpo fica rígido e perde a liberdade — tão prejudicial é o apego. Portanto, à medida que o apego é completamente removido pela prática no mundo espiritual, a posição se eleva; e, quanto mais a posição se eleva, mais fácil se torna o encontro entre marido e mulher — pode-se imaginar como isso difere do mundo material. E, como afirmei anteriormente, o apego personificado torna-se o espírito de serpente; portanto, é temível. Quando um espírito humano se transforma em espírito de serpente, ele se modifica gradualmente de baixo para cima, ao longo de muitos anos. Já tratei de um paciente com cabeça humana e corpo de serpente; era um caso de transformação em meio-espírito de serpente. Portanto, ao recomendar a fé, insistir em convencer pode parecer zelo, mas o resultado não é bom, pois se torna uma venda forçada da fé e uma profanação dos deuses e budas. Em geral, ao recomendar a fé, se a outra pessoa mostrar interesse após uma breve conversa, pode-se continuar; mas, se não demonstrar interesse, deve-se parar de falar e esperar a oportunidade. ────────────────────────────────── O Caminho do Casal ────────────────────────────────── Recentemente, tem-se discutido acaloradamente se o casamento arranjado ou o casamento por amor é melhor. Explicarei, no entanto, o significado disso sob a perspectiva espiritual. Em nosso país, seja nas cidades, naturalmente, seja em qualquer região montanhosa remota, existe sempre um santuário Ubusunagami ou Ujigami, onde reside a divindade tutelar, ou seja, o Deus da Terra Natal. Isso é exatamente como uma repartição pública no mundo material; a divindade da terra natal é responsável não apenas pelos ritos de passagem da sociedade humana, como casamentos e funerais, mas também pelos nascimentos. Desde os tempos antigos, quando nascia uma criança, havia o costume de visitar o santuário; era uma visita de agradecimento ao deus que a havia concedido. Da mesma forma, no casamento, é o Ubusunagami que une o homem e a mulher. Nessa ocasião, tanto o amor quanto o casamento arranjado são devidos à vontade do Ubusunagami. No entanto, as pessoas que não sabem disso, por pensarem que essa união se estabelece artificialmente, depois de brigas de casal — tão comuns no mundo — dizem coisas como "Você, saia daqui!", o que mostra como estão erradas. A esposa e o marido, unidos pela vontade do deus com tanto esforço, serem tratados arbitrariamente pelos humanos, não é uma enorme falta de respeito para com o deus? Por mais que o marido não agrade, por mais que a esposa não agrade, uma vez que o deus decidiu com base no destino, pensar neles com desdém é imperdoável; deve-se recebê-los com gratidão. Portanto, se a pessoa souber disso e reconsiderar com um coração grato, garanto que passará a pensar que tem uma boa esposa, um bom marido. Há ainda uma questão importante: a morte de crianças. Sua causa reside na conduta infiel do marido — por exemplo, o relacionamento com outra mulher que não a esposa; esse pecado é grave, quase digno de morte. Ouço dizer que há homens no mundo que têm duas ou três amantes, alguns até mais de dez; é realmente assustador. Os espíritos ancestrais, no mundo espiritual, não apenas se irritam extremamente com esses pecados, mas eles se tornam um obstáculo à prosperidade dos descendentes; dependendo da gravidade do pecado, pode até levar à infelicidade da extinção da família. Por isso, os espíritos ancestrais fazem todos os esforços para impedi-lo, mas é difícil que a pessoa desperte. E, como o pecado aumenta cada vez mais, é necessário expiá-lo rapidamente. A responsabilidade deveria recair sobre o chefe da família, mas, se assim for, isso afetará negativamente a vida e o futuro da família; portanto, os espíritos ancestrais oferecem a criança como sacrifício no lugar do chefe da família. Esse tipo de coisa é muito comum no mundo; portanto, peço aos leitores que prestem atenção — certamente devem se lembrar de algo. E a principal causa das brigas de casal deve ser, em primeiro lugar, o ciúme da esposa e, em segundo lugar, as dificuldades financeiras. Portanto, se o marido reconhecer as circunstâncias espirituais como descrito acima, a causa do ciúme desaparecerá; se reconhecer que o casal foi unido pela vontade do deus e que o relacionamento com outra mulher que não a esposa é um pecado grave, ele se tornará um bom marido; ela, uma boa esposa; e o casal, inevitavelmente, se tornará harmonioso. Afirmo que isso não é uma invenção para tornar o casal harmonioso; é a verdade, baseada em muitos anos de experiência e no que me foi ensinado pelo deus, sem uma única mentira. Registrarei abaixo alguns ensinamentos relacionados a isso, extraídos da Bíblia. * "O que Deus uniu, o homem não separe." * "O homem se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne." * "Contentai-vos com a vossa esposa." Ofereço estas palavras a todos os senhores casados do mundo. ────────────────────────────────── O Bem e o Mal ────────────────────────────────── O mundo apresenta vários aspectos, com o bem e o mal misturados: tanto a tragédia quanto a comédia, a infelicidade e a felicidade, a guerra e a paz — seu motivo é o bem ou o mal. Afinal, por que existem pessoas boas e pessoas más? Qualquer um pensará que deve haver alguma causa fundamental para a origem desse bem e desse mal. O que pretendo explicar aqui é a causa do bem e do mal; é algo que absolutamente se deve saber. É claro que, para uma pessoa comum, é natural desejar ser boa e detestar ser má; e é natural que o governo, a sociedade e a família, exceto por uma parte das pessoas, amem o bem, pois sabem que a paz e a felicidade não nascem do mal. Para facilitar a compreensão, dividirei a definição de bem e mal em duas: a pessoa boa é aquela que "acredita no invisível"; a pessoa má, aquela que "não acredita no invisível". Assim, a pessoa que "acredita no invisível" é aquela que crê na existência real dos deuses e budas, o chamado espiritualista; a que "não acredita no invisível" é o materialista, o ateu. Darei exemplos. Quando um ser humano pratica o bem, sua intenção procede do amor, da compaixão, da justiça social — visto de forma ampla, do amor à humanidade. Há também quem pratique o bem acreditando na causa e efeito do bem e do mal; há quem ajude os outros movido por uma compaixão que não pode ser contida; há quem, por espírito de gratidão, como quem retribui as quatro graças mencionadas no budismo, não desperdice as coisas, pratique a simplicidade e a economia por considerá-las preciosas — tudo isso são manifestações do bem. Também o desejo de causar boa impressão nos outros, desejar a conveniência e a felicidade alheias, praticar a bondade, ser fiel à própria vocação, o crente agradecer aos deuses e budas e praticar atos de gratidão, esforçar-se para estar de acordo com a vontade dos deuses e budas — tudo isso são manifestações do bem. Deve haver ainda vários outros, mas, em suma, são como acima. Em seguida, a psicologia de quem pratica o mal é a de não acreditar absolutamente na existência dos deuses e budas. Movido pela ganância, desde que engane os olhos dos outros, não importa que crime cometa — é um pensamento niilista. Engana como se fosse algo normal, faz os outros sofrerem, não se preocupa em causar desgraças à sociedade humana e, nos casos mais graves, chega a cometer assassinato. E a guerra é um assassinato coletivo: os heróis de antigamente, por seu próprio poder e por desejos ilimitados, provocavam grandes guerras e agiam segundo a máxima "o vencedor tem sempre razão". Como diz o provérbio: "Quando o homem prospera, vence o céu; quando o céu se acalma, vence o homem." Por um tempo, é glorioso; mas, quase sem exceção, no final eles declinam para um destino trágico, como mostra a história — e o motivo, naturalmente, é o mal. Dessa forma, se é possível enganar os olhos das pessoas e fazer qualquer coisa sem que ninguém saiba, então seria mais vantajoso cometer o máximo de maldades possível e viver na glória e na riqueza — e isso seria considerado esperteza. Além disso, pensar que após a morte o ser humano se torna nada, e que não existe vida no mundo espiritual, é o que gera o mal. No entanto, por mais que se tenha uma sorte maligna forte e se torne um vencedor temporário, a longo prazo, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, ocorre a decadência — fato sem exceção. Em primeiro lugar, quem comete o mal passa o ano inteiro em ansiedade e agitação, vive aterrorizado pelo medo de ser preso a qualquer momento, é atormentado pelo remorso da consciência e, no final, acaba se arrependendo. Vemos com demasiada frequência o fato de pessoas que cometeram o mal se entregarem; ou mesmo após serem presas, há quem se sinta aliviado e até se alegre em sofrer a punição — isso ocorre porque a alma, dada por Deus, é repreendida por Ele, pois está ligada a Deus através do elo espiritual. Portanto, ao praticar o mal, mesmo que se consiga enganar completamente os olhos das pessoas, não se pode enganar os próprios olhos. Assim, uma vez que o ser humano está conectado a Deus pelo elo espiritual, qualquer ação humana é conhecida por Deus como se estivesse na palma da mão, e tudo é registrado no livro do julgamento. Nesse sentido, não há nada mais desvantajoso do que o mal (a relação entre Deus e a alma será detalhada posteriormente no item "Sobre o Elo Espiritual"). No entanto, há pessoas no mundo que agem assim. Há quem, mesmo querendo cometer o mal, pense: "Se eu errar e o mundo ficar sabendo, será um desastre; perderei a confiança e terei um prejuízo enorme" — e, por uma noção de autopreservação, não o faz. Há também quem, sabendo que o mal é vantajoso, não tenha coragem e não consiga agir. E há o "bom" utilitarista, que pratica o bem por acreditar que isso trará confiança e benefícios do mundo. Ademais, ao praticar a bondade para com os outros, há quem espere que, de alguma forma, um dia receba algo em troca — esse tipo de bondade é uma espécie de transação, em que se vende a bondade para comprar a retribuição. O bem descrito acima não causa sofrimento às pessoas nem envenena a sociedade; portanto, é muito melhor do que o mau, mas não pode ser chamado de verdadeiro homem bom; deve-se chamá-lo, antes, de "bom passivo". Consequentemente, esse tipo de "bom" não se torna um verdadeiro bom aos olhos dos deuses e budas, porque os olhos dos deuses e budas veem até o fundo do fundo do coração humano. Muitas vezes as pessoas do mundo questionam: "Como uma pessoa tão boa pode ser tão infeliz?" Isso ocorre porque veem com olhos humanos; os olhos humanos veem apenas a superfície, não o fundo do coração. Esse tipo de "bom", analisado a fundo, age com a psicologia de "não acreditar no que não se vê". Se surgir uma oportunidade e ele pensar que pode cometer um pequeno mal sem que ninguém saiba, há o risco de que o faça — podendo ser considerado uma pessoa perigosa. Em contraste, quem acredita nos deuses e budas invisíveis, pela convicção de que, embora possa enganar os olhos das pessoas, não pode enganar os olhos dos deuses e budas, jamais se deixa levar por qualquer proposta, por mais vantajosa que seja. Portanto, mesmo que superficialmente pareça uma pessoa boa e excelente, quem não acredita nos deuses e budas carrega o perigo de se transformar em mau a qualquer momento — e, por isso, pode-se dizer que ainda pertence à categoria do mal. Pelo exposto, o verdadeiro homem bom é "aquele que tem fé", ou seja, aquele que acredita no invisível — e só este tem essa qualificação. Por isso, acredito que, para salvar os valores morais da atual e grave decadência, não há outro caminho senão a fé. E até hoje, para prevenir o crime, criaram-se leis, estabeleceram-se polícia, tribunais, prisões — mas isso é exatamente o mesmo que construir jaulas e cercas de ferro para prevenir os danos causados por feras. Nesse caso, os criminosos não estão sendo tratados como seres humanos, mas como animais. Que coisa lamentável: tendo nascido como um precioso ser humano, cair ao nível dos animais e terminar a vida! É uma verdade imutável: "O ser humano, quando decai, torna-se animal; quando se eleva, torna-se divindade." O ser humano é, de fato, "um ser vivo que está entre a divindade e o animal". Nesse sentido, acredito que o verdadeiro homem culto é aquele que se libertou da natureza animal, e o progresso da cultura consiste na elevação do homem de natureza animal para o homem de natureza divina. Consequentemente, o lugar onde se reúnem os homens de natureza divina — o que mais poderia ser senão o Paraíso na Terra? ────────────────────────────────── Sobre o Elo Espiritual ────────────────────────────────── A palavra "elo espiritual" parece não ter sido muito usada até hoje. Isso porque ainda não se conhecia sua importância — era algo mais rarefeito que o ar, invisível aos olhos. No entanto, em todos os assuntos humanos, sua influência é algo que não se pode menosprezar; para o ser humano, é a causa da felicidade e da infelicidade e, em grande escala, chega a influenciar a própria história. Portanto, o ser humano precisa conhecer o significado deste elo espiritual. Antes de explicar o que é o elo espiritual, gostaria de esclarecer que ele é ciência, é religião e também é uma ciência do futuro. O princípio da relatividade, os raios cósmicos, todos os problemas relacionados à sociedade e ao indivíduo — nada escapa à sua relação com o elo espiritual. Primeiramente, falarei sobre a relação entre o ser humano e o elo espiritual. Aqui está um ser humano — pode-se pensar que é o próprio leitor. Esse "eu" possui elos espirituais que o conectam em número incalculável: alguns, centenas, dezenas de milhares. Os elos espirituais variam em espessura e finura, em comprimento e curteza; há os corretos e os maus, e estão constantemente exercendo certa influência e mudança sobre o ser humano. Portanto, não é exagero dizer que o ser humano mantém sua existência através do elo espiritual. Entre eles, o elo que conecta marido e mulher é o mais espesso; o de pais e filhos vem em seguida; irmãos, tios, sobrinhos, primos, amigos e conhecidos tornam-se progressivamente mais finos. Desde os tempos antigos, expressões como "fio do destino" ou "laço se forma" referem-se a isso. E o elo espiritual está sempre mudando, tornando-se mais espesso ou mais fino: quando o casal está em harmonia, o elo é espesso e brilhante; quando briga, torna-se mais fino e perde o brilho. O mesmo se aplica a pais, filhos, irmãos e outros. Além disso, novos elos espirituais podem ser criados. Isso ocorre no caso de novos conhecidos e amigos, especialmente em casos de amor. Quando o amor atinge o auge, o elo torna-se ilimitadamente espesso, e os elos de ambos os lados se entrelaçam intensamente — isso proporciona uma sensação de prazer sutil e, ao mesmo tempo, reflete uma sensação de tristeza e solidão. No final, o elo espiritual torna-se extremamente forte, a ponto de tornar a separação impossível, devido a esse princípio. Nesses casos, por mais que um terceiro tente convencer, não só não tem efeito, como, ao contrário, aumenta a intensidade, como todos sabem. O amor mútuo é exatamente como o contato do yin e yang da eletricidade, que gera energia elétrica; nesse caso, o papel do fio elétrico é desempenhado pelo elo espiritual. Certa vez, salvei uma estudante que havia caído em amor homossexual e estava prestes a cometer um suicídio amoroso — foi eliminando espiritualmente o lado yang da eletricidade. Em cerca de uma semana, tive sucesso: a moça yang perdeu a paixão e voltou ao normal, e a outra moça também voltou ao normal. No entanto, embora se possa cortar o elo espiritual de outra pessoa, não se pode cortar o dos parentes consanguíneos. Em seguida, há algo a observar no elo espiritual entre pais e filhos. Como os pais pensam constantemente nos filhos e os filhos nos pais, ambos se refletem mutuamente; assim, a natureza da criança, através do elo espiritual, acaba recebendo a natureza dos pais. Portanto, quando os pais desejam que o filho seja bom, primeiro devem tornar bom o próprio coração — é por isso que, no mundo, mesmo que os pais, agindo de forma errada, deem conselhos aos filhos, o efeito é pequeno. No entanto, também há casos assim: as pessoas se perguntam como um filho pode ser tão mau, tendo pais tão excelentes. Mas esses pais são "bons" utilitaristas; parecem bons por fora, mas suas almas estão nubladas, e isso se reflete no filho. Há ainda casos em que, entre irmãos, um é bom e o outro é mau. Qual a razão disso? Há a relação com a vida passada e a causa do pecado dos pais. Vou explicar isso. Para esta explicação, é necessário partir do princípio da reencarnação humana. Explicando de forma simples: após a morte, o ser humano vai para o mundo espiritual, ou seja, nasce no mundo espiritual. A palavra "Ojo" no budismo, que significa "ir e nascer", pode ser dita assim do ponto de vista do mundo espiritual. No entanto, no mundo espiritual, ocorre um processo de purificação em relação aos vários pecados e impurezas que a pessoa cometeu no mundo material, e ela reencarna a partir de uma alma que foi purificada até certo ponto. Uma pessoa que foi má na vida anterior, ao morrer, arrepende-se devido a punições ou outras circunstâncias e pensa fortemente: "O ser humano nunca deve fazer coisas más; na próxima vez que renascer, com certeza serei uma pessoa boa." Ao reencarnar, ela pratica muitas boas ações. Por este princípio, mesmo uma pessoa que é boa desde o nascimento pode ter sido um grande vilão em sua vida anterior. E, como muitas pessoas não acreditam na existência do mundo após a morte, não conseguem se estabelecer nele e, devido ao apego à vida, reencarnam sem purificação suficiente. Por isso, os pecados e impurezas ainda permanecem, e o processo de purificação ocorre no mundo material em relação a esses pecados e impurezas residuais — como a purificação é sofrimento, o fato de alguém ser bom desde o nascimento e ainda assim infeliz deve-se a esse princípio. Também há pessoas que nascem com deficiências — cegueira, surdez-mudez, deformidades — porque, devido a uma morte violenta e dolorosa, os ferimentos da época são purificados pela metade e a pessoa reencarna. Sobre esta reencarnação, escreverei mais um fato notável. Quando um bebê nasce, muitas vezes seu rosto parece o de um velho — isso ocorre porque um velho reencarnou. Após dois ou três meses, o rosto finalmente se torna o de um bebê. Quem já passou por isso concordará. Em seguida, o coração injusto dos pais pode refletir-se em um dos irmãos, tornando-o mau, enquanto a consciência deles se reflete no outro, tornando-o bom. Há também casos em que, ao acumularem riquezas injustas e se tornarem ricos, o espírito ancestral, para que a prosperidade da família não seja incerta, faz com que um dos filhos se torne perdulário, gastando dinheiro como água até não restar fortuna alguma. Nesse caso, o filho escolhido para ser o perdulário desempenha, na verdade, um papel nobre: salvar a família. Quem não sabe disso o considera um sujeito terrível que destruiu a fortuna dos pais, quando, na verdade, ele é digno de pena. O elo espiritual não se limita aos parentes vivos do ser humano; estende-se também aos espíritos do mundo espiritual, após a morte. Há elos que se ligam às divindades corretas e elos que se ligam às divindades malignas. As divindades corretas incentivam o bem; as malignas, o mal — naturalmente. O ser humano está constantemente sob a manipulação de um dos lados, o correto ou o maligno. Os que foram purificados até certo ponto no mundo espiritual são selecionados como espíritos guardiões e, por meio do elo espiritual, protegem os seres humanos: procuram salvar as pessoas do mundo material que estão prestes a enfrentar perigo, transmitindo-lhes sinais de advertência. Por exemplo, quando alguém vai tomar um trem, perde a hora ou encontra um problema e não consegue embarcar, toma o trem seguinte, e o trem perdido sofre um acidente com muitos mortos e feridos, isso se deve à ação do espírito guardião, que conhece antecipadamente o destino das pessoas do mundo material e tenta avisá-las por vários meios. O número de elos espirituais varia de acordo com a classe social da pessoa. Quem tem muitos elos — por exemplo, o chefe de uma família — os possui com a família, os empregados, os parentes e os conhecidos. O presidente de uma empresa os tem com todos os funcionários. Uma pessoa pública, como o chefe de uma aldeia, de uma vila, de um distrito, de uma cidade, o governador, o primeiro-ministro, o presidente ou o rei, mantém conexões de elo espiritual com todos os que estão sob sua jurisdição ou domínio. Quanto mais alto o cargo, maior o número de elos. Nesse sentido, a personalidade do líder deve ser pura e elevada; se a alma do líder estiver turva, isso se refletirá em muitos, e o pensamento de muitos se deteriorará. Portanto, o primeiro-ministro de um país, por exemplo, precisa ser pessoa de grande caráter, rica em Chieshōkaku (Inteligência da Percepção Verdadeira) e que aja com toda sinceridade. Quando o pensamento do povo se deteriora, a moralidade declina e os criminosos surgem em massa, a responsabilidade é dos governantes. Especialmente os educadores: se soubessem que a própria personalidade se reflete nos alunos por meio do elo espiritual, deveriam sempre polir a própria alma e tornar-se pessoas que não se envergonhem de servir de modelo. Particularmente os religiosos. O fundador de uma seita, o presidente, os Ministros, por serem venerados como deuses vivos por muitos fiéis, têm um poder de reflexão da alma notável; portanto, devem estar muito atentos. Se houver ações reprováveis aproveitando-se dessa posição elevada, isso se refletirá em todos os fiéis e, no fim, a religião chegará inevitavelmente à ruína. Exemplos disso são conhecidos. O elo espiritual não se limita aos seres humanos; deuses e budas também o estabelecem com eles. A diferença é que o elo espiritual dos deuses e budas é luz, ao passo que o dos seres humanos — mesmo o de uma pessoa de alma elevada — é uma luz tênue, quando não uma linha cinzenta sem luz. Quanto mais mau o ser humano, mais negro se torna o seu elo espiritual. No mundo, ao escolher um amigo, deseja-se uma pessoa boa, pois "quem anda com o bem torna-se bom, quem anda com o mal torna-se mau"; isso se deve inteiramente à reflexão do elo espiritual. Mesmo entre os deuses e budas há o correto e o maligno. O elo espiritual das divindades corretas é luz; por isso, ao venerá-las constantemente, a alma humana se purifica. As divindades malignas, longe de serem luz, fazem a pessoa receber uma espécie de energia maligna, que deteriora o pensamento e a torna infeliz. Assim, ao praticar a fé, é essencial discernir o correto do maligno entre os deuses e budas. Mesmo entre as divindades corretas, a intensidade da luz varia conforme o grau de sua qualificação divina; quanto mais elevado o deus ou buda, mais milagres ocorrem entre seus fiéis, porque a luz do elo espiritual é mais forte. Acima, delineei o significado do elo espiritual em relação ao ser humano; há também, porém, a atividade do elo espiritual em fenômenos não humanos. Isso inclui a casa onde o ser humano mora e os objetos que ele usa e estima no dia a dia. Quanto mais se estima um objeto, mais espesso é o elo espiritual; o mesmo se aplica a roupas e adornos. Há uma história a respeito: um registro em uma revista espiritual dos Estados Unidos. Certa senhora tinha uma habilidade misteriosa — dizia-se que, através dos objetos, podia saber a fisionomia, a idade e as ações recentes do dono. Ao olhar fixamente para o objeto, a imagem aparecia em sua superfície como uma fotografia; era o elo espiritual que a imprimia. Por isso, vê-se quão profundo e sutil é o movimento do elo espiritual. Recentemente, os raios cósmicos vêm sendo estudados cientificamente, mas, pelo que vejo, são elos espirituais que conectam as estrelas à Terra. A Terra se mantém estável no espaço vazio porque os elos espirituais dos satélites ao seu redor a puxam. O número desses elos é incalculável — dezenas de milhares, centenas de milhões — e eles penetram até o centro da Terra. Aproveitando a oportunidade, falarei um pouco sobre a relação entre os corpos celestes e a Terra. Originalmente, os corpos celestes e a Terra são como espelhos opostos. As estrelas são de dois tipos: claras e escuras, isto é, luminosas e escuras. As estrelas escuras não têm luz alguma e, portanto, não são visíveis aos olhos humanos; mas, a cada ano, transformam-se em estrelas luminosas e aumentam em número. Por que isso acontece? Pelo processo de endurecimento da matéria cósmica: quando atinge o ponto máximo de endurecimento, começa a emitir luz — o mesmo princípio pelo qual o mineral mais duro da Terra, o diamante, é o que mais brilha. Consequentemente, na época da criação da Terra, o número de estrelas era pequeno, como as estrelas da manhã. O aumento do número de estrelas é diretamente proporcional ao aumento da população humana na Terra; portanto, no futuro, tanto as estrelas quanto os seres humanos aumentarão de forma incalculável. Os astrônomos frequentemente descobrem novas estrelas; isso ocorre porque estrelas escuras se transformam em luminosas e começam a se tornar visíveis aos olhos humanos. As estrelas cadentes são um processo de fragmentação de estrelas, e os meteoritos são os fragmentos desse processo. As estrelas incluem os grandes planetas como Júpiter, Marte, Saturno, Vênus, Mercúrio, e inúmeras outras de todos os tamanhos; todas se refletem na humanidade da Terra. Os cinco planetas mencionados correspondem a cinco pessoas de importância mundial em cada época. Acho interessante a analogia de comparar pessoas a estrelas, como "a grande estrela vem e vai" ou "a grande estrela cai", referindo-se a pessoas famosas. No Ocidente, houve uma época em que a astrologia era muito popular: os sacerdotes a praticavam para prever sorte, azar, felicidade e desgraça, diagnosticar doenças, e dominaram a época, como consta nos registros históricos. A arte divinatória chinesa (I Ching) também tem como base as nove estrelas. Creio que não foi sem significado o fato de os antigos nutrirem tanto interesse pelas estrelas. Quanto à teoria da vida em Marte, é um erro. Pelo que entendo, a vida existe apenas neste planeta Terra, e o centro do grande universo é a Terra. Tudo existe para a humanidade. Portanto, deve-se pensar em como o ser humano é precioso. ────────────────────────────────── A Sabedoria e a Estupidez Humanas ────────────────────────────────── Qual a razão de haver, desde o nascimento, sábios e tolos entre os seres humanos? Vou explicar. Para isso, é necessário saber primeiro que o ser humano morre uma vez — mas o que é a morte? A morte é quando o corpo físico, por ter se tornado obsoleto, ter sofrido grandes ferimentos ou ter enfraquecido devido a doenças, torna-se inutilizável, e a alma abandona esse corpo e vai para o mundo espiritual, onde passa por um processo de purificação que dura anos, décadas ou séculos. Isso ocorre porque, durante a vida no mundo material, qualquer pessoa, não importa quem, comete pecados e impurezas consideráveis, que se acumulam, exatamente como uma casa ou roupa que não é limpa há muito tempo. A alma purificada reencarna, como foi dito no item anterior. Naturalmente, há muitas reencarnações de almas humanas, mas também há almas novas — geradas por um processo de reprodução no mundo espiritual que, diferentemente da reprodução no mundo material, parece extremamente misterioso. Dessa forma, existem almas reencarnadas e almas novas. As almas novas, por terem pouca experiência como seres humanos, são inevitavelmente imaturas; já as reencarnadas, por terem acumulado experiência como seres humanos, são sábias. Portanto, quanto mais vezes se reencarna, mais sábia a pessoa se torna; as grandes personalidades são as almas mais antigas. Em seguida, há a transmigração. No budismo, há o termo "ciclo da Transmigração da alma" — ocorre quando os pecados cometidos por um ser humano durante a vida são graves, e ele renasce como animal. Os principais são raposas, texugos, gatos, cães, cobras, sapos, pássaros, com muitas variedades. Por que se cai no reino animal? Porque os pensamentos e as ações durante a vida se degradaram abaixo do nível humano, tornando-se iguais aos dos animais. Isso pode ser difícil de acreditar para as pessoas modernas, mas, ao longo de mais de vinte anos, através de inúmeras experiências, obtive uma conclusão inabalável. Darei alguns exemplos. (1) Havia um cão bastante grande, criado há muitos anos em certa casa. O dono perguntou: "Este cão é estranho; fica na sala de estar e nunca desce para o chão; não obedece quando os empregados o chamam. Ele só obedece aos membros da família, e não se senta senão em almofadas de seda; prefere a melhor sala; é exigente com a comida, e só fica satisfeito se for igual à comida humana. Qual a razão disso?" Eu respondi: "Este cão é um ancestral de sua casa que caiu no reino animal e renasceu como cão. Portanto, ele considera vocês inferiores a si e se sente como o chefe da família." O dono concordou. (2) Uma velha de cerca de sessenta anos estava possuída por vinte ou trinta espíritos de raposa, do tamanho de grãos de feijão, espalhados por todo o corpo, especialmente nas axilas. Quando eu emitia energia espiritual (Emissão Espiritual) da ponta do dedo para esses grãos, ela sofria muito. Nesse momento, a velha gritava: "Dói, dói, que sofrimento, me ajude! Estou saindo, estou saindo, tenha paciência!" E os grãos desapareciam um a um, mas após algumas horas, eles se reuniam novamente. Qual a razão disso? A velha, em sua vida anterior, era dona de um bordel. As muitas prostitutas que ela empregou caíram no reino animal e se tornaram espíritos de raposa, que, para se vingar, estavam atormentando a velha. Às vezes, o espírito de raposa sussurrava: "Vou tirar a vida da velha", e causava uma forte dor na região logo abaixo do coração; outras vezes, no meio da refeição, apertava o esôfago, impedindo a passagem do arroz; outras vezes, impedia a urina por um dia inteiro, fazendo várias travessuras. Em todas as ocasiões, eu curava com a Emissão Espiritual. (3) Antigamente, quando a religião era perseguida pelas autoridades, fui forçado a praticar a terapia popular. Na época, eu fazia o paciente tirar a roupa e tratava a área afetada. Naquela época, vi frequentemente pessoas com manchas como escamas de cobra, vermelhas ou pretas, do quadril ao abdômen. Isso ocorria porque uma cobra havia transmigrado para ser humano, e a forma das escamas permanecia. A doença chamada daltonismo é a transmigração de um espírito animal, devido à permanência de uma característica peculiar desse animal. Os olhos de todos os animais veem os objetos em uma única cor, exatamente como a voz dos animais é um som único ou, no máximo, dois tipos de sons. Há muitos outros exemplos, mas os omitirei. Em todos os casos de transmigração, há uma grande quantidade de características do espírito animal remanescente. E entre os animais, há os que entendem a linguagem humana e os que não entendem — os que não entendem são animais puros. Diz-se que matar gatos ou cobras traz maldição, mas isso ocorre porque são animais que resultaram da queda e reencarnação de seres humanos; os que não são assim não trazem maldição. Frequentemente, no campo, há aodaishō (cobra japonesa) desde tempos antigos — isso ocorre porque um ancestral se tornou cobra e está protegendo aquela casa. Se matarem essa cobra, com certeza ela amaldiçoará, causando mortes sucessivas e, em casos graves, até a extinção da família, porque mataram o espírito ancestral que estava protegendo a família, e ele fica extremamente irritado. E, entre as naturezas humanas, o apego torna-se espírito de cobra; o gosto pela falsidade e o engano resultam em espírito de raposa. Mesmo que se caia no reino animal e se transmigre, essa vida não é muito feliz — muitas mulheres solteiras são um exemplo disso. Há mais um fato interessante. Durante viagens, há lugares que nos são particularmente familiares — isso ocorre porque, em uma vida anterior, a pessoa viveu ou esteve nas proximidades. Também há pessoas, mesmo estranhas, com quem nos sentimos mais próximos do que com pais ou irmãos; isso ocorre porque, em vidas passadas, foram pais e filhos, irmãos, senhores e servos ou amigos íntimos. "Innen" (afinidade espiritual) refere-se a isso. Ao contrário, pessoas com quem não conseguimos nos sentir próximos ou que nos causam desconforto, é porque, em vidas passadas, tivemos um relacionamento ruim ou fomos atormentados por elas. Além disso, há grandes figuras históricas, heróis ou generais que admiramos especialmente — isso ocorre porque, em vidas passadas, fomos seus vassalos ou subordinados. No caso de homens e mulheres que caem em um amor ardente, isso ocorre porque, em vidas passadas, eram um casal que se amava, mas o amor não pôde se concretizar; por acaso, eles se conhecem nesta vida, e o apego daquela época está fortemente impregnado em suas almas. A alegria de alcançar o objetivo os faz ficar fora de si, e a paixão arde de uma forma que até mesmo os próprios envolvidos acham inexplicável. Também há homens e mulheres que permanecem solteiros por toda a vida — isso ocorre porque, em uma vida anterior, devido a um relacionamento amoroso, tiveram suas vidas ceifadas por punição ou desastre, e, incapazes de suportar o remorso, passaram a ter medo de relacionamentos amorosos. Além disso, pessoas que temem a água, lugares altos, multidões, ou ainda certos tipos de animais ou insetos, são assim devido a uma morte causada pelas razões acima expostas. Houve um caso como este no passado: a pessoa temia lugares onde não houvesse ninguém; se ficasse sozinha, não suportava o medo, saía correndo para a rua e não entrava em casa até o retorno de seus familiares. Isso se deve ao fato de que, em uma vida passada, acometida por uma doença súbita, desejou chamar por alguém, mas não havia ninguém por perto, e morreu exatamente como estava. Sua alma, então, reencarnou. ────────────────────────────────── Religião e Ciência ────────────────────────────────── Até hoje, religião e ciência têm sido tratadas como entidades separadas, mas isso é um grande erro. Na verdade, não há nada no universo que escape à ciência, assim como não há nada que não esteja relacionado à religião, porque, embora seja ciência, ela é inseparável da religião. O fato de não se ter percebido isso se deve ao fato de que a forma de expor a religião até hoje foi superficial demais — o que, por sua vez, ocorreu porque, há centenas ou milhares de anos, não havia o progresso cultural que vemos hoje. Mesmo que se expusessem teorias profundas às pessoas daquela época, elas seriam absolutamente incapazes de compreendê-las; em tudo, a intenção de Deus não faz com que os homens realizem coisas inúteis. No entanto, dado que o atual grau de progresso da ciência está prestes a adentrar o domínio dos espíritos de divindades, não é tarefa difícil fazer com que os homens modernos compreendam, mesmo que se apresentem explicações científicas sobre as questões espirituais. Nesse sentido, pretendo abrir as portas do mistério que, por longos anos, estiveram firmemente fechadas até hoje. Não sou um cientista; sou, por assim dizer, um amador da ciência. Como eu, um leigo, estou a discorrer sobre ciência, é possível que haja erros, mas se puder servir de alguma referência, será uma felicidade. Em primeiro lugar, entre as ciências modernas, não haverá nenhuma que contribua tanto para a cultura humana quanto a eletricidade. Não é necessário discorrer agora sobre os benefícios da eletricidade em todos os aspectos, mas, se ela fosse interrompida, seria o mesmo que a cultura fosse interrompida — estamos, sem dúvida, na era dos elétrons. No entanto, no final da última grande guerra, o que foi repentinamente inventado pelos Estados Unidos foi a bomba atômica. O mundo, ao se deparar com esse grande monstro, ficou estupefato, nem é preciso dizer, e é claro que isso também apressou o fim da guerra. Na verdade, o que primeiro demonstrou o imenso poder da fissão atômica foi a capacidade de ceifar inúmeras vidas num instante; mas, com o progresso, pode-se prever que se tornará uma invenção grandiosa que, ao contrário, deverá servir à cultura humana. Nascida com o destino de marcar a era seguinte à era dos elétrons está essa fissão atômica. Se assim for, o que virá depois da era atômica? Pode-se imaginar que seja a era dos espíritos ou a era dos espíritos de divindades, como a denomino, uma era cultural de altíssimo grau. Sobre isso, passarei a explicar a seguir. Primeiramente, falarei sobre o princípio do fogo e da água. Dito da forma mais direta, o fogo queima pela água, e a água flui pelo fogo. Se não houvesse fogo, todo o universo congelaria num instante; por outro lado, se não houvesse água e apenas fogo, este grande planeta Terra explodiria num instante. Este princípio é exatamente o da bomba atômica: quando se irradia um elemento como o urânio ou o plutônio em direção ao núcleo atômico, no momento em que o Elemento Água (hidrogênio) no núcleo se torna zero, ocorre a explosão. Essa pequena explosão induz os elementos ao redor, espalhando-se cada vez mais, resultando numa grande explosão. Por essa razão, mesmo que não seja urânio, desde que haja uma radiação suficientemente forte para zerar o Elemento Água, é natural que se obtenha o mesmo efeito. Hoje, diz-se que o princípio da fissão nuclear é que a radioatividade ataca e destrói o elemento chamado elétron que circunda um núcleo atômico; no entanto, de acordo com meu pensamento, o núcleo atômico, pela radioatividade, torna zero o Elemento Água presente no núcleo, e este é o princípio da fissão. Contudo, com o progresso incessante da ciência, esse princípio parece ter evoluído recentemente para a teoria do próton, chegando até à descoberta das partículas alfa. Em seguida, quanto à era dos espíritos, primeiro a religião deve se tornar o centro. Aqui, interpretarei religiosamente as três eras acima. Primeiro, a eletricidade: ela também possui espírito e corpo. O corpo é o relâmpago, a luz da lâmpada elétrica é isso; o espírito é utilizado como ondas de rádio, e o rádio e a televisão são isso. O fato de a voz humana alcançar, como ondas sonoras, lugares a milhares de quilômetros de distância não é senão a dinâmica do mundo do espírito da palavra. Em seguida, o mundo atômico: o corpo deste mundo foi descoberto pela invenção da fissão nuclear, mas seu espírito é cientificamente desconhecido — religiosamente falando, é o mundo do pensamento. Em seguida, o mundo dos espíritos: o corpo deste mundo é a existência onde atuam os espíritos de divindades e budas de nível médio para baixo, e o que se manifestou a partir deste mundo são as religiões estabelecidas. O fato de haver vários estágios na religião se deve ao fato de haver estágios nos espíritos de divindades e budas. Em seguida, o mundo espiritual do mundo dos espíritos (que denomino mundo do mistério profundo) — é neste mundo do mistério profundo que residem as mais veneráveis e excelsas divindades, que realizam o Plano Divino fundamental. Acima dos três planos acima expostos, reside o Deus Único e Verdadeiro, também chamado de Deus Onipotente, que é o Deus Supremo do grande universo. Para este Deus Supremo, não há palavras nem caracteres que O expressem; só podemos dizer que Ele é o centro do poder e da virtude infinitos e absolutos, e a origem de todas as coisas. Em seguida, tentarei uma explicação científica sobre a salvação dos deuses e budas e a essência do pecado e da impureza. Em primeiro lugar, no mundo existem religiões grandes, médias e pequenas, de vários tipos. Mas, qualquer que seja a religião, os respectivos deuses, budas e espíritos, sob a intenção de salvar a humanidade, estendem as mãos do mundo espiritual e, através de seres humanos com "innen" (afinidade espiritual) neste mundo material, realizam a obra de salvação. É claro que isso se fundamenta no Plano Divino do Deus Supremo, que, em certas épocas, para certos povos, em certas regiões, por certos períodos, delegou a obra de salvação. Em última análise, isso ocorre porque o pecado e a impureza se acumularam naquela região a ponto de prejudicar o progresso da cultura. E, desde os tempos antigos, como princípio da religião, removia-se o pecado e a impureza, que são a causa da infelicidade humana. Então, o que são o pecado e a impureza? Espiritualmente, para o indivíduo, são as nuvens espirituais da alma; socialmente, são as nuvens espirituais do mundo espiritual daquela região. E o que são as nuvens espirituais? São uma espécie de micróbio venenoso que se origina e vive no Elemento Água (hidrogênio) — partículas infinitesimais em constante aumento e diminuição, tão pequenas que não podem ser vistas nem mesmo ao microscópio. Essas micropartículas venenosas são geradas e crescem por pensamentos e ações malignas, tornando-se a causa do sofrimento humano; por outro lado, diminuem e se extinguem por pensamentos e ações benévolas. Quando as nuvens espirituais aumentam até certo ponto, ocorre um processo natural de purificação. Em pequena escala, isso se traduz em calamidades e doenças para os seres humanos; em grande escala, nas três pequenas calamidades (fome, peste e guerra) e nas três grandes calamidades (vento, água e fogo). No entanto, a atividade de tornar essas calamidades tão pequenas quanto possível — ou de torná-las inexistentes — e de aliviar ainda mais a infelicidade é a luz espiritual que emana do grande amor dos deuses e budas. Os que surgiram como seus intermediários foram os santos, os heróis sagrados e os fundadores de religiões; os ministrantes, abaixo deles, são os religiosos de cada seita, e também os anjos. E, no momento da salvação, os deuses e budas fazem adotar doutrinas e métodos adequados aos seres humanos de cada época. O elemento que elimina as referidas micropartículas venenosas é, naturalmente, o Elemento Fogo — uma luz invisível aos olhos; que a ação purificadora seja realizada por ele corresponde exatamente ao mesmo princípio da eliminação de micróbios pela luz solar. Se aprofundarmos ainda mais este ponto, veremos o seguinte: recebendo a luz por meio dos ensinamentos ou das orações da religião, a alma que até então dormia desperta, arrepende-se, pensa no bem e pratica boas ações, e, pelo brilho da alma, as micropartículas venenosas declinam e se extinguem. O exposto acima é uma explicação científica da religião. Chegando a este ponto, não há ciência materialista nem ciência idealista; é a ciência da unidade do espírito e do corpo. Pretendi expor, de forma simples, a verdadeira face da ciência da era cultural superior que está prestes a chegar. ────────────────────────────────── Conclusão ────────────────────────────────── Qual será a impressão dos leitores que concluíram a leitura desta obra? Gostaria de ouvir críticas sinceras. Como se pode ver em várias passagens, o propósito desta obra é, diante deste estado caótico do mundo, incutir uma firme convicção religiosa e conduzir as pessoas ao estado de tranquilidade e paz espiritual. Em pequena escala, visa à felicidade individual; em escala maior, à transformação para uma sociedade melhor; e, em grande escala, juntamente com o avanço extraordinário da cultura humana, contribuir para o estabelecimento da paz eterna. A respeito disso, ao observar a trajetória do progresso cultural desde a era primitiva até os dias de hoje, o esplêndido desenvolvimento dispensa comentários. No entanto, o que considero extremamente incompreensível é o fato de a felicidade humana não acompanhar esse progresso. Diante do fato de o progresso cultural e a felicidade humana não andarem juntos, é preciso perceber que há alguma falha grave — ou seja, em contraste com a cultura materialista, não se vê o rastro do progresso da cultura idealista; trata-se apenas da chamada cultura manca. Nesse sentido, sinto profundamente que, a menos que a cultura espiritual, tão atrasada, alcance aqui um desenvolvimento extraordinário, a felicidade da humanidade não poderá ser alcançada. E, para o desenvolvimento da cultura espiritual, é necessário que se conheçam a fundo os fenômenos espirituais — que são como seu conceito fundamental — e o significado da vida e da morte. Como se trata, de qualquer forma, de fazer com que se reconheça a realidade do que é invisível, é natural que isso envolva imensas dificuldades. Para isso, a condição indispensável é escrever, tanto quanto possível, minhas próprias experiências, evitando o subjetivismo e relatando os fatos exatamente como são. Este é um ponto que os religiosos, até os dias de hoje, deveriam ter exposto, mas não o fizeram; e, mesmo quando, por acaso, alguém o expunha, fazia-o principalmente por meio de teorias acadêmicas, de difícil compreensão para o público em geral. Além disso, em sua maioria, eram coisas como possessões espirituais, dogmatismos ou temas mitológicos e alegóricos; com facilidade, resvalavam para jogos de palavras e corriam para a superstição, e a realidade é que não se podia encontrar algo com verdadeira força para salvar as pessoas. Na era moderna, esse quadro tornou-se ainda mais grave; consequentemente, aumenta gradualmente o número daqueles que proclamam a impotência das religiões estabelecidas. Em especial, a maioria dos intelectuais parece considerar que dedicar-se à religião compromete sua própria autoridade, e chegam a evitar até mesmo tocar no assunto — fato que qualquer um deve conhecer. No entanto, o estado do mundo se deteriora cada vez mais, e, embora se fale na religião como a única solução para esses problemas, as próprias pessoas, como dito acima, não demonstram interesse por ela. Não é só isso. Há ainda o problema dos jovens do Japão do pós-guerra. Como o ideal do patriotismo leal ao imperador, que até então era seu objetivo, desmoronou, a maioria deles está perdida, sem saber que rumo seguir. Alguns caem num vazio desesperador; outros se entregam ao abandono; e não são poucos os que cometem crimes — esta é, de fato, uma questão gravíssima. Apesar disso, nenhum novo objetivo que possa substituí-lo surgiu, nem aparece qualquer liderança. Atualmente, especialmente os jovens estudantes, além da pressão econômica, caíram num estado de confusão e passam seus dias na ansiedade. É, realmente, um grande problema. Falando sem rodeios, confesso que, lamentavelmente, não se pode encontrar nas religiões estabelecidas a força para resolver esses problemas. Por outro lado, se refletirmos, tanto os problemas ideológicos quanto os sociais, como expus acima, precisam ser resolvidos com urgência. Ao mesmo tempo, voltando o olhar para o exterior, a humanidade, diante da iminência de uma situação igualmente grave, passa seus dias na ansiedade e no temor — não deve haver quem não saiba disso pelos jornais e pelo rádio de todos os dias. Como expus anteriormente, vemos claramente a imagem real: o progresso cultural e a felicidade humana não caminham juntos. Diante disso, a menos que surja uma religião poderosa, capaz de ressuscitar os mortos, não acho que seja apenas eu a pensar que o futuro do mundo é difícil de prever. (Okada Jikan) (Fim de『Conversas sobre a Fé』)

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